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- Antes de discutir o ponto central – a dança entre a vidência e o
trabalho intelectual – podemos
lembrar de alguns outros nomes e dons
humanos envolvidos na utilização do tarô:
- experiência,
- conhecimento, estudo,
- criatividade, expressão artística,
- sensibilidade, sensitividade,
- intuição, paranormalidade, mediunidade...
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- E não podemos esquecer das inúmeras utilizações práticas das cartas nos
últimos séculos:
- jogos e diversões, passatempos,
- artes, montagens, espetáculos de mágica
- carteado para apostas em dinheiro,
- “up-grade” do ler a sorte pelas mãos,
- cartomancia, magia operativa,
- aconselhamento, terapia,
- livro esotérico, mutus liber...
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- Dons exigidos:
- habilidade manual, criatividade,
- gosto pelo teatral, pela exibição, pela encenação surpreendente,
- representar novos papéis, ser o centro de atenções,
- dar asas à imaginação.
- O ocultamento, o “blefe”, faz parte da arte,
- (-) quase sem qualquer “contra-indicação”...
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- Envolve
- exercitar o pensar, a inteligência,
- desafiar a si mesmo, superar barreiras e dificuldades,
- lazer sem depender de parceiros;
- (-) reforço ao isolamento...
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- Tal como os esportes de empenho físico, pressupõem:
- satisfação psicológica e social por competir e vencer,
- formação de parcerias, apoio mútuo, sociabilidade, aplicação de
estratégias e inventividade,
- capacidade de esconder e de lidar com as emoções,
- o faz-de-conta e o blefe;
- (-) eventual adoção de “os fins justificam os meios”...
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- Intensificam certos traços dos jogos de lazer e se aproximam do jogos do
poder:
- excitação, prestígio psicológico e social pelos ganhos materiais
obtidos na “guerra” contra os concorrentes,
- inteligência, estratégia, esperteza, o blefe como norma,
- (-) muitas vezes, um vale-tudo em que o importante é ganhar, sejam
quais forem os meios...
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- Aqui também diferentes dons se misturam:
- vidência, paranormalidade, sensitividade, exercício do poder
divinatório e mágico (real ou não),
- encantamento pelo destino, pelo mundo invisível,
- performance, dom de ser convincente, vestir-se a caráter, exercer
autoridade; obter prestígio e dinheiro,
- (-) o blefe e logro: “otário não merece respeito”...
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- Seus atributos são paralelos aos do “ler a sorte”
- aplicação de dons de vidência,
- gosto pelo jogo de acertar o futuro, exercício do poder divinatório
(real ou não),
- vestir-se de modo inusitado para representar papéis de mago, de
ocultista, bruxo;
- (-) meio para ganhar a vida, com ou sem ética...
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- Herança dos antigos atributos do poder religioso-sacerdotal:
- promover a tomada de consciência,
- indicar ou realizar os caminhos da cura,
- descobrir as dinâmicas pessoais, psicológicas, familiares e sociais,
- gosto pelo exercício do papel de orientador, sábio, velho mestre,
- obter remuneração,
- (-) riscos de presunção, magister dixit e blefes...
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- Pretende alcançar oitavas superiores às dos cartomantes e às dos
terapeutas, dispensa a vidência mas envolve, no fundo, os mesmos
desafios humanos:
- promover a tomada de consciência espiritual, cósmica,
- descobrir os caminhos da cura e regeneração da alma,
- gosto pelo exercício de papéis hieráticos:
- orientador, sábio, mestre,
- presidir rituais na condição de mago, esconjurador, acionador de
processos astrais,
- teatralização, uso de trajes e adornos inusitados, objetos mágicos,
- obter remuneração material ou outra,
- (-) exacerbação do ego, blefes e enganos fatais...
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- Neste vôo panorâmico pelos atributos humanos envolvidos nos variados
usos do baralho, foram cometidos alguns deslizes intencionais:
- não foi feita uma distinção qualitativa entre as diferentes modalidades
de uso do baralho,
- nem do grau do saber ou do nível ético dos usuários;
- não se levou em conta a fragmentação do tarô
- em “arcanos”, “baralho comum”, “lenormand-cigano”;
- e as idéias foram apenas lançadas, sem fundamentação.
- Também foi deixado de lado o mundo dos negócios, que gera milhões de
dólares anuais, por parte de:
- impressores, distribuidores, varejistas, artistas, artesãos,
empresários de jogos, que trabalham na produção, distribuição e
exploração dos jogos em geral.
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- O cenário coletivo (mundial) de utilização das cartas apresenta mundos
“paralelos e incomunicáveis”;
- pois, apesar de utilizarem o mesmo instrumento, não podemos colocar
lado-a-lado a boa alma das comunidades interioranas, que ajuda seus
próximos com leituras das cartas e orações, e o bandido do “farwest”
que tem no jogo de baralho o pretexto para a extorsão...
- Outra constatação desconcertante para o tarólogo: o blefe (e no extremo,
o anti-ético) está fortemente associado aos diferentes usos das cartas.
- E quem estudou a história da abordagem esotérica do baralho, a partir
do final do séc. 18, sabe da quantidade de “contos do vigário” e de “feira
de vaidades” que se mesclam e muitas vezes se superpõem aos esforço de
autores sérios.
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- Não vamos nos alongar nesse quadro das diferentes utilizações das
cartas, por não ser o objetivo central desta exposição, mas fica o
convite aos interessados pelo assunto para encaminharem seus comentários
e estudos ao Clube do Tarô.
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- Há uma antítese coletiva na relação com tarô, que se torna clara nas
aulas destinadas aos iniciantes.
- De um lado, há o reconhecimento de uma linguagem simbólica que pode ser
estudada e compreendida
- e, de outro, revela-se um obscuro temor, de estar tocando em searas
dúbias, coisas de bruxas(os), que envolvem manipulações perigosas da
alma humana.
- É freqüente os iniciantes manifestarem preocupação com a gravidade do
que irão dizer numa futura leitura de cartas, mesmo quando a pessoa se
mostra comunicativa e dá habitualmente palpites para todos os que se
encontram ao seu redor!
- Podemos ler esse fato como um indício da ambigüidade dos
condicionamentos culturais (egrégoras, arquétipos),
- mas também como uma possível mobilização de seriedade suscitada pelas
cartas! Quem saberá?!
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- Essa dicotomia entre o estudo metódico dos símbolos e a revelação do
oculto por vias psíquicas, inconscientes, não constitui uma conseqüência
da vida moderna.
- Basta lembrar o Oráculo de Delfos (1100 a.C):
- a captação ficava a cargo das pitonisas, em transe,
- enquanto que a tradução das mensagens constituía atributo dos sacerdotes.
- Esse exemplo pode ser entendido como uma indicação de que, na função
oracular, a vidência deve submeter-se à qualificação do conhecimento e
da experiência.
- Os tarólogos e cartomantes modernos tentam reunir as duas funções, mas a
gradação e combinação entre intuição psíquica e o saber consolidado pela
experiência são, na prática, extremamente variados.
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- Para tentarmos entender o dom intuitivo que se encontra fortemente
associado ao uso do baralho, em particular no campo da cartomancia,
algumas idéias podem servir de apoio:
- a Lei de Três,
- a Quadruplicidade
- os elementos e os temperamentos.
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- Na visão ocidental, cristã, o homem é constituído de
- espírito (nível superior) meta dos sábios, dos sacerdotes e dos
buscadores,
- corpo (nível material), o assunto implacável e em nossas vidas,
- alma (nível intermediário) mundo do psicológico, do emocional, dos
desejos e anseios;
- retratada nas artes, nos espetáculos coletivos,
- e estudada pela psicologia e pela astrologia.
- Tudo indica que ao falar de dons, como vidência, mediunidade,
sensitividade, estamos na maior parte das vezes focando esse nível do
meio.
- Vejamos a mesma idéia representada num gráfico.
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- Um importante fator de diferenciação entre os seres é dado pela
distribuição desigual dos atributos essenciais ou tipos:
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- Se admitirmos a quadruplicidade de canais ou veículos para a captação de
qualidades sutis podemos afirmar que cada tipo ou temperamento tem sua especialidade
intuitiva
- paus, fogo: inspiração, revelação, arrebatamento,
- estímulo para colocar em ação, animar e superar;
- ouros, terra: convicção confirmada pela sensação, pelo grau de
substancialidade, do sentir no corpo
- estímulo à persistência e a concretização;
- espadas, ar: lampejos, insight, revelação pelas palavras e idéias;
- estímulo para conhecer e prever;
- copas, água: visões, sentimentos, pressentimentos;
- estímulos para o acolhimento e a doação.
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- O interesse pela pelo tema da intuição-conhecimento depara-se com duas
frentes de estudo:
- compreender melhor as características de cada tipo isoladamente e o
efeito de suas combinações;
- descobrir os caminhos para educar, desenvolver, integrar esses
diferentes dons que, por permanecerem num estado apenas potencial,
infantil, são quase sempre negados, desconsiderados.
- A plena superação da aparente dicotomia entre intuição e compreensão não
se faz de modo súbito
- passa necessariamente pelo intercâmbio entre os indivíduos que buscam
na mesma direção,
- e, mais ainda, pela indispensável persistência no tempo.
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- A integração do conhecimento (obtido pelo esforço ou pela herança) com
os dons inatos constitui, desde sempre, um desafio, hoje acrescido de
confusões extras
- como é o caso, por exemplo, da “dessacralização” ou banalização do
conhecimento interior, da redução do espiritual ao plano psíquico, do
obscurecimento dos níveis de qualidade pelo poder da quantidade.
- A reação moderna contra o arbítrio das velhas instituições religiosas
redundou em muitos casos na recusa
cega das fontes tradicionais do conhecimento.
- Daí a esperança difusa – e no mais das vezes insustentável – de
encontrar nas ciências físicas um fundamento para as experiências
sutis...
- Outra face do conflito humano: estamos numa dinâmica de progresso (“a
ciência salva”) ou de decadência (o “esquecimento da fonte é mortal”)?
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- Estou convencido de que, na verdade, não precisamos criar sistemas ou
inventar máquinas sofisticadas para harmonizar os diferentes
conhecimentos.
- A Idade de Ferro não dispõe de recursos para tanto.
- Dependemos, em grande medida, do resgate de legados da Idade de Ouro –
como é o caso das linguagens simbólicas – que nos estimulam a decifrar
seus ensinamentos, a desenvolver um novo pensar.
- O Tarô, muitos sentem assim, faz parte dessa corrente de transmissão que
ainda resiste, em certa medida, à corrosão dos tempos sombrios.
- Seria um dos Mutus Liber ao nosso alcance, com símbolos que nos
alimentam com impressões sutis, indispensáveis para dar um norte à
aspiração de busca daquilo que se encontra além da nossa visão
imediata.
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- www.clubedotaro.com.br
- constantino@clubedotaro.com.br
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