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18 de novembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


A Força Nua
Verbenna Yin
Em alguns tarots modernos, a personagem do arcano Força está representada por uma mulher nua, tranquila e confiante, que domina um enorme e enfurecido leão. No tarot, a carta da Força é o símbolo do poder pessoal utilizado positivamente com consciência e habilidade.
Neste arcano, a mulher representa nossas capacidades subjetivas, intuitivas e, talvez, até inconscientes, que nos diferenciam uns dos outros. Precisamos de um certo grau de maturidade para reconhece-las em nós para, a partir desse reconhecimento, poder desenvolver e utilizá-las da melhor maneira.
Já o leão representa os desafios que encontramos no caminho rumo ao crescimento. Pode ser aquilo que nos dá medo, aquilo que julgamos ser maior que nossa capacidade, mas geralmente indica algo a ser superado com firmeza e coragem.
Cartas da Força no Labyrinth Tarot (2004) e no Old Path Tarot (1990)
Ela está nua porque está despida de qualquer artefato externo para exercer o domínio sobre o leão. Toda sua confiança repousa em sua própria competência para dominar a fera, pois existe uma certeza interna de que aquele trabalho é possível mediante a aplicação da ação correta. E a leminiscata formada pela corda no chão vem dizer que são infinitas essas possibilidades, para cada pessoa que vivencia o arquétipo existirá uma atitude adequada para lidar com a sua própria fera.
Na primeira infância todos nós manifestamos um pouco daquilo que é nosso material interno bruto. Se somos literários, vamos nos interessar naturalmente pelas palavras e escrevê-las em diversos contextos; se somos cinéticos, provavelmente iremos dançar mantendo o ritmo ainda antes mesmo de andar sozinhos; se formos cuidadores, é possível que abracemos e precisemos de muito contato físico; se formos engenhosos, provavelmente desmontaremos os brinquedos e os objetos da casa; e por aí afora.
Num contexto psicanalítico, a nudez da mulher também nos dá uma dica do aspecto erógeno envolvido na vivência deste arquétipo, o que faz uma correspondência com a teoria das pulsões de Freud na qual ele afirma a natureza libidinal da pulsão sexual que é a chave para o acesso à vida psíquica.
A criança que está em contato direito com seu mundo interno consegue ir e voltar nessa ponte com o inconsciente e ela interfere na realidade de forma espontânea e fluida, sentindo-se feliz simplesmente por fazer aquilo que tem vontade.
Então essa carta dialoga muito com a hipótese de darmos vazão aos conteúdos do Id na satisfação dos desejos. [Id é a fonte da energia psíquica, na teoria psicanalítica]. A criança pequena não considera se seu desejo é conveniente ou adequado, ela realiza aquilo de que dá conta e assim vai experimentando os ambientes, as relações e as novas possibilidades. A satisfação vem pelo agir e nesse momento não há freios ou censuras a esses atos que ela sabe que consegue fazer.
Mas nem sempre os adultos que nos cuidam conseguem fazer a leitura de que a criança manifesta espontaneamente a matéria prima da qual é feita nessas pequenas atitudes do dia a dia, e não raro nos preocupamos mais em como arrumar a bagunça que elas fazem do que auxiliá-las dando estímulo para que continuem seus processos de investigação pessoal. Na busca da ordem quotidiana, passamos por cima dessa expressão natural das habilidades inatas que talvez não encontrem uma segunda chance para serem revisitadas mais tarde.
E lá se vão oportunidades de crescimento que simplesmente não permitimos que aconteçam. Fechamos os canais de fluência dos desejos e interrompemos a conexão com o Id, originando assim os conteúdos que ficam aprisionados nessa instância psíquica e que tanto interferem posteriormente nas nossas escolhas de vida.
Para uma autêntica expressão de si mesmo é preciso restabelecer os canais de conexão com o ambiente do Id e observar por onde anda nossa libido pode nos dar uma pista de como fazer as reconexões necessárias para nos enchermos novamente de alegria e vitalidade.
Resgatar a atitude da criança interior é retomar uma postura livre diante do mundo na qual nossas reais habilidades podem ser vistas em sua totalidade, para que sejam reconhecidas e valorizadas de fato num processo de lapidação constante até o ponto de serem usadas natural e espontaneamente pelo indivíduo.
Para chegar nesse ponto sendo já adultos, é importante a coragem de buscar no inconsciente que habilidades seriam essas que nos mobilizam para a vida e que podem até nos excitar sexualmente quando nos permitimos a isso. O que nos dá tesão e sacia nossa fome de vida. Em termos freudianos, sob o que recai a nossa pulsão de vida que vem do profundo inconsciente e está prestes a irromper no consciente, como propõe a ilustração de Frieda Harris no Tarot de Thoth.
A Força por Louis Braquet e no Thoth Tarot de Crowley
A Força por Louis Braquet (2016) e no Thoth Tarot de Crowley (1944)
Andar pela vida com toda essa confiança restabelecida para buscar com independência a realização dos desejos do Id requer antes de tudo uma postura corajosa para agirmos e nos expressarmos do nosso próprio jeito, sem nos importar com os julgamentos alheios.
Essa noção vem da imagem do arcano, pois apesar de estar enfrentando o enorme leão, a mulher está calma e concentrada firmemente no que está fazendo.
Uma atitude confiante diante dos desafios que o leão representa somente é possível se mantivermos a atenção exclusivamente no momento presente, sem distrações. Exatamente como as crianças fazem quando estão brincando.
Quando podemos agir sem preocupação com o futuro, sem nenhum medo de repetir resultados negativos das experiências anteriores, e mesmo sem querer atender as expectativas alheias, conseguimos manter nosso leão pessoal sob domínio.
E não raro, colocar em prática os desejos do inconsciente é ainda muito prazeroso. Primeiro porque agir com liberdade é uma fonte de satisfação inegável. Mas também porque essas realizações baseadas na extrema autoconfiança nos trazem uma sensação de que não preciso de grandes esforços para realizar o que quero no mundo, uma completude de propósito que confirma o sentido da nossa trajetória.
Quando esta carta se apresenta numa leitura terapêutica, é possível que a pessoa esteja num momento de resgates importantes com sua infância, relembrando aspectos psíquicos que a definem mas que talvez tenham ficado relegados à escuridão do inconsciente. Será preciso restabelecer a conexão com a criança interior e buscar de novo o material bruto que a compõe para que gradativamente ela possa ir reincorporando esses atributos próprios no seu dia a dia e se sinta mais feliz e vitalizada.
Verbenna Yin é taróloga, astróloga, psicanalista e terapeuta floral.
Contatos: verbennatarot@gmail.com
www.verbennayin.blogspot.com
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