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29 de abril de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


XVIII. A Lua
O Arcano da inteligência instintiva, dos ciclos vitais
Compilação de
Constantino K. Riemma
 
A Lua no Tarot de Marselha-Camoin
Tarô de Marselha
www.camoin.com
 
A Lua parece atrair (ao contrário do Sol) dezenove manchas de cor, em forma de lágrimas. Essa direção das gotas varia com os diferentes desenhos, mesmo entre as versões clássicas.
Embaixo da Lua há dois cães e, mais atrás, duas torres. Alguns autores reconhecem um dos animais como cão e, o outro, como lobo.
Em primeiro plano, um lagostim (a maioria das descrições fala em “caranguejo”) encontra-se num tanque que, com suas bordas retas, parece construído; os dois cães têm a língua para fora, dando a entender que querem lamber as gotas. Do chão brotam várias plantas (ou apenas três, em algumas versões).
As duas torres parecem delimitar e proteger o espaço no qual se encontram os animais e o tanque.
A Lua está ao mesmo tempo cheia e crescente; dentro desta última figuração vê-se o perfil humano; os raios são de dois tamanhos. As dezenove lágrimas estão dispostas em forma de colar, numa fileira dupla e com a ponta para baixo.
Significados simbólicos
A inteligência instintiva, os ciclos vitais e emocionais.
Os elementos da natureza, o mundo em sua aparência, a luz refletida, as imagens, as formas materiais, as expressões simbólicas e as analogias.
Imaginação. Reflexão, reflexos e relances. Aparências. Ilusões.
O momento de reavaliar a direção, de buscar inspiração no retorno à fonte.
Interpretações usuais na cartomancia
O mundo sensível, instintivo, vital. Experimentação, trabalho, penosa conquista da verdade. Instrução pela dor; trabalho cansativo, mas necessário.
Vidência passiva, receptividade, sensibilidade, lucidez.
Navegação, mudança. Inconstância, insegurança, medo.
Irracionalidade, fantasias, penumbra.
Mental: Em caso de negociações: mentira; em caso de trabalho pessoal: erro. Olhar superficial em todos os níveis.
Emocional: Sentimentos conturbados ou em desordem, passionais, aparentemente sem saída. Ciúmes. Hipocondria. Ideias quiméricas.
Físico: Obscurecimento. Agitação.
Escândalo, difamação, denúncia, segredo que fica público.
Se a pergunta se refere à saúde, pode significar desordens no sistema nervoso, o que pode tornar recomendával uma mudança de ambiente, para buscar lugares secos e com calor.
Desafios e sombra: O instinto – causa de miragens – acentua seus efeitos pela situação ascendente do pântano. Estado de consciência confuso que permanece latente e sem se manifestar. Erros dos sentidos, falsas suposições. Embustes, enganos, decepção, desilusão.
Teorias equivocadas, falso saber, vidência histérica. Ameaça, chantagem.
Viagem inoportuna, caprichos. Caráter perturbado, neurótico.
A Lua no tarô italiano de Carlo Dellarocca
Tarô italiano de 1835
Carlo Dellarocca - Milão
 
História e iconografia
 
A Lua no Tarot Gringonneur de 1392
Tarot Gringonneur
ou Charles VI (1445)
 
Em vários desenhos do Tarô anteriores ao de Marselha – como é o caso do denominado Gringonneur, de aproximadamente 1455 – o arcano XVIII representa dois astrólogos, elaborando cálculos sob uma lua minguante. Os diversos elementos do baralho de Marselha – os cães, o caranguejo, o tanque, as torres – não aparecem neles. A própria Lua só é apresentada ao contrário do desenho concêntrico (perfil humano, crescente), tal como aparece no Tarô de Marselha.
Já nos desenhos mais conhecidos, as duas torres podem ser consideradas como pórticos monumentais, que defendem ou protegem o espaço interno, no qual se encontram os animais.
É imporante lembrar que a Lua (Diana-Hécate, na mitologia grega) é ao mesmo tempo Janua Coeli e Janua Inferni: a porta do Céu e a porta do Inferno, o que as coloca em estreita relação com os dois cães (ou lobos) a uivar. Constituem indicadores da ideia de dualidade, bipolaridade.
Athanasius Kircher (1601-1680) localizava Anúbis e Hermanúbis (divindades representadas com cabeça de chacal)  ante as duas portas do Céu: Anúbis no solstício de inverno, frente à porta da ascensão, indicada pelo signo de Capricórnio no hemisfério norte; Hermanúbis no solstício de verão, frente à porta da descida, ou do homem, indicada pelo signo de Câncer.
Clemente de Alexandria, por outro lado, descreveu as procissões egípcias, que incluíam o passeio de dois cães-deuses: “segundo eles, guardiães das portas no Sol, no norte e no sul”, o que poderia ter relação com os solstícios do inverno e da primavera.
Embora não haja exemplos de zoolatria entre os gregos, é verdade que consagraram diversos animais para a companhia dos deuses. No caso de Artemisa – afirma Plutarco, em Isis e Osíris – seu cortejo era formado por dois cães; é significativo lembrar que a caçadora celeste era, para seu povo, uma divindade lunar.
Quanto ao caranguejo, sua relação com a Lua é antiga e constante, aparecendo em ritos e lendas em numerosas culturas. Isto pode ser atribuído à marcha para trás do animal, comparável ao movimento da Lua na observação direta do céu.
Do ponto de vista astronômico, o caranguejo se relaciona com o simbolismo geral da carta e das torres em particular: Câncer é, como se sabe, signo do solstício de verão, no hemisfério norte.
 
Hermanubis
Hermanubis
 
As gotas coloridas em forma de lágrimas que chovem da Lua (ou se dirigem para ela) estão desenhadas de ponta para baixo; no arcano seguinte (O Sol) aparecem com a ponta para cima, em particular no Tarô de Marselha.
 
A Lua no Tarot de Oswald Wirth
 
Ouspensky viu nas imagens do Arcano XVIII uma alegoria da viagem heróica, um resumo claro do simbolismo relacionado ao trânsito e a passagem: o tanque de água (matéria primordial), o caranguejo que emerge (devorador do transitório, como o escaravelho entre os egípcios), os cães que interceptam a passagem (guardiães, qualificadores da aptidão do viajante para enfrentar o mistério), as torres no horizonte (cheias de ciladas e também de portas – meta, fronteira).
Cirlot imagina que os cães impedem a passagem da Lua para o domínio do logos (conhecimento solar) e comenta a descrição de Wirth sobre o que não se vê na gravura: “Atrás dessas torres há uma estepe e atrás um bosque (a floresta das lendas e contos folclóricos), cheio de fantasmas. Depois há uma montanha e um precipício que termina num curso de água purificadora. Essa rota parece corresponder à descrição dos xamãs em seus êxtases."
<-- A Lua no Tarô de Oswald Wirth
O que se mostra evidente é que o Arcano XVIII está mais relacionado que qualquer outro com o plano iniciático da via úmida (lunar).  É por essa razão que Oswald Wirth relaciona a Lua à intuição e ao imaginativo, ainda que entre suas interpretações mais recorrentes em relação à Lua figure a sensualidade.
A aproximação do Arcano XVIII com o vasto simbolismo lunar seria interminável, desde a sua relação com o ciclo fisiológico feminino até o panteão das divindades noturnas, passando por suas implicações cósmicas, mágicas e astrológicas.
Parece mais prudente considerar que a Lua não se refere a tudo que nomeia, mas sim à situação específica que compõe com os outros elementos da carta. É bom cuidar para não limitar este arcano ao repertório específico da Astrologia.
  Fontes:
Alberto Cousté, O Tarô ou a máquina de imaginar. Rio, Ed. Labor, 1977.
  Fonte básica para a descrição inicial dos 22 arcanos maiores e para o ítem História e Iconografia.
Anônimo (Valentin Tomberg), Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô. São Paulo, Ed. Paulinas
  O subtítulo da tradução espanhola (Herder, 1987) foi copiado nesta compilação.
Paul Marteau, O Tarô de Marselha.São Paulo, Ed. Objetiva, 1991.
  Essa obra serviu de base para o ítem Interpretações usuais na cartomancia.
Para fontes secundárias nesta compilação veja: Bibliografia
Contato:
Constantino K. Riemma - constantino@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Outros estudos sobre a Lua
  Arcano XVIII - A Lua e sua relações. Flávio Alberoni reflete sobre as ressonâncias simbólicas e práticas da Lua com outros arcanos de refência : Personalidade e talentos  
  Os animais nos Arcanos Maiores do Tarot. Artigo de Betoh Simonsen sobre a integração das forças instintivas na personalidade do homem : O Louco, a Força e a Lua  
  Música da Jornada Lunar. Joneth de Carvalho lembra de momentos vulneráveis representados pela Lua e relata sua experiência com a evoção musical : Long Long Journey  
  A Lua como Caminho de Toth. Abraão Zuza Costa apresenta relações do arcano 18 com o caminho de Netzach a Malkut na Árvore da Vida e sugere visualização : O décimo oitavo caminho  
  O Tarô e a Saúde: a Estrela e a Lua. Michele Serinolli, apresenta suas constatações sobre as questões de saúde da mulher com destaque para os arcanos 17 e 18 : Estrela e Lua  
  O Karma e o Tarot. Jaime E. Cannes apresenta o conceito de carma e suas representações no tarô, com foco no arcano XVII - A Lua : Ação e reação  
  Labirintos - caminhos para o sagrado. O milenar símbolo do labirinto é o tema que Jaime E. Cannes apresenta e relaciona ao arcano da Lua no tarô : Arcano XVIII  
  O mês da Lua. Significados que Valéria Fernandes destaca quando o Arcano XVIII é selecionado para orientar um mês de vida : A natureza instintiva e as imagens da alma
 
  O alimento para a Lua. Ao estabelecer correlações do arcano com várias fontes simbólicas, João Cláudio Fontes mostra uma das explicações para as gotas serem atraídas pela Lua : Arcano XVIII  
  Os Arcanos Maiores na Tradição Cigana. Transcrição do curso que Sarani Barrios ministrou no segundo semestre de 2008, em que revela a singular integração dos arcanos maiores aos diferentes ciclos de vida e às particularidades de cada idade : Os Arcanos Maiores
 
  Curso de Tarô com Betoh Simonsen. Texto integral do livro que Betô preparou para a apresentação do jogo completo das cartas : O Louco  
A Lua : Crônicas & Artes
  Na seção de Artes e Poemas encontram-se versos inspirados no arcano : A Lua  
Atualizado: maio.15
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