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18 de agosto de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


XX. O Julgamento
O Arcano da Ressurreição
 
Compilação de
Constantino K. Riemma
 
O Julgamento no Tarot de Marseille-Camoin
O Julgamento
Tarô de Marselha-Camoin
 
Na parte superior da carta, rodeado de nuvens, um anjo toca uma trombeta. Na parte inferior, três personagens nus – um dos quais, o do centro, está de costas – parecem estar em atitude de oração.
O personagem que está de costas emerge de uma espécie de sarcófago ou túmulo; seus cabelos são azuis e tem uma tonsura. Ao seu lado, visíveis somente até a cintura, os dois personagens restantes – uma mulher à sua esquerda e um homem com barba, à sua direita – parecem olhar para a figura do centro. Têm as mãos juntas, como numa prece.
Sobre um céu incolor, o anjo está rodeado de um círculo de nuvens azuis, das quais saem vinte raios: dez são amarelos; os outros dez, vermelhos. De suas vestes vê-se apenas um corpete branco e umas mangas azuis (ou vermelhas, em algunas versões). Segura a trombeta com a mão direita, que está próxima da boca; a esquerda apenas a toca, segurando um retângulo com uma cruz.
Significados simbólicos
Os julgamentos essenciais, a avaliação dos rumos da existência.
O despertar. Exame de consciência. Sopro redentor.
Renovação. A promessa da vida eterna.
Interpretações usuais na cartomancia
Entusiasmo, exaltação emocional, intensidade dos sentimentos, espiritualidade. Capacidades ocultas, dom de adivinhação.
Atos prodigiosos, medicina milagrosa. Santidade, doação.
Renovação, nascimento, retorno de assuntos do passado ou sua atualização. Recados, propaganda, proselitismo, apostolado.
Estar sujeito à avaliação de outros, ser julgado por suas ações.
Mental: O homem convocado a um estado superior; tendências e desejos de elevação.
Emocional: Devoção, exame de consciência.
Físico: Estabilidade nos assuntos que estão encaminhados. Saúde e equilíbrio.
Desafios e sombra: Erro em relação a si mesmo e a todas as coisas; provas e trabalhos que resultarão de um juízo falso.
Vacilação espiritual, ofuscamento da inteligência. Bobo evocador de fantasmas.
Ruído, alvoroço, agitação inútil.
O Juizo - Tarô Lombardo Dellarocca (1810)   -->
 
Il Giudizio, Tarocchi Dellarocca - Lombardo
História e iconografia do Juizo Final
Afresco sobre a Ressurreição dos mortos
 
As gravuras cristãs, em geral, mostram duas diferentes ideias de ressurreição. A primeira, dos Evangelhos, refere-se aos fenômenos no momento da morte de Jesus:
“Abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram, e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mateus, 28, 52-53).
Um exemplo desta versão pode ser visto numa miniatura do século XII. “A terra recebeu ordem de devolver os seus mortos”, diz a legenda que a acompanha. A ilustração, ao lado, oferece ideia similar.
A segunda, mais amplamente difundida, é a do Juízo Final. Sobre ela escreveram Mateus (25, 31-46) e, com maior detalhe, João (Apocalipse, 20, 12).
Os artistas que se inspiraram nesta última versão se viram obrigados a selecionar, cada um à sua maneira, dentre a profusão de símbolos e alegorias verbais, aqueles evocados por João para narrar esta cena.
← Juízo Final na igreja Notre-Dame des Fontaines (França)
As primeiras representações do Juízo Final remontam ao ano mil, aproximadamente, mas alcançaram a perfeição nos séculos XII e XIII, nas catedrais. Conhece-se apenas um exemplo anterior a estas datas: trata-se de um baixo-relevo em marfim (Tours, c. 800).
Em todas essas imagens, os mortos surgem inteiramente nus dos seus túmulos, o que seguramente foi tomado de fontes tradicionais (o Livro de Jó; a carta de São Columban a Hunaldus – ano 615; o opúsculo Desprezo do Mundo, de Inocêncio III – cerca de 1200).
Uma tradição popular, surgida nesta mesma época, acredita que os mortos surgiriam de seus túmulos como esqueletos, mas que se revestiriam então da carne e da pele perdidas assim que tomassem contato com a luz.
 
Vitral na Sainte Chapel
Vitral da St. Chapelle - Paris
O Julgamento no Tarot de Oswald Wirth
Tarô de Oswald Wirth
 
A presença dos ressuscitados, bem como o anjo com a trombeta que parece convocá-los, remetem claramente o arcano XX do Tarô a essas imagens do Juízo Final; até a bandeirola da trombeta, que reproduz uma cruz de malta, é frequente nos modelos em que a carta provavelmente se inspirou.
Num sentido geral, o simbolismo do Arcano XX refere-se à morte da alma, ao esquecimento da sua finalidade transcendente, no qual o homem pode cair: o sarcófago ou túmulo representaria as fraquezas e apetites carnais, e o anjo com a trombeta faz a convocação do espírito: a oportunidade pela qual desperta o anseio latente de ressurreição que se supõe adormecido em todo ser humano.
Para Wirth, o trio de ressuscitados representa a família essencial (Pai-Mãe-Filho) no momento de sua regeneração, e o último dos seus termos (o Filho) representa uma nova metamorfose do protagonista do caminho iniciático.
Quando se admite que o Tarô constitui uma alegoria da Iniciação, é possível reconhecer o Prestidigitador-Enamorado-Carro-Enforcado no homem nu do túmulo, “pronto para receber o Magistério”.
  Fontes:
Alberto Cousté, O Tarô ou a máquina de imaginar. Rio, Ed. Labor, 1977.
  Fonte básica para a descrição inicial dos 22 arcanos maiores e para o ítem História e Iconografia.
Anônimo (Valentin Tomberg), Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô. São Paulo, Ed. Paulinas
  O subtítulo da tradução espanhola (Herder, 1987) foi copiado nesta compilação.
Paul Marteau, O Tarô de Marselha.São Paulo, Ed. Objetiva, 1991.
  Essa obra serviu de base para o ítem Interpretações usuais na cartomancia.
Para fontes secundárias nesta compilação veja: Bibliografia
 
Contato
Constantino K. Riemma - constantino@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
Outros estudos sobre o Julgamento
  Eu e o Julgamento. Denise Fernandes Marsiglia faz um depoimento, no estilo de crônica, em que relata várias facetas de sua relação com o arcano XX: Diálogos e reflexões
 
  O Julgamento como Caminho de Toth:. Abraão Zuza Costa apresenta relações do arcano 20 com o caminho de Hod a Malkut na Árvore da Vida: O vigésimo caminho  
  Nós e o Julgamento. Mais um passo que Denise Fernandes Marsiglia dá em suas reflexões sobre o arcano XX: A primeira pessoa do plural
 
  Os quatro Anjos do Tarô. Giancarlo Kind Schmid examina a presença das figuras angélicas nos arcanos dos Enamorados, Diabo, Temperança e Julgamento: Os mensageiros e seus atributos
 
  Olhar livre. Reflexões de Titi Vidal sobre a importância de libertarmos nosso olhar dos pré-julgamentos, dos grilhões que nos aprisionam: Olhar livre
 
  O Apocalipse... agora? O alarde em torno das previsões sombrias para 2012 é tema de comentários de Jaime E. Cannes: O calendário maia e o Julgamento
 
  O mês do Julgamento. Significados que Valéria Fernandes destaca quando o Arcano XX é selecionado para orientar um mês de vida: Espaço para reabilitar e restaurar
 
  Os Arcanos Maiores na Tradição Cigana. Transcrição do curso que Sarani Barrios ministrou no segundo semestre de 2008, em que revela a singular integração dos arcanos maiores aos diferentes ciclos de vida e às particularidades de cada idade: Os Arcanos Maiores  
  OJulgamento. Uma sentença arbitrária? por Valéria Fernandes: O arcano XX
 
  Curso de Tarô com Betoh Simonsen. Texto integral do livro que Betô preparou para a apresentação do jogo completo das cartas: O Louco  
O Julgamento : Crônicas & Artes
  Na seção de Artes e Poemas encontram-se versos inspirados no arcano : O Julgamento  
Atualizado: março.15
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