Home page

04 de fevereiro de 2012

Responsável: Constantino K. Riemma


XV. O Diabo
O Arcano da Contra-inspiração e da Sedução
 
Compilação de
Constantino K. Riemma
 
 
 
O Diabo no Tarot de Marseill-Kris Hadar
Tarô de Marselha-Hadar
      Três personagens estão representados de pé. No meio, sobre um pedestal vermelho em forma de cálice, um hermafrodita com asas e chifres; embaixo, uma figura feminina e outra masculina, pequenas e dotadas de atributos animais, presas, por uma corda que lhes passa ao pescoço, a um aro que se encontra no centro do pedestal.
    O personagem central, despido, veste somente um cinto vermelho; tem na cabeça uma curiosa touca amarela, da qual sobem dois chifres de veado; duas asas amarelas (ou azuis, na ed. Grimaud), de desenho semelhante à dos morcegos, brotam das suas costas. Tudo indica que o personagem é do sexo masculino, mas seus seios estão desenvolvidos como os de uma mulher. Suas mãos e pés apresentam características simiescas; a mão direita, erguida, mostra o dorso; a esquerda segura a haste de uma tocha. O par acorrentado é visto de três quartos. Estão completamente nus, mas têm uma touca vermelha da qual sobem chifres negros.
    Têm rabo, patas e orelhas de animal e escondem as mãos atrás das costas. No nível em que se encontram, o chão é preto, mas na altura do pedestal torna-se azul (ou amarelo) com listas
negras. O fundo é incolor.
Significados simbólicos
    As provas e provações. As tentações e seduções.
    Magias. Desordem. Paixão. Luxúria. Dependência.
    Intercâmbio, eloqüência, mistério, força emocional.
Interpretações usuais na cartomancia
    Paixões indomáveis. Atração sexual. Ação mágica, magnetismo. Capacidade milagreira. Poder oculto, exercício de influências misteriosas. Proteção contra as forças obscuras e os encantamentos.
    Mental: Grande atividade, mas totalmente egoísta e sem preocupação pela justiça.
    Emocional: Pluralidade, diversidade, avidez, inconstância. Busca em todas as direções para atrair tudo. Sem a menor preocupação com o próximo. Libertinagem.
    Físico: Grande irradiação neste plano, em particular no domínio material e nas realizações concretas. Poderosa influência sobre os outros.
    Forte atração pelo poder material.
    Tem, contudo, uma deficiência: todos os sucessos a que promete serão obtidos por vias censuráveis. Desta forma a fortuna será feita e os delitos permanecerão na impunidade.
    Inclui também a punição: de acordo com a sua relação com as outras cartas, pode significar que os sucessos serão efêmeros e que o castigo virá na seqüência.
    Do ponto de vista da saúde: grande instabilidade nervosa, transtornos psíquicos; aparição de enfermidades hereditárias.
O Diabo no Tarot de Marseill-Camoin
Tarô de Marselha-Camoin
 
    Sentido negativo: A ação parte de uma base má e seus efeitos podem ser calamitosos. Desordem, inversão de planos, coisas obstruídas. Do ponto de vista da saúde: ampliação do mal, complicações. Disfunção. Superexcitação, sensualidade. Ignorância, intriga. Emprego de meios ilícitos. Enfeitiçamento, fascinação repentina, escravidão e dependência dos sentidos. Debilidade, egoísmo.
História e iconografia
    Durante a baixa Idade Média o Diabo era representado freqüentemente como um dragão ou uma serpente,  imagem derivada sem dúvida de seu papel no Gênese.  Por um processo
 

São Miguel Arcanjo

São Miguel e o Dragão
Mont St. Michel - França
  simbiótico – característico da iconografia – Eva e o Diabo se fundiram com freqüência na figura da serpente com cabeça de mulher: isto pode ser visto quase sempre nas ilustrações dos mistérios franceses que falam da Queda.
    O desenvolvimento antropomórfico, que levou o Diabo a se converter na figura que conhecemos tem sua origem, provavelmente, nas tradições talmúdicas e nas lendas pré-cristãs, segundo as quais a serpente edênica teria tido mãos e pés de homem, membros que perdeu como castigo por sua maldita intervenção no drama do Paraíso, ficando condenada a arrastar-se até o fim dos tempos.
    De modo similar o Diabo aparece no Apocalipse de Abraão, onde o Tentador é descrito como um homem-serpente, descrição retomada por Josefo e por boa parte dos autores judeus dessa época.
    Já no Antigo Testamento ( 1,6-12 e 2,1-7) menciona-se esta humanização de Satã, e em Mateus (4, 3-11) aparece com toda clareza o antropomorfismo do personagem. Ele é assim descrito num manuscrito de Gregório de Nicena, onde toma a forma de um homem jovem, alado e nu da cintura para cima.
    É somente no fim do primeiro milênio que o Diabo sofre a mais
cruel de suas metamorfoses; a que acabou por transformar o mais formoso dos anjos em sinônimo de abominação e horror.
    Van Rijneberk atribui aos miniaturistas anglo-saxões essa mudança iconográfica, que respondia à simplicidade analógica da época. Se o Diabo continha a soma de todos os pecados e escândalos, seria lógico, dessa forma, que fosse representado como o apogeu de feiúra e pavor.
    O homem com garras das figuras mais tênues sofreu a inclusão de chifres, dentes enormes, pêlos, cascos de bode, seios enrugados, rabo que terminava em seta. Assim aparece nos manuscritos alemães dos séculos X e XI, e no Missel Oxonien do bispo Léofric (960-1050). O diabo da lâmina do Tarô – um morcego hermafrodita – mostra-se como herdeiro dessa representação.
    Van Rijneberk destaca o sentido metafísico de Satã para os Pais da Igreja, longe ainda dessas representações. Entre os séculos III e IV, Atanásio relatou as fadigas que costumavam acompanhar os tentados: o aspecto do Maligno produzia mais angústia do que repulsa; sua voz era terrível e seu movimento oculto como o de um assassino.
 
São Miguel Arcanjo
São Miguel e o Diabo
Normandia, 1480
 
    Tanto Cirlot como Oswald Wirth – a partir de seus respectivos planos de observação –
 

A tentação de Cristo no deserto

Primeira tentação de Jesus Cristo
Copenhage, 1222
  evitam entrar no complexo campo da demonologia ao comentarem o Arcano XV.    
    Assim, o primeiro destes autores se limita a compará-lo ao “Baphomet dos templários, bode na cabeça e nas patas, mulher nos seios e braços” e a mencionar que o personagem tem como finalidade “a regressão ou a paralisação no fragmentado, inferior, diverso e descontínuo”.
    Wirth
, por seu lado, afirma que o Diabo é o inimigo do Imperador (IV) na luta política pelo poder no mundo material, e se pergunta quem é “que opõe os mundos ao Mundo, e os seres entre si”.
    Para Ouspensky, a figura do Diabo “completa o triângulo cujos outros dois lados são a morte e o tempo”, no sentido da formalidade do ilusório.
    Ele dá origem ao terceiro e último setenário do Tarô, plano do mundo físico ou do corpo perecível do homem. Do ponto de vista da finitude temporal, não é menos importante do que o Prestidigitador para o reino do espírito, ou o triunfal protagonista de O Carro (VII) para a análise psicológica.
    "Na medida em que sempre houve áreas sombrias e ainda desconhecidas para o conhecimento e que presumivelmente, os enigmas subsistirão sempre – diz Jaime Rest no seu artigo Satanás, Suas Obras e Sua Pompa —, o demoníaco foi e continuará sendo uma constante de nossa realidade, já que esta experiência parece nutrir-se primariamente de algo que se desdobra além do domínio humano, e cuja índole tremenda e estremecedora suscita em nós este abalo íntimo que os teólogos denominam temor numinoso”.
    O estudo dessa figura pode incluir as metamorfoses sofridas pelo Diabo (incluindo a variabilidade do aspecto: da beleza resplandecente com que Milton e William Blake o imaginaram até o horror da sua corte nas telas de Goya) para retornar ao memorável ponto de partida de onde se concebe sem dificuldades a permanência do demonismo: Satã como “um desafio da ordem que os homens atribuíram a Deus”.
 
O Diabo no Tarot Oswald Wirth
Tarô de Oswald Wirth
 
 
Baphomet - gravura de Eliphas Levi
Baphomet
Gravura de Eliphas Levi (1810-1875)
      A figura do Tentador, por outro lado, é inseparável das legiões que o servem (ou seja, da idéia do Inferno), e o Tarô repete esta associação ao representá-lo junto com o casal acorrentado – seres que podem ser tanto seus prisioneiros como seus colaboradores. A repetição do esquema dantesco é atribuída por Carrouges à paralisia imaginativa dos séculos posteriores em relação ao tema; daí a fixação e o empobrecimento do ciclo mítico na literatura européia.
    Esta visão demonológica contemporânea, que faz do Diabo uma metáfora conflitante da dignidade humana, não é menos importante que a tradicional. Impõe-se, ao menos, como mais uma referência para a análise atualizada do Tarô.
    Os comentários reunidos até aqui, porém, estão longe de esgotar as indicações para o estudo deste personagem tão ambíguo.
    Vale a pena conhecer o que diz G. O. Mebes em Os Arcanos Maiores do Tarô, sobre o papel de Baphomet, enquanto representação "da bipolaridade do turbilhão astral", passagem inevitável no processo evolutivo.
 
Contato:
Constantino K. Riemma - contato-ct@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Outros estudos sobre o Diabo
  Exu é o Diabo? Alberto Roberto Costa mostra a enorme distância entre a entidade dos cultos africanos e a figura do tentador na tradição cristã...: O co-participante na criação do universo
 
  Como o Diabo não gosta. Cristina Guedes comenta as múltiplas versões e os diferentes níveis de significados desse personagem multifacetado: As miragens do diabo
 
  Satanás, Lucifer, Exú, Diabo, Bafomé, Choronzon... Kimon reune referências nos mitos e nas religiões sobre a figura demoníaca e contribui para a abordagem do arcano: O diabo, o que é?  
  Os quatro Anjos do Tarô. Giancarlo Kind Schmid examina a presença das figuras angélicas nos arcanos dos Enamorados, Diabo, Temperança e Julgamento: Os mensageiros e seus atributos
 
  O Diabo positivo. Cynthia Domingues exibe o outro lado do controvertido arcano: poder, alegria, magnetismo, sedução, paixão...: Brilho e luz própria
 
  Diabo ansioso: artigo raro no mercado. Luna Solis discute os significados da carta 15 e suas relações com outros arcanos maiores. O bom-humor da autora é de grande ajuda: O ardiloso
 
Na Parte II de seu estudo sobre o arcano XV a autora examina as relações do Diabo com a Lua astrológica, que por sua vez também pode ser reconhecida em outras cartas: Diabo e Lua
  O Diabo e seu magnetismo sedutor. Cynthia Domingues mostra a ligação do arcano com a vaidade, o luxo, o conforto material, o requinte e o mais alto bom gosto e qualidade: Magnetismo  
  Ternos nas Sombras. Giancarlo Kind Schmid promove um desfile de figuras poderosas em seus belos e impecáveis ternos e revela a sombra do Diabo em seus passos: Ternos  
  O mês do Diabo. Significados que Valéria Fernandes destaca quando o Arcano XV é selecionado para orientar um mês de vida: Enfrentar as fraquezas
 
  Os Arcanos Maiores na Tradição Cigana. Transcrição do curso que Sarani Barrios ministrou no segundo semestre de 2008, em que revela a singular integração dos arcanos maiores aos diferentes ciclos de vida e às particularidades de cada idade: Os Arcanos Maiores  
  O arcano XV nas tiragens. Valéria Fernandes apresenta suas impressões do arcano do Diabo e dá um exemplo de como o interpreta na prática: Exemplo
 
  Curso de Tarô com Betoh Simonsen. Texto integral do livro que Betô preparou para a apresentação do jogo completo das cartas: O Louco  
Atualizado: outubro.11
 
Quatro pilares
Teca Mendonça
Orientação
Cristina Britto
O Momento
Teca Mendonça
 
Tarô Egípcio
Kier - J. I. Janeiro
I Ching
Oráculo Oriental
 
 
Veja lista completa  
Publicidade
 
 
Todos os direitos reservados © 2005-2012 por Constantino K. Riemma  -  São Paulo, Brasil