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28 de junho de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


O que é o Tarô
  Constantino K. Riemma  
 
O tarot ou arcanos maiores e menores ou baralho ou cartas de jogar ou naipes e trunfos, consistem numa única e mesma coisa. Trata-se de um jogo de 78 cartas, que se difunde a partir da segunda metade do século 14, na Europa cristã, com iconografia cristã.
Não dispomos de registros históricos que indiquem alguma escola ou corporação de ofício que tenha criado esse conjunto ou feito adaptações de jogos tradicionais anteriores. Tudo indica que ganhou a forma que hoje conhecemos pelas mãos de artistas e artesões que tinham conhecimentos e habilidades adquiridas entre os edificadores dos palácios e igrejas no período pré-renascentista, bem como suas pinturas, imagens e vitrais.
É importante lembrar, do ponto de vista histórico, que existe um exemplar de baralho com 52 cartas, anterior às versões que hoje conhecemos. Trata-se do baralho Mamlûk, utilizado pelos guerreiros mamelucos e que, evidentemente, tiveram suas cartas copiadas pelos impressores europeus. Continua uma incógnita, até hoje, quais foram os autores dos 22 trunfos (arcanos maiores) agregados ao modelo do baralho mameluco.
 
Cartas de Jacques Viéville, 1650.
Trunfos ou arcanos maiores.
Tarô de Jacques Viéville - 1650
 
Cartas de jogar no século 20.
Naipes ou cartas ou arcanos menores.
Baralho de meados do séc. 20
 
Dada sua origem anônima, isenta de instruções e regras dogmáticas, esse jogo de cartas deu margem a incontáveis fantasias e re-invenções mais ou menos arbitrárias. Desde seu aparecimento foi utilizado por nobres e plebeus, para jogos, passatempos e, ao que tudo indica, como instrumento de mancias.
O cenário imaginativo que cerca o Tarô, profuso e contraditório, confunde o iniciante interessado em compreender sua linguagem simbólica. Esse jogo maravilhoso, portanto, representa um real desafio para o estudo.
Se dependêssemos, por exemplo, apenas dos dicionários para saber o significado do Tarô, teríamos informações muito pobres e distorcidas. O Aurélio é lacônico: "Tarô. Coleção de 78 cartas, maiores que as do baralho, de desenho diverso, usadas sobretudo por cartomantes". Essa definição revela o desconhecimento de que "tarô" e "baralho" vêm da mesma fonte e, também, de que as 78 cartas não ficam apenas em mãos de cartomantes e são objeto de estudos simbólicos e aplicações terapêuticas, de elaborações de pintores e artistas gráficos.
Os dicionaristas esqueceram, ainda, de informar que a parte do tarô, que constitui o baralho comum, é também utilizado por cartomantes e, igualmente, como fonte de lazer nos lares, nos clubes e cassinos. São produzidos no mundo todo e movimentam milhões de dólares.
O dicionário Houaiss oferece um pouco mais: "Tarô. Conjunto de 78 cartas de baralho (também ditas lâminas) ilustradas por figuras simbólicas e usado para supostamente predizer o futuro e conhecer o que, no passado ou no presente, se encontra velado. O baralho é constituído de 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores". Neste caso, os dicionaristas desconheciam que, na prática vigente até hoje, grande número de cartomantes utilizam o baralho comum e não as versões mais caras e variadas conhecidas como "tarô".
Arcanos Maiores no Tarô de Marselha - Camoin
O Louco, 1. O Mágico, 4. O Imperador, 6. Os Enamorados e 19. O Sol.
Arcanos Maiores do Tarô de Marselha, Editora Camoin
 
Para continuar nessa linha genérica de definição, podemos esclarecer que:
os 22 trunfos ou arcanos maiores são numerados de 1 a 21 e um deles, O Louco, não recebe número na maior parte dos baralhos;
as 56 lâminas, atualmente denominadas arcanos menores, constituem cartas de jogar do baralho comum e se subdividem em:
 –  quatro naipes ou séries: Paus, Ouros, Espadas e Copas – cada um deles com 10 cartas numeradas de 1 a 10, com desenhos que tornam os significados simbólicos mais abstratos que os dos “arcanos maiores”, num total de 40 cartas;
As cartas numeradas do naipe de Copas
Ás, Dois, Três... Nove e Dez de Copas.
Arcanos Menores no Tarô de Marselha, Ed. Grimaud
 
 –  quatro figuras: Rei, Rainha, Cavaleiro e Valete – mais parecidas com as dos “arcanos maiores”, também repetidas em quatro naipes, num total de 16 cartas. São também conhecidas como cartas da corte.
Valete de Ouros no Tarot Visconti Sforza - 1450     Cavaleiro de Ouros no Tarot Visconti Sforza - 1450    Rainha de Ouros no Tarot Visconti Sforza - 1450    Rei de Ouros no Tarot Visconti Sforza - 1450
Valete, Cavaleiro, Rainha e Rei de Ouros no Tarô Visconti Sforza - 1450
 
Para acrescentar um simples comentário a essa descrição sumária do Tarô, podemos lembrar que os quatro naipes – Paus, Ouros, Espadas e Copas – correspondem aos quatro elementos tradicionais – Fogo, Terra, Ar e Água – representação simbólica das forças-qualidades constitutivas do universo, que aparecem na Astrologia, na Alquimia, na Cabala, nos textos sagrados, como é o caso do Gênesis, dos Evangelhos.
 
Ás de Copas no Tarot de Mitelli (1665)   Ás de Espadas no Tarot de Mitelli (1665)    Ás de Ouros no Tarot de Mitelli (1665)    Ás de Paus no Tarot de Mitelli (1665)
Os ases e suas correspondências simbólicas com os quatro elementos:
Copas (água), Espadas (ar), Ouros (terra) e Paus (fogo) no Tarot de Mitelli - 1665
 
Um sentido esotérico...
O Tarô pode, enfim, ser entendido como uma linguagem simbólica que traduz o cosmo em sua constituição e eterna mudança, em sua estrutura e dinâmica. Ele aparece na Europa, num momento em que várias escolas esotéricas e corporações de artistas, buscavam transmitir conhecimentos, não por palavras, mas por imagens que convidavam à reflexão, à investigação, para serem corretamente assimiladas. É o caso, por exemplo, dos mestres e praticantes da Alquimia, que produziram livros de gravuras, sem maiores comentários por escrito, conhecidos como Mutus Liber, ou seja, Livro Sem Palavras, livro mudo...
Os 22 arcanos maiores, entre outros significados possíveis, descreveriam as 21 etapas evolutivas que o homem – representado pelo Louco – pode percorrer em sua vida. O número 21 (= 3 x 7) também resulta da combinação de duas leis fundamentais do universo: a Lei de Três (“tudo, para existir, necessita de três forças”) e a Lei de Sete, ou Lei das Oitavas (“tudo se manifesta num processo de sete passos ou fases”).
Do mesmo modo que outros grandes sistemas simbólicos, o Tarô é apreciado como uma instigante fonte de inspiração e de aplicação em variadas situações e propósitos.
... e um sentido lúdico
Os registros históricos, a partir do século 14, mencionam a utilização das cartas apenas como fonte de lazer, em jogos e passatempos. Essa função lúdica permanece viva até hoje, pois o que chamamos de jogos de baralho ou baralho comum, é exatamente o mesmo conjunto que os escritores modernos denominam arcanos menores.
Para mantermos uma atitude aberta em relação ao Tarô é bom não esquecer que esse conjunto simbólico sobreviveu até hoje e se difundiu, não em razão do seu sentido mais profundo, mas pelo interesse que despertou como jogo de lazer ou de apostas a dinheiro e, também, como instrumento de cartomancia.
Tal como um verdadeiro Mutus Liber, o Tarô não veio acompanhado de normas ou dogmas, para ser utilizado obrigatoriamente deste ou daquele modo; todas as regras que hoje conhecemos foram inventadas posteriormente. Portanto, as normas e regras de utilização que lemos e ouvimos, as afirmações do que é certo ou errado, devem ser compreendidas de modo muito relativo e flexível. Os verdadeiros autores do Tarô, aqueles que sabiam do que se tratava, permaneceram anônimos e sem palavras. Ninguém, hoje em dia, pode se arvorar em autoridade para falar em nome dos mestres originais.
O Tarô permance um desafio em aberto. O que podemos fazer é nos associarmos para tentar decifrar os símbolos e ensinamentos que se ocultam sob o conjunto das 78 cartas. E para fugir aos erros da subjetividade, nada melhor que trabalhar em grupo, partilhar, colocar à prova nossas reflexões. É esse o propósito do Clube do Tarô.
 
Constantino K. Riemma - ckr@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
Outros modos de ver e de aplicar as cartas
  "Manual do Proprietário" do Tarô. Uma visão de conjunto, com informações simples e esenciais, que Constantino K. Riemma apresenta em seus cursos de iniciação : O jogo de cartas  
  O que é o Tarô. Um texto de Valéria Fernandes para explicar em termos bem compreensíveis os conjuntos das carta : Apresentação do Tarô  
  Plurilinguagem tarológica: bem-vindo ao caos simbólico! Comentários de Giancarlo Kind Schmid sobre as múltiplas e contraditórias formas de entender o tarô : Visões e Significados  
  Baralho - um coringa ao longo do tempo. Artigo de Marina Suassuna, muito bem pesquisado e publicado na revista Continente : Cartas na mesa! A apaixonante história do baralho  
  Modos & Estilos de utilização das cartas. Seção com dezenas de links para artigos que apresentam as múltiplas aplicações simbólicas e terapêuticas do baralho : Modos & Estilos  
Atualizado: fevereiro.16
 
Para obter uma visão geral do baralho, de sua história e de
suas incontáveis aplicações e reinvenções siga os links abaixo :
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
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  O Momento
  I Ching
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