Responsável: Constantino K. Riemma
 
28 de agosto de 2008
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O Esoterismo e as subjetividades
 
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As múltiplas faces do Esoterismo e o Tarô

Compilação de
Constantino K. Riemma

 
    A publicação de Court de Gebelin, a partir de 1775, de Le Monde Primitif analysé et comparé avec le monde moderne, constitui um marco importante na história moderna do Tarô. A partir de então o baralho passa a ser considerado não apenas assunto de lazer ou cartomancia popular e ingressa no rol de interesse dos esotéricos e intelectuais a partir do final do séc. 18.
 
Sobre o papel de Court de Gebelin na história do tarô veja também a questão das origens em: Tarô egípicio? e Hipóteses
 
 
Original, em francês, "Du Jeu des Tarots", p.365-410, vol.8, Monde primitif... no qual Court de Gebelin sugere uma origem egípcia para o tarô e discute o significado e aplicação das cartas: http://www.tarock.info/gebelin.htm
 
 
Os franceses
 
    Eliphas Lévi (1810-1875) foi um filósofo e estudioso de símbolos que deixou muitos seguidores. Seminarista da Igreja Romana, seu verdadeiro nome era Alphonse Louis Constant.
 
Eliphas Levi
      Em seu famoso livro "Dogma e ritual da Alta Magia" (1856), descreve o Tarô como uma síntese da ciência e chave universal da Cabala. Estabeleceu a correspondência entre as 22 letras do alfabeto hebraico, os 22 caminhos da Árvore da Vida - que ligam os Sephirot entre si – e os 22 trunfos ou Arcanos Maiores.
    Ao invocar ao mesmo tempo a Cabala, a alquimia e a astrologia, bem como a tradição hermética, Eliphas Levi reiterava que o Tarô oculta os segredos dos antigos conhecimentos.
    Eliphas Levi e de Court de Gebelin representam dois marcos sinalizadores da profusão de publicações, irmandades e círculos mais ou menos secretos que se espalhariam pela Europa durante o séc. 19.
 
Biografia de Eliphas Levi. Reprodução de texto da Sociedade de Ciências Antigas com ilustrações recolhidas pelo Clube do Tarô: Eliphas Levi
 
 
Em seu Manifesto para o futuro do Tarô, Nei Naiff focaliza os principais autores envolvidos com o Tarô, no período em que as cartas ganham novas histórias e um novo status: História do Tarô
 
 
História do esoterismo. Para compreender melhor o clima cultural da Europa nos séculos 18 e 19, e o surgimento de organizações ocultistas, consulte a tese de Rui Sá Silva Barros sobre esse período: Tomando o céu de assalto...
 
    Outros nomes também se destacam nesse período efervescente, como é o caso de Stanislas de Guaita (1861-1897), fundador da "Ordem Kabalística da Rosacruz", que congregou muitos dos assim chamados "ocultistas" e "magos".
    Entre as figuras desse período, muito próximo de Stanilas de Guaita, destaca-se Oswald Wirth (1860-1943), autor de obras que se tornaram clássicas, como "O simbolismo hermético em suas relações com a alquimia e a franco-maçonaria", "O simbolismo astrológico" e, sobretudo, "O Tarô dos imaginários (dos santeiros) da Idade Média". Ainda que se atribua a Wirth a primeira tentativa de conceber e editar um Tarô especificamente esotérico, conhecido por Tarô Oswald Wirth, a série que idealizou e desenhou, em 1889, é fortemente inspirada no Tarô de Marselha. Nesse sentido, embora fosse maçom, seu trabalho não constituiu um tarô específico maçônico, como alguns autores defendem.  
Oswald Wirth
 
Oswald Wirth trabalhou os agrupamentos dos arcanos maiores, oferecendo exemplos estimuladores para o estudo de combinações em pares, grupos e tétrades. Conheça seu trabalho: Indícios reveladores
 
 
Flávio Alberoni, colaborador do Clube do Tarô, é um dos tarólogos que aplica a indicações dos pares dos arcanos, tal como proposto por Wirth. Veja exemplos de suas interpretações: Leituras
 
       Já um outro francês do mesmo período, inspirado nos esboços egípcios de Eliphas Levi, arriscou-se num novo desenho do Tarô. Foi ele Papus, nome ocultista utilizado por Gérard Encause (1865-1917), médico francês, fundador e líder da "Ordem espiritual e maçônica dos Martistas", autor do Tarot des Bohémiens (Paris, 1889), obra até hoje traduzida e publicada.
   O desenhos originais do Tarô dos Boêmios, elaborados por Jean-Gabriel Goulinat, apareceram apenas no formato de livro, publicado em 1889 e revisto em 1911. As estampas ganharam o formato de baralho, somente quando seus desenhos originais foram reproduzidos e coloridos, em 1981.
Papus
Papus e sua versão simbólica das cartas: O Tarô dos Boêmios
 
 
Nei Naiff tem algumas observações pontuais sobre Papus: Manifesto...
 
    Na segunda metade do séc. 19 amplia-se a quantidade de escritores e publicações ligados ao esoterismo. Proliferam ordens, irmandades, sociedades, lojas, sob várias designações: rosacruzes, maçônicas, ocultistas, templárias, esotéricas, mágicas, secretas... Joio e trigo se misturam irremediavelmente.
    Num cenário caótico, em que reina uma sintomática confusão entre o rito sagrado e a magia pessoal, entre o estar a serviço e a busca de poder egóico, surge um pensador pontual e rigoroso diante das fantasias que continuam a proliferar no mundo moderno: René Guénon (1886-1951).
    Sua experiência se diferencia em relação à maioria dos autores de seu tempo. Participou, durante sua formação, de várias escolas e passou por diversos ritos existentes na França. Teve, porém, a oportunidade de encontrar e de reconhecer outras fontes ligadas de modo mais direto aos ensinamentos tradicionais e soube propor uma clara distinção entre o sagrado e o profano, resultado de longos anos de trabalho.
 
 
René Guénon
[capa do livro
David Gattegno]
    René Guénon teve força e coragem para remar contra a maré e dedicou sua vida ao estudo e à transmissão do saber que se encontra além da ciência moderna.
 
A crise do mundo moderno, por René Guénon. Um estudo publicado pela primeira vez em 1927, mas que mantém uma inquietante atualidade em razão do agravamento dos indicadores apontados pelo autor: prevalência da quantidade sobre a qualidade, do profano sobre o sagrado, do poder pessoal sobre o servir. Tradução de Bete Torii: Baixar ou ler
Formato pdf com 495KB.   108 págs. 14x21cm, imprimíveis em 54 folhas tamanho A4.
 
 
René Guénon - dados biográficos, por Antonio Carlos Carvalho, tradutor do livro A crise do mundo moderno para uma edição portuguesa: Biografia
 
Os ingleses
 
    Na esteira do que se passa no continente europeu, a Inglaterra é igualmente palco para personagens que incluem o Tarô em seus estudos.
    Um deles, MacGregor Mathers (1854-1918), obteve grande notoriedade e está associado ao ressurgimento do ocultismo e da Magia na virada do século XIX. Ligado a lojas maçônicas e a sociedades rosacrucianas, fundou com William Robert Woodman e William Wynn Westcott uma Ordem própria, a Golden Dawn ou "Aurora Dourada". Em seu livro "O Tarot: um pequeno tratado sobre a leitura das cartas", até hoje publicado e traduzido ao português, MacGregor Mathers propõe-se a dar aos seus leitores "uma idéia do profundo significado das cartas de Tarot e de como ele poderá ser utilizado para fins divinatórios".    
MacGregor Mathers
 
Waite
      Entre os ingleses, destaca-se Arthur Edward Waite (1857-1942), que pacientemente pesquisou e escreveu vários livros, entre eles, The Key to the Tarot e The Holy Kabbalah.
    Sob sua iniciativa e supervisão, um baralho de 78 cartas – conhecido como baralho Rider – foi desenhado por Pamela Colman Smith.
    Esse baralho engrossa a tendência moderna de dar figurações aos Arcanos Menores, como recurso para traduzir factualmente seus significados.
  O baralho de Arthur Waite e Pamela Colman Smith: Galeria das cartas  
 
O Tarô de Arthur Waite & Pamela Smith é situado por Constantino K. Riemma, que focaliza alguns aspectos críticos desse baralho que acabou por se tornar uma referência para os re-desenhos modernos: O Tarô de Waite
 
 
O Tarô Rider-Waite, texto de Lívia Krassuski de apresentação do baralho e menções ao contexto no qual ele aparece, como é o caso do movimento Aurora Dourada (Golden Dawn): Introdução
 
 
    Ao lado dos estudiosos e autores que seguiram o propósito de investigar as correspondências entre o Tarô e outras linguagem simbólicas, tornaram-se conhecidos outros nomes controvertidos. Entre eles está Aleister Crowley (1875-1947), que inspirou Lady Frieda Harris a redesenhar as cartas.
    Seu trabalho se afasta completamente dos desenhos clássicos do Tarô, e as cartas só foram editadas pela primeira vez em 1971, com o livro The Book of Thoth.
   
Aleister Crowley
  O baralho de Aleister Crowley e Frieda Harris: Apresentação e Galeria  
  O Tarô de Crowley-Harris ou Tarô de Thoth, texto em que Cláudio Carvalho, apresenta a história da elaboração dos desenhos: Explicação do baralho  
  Horóscopo de Crowley, análise do tema natal pelos astrólogos Elizabeth Nakata e Douglas Marnei:  Mapa astral  
  A própria besta, texto de Colin Wilson sobre as peripécias, os poderes e a sombra de Aleister Crowley: O Oculto  
    
Cartas, lâminas, arcanos
 
    No clima europeu do século XIX, em que o Tarô foi revalorizado pelos estudiosos de temas esotéricos, torna-se compreensível que seria bem recebida a troca de termos para designar as cartas e o baralho. De fato foi o que aconteceu a partir da publicação, em 1865, da obra "L’homme rouge des Tuileries" de Paul Christian, pseudônimo de Jean-Baptiste Pitois (1811-1877). Discípulo de Eliphas Levi, atribui-se a Paul Christian ter "inventado os termos lâminas e arcanos para designar as cartas dos Tarots".
    A partir da segunda metade do século XIX, tornou-se usual a utilização dos termos lâmina e, principalmente, arcano em substuição a carta.
veja +
Rui Sá Silva Barros, Tomando o céu de assalto – esoterismo, ciência e sociedade. 1848-1914 - França, Inglaterra e EUA. Apresenta o quadro cultural e social, de 1848 a 1914, durante o qual ocorreu uma grande difusão dos ensinamentos herméticos. Desse movimento resultou, em meio a múltiplos impactos, teorias que afetaram profundamente a compreensão contemporânea do Tarô.
Texto completo de tese de mestrado em história, pela USP.
374 págs. 14x21cm, que podem ser impressas em 187 folhas tamanho A4.
Formato pdf com 1.532 KB
: Baixar
Nei Naiff, em seu trabalho Manifesto para o futuro do Tarô, trata dos diferentes modos que as cartas têm sido utilizadas e repassa os principais registros históricos e autores, sob um olhar meticuloso e crítico. Uma boa ajuda para separar a história real e as fantasias: História do Tarô
 
 
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