Responsável: Constantino K. Riemma
 
12 de março de 2010
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As múltiplas faces do Esoterismo e o Tarô
 
Compilação de
Constantino K. Riemma
 
 
    A publicação de Court de Gebelin, em 1775, de Le Monde Primitif analysé et comparé avec le monde moderne, constitui um marco importante na história moderna do Tarô. O baralho passa a ser considerado não apenas assunto de lazer ou cartomancia popular e ingressa no rol de interesse dos esotéricos e intelectuais a partir do final do séc. 18.
 
O papel de Court de Gebelin na história mais recente do tarô é também discutido na questão das origens em: Tarô egípicio? e Hipóteses
 
 
Original, em francês, "Du Jeu des Tarots", p.365-410, vol.8, Monde primitif... no qual Court de Gebelin sugere uma origem egípcia para o tarô e discute o significado e aplicação das cartas: http://www.tarock.info/gebelin.htm
 
 
Os franceses
    Eliphas Levi (1810-1875) foi um filósofo que se dedicou ao estudo dos símbolos e que deixou muitos seguidores. Seminarista da Igreja Católica Romana, artista plástico, seu nome verdadeiro era Alphonse Louis Constant.
  Eliphas Levi
Eliphas Levi
      Em seu famoso livro "Dogma e ritual da Alta Magia" (1856), descreve o Tarô como uma síntese da ciência e chave universal da Cabala. Estabeleceu a correspondência entre as 22 letras do alfabeto hebraico, os 22 caminhos da Árvore da Vida - que ligam os Sephirot entre si – e os 22 trunfos ou Arcanos Maiores.
    Ao invocar ao mesmo tempo a Cabala, a alquimia e a astrologia, bem como a tradição hermética, Eliphas Levi reiterava que o Tarô oculta os segredos dos antigos conhecimentos.
    Eliphas Levi e Court de Gebelin são, de certo modo, dois marcos da profusão de publicações, irmandades e círculos mais ou menos
secretos que se espalhariam pela Europa durante o séc. 19.
 
Biografia de Eliphas Levi. Reprodução de texto da Sociedade de Ciências Antigas com ilustrações recolhidas pelo Clube do Tarô: Eliphas Levi
 
 
Em seu Manifesto para o futuro do Tarô, Nei Naiff focaliza os principais autores envolvidos com o Tarô, no período em que as cartas ganham novas histórias e um novo status: História do Tarô
 
 
História do esoterismo. Para compreender melhor o clima cultural da Europa nos séculos 18 e 19, e o surgimento de organizações ocultistas, consulte a tese de Rui Sá Silva Barros sobre esse período: Tomando o céu de assalto...
 
    Outros nomes também se destacam nesse período efervescente, como é o caso de Stanislas de Guaita (1861-1897), fundador da "Ordem Kabalística da Rosacruz", que congregou muitos dos assim chamados "ocultistas" e "magos".
    Entre as figuras desse período, muito próximo de Stanilas de Guaita, destaca-se Oswald Wirth (1860-1943), de origem suíça, autor de obras que se tornaram clássicas, como "O simbolismo hermético em suas relações com a alquimia e a franco-maçonaria", "O simbolismo astrológico" e, sobretudo, "O Tarô dos imaginários (dos santeiros) da Idade Média".
    Ainda que se atribua a Wirth a primeira tentativa de conceber e editar um Tarô especificamente esotérico, conhecido por Tarô Oswald Wirth, a série que idealizou e desenhou, em 1889, é fortemente inspirada no Tarô Clássico ou Tarô de Marselha. Nesse sentido, embora fosse maçom, seu trabalho não constituiu um "tarô maçônico", exclusivo, como alguns autores defendem, a menos que
  Oswald Wirth
Oswald Wirth
 
também se considere os desenhos dos antigos "cartiers" franceses, entre eles o jogo marselhês, como herdeiros dos antigos construtores das catedrais, o que aí, sim, é bastante plausível.
 
As imagens do Tarot de Oswald Wirth podem ser apreciadas numa das galerias do Clube do Tarô, onde são oferecidas algumas informações históricas sobre essas cartas: Galeria Wirth
 
Oswald Wirth trabalhou os agrupamentos dos arcanos maiores, oferecendo exemplos estimuladores para o estudo de combinações em pares, grupos e tétrades. Conheça sua visão de conjunto dos arcanos: Indícios reveladores
 
 
Flávio Alberoni, colaborador do Clube do Tarô, é um dos tarólogos que aplica a indicações dos pares dos arcanos, tal como proposto por Wirth. Veja exemplos de suas interpretações: Leituras
 
Quanto a idéia de um tarô maçônico, além da resenha sobre o Tarô de Marselha, dois textos de Jean-Claude Flornoy mencionam as vicissitudes das corporações de ofício: O Tarot de Jean Noblet (1650) e Tarôs de Jean Dodal e Jean-Pierre Payen (1701-15)
 
 
Papus
Papus
     Já um outro francês, contemporâneo de Oswald Wirth, inspirado nos esboços egípcios de Eliphas Levi, arriscou-se num novo desenho do Tarô. Foi ele Papus, nome ocultista utilizado por Gérard Encause (1865-1917), médico francês, fundador e líder da "Ordem espiritual e maçônica dos Martistas", autor do Tarot des Bohémiens (Paris, 1889), obra até hoje traduzida e publicada.
   O desenhos originais do Tarô dos Boêmios, elaborados por Jean-Gabriel Goulinat, apareceram apenas no formato de livro, publicado em 1889 e revisto em 1911. As estampas ganharam o formato de baralho, somente quando seus desenhos originais foram reproduzidos e coloridos, em 1981.
   Embora seja muito mais popular que  Eliphas Levi e  Oswald Wirth, há
estudiosos, entre entre eles P. D. Ouspensky, que apontam deslizes em seus textos.
Papus e sua versão simbólica das cartas: O Tarô dos Boêmios
 
 
Nei Naiff tem algumas observações pontuais sobre Papus: Manifesto...
 
    Na segunda metade do séc. 19 amplia-se a quantidade de escritores e publicações ligados ao esoterismo. Proliferam ordens, irmandades, sociedades, lojas, sob várias designações: rosacruzes, maçônicas, ocultistas, templárias, esotéricas, mágicas, secretas...
Joio e trigo se misturam irremediavelmente.
    Num cenário caótico, em que reina uma sintomática confusão entre o rito sagrado e a magia pessoal, entre o estar a serviço e a busca de poder egóico, surge um pensador pontual e rigoroso diante das fantasias que continuam a proliferar no mundo moderno: René Guénon (1886-1951).
    Sua experiência se diferencia em relação à maioria dos autores de seu tempo. Participou, durante sua formação, de várias escolas e passou por diversos ritos existentes na França. Teve, porém, a oportunidade de encontrar e de reconhecer outras fontes ligadas de modo mais direto aos ensinamentos tradicionais e soube propor uma clara distinção entre o sagrado e o profano, resultado de longos anos de trabalho.
 
René Guénon
 
René Guénon
[capa do livro
D. Gattegno]
    René Guénon teve força e coragem para remar contra a maré e dedicou sua vida ao estudo e à transmissão do saber que se encontra além da ciência moderna.
 
A crise do mundo moderno, por René Guénon. Um estudo publicado pela primeira vez em 1927, mas que mantém uma inquietante atualidade em razão do agravamento dos indicadores apontados pelo autor: prevalência da quantidade sobre a qualidade, do profano sobre o sagrado, do poder pessoal sobre o servir. Tradução de Bete Torii: Baixar ou ler
Formato pdf com 495KB.   108 págs. 14x21cm, imprimíveis em 54 folhas tamanho A4.
 
 
René Guénon - dados biográficos, por Antonio Carlos Carvalho, tradutor do livro A crise do mundo moderno para uma edição portuguesa: Biografia
 
 
Os ingleses
    Na esteira do que se passa no continente europeu, a Inglaterra é igualmente palco para personagens que incluem o Tarô em seus estudos.
    Um deles, MacGregor Mathers (1854-1918), obteve grande notoriedade e está associado ao ressurgimento do ocultismo e da Magia na virada do século XIX.
    Ligado a lojas maçônicas e a sociedades rosacrucianas, fundou com William Robert Woodman e William Wynn Westcott uma Ordem própria, a Golden Dawn ou "Aurora Dourada". Em seu livro "O Tarot: um pequeno tratado sobre a leitura das cartas", até hoje publicado e traduzido ao português, MacGregor Mathers propõe-se a dar aos seus leitores "uma idéia do profundo significado das cartas de Tarot e de como ele poderá ser utilizado para fins divinatórios".
  Mac Gregor  
MacGregor Mathers
 
Waite
Waite
      Entre os ingleses ligados aos estudos esotéricos e que se dedicaram ao tarô, Arthur Edward Waite (1857-1942) é um dos mais apreciados e traduzidos. Pesquisou em diversas fontes e escreveu vários livros, entre eles, The Key to the Tarot e The Holy Kabbalah.
    Sob sua iniciativa e supervisão, um baralho de 78 cartas – conhecido como baralho Rider – foi desenhado por Pamela Colman Smith.
    Esse baralho engrossa a tendência moderna de dar figurações aos Arcanos Menores, como recurso para traduzir de modo factual seus significados, o que acarreta, por outro lado, no empobrecimento simbólico.
  O baralho de Arthur Waite e Pamela Colman Smith: Galeria das cartas  
 
O Tarô de Arthur Waite & Pamela Smith é situado por Constantino K. Riemma, que focaliza alguns aspectos críticos desse baralho que acabou por se tornar uma referência para os re-desenhos modernos: O Tarô de Waite
 
 
O Tarô Rider-Waite, texto de Lívia Krassuski de apresentação do baralho e menções ao contexto no qual ele aparece, como é o caso do movimento Aurora Dourada (Golden Dawn): Introdução
 
 
    Ao lado dos estudiosos e autores que se dedicaram ao propósito de investigar as correspondências entre o Tarô e demais linguagem simbólicas, tornou-se conhecido um outro nome bastante controvertido: Aleister Crowley (1875-1947). Seus dons, embora reais, foram utilizados segundo seus críticos de modo banal e repleto de fanfarrices.
    Foi ele quem inspirou Lady Frieda Harris a redesenhar as cartas do Tarô. Esse trabalho, de apreciável valor estético, se afasta completamente dos desenhos clássicos dos arcanos. O Tarô de Crowley só foi impresso pela primeira vez em 1971, com o livro The Book of Thoth.
 
Aleister Crowley
Aleister Crowley
 
  O baralho de Aleister Crowley e Frieda Harris: Introdução e Galeria  
  Galeria das cartas desenhadas por Frieda Harris para o baralho de Aleister Crowley:
Arcanos Maiores  |  Naipe de Paus  |  Naipe de Ouros  |  Naipe de Espadas  |  Naipe de Copas
 
  Apresentação do Tarô de Crowley. Valéria Fernandes oferece indicações básicas sobre o Thoth Tarot desenhado por Frieda Harris: Um baralho com toque surrealista  
  O Tarô de Crowley-Harris ou Tarô de Thoth. Cláudio Carvalho, apresenta e discute a história da elaboração dos desenhos: Explicação do baralho  
  Horóscopo de Crowley, análise dos astrólogos Elizabeth Nakata e Douglas Marnei: Mapa astral  
  A própria besta. Colin Wilson conta as peripécias, os poderes e a sombra de Crowley: O Oculto  
    
Cartas, lâminas, arcanos
 
    No clima europeu do século XIX, em que o Tarô foi revalorizado pelos estudiosos de temas esotéricos, torna-se compreensível que seria bem recebida a troca de termos para designar as cartas e o baralho. De fato foi o que aconteceu a partir da publicação, em 1865, da obra "L’homme rouge des Tuileries" de Paul Christian, pseudônimo de Jean-Baptiste Pitois (1811-1877). Discípulo de Eliphas Levi, atribui-se a Paul Christian ter "inventado os termos lâminas e arcanos para designar as cartas dos Tarots".
    A partir da segunda metade do século XIX, tornou-se usual a utilização dos termos lâmina e, principalmente, arcano em substuição a carta.
 
Contato com o autor:
Constantino K. Riemma - constantino@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
Estudos sobre o esoterismo e o Tarô
  Tomando o céu de assalto – esoterismo, ciência e sociedade. 1848-1914 - França, Inglaterra e EUA. Rui Sá Silva Barros apresenta o quadro cultural e social, de 1848 a 1914, durante o qual ocorreu uma grande difusão dos ensinamentos herméticos. Desse movimento resultou, em meio a múltiplos impactos, teorias que afetaram profundamente a compreensão contemporânea do Tarô. Texto completo de tese de mestrado em História, pela USP.
374 págs. 14x21cm, imprimíveis em 187 folhas tamanho A4. Formato pdf com 1.532 KB: Baixar
 
  Manifesto para o futuro do Tarô. Nesse texto Nei Naiff trata dos diferentes modos que as cartas têm sido utilizadas e repassa os principais registros históricos e autores, sob um olhar meticuloso e crítico. Uma boa ajuda para separar a história real e as fantasias: História do Tarô  
Atualizado: nov.08
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