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21 de outubro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


O Louco e a gaita de fole
Yeda Braz
Para todos aqueles que amam o Tarot, os Arcanos são como filhos. Pais que tem dois ou mais filhos, sempre dizem que os amam da mesma forma, respeitando suas características e diferentes personalidades. Mas, secretamente, eu acredito que tem sempre aquele pelo qual nutrimos um orgulho proibido, ao qual nos permitimos chamar de “afinidade”, no intuito de atenuar nossa culpa. Esse é o meu caso com um desses meus filhos.
Os arcanos estão presentes em minha vida diária e se comunicam comigo o tempo todo. Quando eu aprecio um quadro, converso com uma pessoa ou analiso uma situação, inconscientemente enxergo a manifestação dos arcanos ali. É inevitável. Eles já se incorporaram ao meu pensamento e ao meu coração.
O Louco e a gaita de fole
O Louco no Tarochi Sola Busca (1490) e um Tocador de flauta de fole
A reprodução da antiga gravura continental, à direita, está disponível em www.hotpipes.com/borderpipe.html
Nas minhas muitas leituras, independentemente do gênero do livro que eu esteja lendo no momento, eu escrevo assim: “card 21” ou “card 16”. É um código que eu uso para os arcanos que ilustram determinadas passagens, na minha opinião, certamente. Penso que, caberá a quem herdar meus livros após minha morte, descobrir os mistérios das várias “cards” numeradas que aparecem por todo o lado!
Pois bem, em um desses dias de leituras e estudos, deparei-me com um comentário que, imediatamente me remeteu à “card 22” ( de acordo com meu próprio código), do meu amado Tarot Sola Busca. Em uma tradução livre do original em inglês, o comentário diz: uma das primeiras formas de magia incluía o uso do som.
Nesse momento, interrompi a leitura porque meu cérebro começou a fervilhar! Palavras mágicas, emitidas em formas de feitiços, mantras, para induzir um transe e preparar o discípulo para uma iniciação, cantos, para a harmonização de um ambiente, entre outros, tudo está relacionado ao som.
O pensamento hermético estabelece conexões entre a “pneuma” (vocábulo grego para espírito e sopro), o Logos, ou Verbo (como um princípio criativo) e a música das esferas de Pitágoras. A voz humana, ao operar um ritual religioso, transforma-se em um veículo condutor do espírito.
A gaita de foles, o canto, a oração, requerem um controle da respiração, para que haja um foco e dirija o “pneuma”, ou espírito, de forma eficaz. O som cria uma forma e direciona a energia.
A “Cornamusa” (o equivalente a gaita de foles em italiano), apareceu na Itália em meados da Idade Media, na mesma época em que  o Tarot Sola Busca foi criado. O nome “cornamusa” também me chamou atenção, sendo que corna/corno significa chifre; e musa, inspiração... uma referência claramente pagã? Pesquisei e constatei que existem teorias que associam a criação da gaita de foles ao povo celta.
E porque tudo isso? Porque meu pensamento me levou imediatamente ao meu filho preferido do magnífico Tarot Sola Busca. Esse é o único Tarot onde o Louco toca um instrumento parecidíssimo com a gaita de foles! Ao tocar a gaita de foles, o Louco dá o impulso a todo o Tarot, o sopro inicial, constante, forte, controlado, que nos conduz a outras esferas, que nos mostra o caminho, que nos traz foco e nos guia... pelo som!
O Louco e a gaita de fole no seculo XVI
O Louco e a gaita de fole no século 16
Pintura de Pieter Brueguel (1568)
E o que tudo isso tem a ver com uma jogada prática de Tarot?
Precisamos prestar muita atenção às cartas que vem logo após o Louco em uma leitura. Por não ter número fixo, ao meu ver ele direciona e foca a energia da carta que o segue. Ele envia o “espírito” para aquela energia. O Louco nos dá o impulso, o direcionamento, o espírito, a essência; ele reforça o caminho que devemos seguir.
Reflitamos: espera-se qualquer coisa daquele amigo louco que todos nós temos. Quando, em uma roda de amigos, alguém diz: já pensou se...? Ele é aquele que realiza a ideia maluca que mencionamos! O Louco é aquele que impulsiona com seu fôlego/“pneuma” a ideia e a leva adiante.
Dentro de sua essência, todas as loucuras são permitidas! O Louco é uma caixa de surpresas sem fim e ele ainda tem muito, mas muito mais para nos contar.
No momento, deixo aqui apenas um conselho: nunca, jamais subestime o poder do Louco. Com ele, tudo é possível e pode te levar a percorrer caminhos que não estavam nos seus planos, ou caminhos dos quais até Deus duvida....
Yeda Braz é professora de Inglês e de Tarot,
e estudiosa de simbologia.
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yedabraz@yahoo.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 29/09/2018
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