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14 de agosto de 2022

Responsável: Constantino K. Riemma


Por que um Tarô Nordestino e as
xilogravuras de Pedro Índio Negro
Patrícia Rosendo
Ler Tarô é ler imagens, símbolos e formas. Disso muitos já sabem. Sabem também que se considera o baralho de Marseille como o padrão Clássico. Não à toa, pois, apesar de datar três séculos mais novo que os primeiros tarôs que temos registro histórico, foi ele que deu base para os demais engendramentos simbólicos e imagéticos dos tarôs que o sucederam, principalmente os elaborados nas escolas esotéricas europeias – hoje os mais disseminados e utilizados para a prática contemporânea da Taromancia. Mas, apesar de receber a classificação de Clássico, está ainda distante também da iconografia das primeiras versões desse baralho; mesmo os baralhos mais antigos diferenciam-se entre si.
Taro Nordestino - cartas do taro de Marselha
Cartas do Tarô de Marselha na tiragem da Ferradura
São do século XV os documentos históricos mais remotos da história do surgimento e desenvolvimento do baralho de Tarô, este, herdeiro dos naipes dos baralhos comuns que o precederam. Para o leitor leigo no assunto, o baralho de tarô nasce como um jogo de entretenimento da realeza (era coisa da elite), pouco perseguido ao longo da história (jogos de azar sempre fizeram reboliço, coisa que desviava os homens dos seus afazeres) e popularizado ao longo dos séculos por causa do desenvolvimento tecnológico. Com o surgimento do papel, aí é que a coisa andou mesmo e ganhou o mundo!
A história do Tarô é também a história dos jogos de cartas de naipes. Aliás, como mencionado, foram elas que precederam este grupo iconográfico, que se nomeia Tarot por ser composto pelas cartas de naipes e os trunfos, renomeados pelos ocultistas europeus como Arcanos, menores e maiores, respectivamente (arcano significa chave, mistério). Outra informação interessante é que por diversas vezes fora modificado e adaptado de acordo com sua inserção nas sociedades europeias. Itália, Espanha, Alemanha, Suécia e tantas mais, cada uma fez modificações conforme quiseram.
"As cartas eram pintadas à mão ou produzidas para ricos compradores, que podiam mandar inscrever nelas símbolos que correspondessem a seus gostos pessoais". (Isabelle Nadony, 2022, p. 42)
Cada povo uma iconografia diferente. Na Alemanha, por exemplo, os naipes eram folha, glande, guizo e coração; na França, lança, trevo, losango, coração. Na Itália e Espanha apresentavam espada, denário, bastão e copa. São esses últimos os que configuram o grupo de cartas que chamamos Arcanos Menores. As fontes históricas não têm muito mais detalhes sobre essa variedade de iconografia nem apresentam qual foi a primeira versão. Mas, é possível afirmar "os primeiros baralhos conhecidos são alemães, com naipes inventados e normatizados ao longo do século XV, sem que se possa afirmar qual provém de qual" (ibidem, p. 43). Então, de acordo com os historiadores, primeiro surgiram os naipes (arcanos menores) e depois os trunfos (arcanos maiores). Estes últimos já não se utilizam para jogos lúdicos. Mentira, na França até hoje há encontros nacionais competitivos de tarô lúdico.
Curiosidade: durante a Guerra Franco-Prussiana (1870), Primeira Guerra Mundial (1914-18) e Guerra da Argélia (1954-62), soldados franceses levaram baralhos de tarot ao campo de batalha! Na sala virtual de jogos de cartas, Mega Jogos, é possível brincar com o tarot!
Ases no Tarô de Marselha
Ases de Paus, Copas, Ouros e Espadas no Tarô de Marselha
Se os naipes mudaram ao longo dos anos e de acordo com cada sociedade, os Arcanos Maiores não fugiram do mesmo destino. Desde o século XV até o presente as imagens nas cartas sofreram mudanças, drásticas, inclusive.
Tenho outros textos em que falo sobre os mais baralhos mais usados nos dias de hoje e é possível ver o quão distintas são as elaborações imagéticas e simbólicas. O Tarot de Marselha (chamado, clássico, século XVII) foi a base para os demais. Na sequência, o baralho desenhado por Pamela Smith, idealizado por Edward Waite (século XX); a espetacular artista Lady Frieda Harris, idealizado pelo polêmico Aleister Crowley (século XX) e, o Tarô Mitológico, idealizado por Juliet Sharman-Burke e Liz Green (final do século XX). Desses três últimos, o Waite-Smith é mais próximo ao padrão clássico, ou seja, é o que mais preserva similaridade com as imagens ilustradas nos baralhos franceses do século XVII em diante.
Ases no Tarô de Waite
Ases do tarot Waite-Smith
Todos esses baralhos trazem inovações imagéticas e simbólicas, de analogias e correlações com diferentes "disciplinas", o que permite o engendramento entre tradições esotéricas de diferentes sociedades, épocas e lugares, como por exemplo, as Greco-romana, Egípcia, Judaica e Babilônica, tão antigas quanto a própria humanidade. Assim, hoje o Tarô pode ser considerado um compêndio da sabedoria inerente ao ser humano, que ele construiu pela própria experimentação disso que chamamos Vida e de tudo o que ela implica. Parece ainda ser perturbadora a existência de um núcleo comum a todos os povos. Isso acontece com a língua, mas também com as crenças.
"O estudo comparativo das mitologias do mundo nos compele a ver a história da humanidade como uma unidade; pois achamos que temas como o roubo do fogo, o dilúvio, enterrados mortos, o nascido de uma virgem e o herói ressuscitado estão presentes no mundo todo – aparecem em toda parte sob novas combinações e se repetem como os elementos de um caleidoscópio. Além do mais, enquanto nas histórias contadas para entretenimento tais temas míticos são tomados sem maior seriedade – num óbvio espírito jocoso – quando aparecem em contextos religiosos, eles são aceitos não apenas como absolutamente verídicos, mas mesmo como revelações das verdades das quais toda cultura é uma testemunha viva e de onde derivam tanto sua autoridade espiritual quanto seu poder temporal. Não foi encontrada ainda nenhuma sociedade humana na qual tais motivos mitológicos não tenham sido repetidos […] representados na arte […]." (CAMPBELL, 2005, p. 15)
Campbell nos fornece uma informação muito precisa: o compartilhamento mundial de uma estrutura psíquica; estrutura que condiciona e forja uma cosmovisão compartilhada. Nesse sentido Campbell afirma:
"[…] uma comparação honesta revela imediatamente que todos [os mitos] foram criados de um único fundo de motivos mitológicos – selecionados, organizados, interpretados e ritualizados de modo diferente, de acordo com as necessidades locais, mas venerados por todos os povos da terra." (CAMPBELL, 2005, p. 16)
Ases do Tarô de Crowley
Ases do Tarot de Crowley (Thoth)
Mas, o que isto tem a ver com o Tarô?
O Mago, a Papisa e a Imperatriz no Tarô Nordestino
O Mago, a Papisa e a Imperatriz no Tarô Nordestino de Pedro Índio Negro
Há uma discussão antiga sobre o que explicaria a similaridade do conteúdo simbólico presente nas cartas com tantas outras civilizações. A possibilidade de fazer correlações com diferentes sistemas simbólicos (cabala, astrologia, numerologia, mitologias de diferentes etnias etc.) para muitos é explicado pela ideia de que o Tarô é herança de deuses da antiguidade ou de mestres espirituais para salvaguardar os mistérios (arcanos) do conhecimento milenar esotérico (escondido sob códigos desvelados a iniciados, discípulos). Na maioria das vezes, a resposta para o que não sabemos explicar com tanta precisão é dizer que o Tarô é algo de sobre-humano, um tipo de manifestação divina na Terra, afinal, não conseguimos rastrear sua origem até o ponto exato, quando algum humano, homem, claro, parou e pensou "por que não um baralho assim assado?" e deixou registrado todas as justificativas e explicações para assim o fazer.
Imperador, Papa e Enamorado no Tarô Nordestino
O Imperador, o Papa e o Enamorado no Tarô Nordestino de Pedro Índio Negro
"Muito fundo é o abismo do passado. Não poderemos dizê-lo sem fundo? Quanto mais fundo olhamos, quanto mais descemos ao mundo do passado, inquirindo-o e assediando-o, mais descobrimos que as origens da humanidade, sua história e cultura, se revelam insondáveis." (Thomas Mann)
O Carro, a Justiça e o Eremita no Tarô Nordestino
O Carro, a Justiça e o Eremita no Tarô Nordestino de Pedro Índio Negro
Acredito que a falta de intimidade com os limites da pesquisa do tempo das coisas contribui para este tipo de resposta. Porém, o estudo de Joseph revela, na verdade, que há o compartilhamento psíquico fundante das crenças (não necessariamente religiosas). Sua pesquisa é sedimentada por estudos da arqueologia, filologia, etnologia, filosofia, psicologia, história da arte, folclore, religião. Todos esses estudos revelam que, ainda hoje, compartilhamos os mesmíssimos princípios primitivos de cosmovisão. Não há ainda "uma nova imagem da unidade fundamental da história espiritual da humanidade" (ibidem p. 16). E é esta cosmovisão que dá base não só às religiões institucionalizadas ou as espiritualidades nova era, mas, também, às formas de viver em sociedade, princípios, valores e moral. Não se limita, portanto, ao lugar do religioso na humanidade, mas sim aquilo que é intrínseco ao ser humano.
A Roda da Fortuna, a Força e o Pendurado no Tarô Nordestino
A Roda da Fortuna, a Força e o Pendurado no Tarô Nordestino de Pedro Índio Negro
O estudo do Imaginário do francês Gilbert Duran também traz informação similar: há, inclusive, um padrão de temas mitológicos que obedece, por exemplo, a movimentos biológicos, como as estações do ano e os processos de reprodução sexual e secreção dos excrementos humanos. O que estes autores nos mostram é que o humano é e sempre será humano onde quer que ele esteja e de onde quer que ele brote: é o mesmo princípio, simbólico.
A Morte, a Temperança e o Diabo no Tarô Nordestino
A Morte, a Temperança e o Diabo no Tarô Nordestino de Pedro Índio Negro
Então, se o conteúdo simbólico do humano é compartilhado por todos, por que com o tarô seria diferente já que ele é produto do homem em sua cultura? Então é natural que haja diversas similaridades entre imaginário e simbólico de civilizações distantes entre si pois, sempre feita de humanos. Sendo assim, seria possível encontrar tais similaridades entre sociedades e tempos tão distantes entre si, como a sociedade medieval italiana e a nordestina?
A Torre, a Estrela e a Lua no Tarô Nordestino
A Torre, a Estrela e a Lua no Tarô Nordestino de Pedro Índio Negro
É nesse sentido que encontro mérito no trabalho de Pedro Índio Negro por ter desenvolvido o Tarô Nordestino. Próximas já pela estética, a xilogravura – característica da literatura de cordel, ambas vindo da Europa e assimiladas à cultural dessa região do Brasil – guardando relação com a Europa medieval, desde da chegada dos portugueses nas terras brasilis. Remanescências da arte medieval na cultura popular nordestina. Distanciam quanto as representações mitológicas, religiosas e folclóricas, mas que guardam em si semelhanças a respeito a representatividade de tais personagens dentro da cultura. João Grilo, o Vaqueiro, a Rainha do Maracatu; o Preto Velho, a Baiana do Acarajé, o Babalorixá; o Cacique, a indígena; o Coco de Roda, os Repentistas, o Frevo, o Maracatu, os Bonecos Gigantes; este são alguns exemplos de tais afastamentos imagéticos e aproximações simbólicas. Muito provavelmente você leitor, que tem familiaridade com os clássicos arcanos se perceba tentando dizer quem é quem.
O Sol, o Julgamento e o Mundo no Tarô Nordestino
O Sol, o Julgamento e o Mundo no Tarô Nordestino
A pesquisa de Pedro conseguiu aproximar dois imaginários, duas culturas manifestando um baralho além de estaticamente belo e cultural, poético. O Tarô Nordestino é, assim como o Tarô medieval, um compêndio cultural de conhecimento e arte. Um verdadeiro item de coleção para quem ama manifestações de arte e cultura. Aos tarólogos que amam o Tarô, um exemplar que vai dar gosto de ver na mesa.
O Louco, a caixa do baralho e o autor Pedro Índio Negro
O Louco, a caixa do baralho e Patrícia Rosendo ao lado do autor Pedro Indio Negro.
"[…] uma única e amplamente difundida família de idiomas que deve ter-se originado de uma única fonte e inclui, além do sânscrito e do páli, a maioria dos idiomas do norte da Índia, o persa, o armênio, o albanês e o búlgaro; o polonês, o russo […], o grego, o latim e todas as línguas da Europa, [com algumas exceções]. […] E não apenas as línguas puderam ser facilmente comparadas, mas também as civilizações e religiões, mitologias, formas literárias e modos de pensamento dos povos em questão. […] Não era de se admirar, então, que essas descobertas causassem tamanho espanto entre os principais sábios e filósofos do século!" (ibidem, p. 20)
Referências:
Joseph Campbel – As máscaras de Deus - Vol. I, 2005
Michel Dummett – The History of the Occult Tarot: 1870-1970.
Patrícia A. Rosendo – Taromancia, o que sabemos: um estudo exploratório da Taromancia contemporânea no Brasil, 2021
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Contato para aquisição do jogo : taronordestino@gmail.com
Perfil do Autor : www.instagram.com/pedroindionegro
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Patrícia Rosendo
faz análise e aconselhamento presenciais e online: 
www.patriciarosendo.wordpress.com
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
Edição: CKR - julho/2022
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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