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11 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


A Morte, os desligamentos e os desapegos
Verbenna Yin
Um esqueleto montado em um cavalo branco, enormes, cavalgando por cima das pessoas na terra. Ele já pisoteou o rei, que está caído no chão ao lado de sua coroa, e está prestes a passar por uma mulher e uma criança. Adiante, um sacerdote tenta argumentar com esse ser cadavérico que continua seu passo sem qualquer empatia. Todos caem prostrados ante sua magnitude. Ao fundo, vemos uma queda d’água que separa aquela terra das torres que emolduram um grande sol ao longe.
A Morte, os desligamentos e desapegos
A Morte no Tarot Rider-Waite e Pamela C. Smith
Aqui temos o grande arquétipo da morte, o fim de todas as coisas como são conhecidas no mundo físico. Simbolicamente, os desligamentos e desapegos impostos pela vida aos quais teremos que nos render em algum momento.
Quando algo morre no mundo físico, seja um animal ou um vegetal, ocorrem os processos de decomposição dos materiais orgânicos que não resistem à ação transformadora da natureza. A transformação acontece por meio de reações químicas que dissociam os elementos componentes daquele organismo, promovendo o desfazimento da forma original e permitindo outras reações e combinações entre os elementos que se reorganizam, favorecendo potencialmente o aparecimento da uma nova forma.
Esse mesmo processo pode acontecer no nível psíquico, pois a morte é uma representação arquetípica e está além dos domínios do nosso controle consciente.
Na carta, as figuras atingidas estão em primeiro plano, em terra firme, denotando que os processos arquetípicos de morte, que se operam psiquicamente, são iniciados a partir de eventos no mundo externo, na realidade.
Simbolicamente, a morte é justamente a experiência humana pela qual passamos todos quer queiramos ou não, podendo representar com muita propriedade esse evento temido e indesejado que não podemos controlar. Aqui na carta, a representação simbólica do arcano indica um momento de extrema tensão emocional associada a um quadro da realidade que se impõe e ao qual será impossível resistir. Um trauma.
Por ser um processo arquetípico e de intensa carga emocional, o prenúncio da chegada da morte é sempre acompanhado pelo medo e uma certa perturbação. O medo nos faz agir impulsivamente para nos defendermos das mudanças inevitáveis que decorrerão da experiência, pois onde há medo há ainda um Ego que resiste.
Infelizmente, a morte é uma experiência em que toda a resistência apresentada será insuficiente, ela é grandiosamente maior que todas as nossas possibilidades de ação e sempre vencerá, passando por cima de tudo que havíamos planejado e construído. Exatamente como a sugere a carta.
No aspecto psicanalítico, a consciência tentará se proteger diante da intensidade dos afetos relacionados ao evento externo, podendo se encaminhar por duas possibilidades: conformar-se à experiência e promover uma adaptação iniciando uma estrutura neurótica, ou cindir-se e iniciar uma estrutura psicótica.
Na primeira hipótese, a carga emocional gera um conflito tão grande para o indivíduo que ele precisa defender-se dessa dura realidade para sobreviver psiquicamente e poder continuar sua trajetória. Assim, o indivíduo abre mão de partes de si mesmo que naquele momento não podem sobreviver a um dado contexto que é real e de extrema exigência para ele, mas que extrapolam seu âmbito de ação consciente.
Poderia ser o caso de alguém que vai bem nos estudos mas vive numa família que não valoriza o conhecimento por conta da necessidade de recursos e tem que abandonar a escola para trabalhar e ajudar financeiramente. Suas habilidades intelectuais não são reconhecidas e para continuar pertencendo ao seu grupo, garantindo sua sobrevivência emocional, o indivíduo abre mão de algo muito próprio. Ao abrir mão de algo genuinamente nosso é como passar por uma pequena morte, pois enterramos esse desejo e todo o esforço anterior feito para alcançá-lo, que agora não será mais recompensado. 
Note que na carta quem argumenta com o Cavaleiro da Morte é o Bispo, figura que aparece anteriormente no arcano do Hierofante que nos fala justamente da importância do pertencimento para um desenvolvimento psíquico saudável. Não é à toa que essa mesma figura e tema sejam revisitados aqui, pois a ideia é de que haverá uma negociação para que a morte completa não aconteça e assim consciente e inconsciente põem-se em termos para defender a sobrevivência e permitir a adaptação do indivíduo ao seu meio da forma que for possível. A frustração aqui é determinante, mas o indivíduo é capaz de superá-la de alguma forma e seguir com sua vida e desenvolvimento.
E a carta segue dando as dicas do que acontece nesse processo. As torres que vemos ao fundo reaparecerão no arcano da Lua mais pra frente, onde finalmente poderá ocorrer o retorno ao Id para que o indivíduo possa buscar, consciente e voluntariamente, suas partes perdidas na experiência da morte. Mas aqui o processo todo acontece de forma inconsciente, o Sol está se pondo e é ofuscado pelas torres.
Na adaptação ao trauma, a divisão dos aspectos intrapsíquicos acontece como tentativa de apaziguar a tensão interna, o que geralmente ocorre com a criação de um sintoma lançado na realidade externa a fim de manter uma certa convivência pacífica entre as forças psíquicas conscientes e inconscientes. Pode se materializar como um padrão de repetição de eventos externos (rompimentos bruscos de relacionamentos, desligamentos de empregos onde nos dedicamos demais, amigos que se afastam sem motivo aparente, etc.), onde o que na verdade se repete é a sensação interna de impotência e isolamento. Conectados com o arquétipo ainda não assimilado pela consciência, vamos repetindo a experiência até que ela seja visível aos nossos olhos internos – para podermos trabalhar com isso adequadamente.
Então, no quadro neurótico, apesar de sobreviver e ser capaz de participar da realidade, produzir e se relacionar, o custo dessa sobrevivência para o indivíduo será a repetição que se estabelece doravante, condição que o colocará em conflito psíquico permanente, impedindo-o de desfrutar prazerosamente da vida porque ele fará de tudo para não entrar em contato com esse conteúdo forçosamente reprimido, criando métodos e caminhos mentais para assegurar que não enxergará esse material que foi “enterrado”. De forma que a aparente inevitabilidade dos eventos justifica sua ocorrência e a mente consciente não percebe que existe uma poderosa força psíquica de atração desses acontecimentos.
Geralmente nesse quadro neurótico, o indivíduo pode se sentir seguro comprometendo-se com demasiadas tarefas diárias e necessidades que sente ter que atender minuciosamente. Não existem grandes ações diante da vida, os sonhos são sempre impossíveis de realizar, a pessoa se mantém o tempo todo ocupada com pequenas coisas enquanto o alcance das suas ações nunca é suficiente para contemplar os desejos reais, que permanecem não admitidos. No fundo, ela está se empenhando numa luta constante consigo mesma, embotando seu âmbito de visão e percepção para manter afastado aquele afeto/desejo amputado que é a origem de todo o quadro.
Esses conflitos são vividos por repetição e podem ser a origem de neuroses que se manifestam de forma obsessiva (mente) ou histérica (corpo), dado sua natureza originária em comum. Freud tocou neste ponto em sua obra “As neuropsicoses de defesa” ao afirmar que o indivíduo age para afastar a memória traumática e transformá-la numa representação diversa, entendendo que a manifestação da neurose seria assim o resultado de “uma ocorrência de incompatibilidade que aconteceu em sua vida ideacional”. O afeto reprimido do trauma pode ser reproduzido em fatos inusitados como repetições compulsivas, pequenos acidentes, cortes e até em sintomas físicos, e essas repetições num dado momento forçarão o indivíduo a revisitá-las conscientemente como propõe J. Lacan ao estabelecer como matema que: “O que não veio à luz do simbólico, aparece no real.”
Já o quadro psicótico se dá quando a consciência foi dissociada prejudicando a coerência entre mundo interno e externo pois os conteúdos inconscientes irrompem desenfreadamente na consciência e não há mais como controlá-los.
É o surto, um momento de rompimento com a realidade e o indivíduo não consegue lidar de forma compatível com as coisas que lhe acontecem. Ele pode identificar um gatilho na realidade e vivenciar crises de pânico e ansiedade, que parecem reações exageradas e incoerentes com o evento externo relacionado, ou pode também criar uma porta de acesso permanente ao inconsciente iniciando um quadro psicótico.
A negociação com o consciente não é mais possível nesse caso. Nise da Silveira, importante psiquiatra brasileira que usou a abordagem Junguiana na terapêutica de pacientes psicóticos, sobretudo esquizofrênicos, faz a seguinte observação em sua obra “Imagens do Inconsciente”:
“Quando o ego cinde-se, estilhaça-se, seja por incapacidade para suportar a tensão de certas situações existenciais, pelo envolvimento em relações interpessoais destituídas de amor, frustrantes ou opressivas, seja devido ao impacto de emoções violentas ou ao trabalho surdo de afetos intensos, a libido introverte-se, vindo reativar o inconsciente. O ego, partido em pedaços, não tem forças para fazer face à realidade externa nem tampouco consegue controlar a maré montante do inconsciente.”
A Morte no Tarot de Marselha-Camoin
A Morte no Tarot de Marselha
Em um e outro caso, a fragmentação será inevitável e a continuidade do desenvolvimento psíquico irá depender de que o Ego seja capaz de juntar todos os pedaços novamente. Isso pode levar muitos anos até que a pessoa esteja fortalecida novamente para realizar esse trabalho interno, e tanto a neurose como a psicose podem ser os caminhos mentais cujo propósito final será a integração possível dos fragmentos do Eu.
É o que propõe a imagem dessa carta no Tarot de Marselha, indicando o trabalho da consciência em reunir as partes fragmentadas que num outro momento poderão ser unidas novamente visando a recomposição psíquica em uma unidade integral. 
Nesta imagem, a figura que segura a foice tem partes do corpo com pele e tecidos, mas em outras partes tem apenas ossos, simbolizando bem essa perda de partes essenciais de si que ocorre nos processos de fragmentação. A figura perdeu o pé, a mão, e o rosto: sem os pés não pode se dirigir ao que deseja, não tem autonomia; sem as mãos fica impedida de realizar e agir; e sem o rosto fica sem identidade. É a total impotência.
Mas a atitude dessa figura é o ajuntamento dessas partes perdidas que estão espalhadas pelo chão, sugerindo que a noção do tarot para a vivência deste arcano é positiva e que a experiência da morte, no fundo, visa à recomposição do indivíduo à sua forma original. Quanto maior a força impactadora do evento que criou a fragmentação, tanto maior será a força de coesão necessária para recompor a integridade interna.
É o que Jung reitera ao afirmar que “quando o processo atinge a esfera do inconsciente coletivo passamos a lidar com material sadio, isto é, com a base universal da psique, sejam quais forem as variações individuais”. E ainda: “as coisas que vêm à luz brutalmente na loucura permanecem ocultas nas neuroses, mas, apesar disso, continuam influenciando o consciente. Quando a análise dos neuróticos penetra mais profundamente, descobre as mesmas figuras arquetípicas que ativam os delírios dos psicóticos.”
Qualquer que seja então o desdobramento do consciente diante da experiência de morte, neurose ou psicose, sempre haverá um ponto comum e originário do processo que levarão ao material arquetípico desejado: a transformação.
É na reorganização posterior que ocorrerá a trans-formação, a mudança da forma antiga para uma nova apresentação. O trabalho do Ego consciente será o de assimilar a experiência, reconhecendo e nomeando os afetos e emoções relativos a esse evento impactante e dando lugar ao processo de luto, onde a pessoa poderá elaborar o que lhe aconteceu e ir se despedindo daquela forma anterior para assumir essa nova apresentação da realidade e de si mesma.
A Morte no TArot Osho Zen
A Morte no Osho Zen Tarot
A transformação é a imagem proposta pela representação desse arcano no Tarot Zen de Osho, que relaciona essa experiência ao deus hindu Shiva, senhor do fogo destruidor que reduz tudo a cinzas e permite os recomeços.
Geralmente os processos do arcano da morte estão associados a separações, perdas, rejeições e também a falecimentos reais. Qualquer que seja o disparador externo, será necessário lidar com a emoção desencadeada diante da impotência e que em algum momento será constituinte dessa nova versão individual, transformada.
Quando o arcano da morte se manifesta numa leitura terapêutica, é importante localizar na linha do tempo que evento foi esse que marcou tão intensamente a pessoa, para que ela possa nomear a experiência e se dar conta do que foi preciso renunciar e “deixar morrer” para seguir adiante. Ou talvez ela esteja revivendo essa pequena morte no momento atual, envolvida num processo de desapego muito importante.
Em todo caso, a escolha dessa carta mostra que é tempo de reconhecer que perdas aconteceram e que possibilidades reais existem de agora em diante. Pode ser necessário vivenciar no momento atual o luto para assimilar completamente a experiência e dali poder retomar seu desenvolvimento em novas bases.
Verbenna Yin é taróloga, astróloga e terapeuta floral.
Contatos: verbennatarot@gmail.com
www.verbennayin.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
Edição: CKR – 9/08/2018
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