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03 de abril de 2020

Responsável: Constantino K. Riemma


O naipe como imagem e símbolo
Evoluções ao longo do tempo
Katharina Klie Dupont
Cartas de jogo fazem parte do nosso cotidiano e da cultura popular desde o século XVI como forma de diversão e entretenimento. Mas o uso das cartas vai além de um mero jogo. Ao longo dos séculos, baralhos de todos os tipos e tamanhos tem sido utilizado como diversão, de forma educativa, de forma divinatória, política ou até mesmo retratando a nacionalidade ou a representação étnica de um povo Sua popularidade deve-se sem dúvida ao seu trabalho artístico e aos símbolos nele contido e que foram subestimados ou pouco estudados em sua evolução imagética.
Naipes - imagem e símbolo - Cartomante
Leitura da sorte. Pintura de Mikhail Ivanovich (1841)
Ao longo do tempo, as fronteiras entre os países se modificaram devido a questões políticas e sociais e em todos, o comércio de naipes contribuiu para sua distribuição e posterior modificação dos símbolos seguindo os costumes locais. Seis séculos de distribuição e uso das cartas que demostram a evolução do símbolo e que sendo assim, nos mostram diversas evoluções imagéticas.
De acordo com isso, a proposta que apresentamos aqui é a análise do símbolo do naipe desde sua origem até a contemporaneidade abrangendo seus aspectos culturais, sociais, históricos e linguísticos e s para sustentar tal análise abordaremos o naipe como imagem a partir da perspectiva de estudos multiculturais e históricos.
Naipe como imagem
Valores de uma sociedade são expressados através da imagem quando a vemos como um artefato cultural nos direcionando para seu imaginário social, revelando aspectos culturais que devem ser analisados dentro de um contexto histórico. Sendo ela, a cultura não apenas é um artefato cultural mas sim a reunião de práticas, valores e saberes que são analisados dentro do viés etnográfico e histórico. Nesse sentido a antropologia visual direciona seu foco na práxis da imagem mais precisamente na relação entre imagem e história. De acordo com Belting (2007)
Uma imagem é mais que um produto da percepção. Manifesta-se como resultado de uma simbolização pessoal ou coletiva. Tudo que atravessa o olhar ou pela visão interna é compreendido assim como imagem ou ainda, pode-se transformar em imagem. Devido a isso considera-se seriamente conceito de imagem. Vivemos com imagens e entendemos o mundo como imagens. Esta relação viva com a imagem estende-se igualmente na produção de imagens que desenvolvemos na produção social e que podemos afirmar vinculam-se com as imagens mentais como uma pergunta com resposta. (BELTING,2007).
As imagens, de acordo com o autor, dispõem de meios para transmitir sua linguagem, para que percebamos. Assim podem ser meios de conhecimento que também se manifestam como textos. O meio, segundo ele, é caracterizado precisamente pela compreensão da forma (transmissão) da imagem, representado a qualidade material da imagem e esta última possuindo uma qualidade mental Podemos estabelecer uma comparação entre duas faces da moeda e o conceito de imagem e meio. São inseparáveis entre si mas estão separados pelo olhar e significam coisas distintas. A percepção da imagem é uma ação simbólica que é praticada em diferentes culturas. Aqui, nesta abordagem, a imagem fala por si e não é atrelada a linguagem.
Naipe como símbolo
Símbolo em grego significa uma convenção ou celebração de um contrato e já dizia Aristóteles que até mesmo um nome é um símbolo, ou seja, um signo convencional. Símbolos podem ser desde um estandarte ou emblema ou até mesmo imagens figurativas quando se tem uma ideia ou algo semelhante aplicável a ela. É de acordo com o mesmo, a associação de palavra com a nossa capacidade de imaginação.
Segundo Santaella e Noth (1997) o símbolo se liga ao seu objeto através da associação de ideias que se relacionam entre elas. É através de todo conhecimento adquirido através da representação mental das informações visuais e linguísticas que recebemos que moldamos a concepção do objeto e que tornam possíveis a formulação do pensamento imagético.
Segundo outra linha teórica como a semiótica, podemos questionar se ainda se as imagens teriam um significado per se ou se sua intepretação seria atrelada a linguagem. Apesar de algumas linhas acentuar a dependência linguística da imagem, isto é, para compreender a imagem é necessário um texto ou algo que lhe dê definição, estudos mais recentes tem se apoiado na independência da imagem com relação a linguagem.
BARTHES (1964) afirma que o entendimento de uma imagem é conduzido através da mediação da linguagem. Seu significado nunca é autônomo e que a imagem necessita de uma linguagem verbal para ser compreendida.
Porém como ver estes dois conceitos dentro da história da origem no Naipe?
Segundo WILKINSON (1895) é uma verdade universalmente conhecida que muitos dos jogos que conhecemos hoje em dia como o dominó ou xadrez provém da China aproximadamente no século IX e que foram difundidos na Europas através do comércio de especiarias e seda. Porém atribui-se também aos chineses a criação dos jogos de cartas e as primeiras referencias imagéticas do naipe encontram-se aqui. A prensa também foi desenvolvida na China por volta do século VIII para textos budistas e posteriormente papeis bancários e papel moeda. Da mesma forma cartas de jogos foram também impressas em blocos de madeira.
Naipes - imagens e símbolos - Dominó chinês
Cartas de dominó chinesas
Fonte: http://a_pollett.tripod.com acessado em 20/04/201
Ao contrário do dominó, cartas de jogo consistiam em vários tipos como as cartas do Gun Pai, que eram divididas em quatro grupos, sendo que os três primeiros grupos tinham nove cartas cada, e representavam moedas, centenas de moedas, e milhares de moedas, divididos em 4 naipes simbólicos e que se usava como cartas monetárias. Ainda de acordo com WILKINSON (1895) continham personagens folclóricos e trechos da literatura da época.
Naipes - carts do gun Pei chinês
Cartas do Gun Pei chinês
Fonte: http://a_pollett.tripod.com acessado em 20/04/2019
Ainda de acordo com as pesquisas do autor, outro jogo mais conhecido como “jogo das folhas” relacionava provérbios e poesias em folhas que seriam muito mais práticas do que os pergaminhos e contribuíam assim para a disseminação de ensinamentos e boas maneiras entre a população. Além deste tipo de jogos encontramos também registros sobre os jogos de beber chineses, utilizados em festas da dinastia Ming e retratavam em seus textos e imagens costumes, literatura da época e personagens históricos.
Ainda de acordo com LO (2007), possivelmente tais jogos tenham, de alguma forma, chegado à Arábia no final do século X, onde foram adaptados e deram origem a um novo jogo totalmente diferente, chamado na'ib ("delegado"). Assim como os jogos chineses, as cartas do baralho de na'ib eram divididas em quatro grupos: moedas, taças, espadas e bastões de pólo, um jogo muito popular na Arábia da época.
Naipes - baralho mameluco - Três de Copas e Cinco de Ouros
Baralho 'Mamluk': Três de Copas e Cinco de Ouros
Estes quatro grupos, para muitos, são a evidência de que o na'ib evoluiu do jogo chinês: assim como no baralho chinês, há um grupo de moedas; as cartas do grupo de bastões de pólo são muito semelhantes às cartas de centenas de moedas, que também tinham figuras de bastões; já os grupos de taças e espadas viriam dos ideogramas chineses usados para escrever wan ("dez mil") e shi ("dez"), muito semelhantes, respectivamente, a um cálice de cabeça para baixo e a uma espada. Cada grupo do baralho de na'ib era composto de catorze cartas, sendo dez numéricas, contendo de um a dez desenhos do símbolo do grupo que representava, e quatro "delegados", cartas que representavam o Rei, o Vizir (ou Vice-Rei), o Deputado (ou Delegado do Rei) e o Ministro Religioso e que correspondem as cartas da corte como nós as conhecemos. Como o islamismo não permite representações artísticas de seres humanos, as cartas dos delegados eram ricamente decoradas, e traziam o nome da figura correspondente em árabe, mas não tinham uma figura humana no meio.
De acordo com PLACE (2016), no século XIV, o baralho de na'ib chegou à Espanha, levado pelos mouros que se instalaram na Península Ibérica. Lá, o baralho continuou evoluindo: graças a um erro de interpretação, a palavra na'ib, originalmente usada para nomear as figuras humanas do baralho, passou a ser usada para os quatro grupos de cartas. Em espanhol, na'ib virou "naipe". Os símbolos também acabaram adaptados: as moedas continuaram sendo redondas e decoradas, mas as espadas, que no baralho original árabe eram cimitarras, curvas, no espanhol se tornaram espadas europeias, de lâmina reta; os bastões de pólo, jogo desconhecido na Espanha, foram substituídos por clavas rústicas de madeira; e as taças alongadas características dos árabes ganharam formas mais arredondadas, mais parecidas com cálices cerimoniais da Igreja. As cartas espanholas também eram bem menos decoradas que as árabes, para facilitar sua produção.
Posteriormente na primeira metade do século XV, relatos históricos chama tal baralho de Cartas Sarracenas, que atesta sua origem moura e desta forma são descritas pelo autor:
Os naipes mamelucos eram cálices, cimitarras, moedas e bastões de polo. Não sabemos o significado desses símbolos na cultura muçulmana, mas, considerando que eram suntuosas obras de arte desenhadas para os nobres mamelucos, é provável que representassem quatro aspectos da vida de um nobre, ou, melhor dizendo, da “boa vida”. As moedas representavam a riqueza; cimitarras, as artes marciais; bastões de polo, os esportes; e cálices, a sensualidade. (PLACE,2017)
Naipes - baralho espanho de Santillana, Todelo, 1610
Spanish deck by Santillana in Toledo, 1610.
Fonte: Museu Fournier em Alava Gasteiz- Espanha.
PLACE (2017) afirma que um dos primeiros textos a descrever previsões com as cartas é o Juego de Naypes espanhol, de cerca de 1450, de Fernando de la Torre, que dedicou seu trabalho à condessa de Castañeda. Fernando de la Torre descrevia uma partida jogada com um baralho de 49 cartas dos quatro naipes espanhóis, com nove cartas numeradas e três cartas da corte em cada naipe. O baralho também incluía uma lâmina adicional do Emperador, que funcionava como um coringa.
Jogo de Naipes - Fernando de La Torre - 1450
Juego de Naypes, de Fernando de La Torre, 1450 - Texto explicativo das cartas
Fonte: https://dialnet.unirioja.es acessado em 20/04/2019
O autor também mencionava que o baralho poderia ser usado para ler a sorte, mas apenas se o assunto fosse o amor. As cartas poderiam predizer o interesse amoroso de um homem com cada naipe representando uma classe diferente de mulher: moedas simbolizavam as donzelas; copas, as esposas; espadas, as freiras; e paus, as viúvas. A partir do século XV as cartas sarracenas começaram a se espalhar pelo restante da Europa chegando à Alemanha, Itália e demais países e desta forma inspirando, dentro dos costumes e cultura locais, a criação de diversos outros modelos tais como as Cartas de Caçada, Tarocchi e outros baralhos posteriores.
Naipes - evolulção das imagens
Evolução das imagens dos naipes - Espadas, Copas, Paus e Ouros - desde o baralho mameluco até o francês
Compilação da autora
Desta forma naipes refletiam estratos da sociedade, seus costumes e aspectos da cultura na qual se encontravam. Estabelecendo, tal como citou SAMAIN (2016) e BELTING (2017) acima, as relações entre imagens, a mensagem que ela carrega em si e os aspectos históricos e culturais presentes.
Com tudo isto, podemos concluir que a história da imagem do naipe é também a história dos meios de criação e que de acordo com BELTIN (2007), elas fundamentam significados e que sendo artefatos ocupam um lugar no espaço social, representando de esta forma os contextos culturais de sua concepção e sendo assim, naipes tem sido a representatividade social, cultural e linguística menos estudada e mais evidente ao longo do tempo.
Referências:
BARTHES, Roland. A Câmara Clara, Rio de Janeiro; Nova Fronteira,1984
BELTING Hans, Antropología de la Imagen, Buenos Aires, Katz Editores, 2007
DENNINGS, Trevor. The playing cards of Spain: a guide for historians and collectors. Londres: Cygnus Arts, 1996
DIDI-HUBERMAN. La Imagen superviviente: Historia del arte y tempo de los fantasmas según Aby Warburg. Madrid: Abada Editores, 2009
GOMBRICH.E.H.The Uses of Images. México. Fondo de Cultura Economica , 2003
LO, Andrew. The game of leaves: an inquiry into the origin of Chinese playing cards. Bulletin of the School of Oriental and African Studies. University of London. Volume 63 Issue 3. P.389-406. Janeiro 2000
PLACE, Robert. Alquimia e tarô: uma investigação de suas conexões históricas. SP, Presságio, 2016
PRATESI, Franco. Playing card trade in de 15th century Florence. North Walsham IPCS Papers, nº 7, 2012. Disponível em http://trionfi.com/cambino-trade-venice. Acesso em 23/10/2018
SAMAIN, Etienne. Como pensam as Imagens/ organizador Etienne Samain. Campinas. Ed. Unicamp. 2012
SANTAELLA; Noth. Lucia e Winfried. Imagem, Cognição, Semiótica, Mídia. São Paulo. Ed. Iluminuras, 1998
SAUKA, Mariana Yelena. O Livro de Emblemas de Andrea Alciato: Apresentação e Tradução. Tese de Mestrado em História da Arte – Fac. Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, Guarulhos. 2016
SOUZA, Karla. Cartomancia Lenormand: O estudo do agora. Londrina. Karla Souza, 2018
WILKINSON W.H. Chinese Origin of Playing Cards. American Anthropologist, Vol. 8.p.61-78. Jan. 1895
Katharina Dupont
é tarologa e pesquisadora de cartomancia espanhola.
Formada em Letras-Espanhol pela Unifal-MG.
www.instagram.com/entremundostarot
www.entremundostarot.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 21/01/2020
  Baralho Cigano
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