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01 de outubro de 2020

Responsável: Constantino K. Riemma


O Jogo de Naipes - Poema de Fernando de La Torre
Katharina Dupont
 
Uma grande parte da poesia espanhola do Séc. XV foi publicada no formato de Cancioneros, um compilado de textos de diversos autores e que tinham como temática o "amor cortês" através de uma poesia elaborada.
Um destes Cancioneiros tem um papel importante na história do Baralho Espanhol, o Cancionero de Estúñiga que foi escrito na corte do rei aragonês Alfonso V durante a conquista de Nápoles em 1443 e que contém obras de poetas castelhanos, aragoneses e catalães. Foi recompilado entre 1460-1463 e deve seu nome ao poeta Lope de Estuñiga graças ao seu trabalho de compilação. Nele encontramos a obra de Fernando de La Torre (1416-1475), El Juego de Naypes (1450), que é a interpretação poética do Baralho Espanhol de 48 cartas e totalmente dedicado à Condessa de Castañeda. O que o torna mais curioso ainda é a presença do Emperador, que o autor cita "venceria todas as demais cartas" e que corresponderia ao Trunfo 4 do Tarot.
Jogo dos Naipes - Poema de Fernando de La Torre
Nobres jogando cartas
Curiosamente não se menciona esta obra nos escritos sobre a histórias das cartas de jogar, apesar de ter sido editada em 1872 e posteriormente em 1907 e 1983. Encontrei esta obra em textos do autor Jean Pierre Etienvre que faz uma investigação do léxico das cartas de jogo durante o Séc. XVI.  De acordo com Etienvre, apesar de conter um trunfo do Tarot, a obra é a mais antiga referência às 48 cartas do Baralho Espanhol e cada naipe corresponde ao amor de um tipo de mulher, com alusão a história, literatura ou mitologia além de também ser associado a uma cor em especial e que correspondem:
Espadas (vermelho): Freiras
Paus 'Bastos' (preto): Viúvas
Copas (azul): Esposas
Ouros (verde): Damas
Os versos foram escritos na parte posterior das cartas e cada verso contém um número de linhas correspondente ao valor numérico de sua carta.
Os Reis têm 12 linhas, os Cavaleiros 11 linhas e os Pajens de entre 3 e 10 linhas. O poema do Emperador tem vinte linhas e foi escrito em letras de cor violeta.
Segue a transcrição de alguns trechos do poema:
 
JUEGO DE NAYPES
QUE COMPUSO FERNANDO DE LA TORRE EL DE BÚRGOS,
DIRIGIDO Á LA MUY NOBLE SENNORA CONDESA DE CASTANNEDA.
El emboltorio de los naypes ha de ser en esta manera. Una piel de pargamino del gran dor de un pliego de papel en el qual vaya escripto lo seguiente, é las espaldas del dicho emboltorio de la color de las espaldas de los dichos naypes.
Non creo nuevo será á vuestra sennoría haberme mandado que con alguna lectura vos syrviesse: y como vuestro mandado non podiese negar, pensélo poner por obra; mas como la escriptura non fuese breve nin tiempos asy quietos como quisiera, la conclusion ó medio de aquélla está por faser. Asy que para esperar la tal cena magnificencia y virtud, acordé de enbiar á vuestra noblesa una colaciónó passatiempo de la manera que baxa se fará relacion. Non dubde vuestra sennoría yo non entienda ser el presente baxo y non conviniente para tan gran excellencia, como la vuestra segund la calidat. Mas como quiera que esto de la una parte me físiesse temer, de la otra lo seguiente me dió osadía.
Ca á las grandes mares tan bien los arroyos, como los gruesos rios occorren y caben, non se me olvidando vuestra noble et palenciana condicion, la qual allende de comportar las mis faltas et osadía, favorescerá lo bueno de la obra, et lo defectuoso dissimulará ó emendará con singular et verdadera discrecion, como aquella que prinçesa de las Espannas se puede ó debe llamar. Et yo temiendo la reprehension de la obra, bien quisiera que fuera callado nombre del actor, salvo que por la obra se conosce el maestro, la cual lieva la marca de mi simplesa, et va firmada de la firma de mi poco saber, et cerrada et sellada con las armas de mi grossero sentido, et pendiente en filos de grand osadía, lo qual todo ha ciegado la afection et mysterio de las cosas ya dichas.
El humile et devoto siervo de vuestra merçed, Ferrando de la Torre
 
Neste trecho de forma cortês e galante, Fernando de La Torre oferece o poema para sua amada, a Condessa de Castañeda. Nota-se como ele se mostra de forma humilde e servil com relação a obra e se coloca à disposição da Condessa.
 
LA FORMA DE LOS NAYPES.
Primeramente un Emperador que gane á todas las otras cartas, et éste tiene dos coplas et un fin de letras moradas en esta guisa. Han de ser quatro iuegos apropiados á quatro estados de amores en esta manera. El primero de religiosas á las espadas, apropiado por las coplas segund la calidat de la casa. E han de ser doce naypes en este iuego, et en cada uno una copla, et ha de haber tres figuras, la primera del rey, copla de dose piés; la segunda del caballero de onse; la sota de diez, et dende ayuso diminuyendo fasta llegar á un pié, y por conseguiente todos los otros estados, assí como el de biudas apropiado á bastones y de casadas á copas y el de donçellas á oros, por tal que sean quarenta et ocho cartas et coplas syn las del prólogo ó Emperador.
E pueden iugar con ellos perseguera ó tríntin assy como en otros naypes, y de más pueden se conosçer quáles son meiores amores sin haber respecto á lo que puede contesçer. Porque á las veces es meior el carnero que la gallina, et pueden conosçer su calidat, y puédense echar suertes en ellos á quién más ama cada uno, e á quién quiere más, et por otras muchas et diversas maneras.
El Emperador de letras moradas ha de ser en esta guisa un naype en que se contengan estas coplas seguientes:
 
Neste trecho seguinte, o autor explica a estrutura do baralho: Quatro formas de amar correspondente aos 4 naipes do baralho espanhol onde o Imperador que tem o maior poema e logo, o maior peso no jogo ganha de todos os demais. Nota-se também a descrição e pontuação das figuras da Corte (já sem a Rainha, traço exclusivo do Baralho Espanhol). No trecho abaixo, é notório que o autor relaciona o texto com aspectos divinatórios já que explica que ao jogar pode-se também saber qual é o melhor amor para si antes mesmo da relação acontecer. A palavra suerte diz respeito ao azar, futuro, previsão.
 
E pueden iugar con ellos perseguera ó tríntin assy como en otros naypes, y de más pueden se conosçer quáles son meiores amores sin haber respecto á lo que puede contesçer. Porque á las veces es meior el carnero que la gallina, et pueden conosçer su calidat, y puédense echar suertes en ellos á quién más ama cada uno, e á quién quiere más, et por otras muchas et diversas maneras.
Jogo de Naipes - Poema de Fernando de la Torre - Stuniga
Página do Cancionero de Estúñiga que reune poemas século XV
 
Aqui, a descrição do Naipe de Espadas e da carta do Rei, todos os reis abrem os textos de cada naipe:
 
JUEGO DE ESPADAS.
apropiado á los amores de religiosas, todo de letras
coloradas.
EL REY, DOSE PIÉS, UNA CARTA.
Al tiempo del pelear,
Si se caen las espadas
De manos mal apretadas.
He visto quistionear
Disiendo, segund oy,
Por achaque ó por glosa,
Amores de religiosa
Andouieron por aquí,
Mas yo les respondo asy,
Por sententia y conclusion,
Ques una grande abusion
Que en los cobardes sentí
.
 
Aqui, a descrição do Naipe de Paus e com uma das cartas do naipe, o Três de Paus (Bastos) que fala sobre prazer ofertado pelas viúvas e que disfarça a necessidade de ter um amor.
 
JUEGO DE BASTONES.
apropiado al amor de las viudas, todo de letras
negras.
III BASTONES.
Es plaser lo que proponen,
Que mal fabla les disen,
Tal coraçon les ponen
 
A seguir, o Naipe de Copas que mostra o desafio de conseguir o amor das mulheres casadas e o texto do 6 de Copas.
 
JUEGO DE COPAS,
apropiado á los amores de las casadas, todo de letras
asules,
VI COPAS.
Pues amar es cosa humana,
Non se debe de iusgar,
Que lo tal es cosa vana,
De desir nin de pensar,
Sy non ved lo que yo fundo,
Sy es passado por el mundo.
 
Por fim, o Naipe de Ouros que fala do amor das donzelas e o poema do Cavaleiro de Ouros, que mostra que são as donzelas o ideal de mulher do amor cortês.
 
CAVALLERO, XI PUNTOS.
Éstos son á quien yguales
Todo hombre debe servir,
Y por quien bienes y males
Todo se debe sofrir,
Éstos son por quien la vida
Se meresce de poner,
Éstos son por quien non olvida
La gala de se exercer,
Éstos que fasen faser
Lindas iustas et invenciones,
Éstos doblan coraçones
.
 
Transcrição de Fernando de la Torre, Iuego de naypes,(1449), publicado pela primeira vez no Cancionero de Lope de Stúñiga, códice del siglo XV (Madrid, 1872), pp. 273-293.)A obra original pode ser acessada no https://archive.org.>
Com isto posso concluir que o baralho espanhol, sua história, poética e iconografia é ainda objeto de intensa pesquisa mesmo depois de cinco séculos e que aqui no Brasil, devido as questões linguísticas e culturais é também um ilustre desconhecido dentre nós, cartomantes de todos os tipos.
 
Referências:
ETIENVRE. Jean Pierre. El juego como lenguaje en la poesía de la Edad de Oro, 47 SEMINARIO INTERNACIONAL LITERATURA ESPAÑOLA Y EDAD DE ORO, VI EDICIÓN. Universidad Autonoma de Madri, Madri 1986
DENNING Trevor, Spanish Playing-Cards. London: IPCS, 1980, 94 p
PLACE, Robert. ​Alquimia e tarô: uma investigação de suas conexões históricas. ​ 1ª ed. Presságio, São Bernardo do Campo. 2016
 
Katharina Dupont
é tarologa e pesquisadora de cartomancia espanhola.
Formada em Letras-Espanhol pela Unifal-MG.
www.instagram.com/entremundostarot
www.entremundostarot.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR 05/08/2020
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