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23 de janeiro de 2022

Responsável: Constantino K. Riemma


Em 2022 devemos refletir sobre liberdade
Kelma Mazziero
Pensando sobre o arcano regente de 2022 me deparei com dois elementos interessantes se imbricando de forma a abrir uma reflexão bastante produtiva. Não tenho o hábito de seguir previsões ou tendências de maneira ferrenha, a vida para mim é uma combinação – às vezes linda, às vezes aterrorizante – entre liberdade e contingência.
Contudo, foi nesse imbricamento que me dei conta de que em 2022, tanto considerando o arcano dos Enamorados (2 + 0 + 2 + 2 = 6), quanto considerando o arcano do Louco (22 no final) temos a questão da liberdade a permear o que está por vir. Enamorados falam da escolha necessária, mediante as situações da vida, situações que conscientizam sobre a responsabilidade de ser livre e que convocam uma opção por determinado caminho ou posicionamento. O Louco, por sua vez, fala da coragem e da ousadia de ser livre para se arriscar nas experiências do viver. O primeiro tateia a liberdade, o segundo usufrui dela.
Foi esse cruzamento entre dois arcanos que me moveu a escrever. Na minha concepção o tema merece um olhar questionador em direção ao futuro e essa é minha proposta nesse texto.
Previsões 2022 - Kelma - Enamorados e Louco
Os Enamorados e o Louco no Pre Raphaelite Tarot
A discussão que envolve o ser livre versus ser um produto determinado pelo destino, dura há muito tempo e – assim espero – deverá seguir adiante, pois é uma questão instigante que nos permite ir além do sim ou não oracular, ganhando terrenos mais sutis, onde a temporalidade faz pano de fundo para encararmos o oráculo como um tipo de "brecha" em meio à existência. A combinação entre o que se explica e o que não se explica mantém intacto o encanto pela prática oracular. E é desse não saber ao certo que se busca um vislumbre do que pode vir a ser o próximo ano. Será que dá para saber? Será que essa previsão tem validade? Na dúvida, a gente arrisca. E escolhe tentar, para ver como as coisas acontecerão. Desse modo, mesmo sem se dar conta, a gente age como os Enamorados ao escolher a tentativa e age como o Louco ao se arriscar nessa aventura. Não é por menos, afinal, a liberdade tende a exercer certa atração para qualquer pessoa, até porque ela se faz presente de forma óbvia e às vezes nem tão óbvia assim.
Observe que a liberdade para alguns pode representar horizonte vasto, para outros pode representar quase uma prisão. Tudo depende do contexto. Vivemos num tempo em que ser livre pode ser maravilhamento e condenação. Escolho minha profissão, mudo de profissão se quiser, escolho parceiro, me separo do parceiro, tenho ou não amigos, escolho lugares para conhecer, me afasto ou não de familiares. O passar do tempo recortou o exercício da liberdade de modo peculiar, visto que há poucos séculos essas escolhas era algo impensável. São liberdades e posicionamentos que ajudam a lapidar quem vou me tornando enquanto vivo. Ao mesmo tempo, essa liberdade que me dá a escolha de estar no Instagram é a mesma liberdade que o outro se permite e que, às vezes, ganha forma de ataque ou imposição de valores.
Grosso modo, a liberdade que abre espaço para quebrar paradigmas pode ser também a liberdade do virtuosismo moral. Num âmbito cotidiano, a liberdade de expressão à qual me apego pode ser a mesma que me fere publicamente. É curioso, mas nos localizamos atualmente num lugar onde lados antagônicos usam para se defender o mesmo argumento pautado em liberdade. Para requintar a complexidade de ser livre, de repente, o que parecia ser uma liberdade nas redes, por exemplo, vira um problema: posts exalando felicidade que acabam por oprimir, imagens cheias de beleza que alimentam frustrações. O que parecia divertido corre o risco de se tornar o epicentro da insegurança e da competição num sobreviver desigual.
Ainda que 2022 não nos permitisse a incrível oportunidade de observar dois arcanos atravessados por uma mesma questão, ainda assim, deveríamos olhar para esse assunto com dedicação especial. Afinal, não é difícil se dar conta de que estamos caminhando para um delinear mais detalhado a respeito da nossa própria liberdade (e a liberdade do outro), consequentemente, precisamos da reflexão atenta – e não apressada – sobre o que envolve o ser e o estar no mundo contemporâneo. Nesse sentido, os arcanos são um detalhe que vem a calhar, pois com os Enamorados entendo que meu viver envolve posicionamento, pois o amadurecimento está nesse processo de aprender com minhas decisões (isso implica também entender que, se é aprendizado, eu ainda não domino o assunto); e com o Louco exercito a personalização dessas decisões, mesclando um pouco a coragem com a irreverência de não me levar tão a sério, enquanto aceito sem tanta relutância a aventura que é (sobre)viver.
Os dois arcanos podem contribuir para dar o tom para o (novo?) ano, ambos alertam, orientam e questionam a mim, inclusive, sobre um posicionamento antigo e enraizado, o de não analisar tendências anuais a partir das cartas do tarô. Com novos desafios devem vir também novos olhares.
Resta desejar a todas as pessoas que me leram até aqui um bom ano. Aquilo que a gente sempre deseja, seja por educação ou mesmo por anseio, mas que aqui o faço intencionalmente, seguindo o tema do ano, a partir de uma decisão consciente. Escrever em primeira pessoa torna essa experiência personalizada quase um testemunho, uma partilha, pois não há como falar em liberdade sem expor nas entrelinhas aquilo que eu quero – e escolho – dizer. Para mim falar de tarô é falar da vida, do que me trouxe até aqui e do que pode vir a ser, num entrelaçar constante entre o que o oráculo me revela e o que eu pretendo fazer a partir dessa revelação.
A beleza das cartas está, justamente, naquilo que não se revela e que eu vou descobrir a partir dessa porta entreaberta que uma boa leitura oracular proporciona. O tarô não está nas certezas, nas respostas, nas garantias ou nos decretos. O tarô está nas incertezas, nas perguntas, nas escolhas abertas, no risco. Tanto nos Enamorados quanto no Louco sou eu quem faço minhas escolhas e me permito, a partir delas, desvendar quem estou me tornando.
Kelma Mazziero
www.kelmamazziero.com
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