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23 de setembro de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


Paralelos do Tarô com outros jogos: dados e dominó
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Alea jacta est
Por
Bete Torii
    
 “O mago inicia a seqüência dos trunfos;
os seus dois dados estão sintetizando a série, como um índice.”
Robert M. Place, em Tarô dos Santos, da Ed. Agir.
        
A citação que abre o tema menciona os dois dados que se encontram na mesa do Mago no Tarô de Marselha (1760), à esquerda. No Tarô de Jean Noblet (1650), ao centro, aparecem três dados. À direita vemos ampliação de um detalhe do Mago no Tarô Visconti (1450) com duas moedas para sorteio.
    
Prólogo: origens
    Dados existem há mais de vinte (talvez mais de quarenta) séculos. Uma das muitas provas disso é a frase do título – Alea jacta est – dita por Júlio César em 52 a.C., ao cruzar o Rubicão para invadir Roma. A frase é geralmente traduzida como “a sorte está lançada”, mas literalmente diz “os dados foram lançados”.
    Curiosidades etimológicas:
Segundo o dicionário Houaiss (na explicação da etimologia da palavra ‘aleatório’), alèa,ae, em latim, era ‘dado de jogar; jogo de dados; qualquer jogo de azar.
E um tanto reversamente, segundo o mesmo dic. Houaiss, azar vem do árabe az-zahr, que significava ‘flor e, por extensão de uso vulgar, ‘dado, porque se pintava uma flor numa das faces do dado.
    Encontrei no site www.jogos.antigos.nom.br um texto muito interessante sobre o jogo de dados, com várias referências históricas. E a Wikipedia, em seu extenso material sobre o assunto, menciona que foram encontrados dados em tumbas egípcias de 2.000 a.C. Vi referências a relatos e lendas dão conta do emprego de dados, em tempos antigos, em jogos de azar entre o povo. E traduzi o texto abaixo do site www.chessbase.com, que conta os primórdios da história do xadrez e apresenta a lenda de que ele teria nascido com a criação do Chaturanga pelo bramin Sissa a pedido do rajá Balhait:
    Na época de sua invenção, havia preocupação com a prevalência dos jogos de azar com uso de dados. Grande número de homens do seu povo estavam jogando com altas apostas e se tornando viciados nesses jogos de pura sorte.
    

Nos dados, as quantidades do Tarô
    Os dados mais comuns e conhecidos são cubos: forma muito estável, sólida, a própria representação simbólica da Terra, no plano tridimensional. Cada uma de suas seis faces quadradas é marcada com um número de pontos entre 1 e 6, sendo que eles são caracteristicamente arranjados sobre as faces do dado de forma que a soma de dois lados opostos dá sempre 7.
    Nos jogos de azar geralmente são jogados 2 dados ao mesmo tempo, e o resultado da jogada é dado pela soma dos pontos obtidos nos dois dados (pontos apresentados na face superior). A pontuação mínima que se pode obter é 2, e a máxima é 12; portanto, são 11 possíveis valores, porque só nos interessa o total de pontos. Mas, nos jogos mânticos, interessam as combinações possíveis formadas entre dois dados arremessados, e nesse caso o total de variações é 21, o mesmo número de cartas numeradas dos arcanos maiores.  
[www.dice_
wilderdom.com]
 
    Como diz Robert Place, no seu livro Tarô dos Santos, “os dados eram uma ferramenta antiga para a adivinhação, tanto como para o jogo, e esse uso de combinações numéricas pode ser relacionado ao misticismo pitagórico”.
 
[www.dwphotoshop.com]
      Por exemplo: se os dados mostrassem 1 e 4, ou 2 e 3, o total de pontos também seria 5, tal como na jogada acima, mas um 5 formado por 1 e 4 pode ser considerado bem diferente de um 5 formado por 2 e 3...
    Não podemos esquecer que 21 é três vezes 7 – e são inúmeras as referências a três planos, forças ou mundos, e a 7 passos, etapas, notas, raios etc.
    Eis que já tocamos aqui o número 21 – número das cartas numeradas dos Arcanos Maiores.
    Ao perceber isso, e fascinada com o aspecto aritmético do raciocínio, pensei também que o total de combinações possíveis do arremesso de dois dados de 12 faces (ou dois zodíacos...) dá 78 – o número total de cartas do Tarô.
    Mas foi só lendo uma página do excelente site http://trionfi.com, no curso de minhas rápidas pesquisas sobre o assunto, que me dei conta de que o 21 (e, de resto, o 78) não aparece somente na combinação de dois dados: ele já aparece em um único dado. Conte os pontos e você verá: 6 + 5 + 4 + 3 + 2 + 1 = 21.
    A página de site a que me refiro fala de Gabriel Bareletta, célebre pregador medieval que pregava contra o vício dos jogos de dados. Ele teria chamado os 21 “olhos” de um dado (os 21 pontos desenhados sobre as 6 faces) de “letras negras”, correspondentes a 21 pecados, o primeiro dos quais seria a perda de tempo...  
 
Par de dados cúbicos de Pompéia, feitos em osso no século 1 d.C.
[www.georgehart.com]
 
    Diz ele: "Sicut Deus invenit 21 literas alphabeti... ita Diabolus invenit dados ubi possuit 21 puncta". (Assim como Deus inventou as 21 letras do alfabeto... da mesma forma o Diabo inventou os dados, que possuem 21 pontos.)
   
Em um dado de 12 faces, teríamos 78 “olhos negros”, pois:
1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 + 8 + 9 + 10 + 11 + 12 = 78.
[A ilustração ao lado, de um dado poliédrico de 12 faces,
encontra-se em www.georgehart.com]
 
 
Uma primeira transição: dados viram dominó
    Os dados, além de serem jogados sozinhos, sempre atuaram como “coadjuvantes” de outros jogos também (caso do Chaturanga, por exemplo).
    Mas houve um caso de transformação dos dados em outro jogo.
    O jogo de dois dados foi “traduzido” para tabletes, tijolinhos ou fichas chamadas dominós, que mostram duas faces de dados, lado a lado, separadas por uma linha que divide a ficha ao meio.
    No dominó é a combinação que conta, mais do que o valor numérico de pontos da peça, e assim, uma ficha com as metades 5-3 é diferente de uma com metades 6-2, ainda que ambas tenham 8 pontos desenhados.
 
[www.revolution.games.com]
 
    “Quase todos que analisam o jogo de dominós afirmam que deve ser feita uma analogia entre as peças e o lançamento de dois dados: cada metade equivaleria ao resultado de um dos dados. Alguns autores afirmam, também, que originalmente, os dominós devem ter servido como oráculos, utilizados de forma a prever o futuro.” (transcrito do site www.jogos.antigos.nom.br/domino.asp )
    Mas houve uma diferença importante, nessa transição: foi introduzido o zero, uma face sem ponto algum, que o dado não tem. Ou, poderíamos ler de outra forma: o dominó considera também a possibilidade de se jogar um dado só, marcando a ausência do outro. Assim, ele também eleva para sete “notas” as seis possibilidades do dado cúbico e fixo. Quando se elevam para sete as possíveis “faces” a serem apresentadas em cada metade da ficha de dominó, as combinações de pares possíveis sobem para 28 – valor que não relacionamos de imediato ao universo do tarô, a menos que queiramos considerar que, nos Arcanos Menores, 28 são as cartas dos naipes “masculinos” ou “ativos”, e 28 as dos naipes “femininos” ou “receptivos”.
    
A segunda transição: dominós viram cartas
    As cartas de jogar podem ter sido uma evolução ou tradução do jogo de dominó (que já tinha sido uma evolução dos dados): um conjunto de representações de valores numéricos que vai se tornando cada vez mais leve e mais fácil de manejar, por um lado... e mais belo, elaborado e simbólico, por outro.
Duplicado o número de peças do dominó (28) obteremos 56, número de cartas dos arcanos menores.
[www.vybiral.info]
      Ou, por outra visão, poderíamos dizer que as cartas, com seus desenhos, foram uma involução ou diluição dos símbolos concentrados na simplicidade dos dados, ou uma explicitação cada vez mais necessária a homens que iam perdendo a ars memoria.
    No que se refere à quantidade e arranjo das cartas, arrisco ainda a hipótese de que o conjunto total do tarô (78 cartas) foi pensado como uma representação das combinações de 12 qualidades tomadas duas a duas, ou a soma de todas as “personalidades numéricas” contidas no 12 (possivelmente a inspiração foi o zodíaco). Mas foi talvez com base na experiência da passagem dos dados ao dominó, que comportou inclusive uma ampliação do jogo com a passagem de 3 a 4 (3x7 e 4x7), que se chegou a organizar o tarô em dois conjuntos: um contendo as 21 significações obtidas na combinação de dois dados, e o outro contendo as 28 fichas ou combinações do dominó, tomadas duas vezes, como uma série masculina e uma feminina.
    Essas duas séries foram então desdobradas em 4 naipes representativos dos elementos formadores do Universo, cada um com 14 cartas. A carta necessária para completar 78 e que ficou “sem lugar” entre um conjunto e outro seria, como diz Ouspensky, o homem – o Louco, o Zero do tarô.
    
Epílogo
    A partir de então, a origem das imagens gravadas em cada carta compõe toda uma outra história... E a partir do século 17, mais ou menos, os Arcanos Maiores do tarô receberam número – o que ligou as cartas de volta à idéia do jogo de dados, em que um número maior ganha de um número menor; afinal, as cartas são chamadas de “trunfos” ou “triunfos”
    É notável a semelhança do baralho comum moderno com fichas de dominó, quando as olhamos pensando nisso – refiro-me à proporção geral da carta e a “divisão ao meio” com espelhamento vertical, de forma que não se pode dizer se ela está de cabeça para cima ou de cabeça para baixo.
    Também a distribuição dos “pontos” (símbolos do naipe) na carta segue a estética da distribuição dos pontos nos dados e no dominó.
Ao lado, algumas cartas adaptadas do Tarocchi Piemont,
no final do século 18.
[www.fredmartin.net]
   
“Direito intelectual”: peço aos leitores que queiram utilizar este texto ou parte dele que citem a autora e este site. A aquisição gratuita de informações faz parte do espírito da internet, mas não a apropriação delas e a omissão de fontes.
Contato com a autora
Bete Torii - btorii@uol.com.br
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