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22 de fevereiro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


 
Tarô, símbolos egípcios ou europeus?
 
 
Por
Nádia Greco
 
    Por que se afirma que o tarô teria chegado até os dias atuais através do antigo Egito? Porque escolheu-se o Egito e não a Índia ou a China ou outros lugares tidos também como exóticos como a pátria do tarô?
    O Egito foi uma incógnita por séculos, seguindo desconhecido após a fim da dinastia ptolomaica e o princípio do domínio pelo Império Romano. Continuou como um mistério para os viajantes que passavam pelo Egito e viam em todos aqueles símbolos gravados nas estátuas e nos templos sinais de algo oculto e fantástico. Aqueles sinais e símbolos continuaram em silêncio por séculos até Napoleão invadir o Egito em 1798,  e levou estudiosos como Champollion e Rosellini entre outros para decifrarem os hieróglifos e estudarem a arte egípcia.

O que acontecia na França no século 18?

    Os estudiosos principalmente monges e cientistas tinham entrado em contato com a língua copta a língua mais próxima dos hieróglifos, entre eles Athanasius Kircher, que escreveu o primeiro dicionário copta em 1636.
    Jean François Champollion estudou a língua copta e também editou um dicionário, que o ajudou a decifrar posteriormente a pedra de Rosetta. Esta tábua ou pedra de Rosetta continha três forma de escrita: o hieróglifo, o grego e o demótico.
    Mas o que faria diferença foram os inúmeros estudiosos que Napoleão enviou ao Egito para decifrar os hieróglifos e colher dados reais sobre o Egito Antigo, um trabalho que foi levado a cabo por vinte anos e que pode-se dizer foi a maior das vitórias de Napoleão Bonaparte. Todo o trabalho foi compilado no livro Description de L´Egypte (1802), que trouxe esta civilização à luz e desmistificou muitas coisas compreendidas como mágicas e misteriosas pelos viajantes que lá se aventuravam antes, desde o tempo dos gregos, entre eles, Heródoto.
    Foi durante a decifração de incontáveis papiros
 
Ipis, o escriba, reverencia Anubis - pintura do séc. 14 a.C.
Ipi, o escriba real,
reverencia o deus Anubis.
[Baixo relevo, séc.14 a.C.]
 
e das escritas nos templos que se criou muitas fantasias em torno do mundo egípcio como por exemplo a venda do pó de múmia como remédio para diversas doenças. Acreditava-se que a língua egípcia era a primeira língua da primeira civilização, uma língua primeva e divina. Imaginemos por esta afirmação o quanto aquelas figuras com cabeça de animais, os gigantescos obeliscos e estranhas figuras nos templos deslocados para a França despertou a fantasia e a imaginação de todos que entravam em contato com a civilização adormecida á margem do Nilo.
Os símbolos ou o alfabeto hieroglífico. A Arte egípcia
    O alfabeto hieroglífico chegou ao Egito através dos sumérios. Os estudiosos comprovaram que foi através do encontro e do acréscimo de idéias dos outros povos como os cananeus, fenícos e gregos que esta escrita se transformou no nosso alfabeto atual. Os sinais então utilizados expressavam idéias, objetos e sons vocais. Utilizavam o princípio do Rebus, "non verbis sed rebus" isto é, não por palavras, mas pelas coisas.
    A arte mescla-se com os símbolos, ambos servindo o divino.
    Gebellin publica por volta 1780 um livro chamado Le Mond Primitif onde afirma a origem do tarô no Egito, porém após a publicação da compilação feita
 
O alfabeto hieróglifo do antigo Egito.
O alfabeto hieróglifo
[www.lh5.ggpht.com]
  sobre o Egito pelos estudiosos de Napoleão, muitas das suas suposições sobre o Egito foram retificadas, principalmente sobre os hieróglifos, porém parece que isto não maculou o prestígio dele entre os franceses, pois continuou sendo citado.
    No século de Gebellin e Napoleão, Champollion e Rosellini,  já era moda a cartomancia feita com o que conhecemos como arcanos menores.
    Os símbolos egípcios podem ser escritos em todas as direções, porque os sinais se voltam para a direção da escrita. Os escribas tiravam proveito da engenhosidade lingüística para fazerem mensagens cifradas, teria sido esta idéia outra suposição de Gebellin? Teria conseguido enxergar tão longe? Ou apenas sofreu influências dos rituais maçônicos em suas suposições?
    Mas, se por acaso o tarô tivesse surgido do alfabeto do antigo Egito, como explicar que na gramática egípcia existem mais de 700 sinais além dos 24 do alfabeto? E por que escolheriam só 22 figuras para representar no tarô? Compare o alfabeto de 24 letras do egípcio antigo e as cartas do tarô e reflita.
A Europa nos 1800
    Nessa época o Egito se torna moda na Europa. Livros, museus, turismo e toda a sorte de coisas ligaram-se ás idéias egípcias. As sociedades ocultas davam um novo sabor á busca religiosa do homem. Aderiram todos ao esplendor hipnótico do Egito, o que acontece até os tempos atuais. Quem de nós consegue de lá voltar indiferente á beleza e perfeição da arte egípcia?
    Neste período do séc. 18 a sociedade progredia lentamente entre afirmações obscuras e fantasiosas sobre o Egito e o mundo e os estudos impecáveis e primorosos dos primeiros egiptólogos e cientistas.
Tarô, Símbolos Europeus?
    O que acontecia na época do nascimento do tarô?
    O que determina o Renascimento é uma descoberta do mundo e do próprio homem, entre 1400 a 1600, um tempo de extraordinária troca e riqueza cultural. Giorgio Vassari (1550), pintor e historiador da arte, descreve este tempo como um segundo nascimento da arte na Itália quando os artistas alcançaram a perfeição. Citado como a Idade de Ouro na Florença, tornaram à vida as artes liberais quase extintas, a gramática, a retórica, a dialética, a geometria, a música e astronomia e tudo o que se referia a pintura e escultura e arquitetura. Já no séc XIII dizia o poeta e humanista Petrarca que a humanidade estava vivendo um novo período, porque estava tornando ao puro ouro da antiguidade. Esta era a verdadeira essência do renascimento e foi neste período rico e precioso período cultural que nasceu e floresceu o tarô.
    
 
O Livro das Damas (1405)
A cidade das Damas
[Bibl. Nac. da França]
 
Os Judeus na Renascença
Os Judeus na Renascença
[www.outofspain.com]
 
Detalhe de A Rainha de Espadas no Tarot Visconti Sforza
Rainha de Espadas
[Tarô Visconti Sforza]
 
    
    O humanista acreditava que o homem tinha o poder de melhorar através da instrução adequada. Neste tempo a população era analfabeta e os símbolos desenvolveram uma importante função didática, uma pintura podia ser lida quase como um livro, dos seus símbolos se podia tirar uma história, sendo criado assim toda uma arte simbólica e alegórica.
    Houve uma fusão do clássico grego com a iconografia cristã. Com a queda de Constantinopla (na mão dos turcos otomanos) os estudiosos gregos bizantinos vieram para as cidades italianas influenciando nos estudos e apresentando a filosofia de Platão e textos do séc. 2 e 3 depois de Cristo. Com o conhecimento da filosofia de Platão começaram a acreditar que os iniciados nesta filosofia poderiam manipular o céu e influenciar a natureza, estudando o movimento dos astros, citando encantamentos eles poderiam provocar uma unidade entre o mundo material e espiritual.
    Assim o neo-platonismo elevou a magia ao auge e o estudioso poderia se tornar um "Magus", conquistando poderes mágicos tanto quanto poderia ser um homem de letras pronto a adquirir sabedoria. A tradução de textos de cabala encorajou a procura de símbolos e obras clássicas e hebraicas.

Visconti-Sforza e os protetores das artes. Os Humanistas

    A Itália setentrional com um forte classe média culta, viveu momentos de glória na arte principalmente nas cidades de Florença, Veneza e Milão. Foi em Milão, onde a corte Visconte se encontrava instalada, que os artistas mais importantes da época, Dante, Petrarca e Bocaccio, entre pintores, escultores e outros, disseminaram suas idéias de reviver o classicismo e a glória dos césares, tema que agradava em muito os condottiere (senhores de armas e poder do momento).

    
 
Madona no trono com o Menino, de Bonifacio Bembo, 1466 - Cremona, Itália
A Madona no trono
com o Menino Jesus
[por Bonifácio Bembo]
 
O Enamorado no Tarot Visconti Sforza
Cavaleiro de Paus
[Tarocchi
Visconti Sforza]
 
Coroação de Jesus e Maria, por Bonifacio Bembo.
Coração de Jesus e Maria
[Pintura de Bonifácio Bembo
- Cremona - Itália ]
 
 
    Pelo estudo destas e de outras figuras da época o pesquisador Roberto Longhi, entre outros, provaram a ligação da família Milanesa com o atelier de Bonifácio Bembo, contratados a partir de 1440 para fazer diversos serviços para esta família nobre e registrados em documentos na Itália. A base de seu atelier era Cremona.
    Através de documentos da época e de pesquisas de arte realizadas na Itália, na região de Milão, desde 1987 inúmeros pesquisadores, entre eles Roberto Longhi, apresentaram como resultado de suas pesquisas que o tarô foi criado por volta de 1440 pelo atelier de Bonifácio Bembo comissionado pelos Visconti-Sforza. Compare as figuras do atelier de Bembo com todas as outras figuras do tarô. A conclusão é que o tarô não foi criado no Egito e os fatos e imagens falam por si.
 
  O texto acima constitui excertos de dois títulos que a autora, Nadia Greco, mantém em seu site www.nadiagreco.com, onde se encontram maiores informações e os créditos bibliográficos.  
agosto.08
Contato com a autora
Nádia Greco - www.nadiagreco.com
Relação de seus trabalhos no Clube do Tarô: Autores
 
 
 
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