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23 de outubro de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


Etteilla, o primeiro Tarólogo Profissional
Texto de James W. Revak
publicado em www.villarevak.org
Tradução de Alexsander de Abreu Lepletier
O Essencial:
Etteilla, (1738-91) (pseudônimo de Jean-Baptiste Alliette), ocultista Francês que desempenhou um papel importante no desenvolvimento do primeiro Tarô esotérico.  Através de suas atividades e de seus escritos, foi o primeiro a popularizar a divinação através do Tarô em larga escala, a publicar correspondências entre Tarô, Astrologia e os Quatro Elementos, e a laçar um baralho especialmente desenhado para fins ocultistas.
Destaques de sua carreira:
1770: Publica "Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes" [Etteilla, ou um modo de se entreter com um baralho], um livro dedicado a divinação com cartas comuns.
1785: Publica "Maniére de se récréer avec le jeu de cartes nomées Tarots" [Como se entreter com um jogo de cartas denominado Tarô;], o primeiro livro dedicado a divinação acompanhado das cartas;
1788: Publica o primeiro Tarô especificamente desenhado para fins esotéricos.
Citação importante:
“Se a leitura foi dura não a repita uma terceira vez... trabalhe cuidadosamente três diferentes desdobramentos dessas leituras e veja se há uma maneira de evitá-la.”
in, "Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes"
Sua vida: Não, ele nunca foi barbeiro
Etteilla - Jean Baptiste Alliette
 
Jean Baptiste Alliette, filho de um fornecedor de alimentos, nasceu em Paris em 1738. Somente mais tarde ele adotaria o nome de Etteilla. Os registros históricos não dizem muito a respeito de sua vida. Por exemplo, nada é sabido de sua juventude. Todavia seu estilo literário sugere que ele tenha tido uma educação modesta e, em certo grau, autodidata; seu domínio do Francês literário é pobre.
Os registros históricos mostram que se casou com Jeanne Vattier em 1763, separando-se seis anos mais tarde. Nessa época Alliette vivia como comerciante de sementes. Ao contrário de outros frequentes relatos, incorretos, não há qualquer evidência que sustente a idéia de que ele era um peruqueiro ou um barbeiro.
A imagem acima aparece em Etteilla’s Cours thèorique et pratique du Livre du
Thot
(1790), em Decker, Depaulis & Dummett’s, A Wicked Pack of Cards, © 1996
Adivinhação com as cartas comuns
Por volta de 1770, Alliette usava o nome pelo qual seria melhor conhecido, Etteilla (seu sobrenome escrito de traz para frente). Naquele ano publicou seu primeiro livro, Etteilla ou manière de se récréer avec un jeu de cartes, que era destinado a explicar o uso de cartas convencionais para adivinhação.
Ele defendia , especialmente, o uso do baralho Piquet , ao qual adicionou uma carta extra, não tradicional, chamada “Etteilla”. O baralho de Piquet, que era um baralho popular reduzido, usado, tipicamente, para jogo se apresentava o sistema de naipes Francês (Paus, Espadas, Copas e Ouros).
Para consultar as cartas, elas eram dispostas numa tiragem e, então, eram interpretadas uma a uma de acordo com seus significados pré-atribuídos. Além disso, cada carta possuía um significado em pé e invertida. Por exemplo, o Dez de Copas significava uma cidade e invertido, uma herança. O Dez de Espadas, um homem da lei e invertido, um viúvo. Durante o último ano de sua vida, 1791, ele publicou um baralho de cartomancia chamado de Petit Etteilla,baseado nesse sistema.
O método de Etteilla também atribuía temas mais abrangentes a grupos específicos de cartas. Por exemplo, as cartas da Corte do naipe de Copas eram compostas por pessoas loiras ou de cabelo castanho claro, e certas cartas numeradas do naipe de espadas sugeriam noções de sofrimento, ex: perdas, lágrimas, e doença. Se seu sistema, incluindo seus significados divinatórios, era original, isso é desconhecido. Ele diz que aprendeu a ler as cartas com um Italiano. Ele pode muito bem ter recolhido, codificado e se referido a um método pré-existente ou a algum tipo de sabedoria popular; mas o historiadores não estão certos disso. No entanto, o livro foi um sucesso, indo para uma segunda edição no ano seguinte. Durante esse período Etteilla também ganhava a vida como um negociante de gravuras antigas em Paris e, por pouco tempo, em Estrasburgo.
 
Rei de Espadas no Tarot de Etteilla
O Rei de Espadas
Carta do Petit Etteilla, edição contemporânea publicada pela
France Cartes, baseada no
baralho de Etteilla de 1791.
Adivinhação pelo Tarô
Em 1781, o religioso Protestante suíço que falava francês, Court de Gebelin, alegava, em sua grande obra Monde Primitif que o Tarô era um antigo livro de sabedoria Egípcia, embora  não oferecesse nenhuma evidência e os historiadores tem, há muito, rejeitado essa idéia. Mais tarde Etteilla alegou ter começado a estudar Tarot em 1757, muito antes da obra de Gebelin. Os historiadores foram incapazes de verificar essa alegação, todavia sabem que, no ano de 1785, Etteilla publicou sua maior contribuição para a literatura do Tarô Manière de se recréer avec le jeu de cartes nomée Tarot, que foi o primeiro livro sobre adivinhação com o  Tarô.
Como Gebelin, Etteilla também atribuiu a origem do Tarô aos Antigos Egípcios. Indo mais além, ele afirmou que ele foi feito por dezessete magos, descendentes de Mercúrio – Thot, no Templo do Fogo perto de Mênfis no 1828 anos depois da Criação ou 171 anos depois do Dilúvio que faria o Tarô ter 2125 anos quando Etteilla publicou seu livro. Ele escreveu tudo isso e muito mais sobre a história das cartas sem fornecer qualquer fragmento de evidência que sustasse suas idéias.
Ainda assim, pela primeira vez,  publicou o significado divinatório para cada carta (em pé e invertidas), e métodos de leitura, incluindo um relativamente complexo que refletia sua síntese única de Tarô e Astrologia.
O primeiro Baralho Esotérico de Tarot
Recentemente, os historiadores mostraram que, três anos após o lançamento de sua obra sobre o Tarô, em cerca de 1788, Etteilla publicou o primeiro baralho – não para jogos lúdicos como os outros anteriores – mas exclusivamente para fins esotéricos incluindo adivinhação. Todos os Tarô anteriores, incluindo o Tarot de Marseille, eram feitos para jogos lúdicos. Desse modo Etteilla inaugurou a longa tradição de baralhos desenhados para fins divinatórios e esotéricos.
Esclarecimento (Sol) no Tarot de Etteilla
Éclaircissement [Iluminação]
 
Suas cartas  eram notavelmente similares aos baralhos contemporâneos: Grand Etteilla ou Tarot égyptien publicado pela France Carte ( Grimaud ) e Jeu de Grand Etteilla XIXe siècle  publicado pela Edições Dusserre. O baralho de Etteilla foi um grande  sucesso, através do final do século XIX, ele e variações suas feitas por outros eram muito populares por toda a Europa. Em alguns aspectos a coleção de Etteilla foi o “Rider-Waite-Smith” de sua época.
Como o Tarô de Marseille, que ambos Gebelin e Etteilla conheciam, o baralho de Etteilla consistia em 22 Arcanos Maiores e 56 Arcanos Menores. Todavia, Etteilla, alegando estar restaurando os pretensos elementos Egípcios, reinterpretou os Arcanos Maiores; reordenou-os e, frequentemente, aplicou uma iconografia inovadora e novos nomes. Assim o fez, em parte , como explica em seu livro,  porquê os sete primeiros Trunfos deveriam representar o mito da criação. Além do mais, Etteilla, pela primeira vez, atribui publicamente os Quatro Elementos e os signos do Zodíaco a cartas selecionadas. Por exemplo, ele associou o Trunfo intitulado “Iluminação” (ver ilustração ao lado), que corresponde ao Sol dos baralhos mais tradicionais,  ao primeiro dia da criação, ao signo de Touro e ao elemento Fogo. Assim ele também inaugurou a busca por associações significativas entre Tarô, Astrologia e os Quatro Elementos.
A ilustração acima equivale ao Sol, no Tarô de Etteilla (adaptado do Grand Etteilla: ou Tarots Egyptiens.
Foi baseada no baralho original de Etteilla c. 1788, publicado por  France Cartes.
Etteilla também redesenhou os Arcanos Menores mas suas modificações foram muito menos radicais que nos Arcanos Maiores. Ele manteve o sistema Italiano de naipes (Cetros, Espadas, Moedas e Taças) e cada carta numerada consistia essencialmente dos símbolos dos naipes. Por exemplo, o Três de Copas mostrava essencialmente três taças.
A exceção ocorreu no naipe de Moedas onde glifos e outros elementos figurativos, que definiam certas correspondências astrológicas apareciam. Por exemplo, o Três de Moedas correspondia à Vênus (ver ilustração ao lado) e, assim, aparecia nessa carta o símbolo gráfico do planeta ( ) e uma imagem da deusa.
Etteilla também foi o primeiro a usar legendas em todas as cartas (tanto nos Arcanos Maiores quanto nos Menores). Ele incluiu, especificamente, palavras-chave ou frases em cada um deles, em pé e invertidos para facilitar a prática divinatória.
Etteilla derivou alguns de seus significados divinatórios  daqueles que usava para os naipes franceses do jogo de Piquet. Tendo em mente que Espadas correspondem a Espadas, Paus  Cetros, Corações a Copas e Diamantes a Ouros, pode-se comparar os significados. Por exemplo, ambos os Dez de Copas e Dez de Corações significavam cidade. Ambos os Reis de Espadas implicavam em um homem ligado à lei ou um advogado, as cartas da corte do naipe de Corações eram, com uma possível exceção, pessoas loiras bem como no de Copas.
 
O Três de Ouros no Tarot de Etteilla
O Três de Ouros
Reprodução do Grand Etteilla:
ou Tarots Egyptiens
, c. 1788, publicado pela  France Cartes
Certas cartas numeradas dos Naipes de espadas de ambos os Baralhos referiam-se a certas noções de sofrimento, por exemplo: lágrimas, perdas e doenças.
Seus último anos
A essa altura, Etteilla usava  seus conhecimentos de Astrologia, Tarô e outras Ciências Ocultas para ganhar a vida escrevendo livros, dando consultas e ensinando. Em seus últimos anos, com sua reputação sempre crescendo, formou uma nova geração de leitores de cartas, que em troca, desenvolveram mais seus sistemas e disseminaram seus métodos e seu Baralho. Em 1788 ele fundou a primeira sociedade dedicada, exclusivamente, ao estudo do Tarô, a Société des Intèrpretes du Livre de Thot [Sociedade os Intérpretes do Livro de Thot]. Três anos mais tarde aos cinquenta e três anos o primeiro Tarólogo profissional do mundo morreu.
Um reconhecimento
Acadêmicos e praticantes do Tarô Esotérico reconheceram Etteilla de maneiras radicalmente divergentes. Por um lado algumas autoridades tradicionais do Ocultismo, por exemplo Lévi e A. E. Waite criticaram duramente suas idéias e culparam-no por ter ganho a vida como um cartomante. Eles até mesmo questionaram sua inteligência. Por outro lado, não menos que uma autoridade como Papus, apesar de algumas críticas a Etteilla, elogiou-o por suas realizações, principalmente no que diz respeito à adivinhação.
A opinião recente permanece dividida. Por um lado Cynthia Gile escreveu em seu livro Tarot: Mystery, History and Lore (1992)  que “o efeito primário de Etteilla foi  popularizar a idéia do Tarô mais do que propriamente colaborar para a teoria e design das cartas”. Ela o credita com pouca propriedade ou importância histórica.  
Por outro lado, Dekker, De Paulis e Dummet escrevendo em A wicked Pack of Cards  em 1996 alegam: “Se não tivesse sido por Etteilla, as especulações de Gebelin teriam sido esquecidas... Havia algo comovente naquele homem, ele era sincero e apaixonado, era generoso e iluminado (em todo o significado das palavras do final século XVIII).”
Ao reconhecer Etteilla, o autor cita os dois extremos onde ele é tomado como: (a) um idiota ou alguém cujo papel foi somente popularizar o Tarô; (b) o salvador do Tarô Esotérico, que sem ele teria sido esquecido.
Certamente, Etteilla popularizou o Tarô, o que é importante, mas ele conseguiu muito mais. Recapitulando, ele foi o responsável por muitas “primeiras vezes”, incluindo:
Livro dedicado à prática divinatória do Tarô,
Baralho criado especificamente para fins esotéricos e
Correspondências entre o Tarô, a Astrologia e os Elementos.
Graças ao seu livro, baralho e alunos, ele causou grande impacto guiando os Tarólogos e continua a impactá-los hoje em dia. Por exemplo , no artigo A Influência de Etteilla e sua Escola em Waite e Mathers  o autor desse perfil  que estão lendo percebeu que embora Waite expressasse escárnio por Etteilla,  aproximadamente metade dos significados divinatórios do seu livro The Pictorical Key to the Tarot  dependem de Etteilla e seus alunos.
Até os dias de hoje alguns estudantes usam os significados de Etteilla. Por exemplo, toda vez que um Tarólogo contemporâneo olha para o quatro de Copas do Tarot Rider-Waite-Smith  ou baralho parecido e obtêm o significado de aborrecimento, mal-humor, deve-o a Etteilla. Toda vez que ele/ela olha temos essa mesma carta invertida e encontramos “novidade” ou “algo novo”, também deve isso a Etteilla. Esses são significados que Etteilla atribuiu  a algumas cartas mais de duzentos anos atrás. E outros  numerosos exemplos ainda podem ser citados.
Para ser honesto, Etteilla teve seus defeitos e falhas, também. Seu estilo literário era confuso, túrgido e cru. Seus escritos fazem os de Waite parecerem lúcidos. Certamente como muitos ocultistas, Etteilla reduziu a história factual do Tarô a contos sobre sua origem egípcia.
Finalmente, embora Etteilla tenha sido responsável por várias iniciativas, muitos ocultistas rejeitaram a especificidade de muitas de suas abordagens ao Tarô. Por exemplo, embora tenha sido o primeiro a  mostrar o caminho no que diz respeito a correspondências entre Tarô, Astrologia e Elementos, a maior parte dos Ocultistas descartaram seu sistema em favor de outros.
Além disso, a persistência de alguns de seus significados divinatórios, não obstante, Etteilla provavelmente não foi tão influente nos Tarólogos contemporâneos como Levi, Papus e S. L. Mathers. Provavelmente ele também não foi um grande pensador comparado a eles. Certamente, seu estilo literário e formação eram inferiores aos deles. Ainda assim ele foi algo que nenhum deles foi em relação ao Tarô: um genuíno pioneiro e, como todo pioneiro, teve sua cota de sucessos e falhas.
Etteilla foi o primeiro a publicar uma relativamente completa linguagem e gramática para o Tarô, uma metodologia prática para seu uso e certas correspondências. Todavia, por seu mérito, ele reinou sobre algo que nenhum de seus companheiros pôde ter tido crédito: a importante transformação pública do Tarô de um curioso suposto artefato de uma antiga civilização em uma ferramenta contemporânea e prática para a adivinhação relacionada a outras formas de Esoterismo. Graças, em grande parte a Etteilla, muitos ocultistas e pessoas afins puderam utilizar um baralho de Tarô especialmente desenhado para fins Esotéricos e aplicar um método, relativamente completo, coerente e racional para acessar sua sabedoria e poder.
 
Fontes - Livros:
Decker, Ronald; De Paulis, Thierry; Dummett, Michael.  (1996).  A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot.  New York: St. Martin’s.  ISBN 0312162944.
Etteilla.  (1785).  Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes [Etteilla, Or a Way to Entertain Yourself With a Deck of Cards].
Halbronn, Jacques.  (1992).  L’Astrologie du Livre de Thot: Suivie de recherches sur l’histoire de l’astrologie et du Tarot par Jacques Halbronn [Astrology of the Book of Thoth: Followed by Research Into the History of the Astrology of Tarot].  Paris: Éditions La Grande Conjonction.  ISBN 2857075561.  Essa livro de língua francesa é composto por duas partes: (a) o livro quatro do Etteilla’s Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes (q.v.); e (b) Os estudos de Halbronn dessa parte do livro de Etteilla.
Jogos de cartas:
Jeu du grand Etteilla XIXe siècle.  [Grand Etteilla Deck 19th Century].  Paris: Éditions Dusserre.  Esse baralho é uma reprodução de outro do século dezenove que é extremamente similar ao baralho original de Etteilla de c. 1788.
Grand Etteilla: Ou Tarots égyptiens [Grand Etteilla: Egyptian Gypsies Tarot].  Paris: France Cartes (Grimaud).  A Iconografia desse baralho bilíngue (Francês/Inglês) é extremamente similar ao baralho original de Etteilla c. 1788; todavia, palavras e frases foram mudadas.
Websites:
Etteilla.  Etteilla, ou manière de se récréer avec un jeu de cartes[Etteilla, Or a Way to Entertain Yourself With a Deck of Cards].  Uma versão online desse livro em francês. (Esse link já não funciona mais!)
Revak, James W.  The Influence of Etteilla and His School on Mathers and Waite.
Revak, James W. Tarot Divination: Three Parallel Traditions.  Inclui significados divinatórios que vem de Etteilla e seus alunos
 
março.11
Contato com o autor:
Elizabeth Hazel e James W. Revak - www.villarevak.org/bio/etteilla_1.html
Tradutor: Alexsander Lepletier: www.lenormando.blogspot.com
 
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