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16 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Papus, médico e mago
Texto de James W. Revak
publicado em www.villarevak.org
Tradução de Alexsander de Abreu Lepletier
O Essencial:
Papus (pseudonimo de Gérard-Anaclet-Vincent Encausse) (1865-1916), médico francês, mago, e autor prolífico no ocultismo, que reconstituiu a influente Ordem Martinista e promoveu o tarô como um repositório, de sabedoria esotérica antiga e como uma forma de adivinhação.
Destaques de sua carreira:
1889: Publicou Le Tarot des bohémiens: le plus ancien livre du monde [O Tarô dos Ciganos: O mais antigo livro do mundo].
1889: Restaura a Ordem Martinista, uma sociedade gnóstica.
1894: Conclui seu doutorado em medicina.
1909: Publica Le Tarot divinatoire: clef du tirage des cartes et des sorts [Adivinhação pelo tarô: a chave para a leitura de cartas e lotes].
1914: Serve como oficial médico no exército francês no começo da primeira guerra mundial..
Dizeres memoráveis:
“Eu aprendi a dominar aqueles maravilhosos métodos analógicos, tão pouco conhecidos pelos filósofos modernos, que permitem toda a ciência ser agrupada numa única síntese e que mostra que os antigos foram pura e simplesmente mal interpretados do ponto de vista científico  pela infinita ignorância histórica dos professores de hoje em dia."
Papus, Comment je devins mystique [Como me tornei místico]
Sua vida: estudante de medicina e de ocultismo
Gérard-Anaclet-Vincent Encausse, o filho de um pai francês e mãe espanhola, nasceu em La Coruña, Espanha em 1865. (Somente mais tarde adoptou o nome de Papus). Ele e sua família mudaram para Paris em 1868.
Papus
Papus
Fonte: Bibliothèque Nationale de France
 
Encausse foi admitido na escola de medicina em 1885. Além de seus estudos, ele costumava, frequentar Bibliothèque Nationale [Biblioteca Nacional], onde mergulhou no mundo da literatura esotérica, incluindo Grimórios antigos (livros antigos de magia) e os trabalhos de Éliphas Lévi, Paul Christian, Hoene Wronski, e outros.
Fora da biblioteca, Papus tomou conhecimento de numerosos ocultistas contemporâneos, incluindo Saint-Yvres d’Alveydre, Stanislas de Gaïta, Josephín Péladan e F-Ch. Barlet. Imediatamente, voltou-se para a escrita tornado-se autor de algumas obras e usando o pseudônimo Papus, nome do génio associado aos médicos em The  Numectorn, um trabalho atribuído ao legendário mago Appolonius de Tyana, que apareceu em Dogme et Rituel de la Haute magie (1854-55).
Ao todo, Papus escreveu 160 títulos, em sua maioria sobre o esoterismo, desde artigos em revista até extensos tratados. Por exemplo, em seu livro Traité élémentaire d’occultisme- 1888, ele explorou uma grande variedade de assuntos, incluindo influências astrais na humanidade; a história, características, e missões dos grupos etnicos humanos; tradições espirituais importantes (Hinduísmo, Budismo, Judaísmo e
Cristianismo); e sociedades secretas (Templários, Rosa-Cruzes e Maçonaria). Apenas pequena parte de seu material foi traduzido para o inglês.
Ele ainda fundou dois importantes jornais sobre ocultismo, L’Initiation e La Voile d’Isis. Seu filho, Philippe Encausse, às vezes se referia-se ao pai, com boas razões para isso, como o “O Balzac do Ocultismo”.
Doutor em medicina e líder do ocultismo
Embora nunca tenha se tornado um maçon praticante, Papus filiou-se a muitas outras organizações dedicadas ao Esoterismo, frequentemente, assumindo postos de liderança. Elas
incluíam a Sociedade Teosófica, a Ordem Hermética de Luxor, o Templo Ahathoor da Golden Dawn, em Paris, e a Ordre Kabbalistique de la Rose-Croix (Ordem Cabalística dos Rosa-Cruz). Ele também fundou o Groupe Indépendant d’Études Ésoteriques (Grupo independente de estudos esotéricos) e reconstruiu a Ordem Martinista, uma influente sociedade gnóstica cristã, que tinha suas bases num místico francês do final do século XVIII e começo do século XIX, Louis Claude de Saint-Martin.
Incrivelmente, apesar de seus estudos esotéricos que lhe tomavam quase todo o tempo, ele ainda continuou seus estudos de medicina e recebeu seu doutorado em 1894. Em sua carreira de médico Papus percorreu clínicas em Paris e Tours, onde seus métodos de trabalho incluíam homeopatia e outras formas de medicinas alternativas.
 
Louis Claude de Saint-Martin
Saint-Martin
O tarô como chave esotérica e ferramenta divinatória
Papus, entretanto, é mais lembrado como um ocultista que promoveu o misticismo, o tarô e magia. Com relação ao tarô, ele o via  como um grande repositório de sabedoria esotérica e mística e uma ferramenta para divinação. Em 1889, com apenas 24 anos, publicou seu mais conhecido trabalho sobre o tarô, Le Tarot des bohémiens: le plus ancien livre du monde (O Tarot dos ciganos: O Livro mais antigo do mundo). Todavia, os leitores de língua inglesa e portuguesa, conhecem-no como tarô dos Boêmios. Nele, Papus alegava, claramente sua origem no Egipto Antigo.
Sim; o jogo de cartas chamado Tarot, que os Ciganos detêm, é a Bíblia das Bíblias. É o livro de Thot Hermes Trimegisto, o livro de Adão, o livro da Revelação primitiva de antigas civilizações,” escreveu.
A carta O Papa no tarô de Papus
Ilustração original do livro de Papus
 
Alegou, ainda, que ele continha uma detalhada ,e sistemática exposição da Cabala ( especialmente o nome de Deus YHVH), astrologia, numerologia, teogonia, androgonia, cosmogonia e mais. De hábito, apresentava suas ideias de maneira dogmática, sem oferecer evidências convincentes nem  argumentos racionais. No entanto, ele foi muito sistemático e suas ideias, por em grande parte, reflectir o Esoterismo Francês dos séculos XVIII e XIX. O livro era ilustrado, em parte, com os Arcanos Maiores desenhados por Oswald Wirth, um suíço que falava francês e que, eventualmente, se tornaria  um grande tarólogo com sua própria visão.
Papus também falou sobre a prática divinatória pelo tarô, mas deu apenas pouca atenção a esse tão importante aspecto vendo-o como primário e um passatempo agradável para senhoras.
Todavia, em 1909 ele deu uma reviravolta escrevendo Le Tarot Divinatoire: clef du tirage des cartes et des sorts. [O Tarô Divinatório: chave da tiragem das cartas e da sorte].  Dedicou todo o livro à divinação prática, com a discussão detalhada da divinação como tarô, incluindo a reprodução de um farto compêndio de significados divinatórios que tinham base no tarólogo francês do século XVIII, Etteilla e seus discípulos.
Além disso, uma grande parte do seu livro era dedicada a desenhos de um baralho completo de Tarot desenhado por Gabriel Goulian (ver a ilustração acima). Elas  frequentemente continham figuras Egípcias e numerosas correspondências com outros sistemas metafísicos, ex: alfabetos e astrologia, e continham palavras-chave e frases para facilitar a prática divinatória e a discussão de filosofia esotérica.
Entre seus livros sobre o Tarô, Papus também publicou um vasto estudo intitulado Traité méthodique de magie pratique [Tratado elementar de magia prática], no qual explorava muitos aspectos da magia, inclusive astrologia, talismãs, evocação de espíritos e até mesmo praticas populares. Como muitos magos da época ele também discorreu sobre o uso da vontade como parte essencial da magia.
Seus últimos anos
Embora já sofresse de diabetes, no início da primeira grande guerra, em 1914, ele foi convocado como oficial médico e enviado às trincheiras na frente oeste. Refletindo sua experiência no seu Ce que deviennent nos morts, 1914, ele escreveu:
“Em Chaumont-sur-Argonne, perto de Pierrefitte, um jovem alemão foi morto numa trincheira, segurando próximo a sua cabeça e na altura de seu olhos  seu livro de preces...”
“Pobre vítima da loucura dos grandes, eu lhe saúdo... Sabendo que a morte se aproximava, bravamente, preparou sua alma para sua partida do mundo físico, e herói obscuro, você chamou Aquele que a todos espera. Que seu gesto seja abençoado. Isso não foi por conta de ser inimigo do meu país e um enviado dos cegos que sacrificou a flor de seus homens para satisfazer suas satisfações básicas e suas ambições...”
“Amanhã voltará  para terra, mas terá bebido das águas do esquecimento... Eu lhe saúdo e oro contigo.”
Papus foi dispensado dessa prestação de serviço militar em 1916, devido à doença, em plena guerra
 
Túmulo de Papus
Túmulo de Papus em Père Lachaise, Paris.
A lápide ostenta seu nome Encausse.
Fonte: uma edição atual La Cabale: Tradition
secrète de l’Occident
(Éditions Dangles)
e morreu de tuberculose no Hôpital de la Charité, em Paris, o mesmo hospital em que estagiou e treinou para ser médico. Tinha 51 anos.
Um reconhecimento
Embora se diga muito o contrário, Papus não decodificou tanto o Tarô para o uso, mas sim como um monumento para exaltar o ocultismo e o misticismo. Seu Le Tarot des bohémiens é problemático:  frequentemente (de forma nada comum) mostra-se obscuro, confuso e inflado. Todavia, para seu crédito, ele dedicou um livro inteiro para associar as cartas a um largo espectro do pensamento esotérico de forma razoavelmente detalhada. Ninguém tinha tentado isso desde Etteilla no final século XVIII – nem mesmo Eliphas Levi.
Então porque Papus não é mais conhecido pelos ocultistas contemporâneos e e tarólogos, especificamente? Primeiro, muitos leitores conhecem-no somente pelo seu livro Le Tarot des bohémiens, que foi, como citado anteriormente, um trabalho problemático. Segundo, muito de seus pensamentos e filosofia dependem do rarefeito mundo do ocultismo e misticismo francês com o qual a maioria dos leitores não está familiarizada. Por último, a língua permanece como uma barreira que se ergue; poucos de seus trabalhos foram traduzidos para o inglês, e para melhor ou para o pior é a língua mais lida por um grande número de esotéricos e tarólogos contemporâneos.
Contudo, graças ao seu conhecimento, escritos, liderança entusiástica e o que nós chamariamos hoje em dia de “trabalho em rede”, Papus garantiu o estudo contínuo e o uso do tarô estabelecendo-se como o líder ocultista do final do século XIX.
 
     Fontes - Livros
Decker, Ronald; DePaulis, Thierry; Dummett, Michael. (1996). A Wicked Pack of Cards: The Origins of the Occult Tarot. New York: St. Martin’s. ISBN 0312162944.
McIntosh, Christopher. (1972). Éliphas Lévi and the French Occult Revival. London: Rider. ISBN 0091122716. In: http://www.villarevak.org//biblio/biblio_mn.html
Papus. (1909). Le Tarot divinatoire: clef du tirage des cartes et des sorts [Divination by Tarot: Key to Reading Cards and Lots]. Republicado (1998).; St-Jean-de-Braye: Éditions Dangles. ISBN 2703300670.
Papus. (1910).  (A. P. Norton, Trans.; A. E. Waite, Ed.).  The Tarot of the Bohemians: The Most Ancient Book in the World. (3d ed.).  London: Rider.  Republished numerous times.  Originalmente publicado em francês como Le Tarot des Bohémiens: Le plus ancien Livre du monde (1889).
     Tarot Deck
Le Tarot Divinatoire par le docteur Papus [The Divinatory Tarot by Doctor Papus]Paris: Éditions Dusserre.  Esse baralho é estreitamente baseado nas ilustrações de Goulinat no livro de  Papus, Le Tarot divinatoire (q.v.) com a exceção de que é colorido.
     Websites
Revak, James W. The Amazing Major Arcanum Esoteric Symbol Quiz. Explore os breves comentários sobre os arcanos e outros importantes tarólogos.
Revak, James W. Tarot Divination: Three Parallel Traditions.  Inclui significados divinatórios do livro de Papus, Le Tarot divinatoire (q.v.) que  dependem de Etteilla e seus alunos.
 
julho.11
Contato com o autor:
Elizabeth Hazel e James W. Revak - www.villarevak.org/bio/papus_1.html
Tradutor: Alexsander Lepletier: www.lenormando.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
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