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19 de novembro de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


A escada mística do Tarô
Andrea Vitali
 
Traduzido por Leonardo Chioda
 
 
Nota do tradutor
Minha relação com a Itália, já comentei no meu blog Café Tarot, é mais que afetiva. É hereditária. Saber que as origens do arcanos estão, até onde se sabe, nesse país tão amado e culturalmente harmônico, me dá a cada dia de pesquisa e tradução o fôlego para continuar firme com os propósitos de escancarar ainda mais os portões que guardam fatos e convergências simbólicas condensadas nas 78 lâminas, mantidos longe do público por aparente falta de material para dinamizar os estudos.
I Tarocchi, como é denominado o baralho em italiano, está no plural – o singular para cada arcano é "il tarocco" –, o que espelha a pluralidade também das referências documentais que formam o esboço cronológico das cartas. Uma gama de alusões a pinturas e textos políticos, alegorias, saberes geográficos, passagens bíblicas e noções alquímicas reside neste Castelo tão bem arquitetado.
Este esboço, escrito por grandes estudiosos italianos – Andrea Vitali, fundador da Associação Cultural "Le Tarot": www.letarot.it –, é uma preciosidade a todo tarólogo e pesquisador por fomentar a pesquisa séria e determinada a legar ao tarô o seu devido lugar enquanto realidade cultural do ser humano.
Leonardo Chioda
Tarólogo, escritor e professor
de língua e cultura italiana
 
O tarô é um jogo formado de 56 cartas, divididas em quatro naipes (Copas, Ouros, Espadas, Paus) em dez cartas numeradas e em quatro cartas de Corte (Pajem, Cavaleiro, Rainha e Rei), e de 22 cartas alegóricas, chamadas Trunfos. Estes últimos se inspiram conceitualmente nos Triumphi de Francesco Petrarca, que descreve as principais forças que governam os homens atribuindo-lhes um valor hierárquico. Primeiramente tem-se o Amor (Instinto), que corresponde à fase juvenil. Depois, a Modéstia (Castidade, Razão), fase sucessiva de madura tranquilidade, que é seguida da Morte, que significa a transitoriedade das coisas terrenas. Logo após vem a Fama, vitoriosa sobre a morte na memória dos posteriores, mas abaixo dessa triunfa o Tempo, o qual é dominado pelo triunfo da Eternidade que subtrai o homem ao fluxo do devir e o põe no reino do eterno.
 
Triunfo do Tempo - Petrarca
Triunfo do Amor
"Trionfi e canzoniere” de Petrarca, Cod. Palatino 192,
séc. XV - Biblioteca Nacional de Florença.
 
O Triunfo da Castidade - Petrarca
Triunfo da Castidade
“I Trionfi” de Petrarca, Ms. Français, 594, 1503.
Biblioteca Nacional de Paris.
 
As cartas dos Trionfi, compostas inicialmente de 14 alegorias, se estabilizaram em 22, numero cujo significado místico representa a introdução à sabedoria e aos ensinamentos divinos impressos nos homens. Tal percurso, que denuncia uma progressiva adaptação do jogo aos ditames numerológicos de caráter religioso, foi provavelmente adotado para evitar a condenação da Igreja que se punha contra os jogos considerados de azar.
J. Seznec, no livro La Sopravvivenzadegli Antichi Dei(Torino, 1990), afirma que "a teologia medieval atribui ao universo uma ordem precisa, formada de uma escada simbólica que sobe da terra ao céu: no alto dessa escada, Deus, a Causa Primeira, governa o mundo, sem todavia intervir diretamente, mas operando exgradibus, ou seja, através de uma série ininterrupta de intermediários, de modo que a sua potência divina se transmite até as criaturas inferiores. Se lida ao contrário, de baixo para o alto, a escada ensina que o homem pode elevar-se gradualmente na ordem espiritual, subindo até o topo do bonum, do verum e do nobile e que a ciência e a virtude acabam por aproximá-lo de Deus.
Triunfo da Morte - Philip Galle
Triunfo da Morte
Gravura de Philip Galle (Haarlem, 1537-1612). Coleção LoScarabeo.
A origem do conceito da Escada Mística no âmbito cristão se encontra na célebre passagem bíblica que conta o sonho que Jacó teve durante a viagem até Harran, cidade da Mesopotâmia (Gênesis, 28, 12-13). À noite, durante uma parada, Jacó permaneceu se preparava para dormir e utilizou uma pedra como travesseiro. Sonhou com uma escada onde ele repousava e cujo topo chegava até o céu. Na parte superior, imersa pelas nuvens, apareceu Deus que prometeu a ele e aos seus descendentes – o povo de Israel – a terra sobre a qual ele dormia. Os degraus da escada eram também usados, nos dois sentidos (sobe e desce), por vários anjos. Jacó, ao acordar, exclamou: “realmente existe o Senhor neste lugar e eu não sabia!”, e pegou a pedra sobre a qual descansava a cabeça e a fincoureta na terra como se fosse um pilar sagrado, versando óleo em cima dela. Chamou aquele lugar de Betel, ou seja, “Casa de Deus”.
As reflexões dos padres católicos, tanto orientais quanto ocidentais forneceram ao episódio diversas interpretações alegóricas. Por Fílon de Alexandria (século I), Clemente Alexandrino (antes de 215) e Orígenes (185-253/254) os anjos foram comparados à alma humana e o ato de descer e subir, à ascensão aos céus, enquanto que pelos padres a escada foi vista como um vínculo de união entre o mundo espiritual e aquele terreno e os anjos acabaram sendo assimilados às palavras divinas.
No cristianismo primitivo, o caminho até o céu era imaginado em forma de ascensão, como aquela de Cristo e Elias. Neste âmbito encontrou emprego também a escada que se torna o elemento principal junto a íngreme monte para representar a viagem do homem que se eleva até o encontro com Deus.
Tal figuração teve uma ampla variedade iconográfica e hagiográfica: Perpétua, a mártir cartaginesa, enquanto foi mantida na prisão, teve a visão de uma alta escada que subia até os céus, com espadas, lanças e outras armas ao longo do caminho enquanto um dragão se agitava na base dos degraus, significando a estrada até as alturas através do martírio.
 
Escada de Jacó
O Sonho de Jacó
Bibblia di Venceslao, cod. 2759, fol. 27r,
ca. 1389-1395. Hofbibliotheck, Vienna 
A humildade e a bem-aventurança divina poderiam seralcançadas nesta vida ao erigir uma escada feita com as próprias mãos, semelhante àquela de Jacó, recorrendo em primeiro lugar às virtudes (as figuras da virtude são comuns nas iluminuras medievais) a fim de erradicar o orgulho “que afunda o homem, impedindo-lhe a elevação”, segundo São Francisco de Norcia.
Com o pensamento da Escolástica – que valorizava as verdades da fé através do uso da razão e o recurso às autoridades – foi criada um novo e fecundo diálogo entre teologia e filosofia fazendo com que Ciência e Sabedoria fossem consideradas degraus da escada mística que aparecem na gravura que inserida na obra do bispo jesuíta Antonio Bettini, O monte santo de Deus, de 1477, uma “escritura simbólica que queria mostrar a via correta para alcançar a felicidade eterna”.
Nessa obra, o religioso que sobe a escada coloca um pé sobre a cabeça do diabo (em forma de dragão na visão da mártir Perpétua), como observou Santo Agostinho, já que a cabeça era o primeiro degrau dessa escada. O significado é simples: não se pode seguir um caminho elevado se antes não fosse esmagada a cabeça do diabo, ou seja, antes recusado (e superado) o mal. Representando o percurso do asceta, ao lado e além da escada, encontra-se um monte como aparece na gravura de Antonio Bettini.
O Eremita no Taro Gringonneur - sec. 15
O Eremita
Tarô Gringonneur (séc. XV)
 
Da primeira ordem conhecida de Triunfos, que remonta ao início do século XVI, é evidente que se tratava de um jogo de motivo ético. O Giocoliere (Mago) representa o homem comum a que são dados os caminhos temporais, assim como à Imperatriz e ao Imperador; já os caminhos espirituais, ao Papa e à Papisa (a Fé).
Os instintos humanos deveriam ser mitigados pela virtude: do Amor à Temperança e o desejo de poder, ou seja, o Carro, até a Força (a virtude cristã,a Fortaleza). A Roda da Fortuna ensina que cada sucesso é efêmero e que também os ricos são destinados a se tornarem pobres. O Eremita, que segue a Roda, representa o tempo que cada ser deve se submeter e a necessidade de todo homem de meditar sobre o verdadeiro valor da existência, enquanto que o Pendurado (definido nas primeiras cartas pelo termo Traidor) denuncia o perigo de cair na tentação e no pecado antes de atingir a Morte.
Também o Além é representado segundo a típica concepção medieval: o Inferno e então o Diabo são colocados abaixo da crosta terrestre sobre a qual se estendem as esferas celestes.
Como no cosmo aristotélico, a esfera terrestre é circundada pelo círculo dos fogos celestes (Sphaera Ignis), representados pelos raios que atingem uma Torre. As esferas planetárias são sintetizadas em três astros principais: Vênus, a Estrela por excelência, a Lua e o Sol.
A esfera mais alta é o Empíreo, sede dos anjos que no dia do Juízo serão chamados a despertar os mortos das suas tumbas. Nesse dia a Justiça divina triunfará, pesando as almas e separando os bons dos maus. Sobre todos está o Mundo, o Deus Pai, como escreve um monge anônimo que travou contato com o tarô e colocou o Louco depois do Mundo, como que indicando a sua indiferença a toda regra e ensinamento enquanto que, recusando a razão, não era capaz de compreender as verdades desveladas.
O pensamento da filosofia escolástica, que procurava valorizar a verdade da fé através da razão, uniu na categoria dos loucos todos aqueles que não acreditavam em Deus, ainda que raciocinassem. Nos Triunfos a presença do Louco adquire um significado ainda mais profundo: ele, no sentido de dono da razão, mas não crente, devia tornar-se, através dos ensinamentos expressos pela escada mística, um Louco de Deus como se torna o santo mais popular, Francisco, que foi chamado de “Lo Sancto Jullare di Dio” ou “Il Sancto Folle di Dio”.
Favorecendo o princípio da Ars Memoriae do tempo, que tende a manter na mente os conteúdos e princípios de todos os campos do conhecimento, os jogadores que utilizavam o tarô aprendiam os valores éticos por meio das lâminas.
Um inédito e extraordinário exemplo de jogo criado segundo os cânones da Arte da Memória é representado pelas miniaturas que compõem a obra Liber Chronicarum (Livro das Crônicas) publicada em Nuremberg em 1493 por Hartmann Schedel. Trata-se da história do mundo, da sua concepção de criação na época em que foi publicada. Várias gravuras feitas por Michael Wolgemuth (sendo que duas delas se devem a Albrecht Dürer) ilustram os acontecimentos descritos. Este jogo aparece, sem sombra de dúvida, nos últimos anos do século ou nos primeiros anos do século seguinte. Nas cartas se encontram figuras que mostram os evangelistas e a vida dos santos, imagens de imperadores, papas e bispos, fenômenos naturais, sinais celestes, cidades etc. Um jogo cuja função era de divertir e ao mesmo tempo instruir graças às imagens que se manifestavam no coletivo, como um grande afresco sobre a história da humanidade.
Tarocchi di Mantegna
O tarô de Mantegna
Além dos Triunfos existiam diversos outros maços de cartas que exprimiam o mesmo significado da Escada Mística, como por exemplo a série de 50 gravuras do dito tarô de Mantegna (1465, aproximadamente). Na realidade este conjunto de cartas apresenta um caso a parte e especial, já que não se trata verdadeira e propriamente de um maço de tarô. Uma equivocada atribuição a Mantegna é até moderna, não antiga. Mas os historiadores da Arte concordam em manter a sua criação creditada a um artista de Ferrara. Todavia, a ordem das figuras que ilustram as Condições Humanas, as Virtudes, as Artes Liberais, as Musas e as Esferas Celestes divididas em cinco grupos bem distintos, aproximam bastante essas imagens ao tarô enquanto incumbidas das mesmas finalidades educativas.
A utilização recreativa (lúdica) logo assumiu o aspecto didático-moral do jogo, que já no início do século 16 não era mais compreendido. Somente no século 18 é que começa a pesquisar o conteúdo filosófico das cartas. Partindo de premissas totalmente esotéricas, os novos intérpretes deram origem a uma nova ulitização do tarô, cujo fim consiste na busca individual da própria natureza divina segundo uma doutrina de clara derivação hermético-platônica.
 
Referência bibliográfica
VITALI, Andrea (org.) Il Castello dei Tarocchi. Torino: Edizioni Lo Scarabeo, 2010
 
setembro.11
Contato com o autor:
Andrea Vitali, formado em Estudos Humanísticos na Universidade de Bologna,
fundou em 1984 a Associação Cultural "Le Tarot", especializada no estudo e
pesquisa do simbolismo e do hermetismo. Site em italiano e inglês: www.letarot.it
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Contato com o tradutor:
Leonardo Chioda lê imagens e escreve. Formado em Letras pela UNESP, é
professor de língua italiana e literatura portuguesa. Pesquisa, ensina, traduz e
publica sobre os arcanos. Administra o blog Café Tarot - www.cafetarot.com.br
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