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23 de setembro de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


A Sacerdotisa Cabalistica de Arthur Edward Waite:
uma interpretação iconográfica
Emanuel José dos Santos
 
O Tarot Rider Waite, que comemora 100 anos de existência em 2010 [1], possui uma iconografia paradoxal, simultaneamente simples e rica, dando ao leitor/manipulador diversos níveis de compreensão que não se anulam nem competem entre si. O cartomante de revistinha se sentirá tão à vontade com esse baralho quanto o mago cerimonial em suas práticas. Sem julgamentos sobre suas aplicações.
A Papisa ou A Alta Sacerdotisa
Waite Tarot
 
Sua aparente simplicidade e o conforto visual que oferece, porém, não deixa de (re)velar os profundos conhecimentos cabalísticos de seu idealizador, Arthur Edward Waite. Não é o objetivo desse artigo apresentar as que eu reconheci – o que, de fato, está longe das possibilidades de interpretação que reconheço serem possíveis; infelizmente, ainda não possuo esse baralho, o que dificulta um pouco o meu trabalho com seus símbolos de maneira empírica, a forma mais divertida de interpretar o Tarot, em minha opinião pessoal. Objetivo, por outro lado, despertar a curiosidade do leitor para a existência desses aspectos que, para o estudante de Tarot e, por extensão, de Cabala, são de grande importância tanto na interpretação desse baralho específico quanto dos inúmeros baralhos que beberam de sua fonte.
Nessa imagem vemos uma mulher, de idade indefinida, mas já madura sexualmente, sentada entre duas colunas: à esquerda [2] uma coluna negra, com um “B” branco; à direita, uma coluna branca, com um “J” negro. Atrás da mulher e entre as colunas, um véu com flores vela o que está a posteriori.
A mulher veste uma rica túnica, sobreposta por um manto; tem sobre a cabeça uma coroa, formada por dois chifres que ladeiam um círculo, e no peito uma cruz de braços iguais. Seus cabelos mesclam-se ao véu que lhe cai sobre
os ombros. Em sua mão direita, segura um pergaminho onde se lê TORÁ. Aos seus pés, o crescente lunar. [3]
Normalmente, relaciona-se a figura representada a uma Sacerdotisa de Isis [4], no Templo dedicado à Deusa. Dentro dessa premissa, temos a coroa de Ísis-Hathor sobre a cabeça da dama, referindo-se às suas habilidades com a magia, mas também com a fertilidade [5]. Os cornos são referência às três fases da Lua – Crescente, Cheia e Minguante; dessa forma, a coroa apresenta o controle e o domínio que a Senhora possui sobre o Tempo.
A Torá em seu colo tem uma acepção magística, mas também histórica; ao associar o livro sagrado dos judeus a uma sacerdotisa egípcia, temos ao mesmo tempo referência à origem e à prática do que hoje é chamado Cabala como originária dos Mistérios egípcios. Sabemos que Moisés, criado como Príncipe, possivelmente teve acesso aos Mistérios, e dessa possibilidade deduzimos que o profeta ressignificou tais elementos na religião de seu povo, mudando a expressão, sem no entanto perder seu efeito.
O Véu que cobre o entremeio das colunas representa o Véu do Mistério que o Iniciado transpõe quando dispõe-se a tornar-se Adepto. Em outros baralhos apresenta-se branco, ou pelo menos liso; aqui, apresenta uma estamparia floral.
Tais conceituações são passíveis de se afirmar acerca de diversos baralhos oitocentistas e posteriores. Contudo, nesse artigo, propomo-nos a, a partir da iconografia específica desse baralho, propormos interpretações de natureza cabalística que poderiam ter sido propostas por Arthur Edward Waite para a elaboração dessa lâmina.
A Sacerdotisa, dentro da premissa cabalística [6], rege o 13º Caminho, o Caminho da Inteligência Unitiva, que vai de Kether a Tiphareth. “O Décimo Terceiro Caminho é chamado Inteligência Unificadora, porque ele é a Essência da Glória; ele é a Consumação da Verdade dos Seres Espirituais Individuais”. Sua letra é Ghimel, cujo significado é Camelo [7]. Aquele que porta sua própria independência, apontando para a solitude dessa personagem. O Caminho regido por essa letra atravessa o Abismo, levando a luz de Kether a Tiphareth, o Maior Semblante iluminando o Menor Semblante, o Rei instruindo o Príncipe. Tiphareth é a única Sephira abaixo do Abismo iluminada pela luz de Kether, que só como reflexo chega às demais Sephiroth.  Mas, mais que uma representação alegórica do conceito relacionado à letra hebraica relacionada, a lâmina possui, de forma velada, a representação da Árvore da Vida, que por sua vez apresenta um novo nível de interpretação, mais profundo, do seu significado divinatório.
Comecemos pelas colunas que a ladeiam. À esquerda, Boaz, a Coluna Negra, representa o Caminho que liga Geburah a Hod. Do outro lado, Jakin, a Coluna Branca, representa o Caminho que liga Hesed a Netzach. A Senhora assentada representaria, portanto, a Coluna Central, que liga Tiphareth a Yesod.
Aparentemente, isso soaria contraditório, já que a mesma está assentada em Daat, cuja Imagem Mágica é o Trono Vazio, entre Kether e Tiphareth [8], ou seja, um Caminho acima. Reitero, aparentemente.
 
Árvore da Vida
Ilustração de C.K.R.
Continuemos a verificar os símbolos da lâmina, agora nos atendo à Senhora, como representante do Pilar Central.
Ao Pilar Central é atribuído o Caminho da Flecha. Esse Caminho, que parte de Malkuth a Yesod, desta a Tiphareth e por fim a Kether, seria o Caminho mais veloz para a plena iluminação. Todavia, também é o mais perigoso e dado aos percalços do Abismo, sendo atravessado por duas Noites Escuras da Alma, entre Netzach e Hod, cruzando Tiphareth e Yesod, e depois entre Geburah e Hesed, cruzando Tiphareth e Kether. Nesses dois testes, o Iniciado é testado em sua pureza e comprometimento com a Grande Obra.
Observemos a Senhora. Aos seus pés, a Lua; sobre sua cabeça, a Lua Cheia, cujo símbolo – o círculo – mescla-se à iconografia do Sol, sua contraparte e de quem é reflexo. Temos aqui, a representação da Coluna Central, que equilibra Boaz e Jakin.
Ao mesmo tempo, porém, seus símbolos apontam para o Caminho acima – o Trono, a Torá, como símbolos do conhecimento que revela a Verdade velando-se sutilmente em nuances que se apresentam à medida em que o Iniciado está pronto, como que sedimentando empiricamente o que antes seria apenas hipótese.
Voltemo-nos para o Véu atrás da Senhora. Cinco flores a ladeiam; cada flor representa uma Sephira. Repare que, se fossem círculos, a cabeça da senhora seria o círculo central; se traçássemos um hexágono, tendo a cabeça por centro, a cruz em seu peito seria o vértice inferior.
Tomando por referência a informação anterior, temos a cruz no peito como Tiphareth (os dois símbolos remetem à essa atribuição: a cruz, metáfora da Experiência Espiritual da Sephira, a Visão dos Mistérios do Sacrifício – ou Crucificação, em outras versões; e a sua disposição no centro do peito, onde reside o coração – área do corpo regida por Tiphareth). Ladeiam-lhe Geburah  e Hesed; acima, Binah e Chokmah. Acima da cabeça, uma flor representa Kether.
A Sacerdotisa
no Thoth Tarot de Crowley
 
A Coroa, que naturalmente seria atribuída a Kether, aqui ocupa a posição de Daat. Os chifres tocam Binah e Chokmah, mostrando que o Conhecimento (Daat) é obtido pela depuração da Compreensão (Binah) e da Sabedoria (Chokmah).
Curiosamente, não temos aqui Malkuth. Ainda que a Sacerdotisa seja um pilar, seus pés repousam sobre o Fundamento (Yesod), o que lhe concede seus poderes intuitivos, mediúnicos e xamânicos, mas, paradoxalmente, impede sua realização e concretização de maneira objetiva; seu campo de atuação é o mundo onírico, astral, de onde seus influxos, devidamente depurados [9], serão postos à serviço em Malkuth; da mesma forma, após o encontro com o Sagrado Anjo Guardião, seguindo o Caminho da Flecha, a Visão da Engenharia do Universo será vista através da subjetividade de sua atuação, como ondas em um lago; ainda que reais, são apenas forma de uma força manifesta – o vento sobre o lago ou a pedra lançada, que, como causa que são do efeito percebido, serão observadas na próxima Experiência Espiritual do Caminho. Mas essa é outra história, ligada a outras lâminas.
Obviamente, esse é um insight pessoal; não considero essa a última nem a melhor versão interpretativa da lâmina. Contudo, se eu consegui despertar em você o desejo de brincar de onde está Wally? em relação às demais lâminas, creio que o objetivo do artigo foi alcançado. Não é porque a Arte é Sagrada que ela deixa de ser divertida.
 
Notas:
[1] O tarólogo Leonardo Chioda elaborou uma resenha assaz interessante a respeito.
[2] Utilizaremos “esquerda” e “direita” em função do observador; os demais casos referentes à imagem serão descritos no corpo do texto.
[3] Para nós do Hemisfério Sul, seria a Lua Minguante; mas devemos nos lembrar que esse baralho foi produzido no Hemisfério Norte, e portanto devemos respeitar a forma de Ver dos elaboradores. Esse dado é familiar aos praticantes da Wicca, que têm que decidir qual Roda do Ano seguir, mas agora mostra-se também fundamental para a compreensão do simbolismo da referida lâmina.
[4] Crowley, em seu Thoth Tarot, vai além e representa a própria Isis, em sua face Ártemis.
[5] Não podemos nos esquecer que o maior ato mágico de Ísis foi reviver o marido morto, para que dele pudesse engravidar de Hórus.
[6] Existem outras versões, de acordo com a Escola seguida pelo leitor. Faço minhas análises a partir do material produzido pela G.’. D.’., ainda que reconheça que existam outras atribuições anteriores, como as de Eliphas Levi e Papus; contudo, como não concordo com elas, tomo a G.’. D.’. como uma evolução no pensamento original dos autores supracitados e não um posicionamento antagônico. Utilize o que preferir.
[7] Inclusive, representado pictoriamente no Thoth Tarot.
[8] Daat é uma Sephira Oculta; normalmente, ela é representada como o Portal do Abismo, estando, portanto, no Caminho da Sacerdotisa. Contudo, conforme a descrição da mesma, essa Sephira é mutável e pode estar em qualquer lugar da Árvore.
[9] Crowley representa a depuração pela teia iridescente que cobre toda a lâmina e serve de suporte para as frutas e cristais da base.
 
 
Bibliografia consultada:
Na maior parte, devo as referências ao meu Grimoire; não registrei exatamente de onde tirei cada coisa (passei a fazer isso bem recentemente; façam o que eu digo, registrem suas fontes, não façam o que eu fiz). Contudo, devo meus conhecimentos de Cabala à:
CROWLEY, Vivianne. Cabala – um enfoque feminino: cabala para o século XXI. Tradução de Carlos A. L. Salum e Ana Lucia Franco. São Paulo: Pensamento, 2003.
FORTUNE, Dion. A Cabala Mística. São Paulo: Pensamento, s/d.
MATTERS, S. L. McGregor. O Tarot: um pequeno tratado sobre a leitura das cartas. Tradução de Anna Maria Dalle Luche. São Paulo, Madras, 2003.
ORDEM ROSACRUZ, AMORC. A Cabala desvendada. 5 ed. Curitiba: Biblioteca Rosacruz, 2002
PRAMAD, Veet. Curso de Tarô: e seu uso terapêutico. São Paulo: Madras, 2004.
REED, Ellen Cannon. A Cabala das Feiticeiras: o Caminho Pagão e a Árvore da Vida. Tradução de Márcia Frazão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
——. O Tarô das Bruxas. São Paulo: Pensamento, 2004.
 
dezembro.10
Contato com o autor:
Emanuel José dos Santos - www.conversascartomanticas.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
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