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24 de março de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


Papisa - a Alta Sacerdotisa
 
O texto a seguir é a transcrição de um capitulo do livro de Sallie Nichols, Jung e o Tarô - Uma jornada arquetípico, publicado pela Ed. Cultrix, 1ª ed., 1988, págs. 82-95.
Pode ser considerada como uma das mais importantes obras sobre o simbolismo das cartas, estabelecendo nexo com fontes mitológicas e com a moderna abordagem psicológica.
O livro encontra-se à venda na www.loja.simbolika.com.br, parceira do site Clube do Tarô.
 
A Papisa: Suma Sacerdotisa do Tarô
Sallie Nichols
 
O mundo mudará menos
com as determinações do homem do que
com as adivinhações da mulher.
Claude Bragdon
 
O Trunfo número dois do Tarô retrata uma papisa de antiga e misteriosa origem. Historicamente nunca houve uma papisa mas, por vários séculos, uma mulher chamada "Papisa Joana” desfrutou de uma existência alegre na imaginação pública. Disfarçada de padre, esse personagem lendário finalmente subiu através das ordens para tornar-se papa. Ninguém suspeitava de que o "Papa João” era mulher, até que o fato, um dia, se revelou de maneira constrangedora. No meio de solene procissão papal, o "Papa João", de repente, deu à luz uma criança!
A Papisa no Tarô de Marselha - Grimaud
A Papisa
Baralho de Marselha
Se bem pudesse governar vastos reinos espirituais e temporais, o verdadeiro Papa João não poderia ter realizado esse milagre, de todos os dias. O homem pode propagar e celebrar o Espírito Divino, mas somente através da mulher o espírito se faz carne. É ela quem capta a centelha divina em seu ventre, a protege e alimenta e, finalmente, a gera na realidade. Ela é o vaso da transformação.
A lenda do Papa João
Representação da lenda do Papa João, uma mulher que deu à luz em público.
Obra de 1474 no Museu Britânico
Do ponto de vista masculino da lei e da ordem, o ato criativo de Joana pode parecer um infeliz acidente que interrompe a procissão civilizada. Que choque há de ter sido o ver-se diante da sanguinolenta confusão da realidade – o infante a berrar e todos aqueles cueiros – no meio da pompa e circunstância! Que falta de consideração da Natureza desmazelada interromper tão rudemente a celebração do puro espírito! Mas até quando diz isto, o homem se vê obrigado a reconhecer a tremenda importância do poder da mulher. "Puro espírito” é puro disparate. A menos de ser apanhada, trazida ao terreal e instalada na realidade, a inspiração alada se espalha sem finalidade e sem propósito. Sem o nascimento não haveria procissão. A não ser que o espírito fosse realmente feito carne, a celebração papal não teria sentido.
Pag. 84:
Portanto, aqui, diante de nós na carta número dois, está sentada a Mulher. Embora chamada Papisa, não é literalmente a esposa do papa. Visto que, na sequência, ela se segue ao Mago, que é um sábio revestido da dignidade sacerdotal, ou mago, podemos pensar nela como numa Suma Sacerdotisa, nome, aliás, que lhe dão alguns baralhos modernos. O Mago representa o yang primário, ou princípio criativo masculino. A Papisa pode ser vista como representação do yin primário, ou aspecto feminino da divindade. Personifica as qualidades de Ísis, Ishtar e Astarte, todas deusas que reinaram sobre os rituais dos mistérios das mulheres. Em seus aspectos espiritualizados surge como a Virgem Maria e como Sofia, a Sabedoria Divina. O seu número dois é um número sagrado para todas as divindades femininas.
A Papisa é uma figura feminina substancial, pesada, sentada – possivelmente entronizada. Ostenta as vestes cerimoniais e a tiara da Igreja, representando, assim, o poder espiritual além da sua pessoa individual. Segura na mão um livro aberto, sem dúvida um livro sagrado, simbólico da Palavra Divina. Talvez esteja refletindo sobre o que acabou de ler. Talvez mantenha o livro aberto para podermos ver a Palavra... vede como estava escrito "no princípio". Nos quadros da Anunciação, a Virgem Maria, não raro, se apresenta com um livro aberto; segura o livro dos Profetas, que lhe prediz o destino como portadora do Divino Infante. Aqui no Tarô se diria que o livro tem significação semelhante, indica que, através da Papisa, o espírito será real-izado, trazido à realidade. Tradicionalmente, não é a mulher quem faz a lei, ela é o instrumento da sua promulgação; não controla o próprio destino, que evolverá como estava escrito. A mulher não se põe a agir para procurar o seu fado, pois a essência do feminino é a receptividade. Não escolhe; é escolhida. Suceder-lhe-á como estava predito "no princípio".
Anunciação à Nossa Senhora - Leonardo Da Vinci
Anunciação á Nossa Senhora - pintura de Leonardo Da Vinci
A mão direita da Virgem toca o Livro Sagrado
A pala amarela que atravessa o peito da Papisa de um lado a outro pode indicar que ela aceita o destino, que suportará o fardo com paciência bovina e servirá o espírito com humildade. A pala enfatiza o eixo horizontal da cruz, a dimensão da realidade terrena. Liga o direto ao esquerdo, o consciente ao inconsciente, unindo-os de um modo prático. De maneira semelhante, suas mãos se unem para segurar o livro da profecia; ela aceita a Palavra com todo o seu ser. Esse sentimento de compromisso ecoa na touca branca, parecida com a que ostentam certas ordens de monjas e as mulheres ao fazerem a primeira comunhão. Usada de um modo geral nos tempos medievais, a touca hoje se conserva como sinal de dedicação especial ao Espírito Santo. Esconde os cabelos da mulher, sua "glorificação", símbolo de atração sexual e de poder de sedução. A Papisa, porém, está enfeitada com uma tiara cravejada de joias, que chama a atenção para uma glória mais preciosa do que os cabelos mortais, e cuja forma de colmeia indica fertilidade perpétua, organização instintiva e nutrição doadora de vida Suas três camadas mostram que esse poder se manifesta em todos os mundos: no celeste, no terrestre e mesmo debaixo d'água.
O toucado de três camadas também liga a pessoa que o usa à feiticeira de três caras, Hécate, escura personagem pré-olímpica, de cujo domínio partilhará a Papisa nos três mundos. A dama do nosso Tarô simboliza um requinte e uma espiritualização de natureza instintual aparentemente muitas eras distantes da vingativa Hécate: sem embargo disso, a Papisa não se senta satisfeita no trono. O toucado em forma de colmeia lhe serve de constante lembrete de que os instintos, contrariados, podem atacar com ferrões maldosos... Atrás da Papisa estendeu-se um grande véu ou cortina sustentada por dois pilares, rapidamente vislumbrados debaixo do véu à sua direita e também debaixo do seu cotovelo esquerdo. É evidente que ela está sentada à entrada de alguma coisa – talvez um templo ou santuário íntimo, de cujos mistérios é a guardiã.
Pag. 85:
Podemos apreciar as qualidades misteriosas da Papisa colocando-a em contraste com o Mago, retratado fora de casa, num campo aberto. Tudo nele – a forma de lemniscata do chapéu, a varinha empunhada no alto por uma das mãos, a bolinha segura com tanta delicadeza entre o dedo e o polegar da outra mão, juntamente com os implementos e instrumentos do seu ofício sobre a mesa à sua frente – tudo sugere ação. Ele está em vias de fazer alguma coisa. Até os cabelos, com cachos dourados, caindo livremente debaixo do chapéu, parecem vivos. Sua posição com os pés espalhados é a do maestro no pódio, pronto para dirigir uma execução. Como o condutor, o Mago não está fixado permanentemente no lugar. Concluída a execução, mudar-se-á para outros campos. Tampouco está constrangido pelas limitações do tempo terrestre. As curvas extravagantes da lemniscata do chapéu ligam-no ao infinito – indicando que quem o usa tem acesso a dimensões mágicas de percepção impessoal, transcende as realidades mundanas do tempo e do espaço.
Não assim com a Papisa. Ela está quase enraizada no lugar, passivamente sentada, imóvel. Sentimos que sempre esteve ali sentada e assim continuará até o fim dos tempos. Ao passo que o chapéu e a varinha do Mago sugerem ação e experiência, a tiara e o livro dela indicam contenção e tradição. Em contraste com a liberdade do Mago no espaço, os pilares da Papisa marcam as limitações da dura realidade.
O poder do Mago é o fogo: o poder quente, brilhante, rútilo do sol. O poder da Papisa é a água: o poder frio, escuro, fluido da lua. Ele controla por meio da força rápida, do conhecimento e da ideia. Ela governa pela lenta persistência, pelo amor e pala paciência feminina.
Os pilares reiteram a dualidade expressa no número dois da Papisa. Sua essência é o paradoxo. Ela abrange tudo, abarca assim o bem como o mal – até a vida e a morte. Ela, que é a mãe da vida, também preside à morte, já que tudo o que vive na carne precisa, um dia, morrer na carne. Somente a luz não confinada do puro espírito é imortal.
A magia do Mágico, como o seu sexo, está na frente. A magia da Papisa, velada e oculta como os seus cabelos, está escondida pelas cortinas atrás dela? Ou ela a guarda "debaixo do chapéu"? Ou a sepultou entre as águas do seu ventre? Onde quer que esteja escondido, o segredo da mulher, como o da natureza, permanecerá sempre oculto à penetração da consciência masculina. Na base da estátua de Ísis em Sais, estão inscritas as seguintes palavras: "Sou tudo o que era, que é, e que sempre será. Nem mortal algum jamais pôde descobrir o que jaz debaixo do meu véu." Dela é o reino da profunda experiência interior; dela não é o mundo do conhecimento exterior.
Sentimos que o poder do Mago está, de certo modo, sob o seu controle consciente, que ele pode "usar de franqueza". Não é este o caso da Papisa: a natureza da sua magia está escondida até mesmo dela. Acontece, em parte, "nas suas costas", como está representado. Guardiã do nascimento e do renascimento, ela nos guarda, mas não os controla.
Nas culturas primitivas, a mulher era vista como a única fonte da vida, porque não se considerava o ato sexual ligado de algum modo à gravidez. Entendia-se que o homem não representava papel algum no processo da concepção. Era até conhecido como intruso, uma força destrutiva da criação, como está exemplificado mitologicamente na história do rapto de Perséfone. Uma vez que não se compreendia o papel do homem no processo da vida, cada mulher que engravidava havia de sentir-se misteriosa e incompreensivelmente escolhida pelos deuses. Como aconteceu a Maria, a notícia do seu destino devia parecer ter descido inexplicavelmente como anunciação do céu. O parto era uni santo mistério, e uni mistério da mulher. Os primeiros limites sagrados que se conheceram foram os destinados ao parto. Mais tarde, erigiram-se templos nesses sítios. Assim o princípio feminino personificado em Ísis, Ishtar, Astarte e, depois, em Maria, veio a ser ligado não só ao nascimento no corpo, mas também ao renascimento numa nova dimensão de percepção, que transcende a carne.
Pag. 86:
Hoje em dia, a despeito da pílula, da educação sexual e da liberação das mulheres, o parto continua a ser, graças a Deus, um mistério sagrado. O planejamento familiar é mencionado com desenvoltura, mas a verdade é que cada gravidez ocorre (ou não) pela graça de Deus. Toda mãe em perspectiva, por mais disposta que esteja, ainda precisa ser escolhida pelo destino para assumir esse papel. O próprio acontecimento milagroso ainda é um mistério, e ainda é um mistério da mulher. Acontece a ela. Com o homem, o ato da propagação acontece fora dele, tanto física quanto psicologicamente. O homem pode procriar uma dúzia de filhos sem jamais ter conhecimento de que o fez. Mas, em se tratando da mulher, a concepção e o próprio filho acontecem dentro do seu corpo – no próprio centro do seu ser. A partir do momento em que ela concebe, quer o saiba quer não, a mulher está literalmente grávida de um filho. Seja qual for a sua atitude intelectual, no fundo do inconsciente de cada mulher a gravidez ainda é experimentada com urna anunciação profética Pare ela, cada nascimento é unta recriação do Divino infante.
Parece significativo que as mulheres estejam começando hoje a restabelecer uma conexão consciente com a experiência do parto. Através do parto natural e de outras técnicas que dispensam o emprego de drogas, as mulheres permanecem conscientes no momento de parir, de modo que podem ligar-se emocional e espiritualmente à experiência e participar conscientemente desse supremo ato de criação. Mais significativo ainda é o fato de que os maridos, longe de serem excluídos do "recinto sagrado", são convidados a participar do ritual do parto e a partilhar da experiência como co-criadores. Finalmente, a criatividade feminina e o princípio feminino (negado por um período demasiado longo em nossa cultura) estão conquistando os seus direitos.
A liberação das mulheres é encarada, às vezes, estreitamente, como um movimento que visa a libertar as mulheres da maçada do trabalho de casa e dos preconceitos dos homens em todas as áreas da vida. Mas o que está sendo realmente almejado é a libertação, tanto dos homens quanto das mulheres, da subserviência ao princípio masculino, um dirigente cuja autonomia há muito estabelecida converteu-se em tirania para homens e mulheres ao mesmo tempo. Em seu nível mais profundo, esse movimento não é uma guerra entre os sexos, mas, antes, uma luta árdua da parte de ambos os sexos para libertar a Papisa das masmorras do inconsciente e para elevá-la ao lugar a que tem direito como co-soberana do seu equivalente masculino.
Assunção da Virgem - obra de Rubens - 1616
Assunção da Virgem.
1616. Por Rubens, atualmente nos Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica.
A atual revolução psicológica e social pode ser vista como a promulgação, em termos humanos, da Assunção da Virgem Maria, recém-dogmatizada pela Igreja Católica. Teologicamente, a Virgem tem agora um lugar seguro no céu à mão direita de Deus. Mas depois de séculos de genuflexão espiritual diante do princípio do pai (que dominou por tanto tempo nossa cultura judeu-cristã), é difícil, tanto para as mulheres quanto para os homens, dar o mesmo destaque ao princípio feminino.
Pag. 87:
Um dos nossos problemas pode ser que o conceito "igual, mas diferente” é de aceitação difícil para uma sociedade competitiva, em que cada pessoa, lugar ou coisa é instantaneamente computadorizada, avaliada e rotulada. Dir-se-ia que em nosso esforço por experimentar os sexos como iguais às vezes tendemos a obliterar-lhes as diferenças. Compreensivelmente, a atual fase transicional é uma fase de confusão para todos; mas parece particularmente assim para os que dentre nós fomos educados nunca era em que as diferenças sexuais, por mais distorcidas que fossem pela cultura, eram claramente definidas. O mesmo não acontece hoje. Simples donas de casa passam por nós nos supermercados vestidas como alguma coisa saída dos Anjos do Inferno; heróis do futebol, antigamente pouco amigos das fitas do avental, agora posam para a imprensa vestindo o avental inteiro – e com os cabelos encaracolados! Mais desconcertantes ainda são os trajos e o procedimento uniformes do chamado unissexo, em que todos trazem cabelos compridos e blue jeans e todos carregam os próprios cobertores e mochilas; e não é fácil achar uma pista do verdadeiro sexo da pessoa.
Talvez não mereçamos nem precisemos saber quem é o quê (supondo, naturalmente, que os próprios indivíduos tenham uma boa compreensão dos fatos da vida). Mas podemos compreender a confusa admiração de Ogden Nash pela tartaruga, em que o sexo é similarmente escondido: "Creio que é muito esperta a tartaruga / sendo, em tais condições / tão fértil." E podemos esperar que esteja prestes a nascer um novo papel "igual, mas diferente” tanto para os homens quanto para as mulheres. Um dos modos com que talvez possamos ajudar-lhe o parto é através de uma experiência mais plena e mais consciente do princípio feminino, por tanto tempo negligenciado, e da compreensão de como opera em todos nós, homens e mulheres.
Como primeiro passo, seja-nos permitido esclarecer a nossa terminologia. Não se pretende que os temos feminino e masculino, tal como Jung os emprega, se correlacionem com a dicotomia fisiológica homem-mulher. Eis por que são úteis conceitos como yang-yin ou Logos-Eros, pois deixam claro que o que nos interessa aqui são dois princípios de vida, ambos os quais operam em todos os homens, em todas as mulheres e em toda a natureza. Entretanto, parece importante também conservar alguns tons harmônicos em nossa linguagem. O sexo é um paradigma na experiência humana para a compreensão dos opostos e sua transcendência final. Através da não-identidade da relação sexual chegamos a experimentar a força dinâmica dos opostos em nossas entranhas e, através do êxtase da sua reconciliação, vislumbramos sugestões de uma totalidade que transcende a carne moral.
Assim os temos masculino-feminino são usados aqui para denotar pólos positivos e negativos de energia, cuja interação dinâmica propaga, motiva e ilumina nossas vidas. Por exemplo, assim como o corpo do homem tem características femininas secundárias, assim a sua psique – seus humores e comportamento – sofre a influência do chamado lado feminino, a cuja personificação Jung deu o nome de anima. Quando o homem não tem consciência da sua anima, pode ser inteiramente dominado e destrutivamente influenciado por ela. Quando toma consciência dela e das suas necessidades, ela pode inspirá-lo e conduzi-lo à sua própria totalidade. Em termos junguianos, a Papisa representaria para o homem um desenvolvimento muito elevado da anima. Simbolizaria a figura arquetípica que o relaciona com o inconsciente coletivo. Sendo mulher, a Papisa seria uma forma altamente diferenciada de Eros; simbolizaria a feminilidade, um eu espiritualmente desenvolvido.
As muitas facetas da feminilidade espiritual não podem ser captadas em palavras, nem mesmo em imagens; mas escolhi algumas ilustrações que podem ampliar e enriquecer o significado dessa carta. Examinando essas imagens talvez possamos ligar-nos â "magia da Lua" em nós mesmos. Pois todos, homens e mulheres, temos ao nosso alcance dentro de nós os poderes assam do Mago como da Papisa. Se esses dois pólos não interagissem em nós não haveria vida – nem criatividade.
Pags. 88-89:
A ilustração abaixo mostra uma estátua de alabastro de antiga deusa da Lua, símbolo de fertilidade e reprodução, provavelmente Astarte. Ela representa uma forma muito mais primitiva do princípio feminino do que o que temos estado examinando; mas debaixo dos vestidos da civilização, o sangue de Astarte corre nas veias da Papisa – e nas nossas. As divindades femininas eram deusas da Lua porque se acreditava que as fases da Lua controlassem o nascimento, o crescimento e a decadência. Ainda hoje muitos lavradores chamados "civilizados" consultam o almanaque antes de deitar na terra as suas sementes.
Estátua da deusa Astarte
Astarte (Mesopotâmia c. 2000 a.C.)
O poder da Lua é muito sutil, porém muito forte. Controla as poderosas marés, daí o dizer-se que as lágrimas de Ísis governam as águas do Nilo. À diferença do Sol, que é constante, predizível e brilhante, a Lua é inconstante, velada e escura. A natureza da mulher é melancólica, mutável como a Lua, que pode trazer a nutrição doadora de vida, a seca ou as enchentes destrutivas, dependendo da fantasia da Grande Deusa.
Ambos os sexos estão sujeitos aos caprichos da deusa, mas as mulheres, graças ao seu parentesco com ela, acham-se habitualmente mais cônscias da sua influência e mais preparadas para lidar com ela. O ritmo do ciclo menstrual, com as mudanças de humor que o acompanham, ajuda a mulher a esperar o inesperado e a reconhecer e aceitar o irracional como parte da vida. O temperamento da mulher, como o da deusa, está mais relacionado com ritmos da natureza do que com sistemas de lógica.
 A situação do homem é diferente. Tanto fisiológica quanto psicologicamente, o homem, de ordinário, está menos aforado com a vazante e a enchente de seus estados de espírito do que a mulher. Em resultado disso, a deusa pode pegá-lo de surpresa. Às vezes, ela lhe usurpa toda a personalidade, de tal sorte que o homem nesse estado quase parece falar com a voz dela, de =jeito efeminado, irracional e até histérico. Podemos imaginar a Deusa da Lua (Fig. acima de Astarte) vingativa e impiedosa quando contrariada. Olhem só para aqueles olhos! Observem também o "terceiro olho", localizado não na testa, mas na barriga dela, no umbigo, centro de tudo.
O elemento a que ela se figa é a água. Na maioria dos mitos da criação, a água é descrita como o poder original receptivo, produtivo e construtor de forma. Das profundezas do oceano, do berço eternamente balouçante, se ergueu toda a criação – todas as formas de vida. Das profundezas do inconsciente se ergueu a própria consciência Pois assim como o embrião individual está contido e alimentado no líquido amniótico, assim cada identidade individual está contida e é alimentada no profundo inconsciente de todo recém-nascido. Assim sendo, é do inconsciente que nasce a consciência.
Simbolicamente, a mulher, de fato, é água: mare, mer, mère e Maria. Sua conexão com a água é enfatizada na versão inglesa do século XX da Papisa (veja abaixo). Essa carta, do Tarô de Waite, chama-se A Suma Sacerdotisa. Aqui as roupas da dama fluem para a água e tomam-se água. A corrente, feminil, seguirá a linha de menor resistência, adaptando-se aos contornos terrestres, movendo-se sempre para baixo a fim de juntar-se em poças e lagos que espelham o céu. A natureza feminina é refletiva. Mergulhando nas profundezas da mulher, o homem chega a conhecer-se. Olhando para as imagens no inconsciente profundo, chegamos a conhecer-nos.
Pag. 90:
A Alta Sacerdotisa no tarô de Waite
A Alta Sacerdotisa no Baralho Waite
A duplicação, a duplicidade e também a lembrança pertencem ao lado feminino. Em seu livro The Two Hands of God (1959), Alan Watts nos recorda que, quando recolheu o corpo desmembrado de Osíris, Ísis, literalmente, remembrou-o. A remembrança não é um mero ato mecânico, como tirar uma fotografia de um arquivo. É, basicamente, um ato de restauração e criação. Pois quando nos lembramos de alguém, recriamos a sua imagem. Às partículas e pedaços do fato espalhado a respeito da pessoa ou situação em tela acrescentamos importante pedaço de nós mesmos: um conteúdo emocional tirado da nossa própria experiência. Assim, lembrando-nos de alguém, criamos uma nova entidade. Trazemos o esquecido de volta a uma nova totalidade e o reintegramos no mundo coletivo.
O ato criativo da memória é a província especial do princípio feminino, sempre colorido pela emoção. De fato, como Watts nos recorda, a palavra inglesa "memory" deriva do inglês antigo mournan, que quer dizer "to mourn" (prantear). Assim, com efeito, "mourning" (o pranto) "se toma Electra". A capacidade de ligar-se de forma criativa às emoções também pertence a homens em contato com o seu lado feminino. O dom particular dos poetas consiste em ajudar-nos a "chorar por Adonai".
Pag. 91:
Nossa cultura ocidental tende a enfatizar o aspecto leve, puro, da condição da mulher, de modo que se toma difícil encontrar exemplos na arte europeia que retratem a mulher espiritual como arraigada no corpo. Um caso a propósito é a Papisa, tal como foi retratada no baralho Waite. Esse baralho inglês da virada do século, desenhado sob a direção do estudioso A. E. Waite, foi executado por Pamela Smith, que criou os cenários para as peças de Yeats. Nele, a papisa sofre mudanças significativas. Esta sacerdotisa é pintada como uma formosa jovem sentada, orgulhosa e erecta. As águas a seus pés refletem uma lua crescente. Conquanto entronizada entre os Pilares de Salomão, diante de um fundo de quadro de antigos símbolos de fertilidade, com um rolo de pergaminho com a palavra "Tora” no colo e ostentando a própria coroa de Hathor, a dama parece britânica até os ossos. A despeito da complexa simbologia do cenário – ou talvez por causa dele – ela se me afigura um rosto sem paixão, distante de tudo o que a cerca, e desligada do corpo. Como essa casta donzela pós-vitoriana está longe da comada Astarte – a do ventre brilhante e dos olhos chamejantes!
A sacerdotisa do século XX de Waite é perfeita e bela e talhada para o papel – mas alguma coisa lhe falta. Em comparação com a Papisa, com seu corpo confortável e seus velhos olhos sábios, essa moça parece intocável e pura – boa demais para ser verdadeira De maneira semelhante, a Virgem Maria, às vezes, é tão romantizada e idealizada que se diria incorpórea e etérea. Hoje, com a Doutrina da Assunção, o corpo da Virgem tomou-se aceitável ao Céu – e a nós. Talvez tenha chegado o momento de se restituir à palavra "virgem" a força e o significado originais.
Hoje em dia damos o nome de virgem a uma pessoa sexualmente pura. Originalmente, porém, a palavra "virgem" não tinha relação alguma com a castidade física. "Virgem" significava simplesmente "a mulher não casada". Como assinala Esther Harding (Woman's Mysteries, 1975) visto que não pertencia a homem nenhum, a virgem pertencia a si mesma de um modo especial. Estava livre, portanto, para dar-se a Deus; psiquicamente aberta ao Espírito Santo. Virgem nesse sentido era o Oráculo de Delfos. Não se tratava de nenhum espírito desencarnado, que pairava por ali em pálida gaze e ectoplasma. A deusa pítica sentava-se, robusta e sólida, em sua carne; pois a fim de receber o impacto do Espírito Santo, o vaso precisava ser forte. O significado de ser "escolhida por Deus" é comoventemente dramatizado no romance de Par Lagerkvists, A Sibila. Esse livro, que conquistou o Prêmio Nobel de Literatura nos anos cinquenta, merece ser relido como amplificação de certos aspectos da Papisa.
Como os poderes da Papisa são essencialmente não-verbais, você poderá achar (como eu achei) que uma boa maneira de enriquecer o seu sentimento por esse aspecto arquetípico de si mesmo é procurar imagens que lhe personifiquem as muitas qualidades. Outra técnica proveitosa para vir a conhecer a figura misteriosa é abordá-la diretamente. Se a atmosfera (e as estrelas) estiverem certas, você poderá ganhar novas introvisões.
Como explicação desse método, incluo aqui uma conversação elucidante que tive recentemente com a Papisa sobre a sua posição como número dois na sequência do Tarô. Eu estivera imaginando se o fato de ser a segunda poderia fazê-la sentir-se de qualidade inferior. Fossem quais fossem os seus sentimentos, percebi que ela não se estava esforçando ao máximo. Lá sentada, como sempre, há séculos, imóvel e serena, sabendo o que sabia e aparentemente segura da sua sabedoria. Qual era o seu segredo?
Pag. 92:
Quando me aproximei do trono da Papisa com essa pergunta engatilhada, ela enrijeceu imperceptivelmente o corpo e parte dela fugiu à procura de abrigo (como acontece com os introvertidos). Quando se certificou de que todos os seus postigos internos estavam fechados, a dama reconheceu minha presença e concedeu-me uma audiência com graciosa inclinação da cabeça.
Senhora Papisa, muitas mulheres acham hoje que a senhora deveria ser a número um do Tarô. Concorda com elas?
"De maneira alguma!" replicou ela. "Veja bem, faz séculos que o número um pertence ao Mago. Aliás, fica-lhe perfeito, não lhe parece? O número um é esguio e móvel como a varinha dele, ideal para o seu tipo de mágica. Mas não serviria de maneira alguma para carregar um bebê, cozinhar um caldeirão de sopa ou tramar uma intriga. Não, para a minha mágica não há nada melhor do que esse gozado e gordo número dois. Sinto-me felicíssima com ele."
Depois disso, a dama ficou em silêncio, deixando-se cair no antigo poço da memória. Ao fazê-lo, os anos foram desaparecendo e o seu rosto principiou a brilhar com o frescor do jardim do Éden.
"Sabe de uma coisa”, voltou ela com um dar de ombros e uma risada de meninota que lembrava Eva, "para um número par, o dois é meio esquisito, não lhe parece? Quero dizer, o dois é gordo e substancial como um pote, mas, ao mesmo tempo, é meio enrolado e esquivo, como uma cobra”...
Nesse ponto, a oradora fechou os olhos e deixou-se levar outra vez com um sorriso recordativo... Por fim, despertou com um esforço, reassumindo a pose e o comportamento da Papisa.
"Não dê atenção a esses freudianos, filha”, disse ela. "Eles não entendem de cobras. Há um montão de coisas de que eles não entendem em relação ao nosso malvado, manhoso, maravilhoso número dois! Sim, estou muito satisfeita com o lugar da mulher", concluiu suavemente, cantarolando uma melodiazinha na garganta.
Mas a senhora não preferiria ser a primeira?
Seguiu-se outra longa pausa.
"Você deve ler da esquerda para a direita, com certeza", disse ela finalmente, com os olhos fitos num ponto cerca de trinta centímetros acima da minha cabeça e com vários séculos de profundidade.
Mas, Senhora, seja qual for a direção em que se lê, ao contar, o número um sempre vem primeiro!
"Isso é verdade, minha querida”, assentiu ela placidamente, "e o número dois vem depois. A matemática foi difícil para mim, também, a princípio, mas a gente logo se acostuma a ela".
Mas sem dúvida é melhor ser primeira?
"Ah, meu Deus!" suspirou ela. "Quanto trabalho vocês, modernos, arranjam para si mesmos com toda essa avaliação! Não admira que tenham inventado computadores a fim de trabalharem um pouco paro vocês."
Quer dizer que a senhora é contra a avaliação? Deve achar, então, que a gente ser primeira ou segunda dá no mesmo?
"Oh, não. É claro que não dá no mesmo. É diferente. Muito diferente. Aí bate o ponto, entende? Nem melhor nem pior – apenas diferente. Cada lugar tem o seu sabor curvo as especiarias – ou os perfumes. Gosto de pensar que somos flores – o Mago, uma virga-áurea e eu, uma rosa."
Pag. 93:
Sim, percebo. Mas há duas coisas que ainda me intrigam. Dizem que Eva foi uma ideia tardia do Criador – a costela de Adão, a senhora sabe. Isso é verdade?
“Tolice! A costela de Adão foi completada antes que ele o fosse. O fato é que Adão só deu por ela mais tarde. Foi isso que aconteceu.”
"Tenho aqui uma gravura, em algum lugar, que conta a história toda. Mostra exatamente o que se deu no Éden por ocasião da Criação, e o que ainda está se dando hoje. Você sabe", disse ela, olhando atentamente para mim enquanto procurava a gravura nas dobras da túnica, "você sabe", repetiu, "que vocês, crianças, ainda estão presos ao Éden de muitas maneiras. A sua criação ainda não acabou – esse é um serviço que vocês (como todos os filhos de Deus em toda a parte) terão de acabar pessoalmente... Ah, aqui está a gravura!" gritou, mostrando esta excelente ilustração de William Blake:
A Tentação de Eva por William Blake
"A Fêmea Surgiu da Escuridão Dele”.
"A Tentação de Eva", de William Blake. Copyright de Crown. Victoria and Albert Museum, Inglaterra.
 "Por aqui se vê perfeitamente que Eva não é a costela de ninguém! É, antes, uma deusa e, como todos esses imortais, nasce adulta – um nascimento milagroso. Atrás dela, ergue-se a sua gloriosa serpente. Não são lindas as duas? Mas Adão está dormindo; nem sabe que ela existe. Hoje ele começa a despertar para a realidade dela, mas ainda não sabe muita coisa a seu respeito. Na verdade, nem mesmo Eva está plenamente convencida da própria realidade. Se olhar para o rosto dela, você a verá ainda absorta num sonho, colocada, como a Miranda de Shakespeare, no limiar de um Corajoso Mundo Novo.”
Pag. 94:
"Blake deu ao quadro o nome de A Fêmea Surgiu da Escuridão Dele. Muitas pessoas, hoje em dia, dizem que foi apesar da escuridão de Adão, e não dela, que Eva conseguiu nascer. Enfatizam também as palavras apesar de, ao contar como Eva (coitadinha) tem lutado todos esses anos contra a inconsciência do seu homem, sofrendo os muitos olhares torvos (e olhos pretos) que ele lhe deu ao longo do caminho! Não foi esse, porém, o modo com que Blake o pintou, ou disse. E também não é o modo com que o vejo. Segundo Blake, foi da escuridão de Adão – quase que se poderia dizer por causa dela, que Eva veio a nascer. (Eu gostaria que ela pudesse encontrar em seu coração, para oferecer a ele, um pouco mais de gratidão – e um pouco menos de rancor!)”
"Imagine só: o mundo deles era um mundo de Jeová, de rigorosos mandamentos e proibições, e o Senhor Adão era o seu herdeiro presuntivo. Só na sombra da escuridão adormecida de Adão se poderia encontrar um ventre seguro para a concepção e um espaço secreto para o crescimento de Eva. Adão (bendito seja) guardou sua escuridão para ela e alimentou-a com seus sonhos. Ele sonhava com ela constantemente, você sabe – e suspirava por ela. De modo que foi, na verdade, por causa dos sonhos e da necessidade de Adão que Eva encontrou um jeito de realizar-se. Entende?”
"Naturalmente, a Eva dos sonhos não correspondia à Eva da realidade. Mas, a princípio, nenhum deles sabia disso. E visto que surgira dos sonhos dele, ela simplesmente os incorporou, pois ainda não encontrara sua essência própria. Hoje, quando ela descobrir quem ela é, ele descobrirá novos sonhos para sonhar. Um dia sonhará às deveras. Você verá.”
"Oh, não se pode negar que os primeiros sonhos foram inadequados. Os primeiros sonhos muitas vezes o são. Mas são também as sementes de toda realidade, minha querida. Lembre-se disso."
Por alguns momentos, a Papisa e eu permanecemos em silêncio, matutando juntas no Adão adormecido. Depois, ela disse, de repente:
"Não se incomode com o que poderão dizer quando estiverem acordados, filha. Eles nos alimentam com os seus sonhos e suspiram pela nossa verdadeira realidade. Nunca se esqueça disso."
Após uma pausa, enquanto eu me lembrava de não esquecer, a Dama voltou-se para mim e perguntou-me gentilmente:
"Parece que você tinha mais uma pergunta?"
Bem, esta se relaciona com o Sol e a Lua. Há um boato segundo o qual a luz da Lua é de qualidade inferior, pois ela não passa de um refletor da poderosa glória do Sol – ela não tem essência nem divindade próprias. Que é que a senhora pensa sobre isso?
"Ora", disse a Papisa, meneando a cabeça. "Quem quer que dê curso a boatos assim – não há de ser mulher, você pode estar certa! Felizmente, tenho aqui uma coisa que lhe sossegará o coração." Dizendo isso, a dama tirou do seu volumoso manto uma gravura. "Como está vendo", prosseguiu, "eis aqui um excelente quadro de Rafael – Deus Criando as Duas Grandes Luzes. Veja com os seus próprios olhos como Ele fez, pessoalmente, o Sol e a Lua ao mesmo tempo, com cada uma das suas mãos.”
A criação do mundo por Rafael
Deus criando as Duas Grandes Luzes
Cópia de afresco de Rafael no Vaticano.
Pag. 95:
"Não", continuou ela, "toda essa questão de primeiro ou de segundo não tem importância alguma. O dois é o número de toda a vida; sozinho, o um não pode fazer nada. Até o Senhor, como você não ignora, precisou do dois para poder encetar a tarefa da criação. Há outro famoso retrato d'Ele que o demonstra com perfeita clareza – o Deus Criando o Universo, de Blake (figura acima). Mostra o barbudo Criador com um compasso na mão, estendendo um braço comprido desde o Grande Círculo do Céu, em vias de traçar o círculo microscópico à imagem e semelhança do macroscópico. Para poder fazê-lo, Ele – até Ele – precisou usar as duas pernas do compasso: uma para fixar e estabilizar o centro do Seu círculo e outra para descrever-lhe a circunferência. Sim, até o Todo Poderoso teria ficado impotente com um só. Para fazer um todo é indispensável o dois... é indispensável o dois".
Sallie Nichols foi aluna de Jung no Instituto de Zurique.
Autora de Jung e o Tarô – uma viagem arquetípica.
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 15/09/2016
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