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18 de agosto de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


Meu pai, o Imperador
Denise Fernandes Marsiglia
Eu gosto do cheiro do meu pai. O professor da língua portuguesa me disse que eu não deveria começar as frases com eu, porque é mais chique, mais erudito: saia da norma popular; se você quer ser escritora tem que ser mais discreta, faz de conta que você não está vendo o que você está vendo, não escreva eu no começo das frases. Seja um sujeito oculto porque é mais chique, mais erudito, saia do popular. Eu saí, sem saber o que estava fazendo. Saí porque sou influenciável e achava que o professor tinha um grande conhecimento de tudo, principalmente sobre o escrever. Professores funcionam como a carta "O Imperador" do tarô. Eles têm o poder de influenciar nossa maneira de pensar e, muitas vezes, de agir.
O Inmperador como Pai Amigo
O Imperador, pai e amigo
Ilustrações: duas versões modernas da carta do Imperador
Eu gosto do cheiro do meu pai, não é o Édipo, é seu perfume, sua pele, sua risada, seu jeito de andar. Eu gosto do meu pai pelo que ele é, eu gosto do seu cheiro de pessoa doce, gosto quando ele faz biquinho quando fica zangado, gosto da cor da sua pele, do seu nariz que parece com o meu. O Freud tinha pai, será que ele gostava do pai dele? O meu pai é importante para mim porque o sobrenome dele é Silva e ele me ensinou a pescar, a plantar. Ele me ensinou a ser simples. Mesmo eu sendo tão complicada. Também a figura paterna, enquanto ensina, e os grandes nomes da cultura, os filósofos, são representados pelo arcano 4, "O Imperador".
O meu pai anda doente e isso me deixa triste. As pessoas não deviam ficar doentes, nem deviam morrer. A vida deveria existir sempre, de uma forma diferente. Tudo que eu queria era não a imortalidade do espírito, mas a imortalidade do corpo. Que chato homenagens, que chato fazer um minuto de silêncio seja por quem for. As pessoas deviam durar para sempre. Não seria chato nada. Porque ninguém sabe como seria. A morte é nossa dura companheira, e ela não faz parte do milagre da vida. Ela simplesmente mata a vida.
Ando sem paciência para a morte. No tarô, a Morte tem duas faces: uma delas mais evidente está no arcano 13, "A Morte", com seu aspecto de caveira ou foice, geralmente assusta mais aos consulentes, do que sua presença no arcano 20, "O Julgamento". O arcano 20, "O Julgamento", mostra um sepultamento, é o fato da morte mesmo. É essa morte concreta que eu temo nesse momento.
A Morte e o Julgamento em cartas modernas
A Morte e o Julgamento
Variações dos arcanos maiores 13 e 20 do tarô
Não que eu acredite na eternidade da morte, mas sua essência passageira, tênue como um colibri, me assusta. Gostaria de poder assustá-la. Mas pelo menos perdi o medo de ser um sujeito aparente, anos sendo um sujeito oculto.
Se a morte não se oculta, porque eu tenho que ficar me escondendo. Redundante é a vida, repetitiva tantas vezes, que ignoramos o quanto é inédita. Estou correndo o risco de tudo. Meus amigos mais próximos sabem. No teatro da vida, levaram minha máscara. Máscara de vidas. Agora estou nua, diante da morte. Não, não exatamente nua, estou vestida como um colibri.
Denise Fernandes Marsiglia - taróloga e astróloga.
Psicóloga com especialização em psicossomática.
www.facebook.com/denise.fernandessilvamarsiglia
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 12/04/2017
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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