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21 de outubro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


Os Amantes e a aptidão humana de se relacionar
Verbenna Yin
 
O arcano dos Amantes nos fala da aptidão humana como ser social que se relaciona com os demais.
A carta dos Amantes geralmente vem ilustrado por um casal apaixonado que demonstra publicamente seu amor e recebe as bênçãos angélicas, simbolizando que a relação amorosa é destinada naturalmente à experiência humana e tem como resultado nos conduzir ao sentimento de pertencimento e felicidade que dão sentido à existência.
Em alguns tarôs essa mensagem simbólica é aprofundada e a imagem representa um homem entre duas mulheres, uma mulher simbolizando a busca pelo desejo a outra simbolizando a necessidade de segurança emocional.
Os Amanters no Waite Tarot
Arcano 6 - Os Amantes no Tarot Rider-Waite
Ilustração de Pamela C. Smith
Ambas as possibilidades são válidas e necessárias para o desenvolvimento pessoal, mas socialmente se espera que o indivíduo opte por uma coisa ou por outra, demonstrando assim necessidade de escolha.
Na imagem de Pamela C. Smith, a figura do homem está ao lado direito e representa o Ego consciente que busca com o olhar a figura da mulher, à esquerda, a qual por sua vez representa o Id selvagem e primitivo guardado no inconsciente. Ambos precisam se integrar para acessar o divino representado pelo anjo e pelo disco solar ao alto - o círculo como símbolo da completude humana.
Na imagem o Ego consciente observa está atraído pelo mistério que o outro representa: a mulher, a serpente e a árvore da vida. Trilhando o caminho do desejo o homem descortina os segredos que lhe permitirão entender a si mesmo.
Na psicanálise, o outro como representação do desejo é a proposta do Estádio do Espelho do psicanalista Jacques Lacan. Para ele, nossas interações com as outras pessoas são marcadas por essa busca de identificar no outro aquilo que temos dentro nós mesmos, mas que ainda não tivemos a chance de reconhecer.
Na fase do Estádio do Espelho que vai dos 9 aos 18 meses de idade, a criança está assimilando a corporeidade e se dando conta do que compõe o corpo dela, as sensações dela e começando a coordenar seus movimentos próprios. Começa também a perceber que a figura materna se vai e se reaproxima e consegue identificar o corpo da mãe como sendo essa figura que promove cuidado, alimento e conforto. Assim, surge a correspondência do corpo do outro como sendo um objeto desejado – no sentido de que aquele objeto promoverá novamente a sensação de integração e felicidade necessária a que um desenvolvimento psiquicamente saudável aconteça.
Os Amantes no Verbenna Tarot
Arcano 6 - Os Amantes no Rosetta Tarot
Ilustração de M. M. Meleen
Essa correspondência da corporeidade permanece na vida adulta. Quando nos interessamos por uma pessoa afetivamente é essa correspondência que estamos ativando novamente: o outro, o corpo do outro, nos afeta porque em algum nível essa visão nos mobiliza em busca de algo que percebemos existir nesse outro e que conferirá para nós a sensação de integração e felicidade vivenciada no início da vida com a figura materna e que perdemos à medida que vamos crescendo.
O outro então simboliza esse algo perdido, mas que é completo em si mesmo. O outro é perfeito. O outro é o objeto do desejo.
Então a sensação dessa falta primordial vai acionar a libido e estruturar o desejo na direção do outro (direção externa), na busca do sujeito em fundir-se novamente e se sentir plenamente integrado, aceito e acolhido.
Aqui temos uma correspondência também com as teorias de Melanie Klein a respeito da identificação projetiva. No processo de enamorar-se pelo outro, o sujeito pode justamente enxergar no outro aquelas partes de si que não foram aceitas ou reprimidas e “lançadas para fora” durante a transição das fases iniciais do desenvolvimento psíquico. Ao se aproximar do outro e viver um relacionamento, o indivíduo tem a chance de fazer uma reparação dessa separação primordial e se sentir pleno e integrado novamente quando se fusiona com o outro.
O arcano dos Amantes propõe ainda um retorno à Freud numa alusão à teoria do narcisismo secundário. Nesse aspecto, o outro promove uma alienação de si mesmo, ou seja, o sujeito tem a possibilidade de se identificar e se experimentar a partir do outro porque ele mesmo está “perdido” internamente.
A própria etimologia da palavra indica esse processo de perder-se de si mesmo, “narcisismo” vem do Mito de Narciso e do termo “narkos” que significa, “narcótico, entorpecente, inconsciente”. Ao se enamorar, o sujeito está perdido de si mesmo, entorpecido pela busca de reviver a sensação primordial de fusão e integração consigo mesmo que o outro simboliza.
Todavia, ainda estamos nos arcanos iniciais (arcano 6), ou seja, ainda estamos percorrendo o início do caminho de desenvolvimento pessoal rumo à maturidade. Então o que vemos externamente e que nos atrai no outro ainda não está na consciência; é uma projeção inconsciente dos nossos próprios atributos ainda não reconhecidos, mas que enxergamos no outro — como um espelho que reflete para nós a nossa própria imagem.
Ao compor a sua autoimagem durante o Estádio do Espelho, a criança começa então a se estruturar psiquicamente formando o Ego, a instância psíquica que permitirá que ela se apresente ao mundo externo já como indivíduo e passe a interagir com o outro e o seu grupo. Ao se perceber uma unidade em seu próprio corpo a criança percebe também que é um indivíduo único e singular.
Nesse sentido o arcano dos Enamorados é uma grande metáfora do processo de auto reconhecimento e formação da autoimagem, denotando que essa busca primordial pela fusão com o outro é essencial para que possamos antecipar nossa própria imagem e assim irmos integrando todas as nossas facetas internas e compor nossa individualidade.
O tarot faz essa representação simbólica do processo humano de auto reconhecimento na imagem do casal apaixonado.
Frieda Harris foi a artista mais feliz na representação do arcano dos Enamorados ao traduzir essa consciência psicanalítica sobre a experiência humana afetiva. Para ela, o arcano dos Enamorados mostra bem essa correspondência entre o que está oculto em nós e o que conseguimos ver no outro, nas cores preto e branco do desenho:
Os Amantes no Thoth Tarot de Aleister Crowley
Arcano 6 - Os Amantes no Thoth Tarot - Aleister Crowley
Ilustração de Frieda Harris
A grande questão é que o arcano dos Amantes vem nos mostrar que tudo aquilo que enxergamos no outro na verdade é conteúdo nosso.
Quando enxergamos claramente os atributos do outro é porque identificamos nele aquilo que sabemos que existe em nós, daquilo que já foi reconhecido em nós mesmos. 
Mas, além disso, vemos também no outro aquilo que ainda não aceitamos em nós essa visão é no negativo; são partes de nós que lá atrás no início do desenvolvimento psíquico foram lançadas pra fora e por isso só as vemos projetadas sobre o outro. O branco e o negro, positivo e negativo.
Então quando elegemos por quem nos enamoramos essa escolha fala mais de nós mesmos do que do outro, tanto pelas características que reconhecemos prontamente (identificação) como também por aquelas que vemos de forma oposta e distorcida por serem negativas e ainda não aceitas (projeção).
É por isso que quando nossas escolhas pelo outro “dão errado” nos sentimos não contemplados. Porque quando o outro não age como idealizado ou não demonstra ter os atributos que inicialmente nos atraíram, nos sentimos incompletos, incompreendidos e infelizes. Nos sentimos separados.
A frustração em reviver a separação primordial é inevitável, mas ela só demonstra o quanto nós ainda não reconhecemos nossa própria natureza íntima e ainda precisaremos caminhar rumo a esse desenvolvimento.
Na verdade, o outro está tocando justamente essas cordas que correspondem aos aspectos de nós mesmos que ainda não fomos capazes de enxergar e integrar.
A carta dos Enamorados possui então uma forte conexão com a figura do Ego Ideal, aquela imagem que representa aquilo que “pensamos” que somos. Nesta fase do desenvolvimento psíquico ainda não há plena consciência de quem somos, na nossa totalidade e verdade, pois ainda estamos descortinando partes de nós mesmos.
Nesse sentido a experiência do enamorar-se produz a ilusão de que somos amados e admirados sem restrições, numa completa aceitação da pessoa que somos. Mas se ainda não temos total consciência de quem somos, psiquicamente ainda estamos tal qual crianças e aceitação que buscamos ao final se mostra irreal, é tão idealizada quanto à autoimagem pueril que temos de nós.
Só ao longo das vivências de enamoramento é que poderemos ir refinando a consciência e ir construindo nossa autoimagem de forma mais nítida e clara, experimentando e unificando todos esses nossos reflexos projetados nas pessoas com quem nos relacionamos.
Tirar a carta dos Enamorados numa leitura pode indicar que a pessoa está pronta iniciar as interações com outras pessoas e nessas relações ir percebendo mais sobre si mesma e explorar suas possibilidades na demonstração de afeto. No fundo, as demonstrações de afeto são a busca e o reconhecimento das partes de si mesmo ainda não aceitas e que só ao longo do tempo serão conscientizadas e mais tarde integradas, formando a completude da singularidade desse indivíduo.
Mas a carta também vem alertar da nossa autorresponsabilidade pelas escolhas que estamos fazendo e das consequências que vamos atrair para nosso crescimento. Estabelecermos relacionamento com o outro é fundamental para aprendermos sobre nós e entender quem somos.
Verbenna Yin é taróloga, astróloga e terapeuta floral.
Contatos: verbennatarot@gmail.com
e www.verbennayin.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 28/05/2018
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