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07 de dezembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


 
Reflexões sobre o arcano 9
 
 
Eremita: arcano da autodescoberta
Por
Cristina Britto
    
    Na maioria dos tarôs, O Eremita é representado por um ancião que, numa das mãos, carrega uma lanterna e, na outra, um bastão. Apresenta-se com a cabeça descoberta (Marselha, Espanhol, Crowley) ou com capuz (Papus, Tavaglione, Waite): o capuz representa afastamento do mundo exterior, para se concentrar em suas próprias questões.
 Tarô Crowley
 Marselha
    Em alguns baralhos, o peregrino é acompanhado por uma serpente (Wirth, Tavaglione, Crowley) símbolo de inteligência e transformação.
    No baralho Crowley, vemos Cérbero, o cão de três cabeças, ou Cão de Hades, deus dos Infernos, simbolizando, entre outras coisas, o inferno interior de cada ser humano. No Tarô dos Animais, sua imagem é uma coruja, símbolo da sabedoria.
    Seus arquétipos são Hermes Trismegisto (Hermes, o três vezes grande) patrono da alquimia, dos maçons, de ligas secretas e sociedades esotéricas; Merlin, figura-chave no reino do Rei Arthur e seus cavaleiros em busca do Santo Graal; Odin, deus germânico da sabedoria que viaja acompanhado de seus corvos, Hugin e Munin. Iinteressante o simbolismo do corvo, que só se tornou negativo na era moderna; na maioria das crenças antigas, ele aparece como demiurgo ou mensageiro divino, guia das almas em sua última viagem. Vemos um corvo no ombro do Eremita no Tarô Mitológico, que representa Cronos, deus do Tempo.
 Tarô Mitológico
Visconti Sforza
    Na Cabala, a letra hebraica correspondente ao arcano é Teth, cujo valor numérico é nove, e significa teto protetor: é o guru dentro de nós.
    O nove tem simbolismo nas culturas ocidental e oriental, mas como acredito que tanto O Eremita quanto A Temperança (arcano XIV) têm fortes características da cultura oriental, vou me limitar a algumas delas. Nove é o número dos nós do bambu taoísta e está na base da maior parte das cerimônias taoístas do tempo dos Han; nove são os degraus do trono imperial chinês e das nove portas que o separam do mundo exterior; nove são os céus budistas. Tudo remete à equação 3+3+3, ou seja, às três tríades que representam a perfeição da perfeição, a ordem na ordem, a unidade na unidade. Sem esquecer que, universalmente, é o número de meses entre a concepção e o nascimento.
Tarô de Tavaglione
Oswald Wirth
    Arcano de leitura rica e profunda, para Huei-neng sua mensagem é “Olhe para dentro! O segredo está dentro de você”, e para Herman Hesse, “A vida de cada homem representa uma estrada em direção a ele mesmo.” Mais do que iluminar o caminho, sua lanterna lança luz no interior do peregrino, que quer enxergar nas sombras do seu eu. Ele caminha sozinho à procura de si mesmo, voltado para o autoconhecimento que leva à maturidade, e seu avançar é prudente e cauteloso, sem pressa, porque seu objetivo não é matéria, mas substância.
    O Eremita reflete o que afirma Jung: “Sua visão se tornará clara somente quando você puder olhar dentro de seu próprio coração.” A necessidade de introversão é um pressuposto para se concentrar no que é essencial, sem se deixar desviar por futilidades e superficialidades, mas sem se isolar do mundo, pois esse não é o seu objetivo.
 Tarô "Gringonneur"
 Rider Waite
    Como nos diz Osho, “só uma pessoa centrada em sua solidão pode fazer amizades, porque isso agora não é uma necessidade, é simplesmente um compartilhar”.
    O Eremita tem a nobre missão de encontrar a si mesmo e ser fiel a seus valores. Ele avança de acordo com o provérbio chinês: "Não tenha medo de crescer devagar. Tenha medo apenas de ficar no mesmo lugar." Ele assinala o nono estágio da jornada, o da percepção de que só o trabalho feito com calma e paciência dá frutos duradouros. Numa época consumista, descartável e imediatista, O Eremita parece uma figura anacrônica, incompreensível e deslocada. Mas sua função é essa: servir de contraponto à idéia de massa, à uniformidade pregada pela globalização, e lembrar ao homem que, antes de buscar o outro, ele deve aprender a se desligar do mundo exterior e olhar para dentro de si mesmo.
    Mais do que esperar algo, no ano do Eremita, como é o caso de 2007, devemos fazer, cada um de nós, profunda reflexão, nos voltarmos para dentro, descobrir nossos potenciais e acrescentar ao mundo consciências individuais ecológicas, fraternas e éticas. O Eremita prepara-se, interiormente, para as mudanças que virão.
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