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22 de agosto de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


A cilada da Caveira
Joneth de Carvalho
A caveira pode apresentar muitos e variados significados sendo o mais comum o conceito de perigo. Perigo de se machucar, adoecer, causar grandes estragos e até de morrer. Percebo que essa é a sua indicação mais usual.
O símbolo não vale por si só: ele aponta para algo além dele e pode ter as mais diversas conotações, vários significados. E esses significados são acessados pelo leitor que interpreta o símbolo através de seu conhecimento, sua imaginação e de sua experiência com a vida. Portanto o leitor de símbolos ou simbologista tem função fundamental na relação do símbolo com o seu significado, pois ele faz a ponte entre eles. Entendo que tarólogos são leitores de símbolos. Um bom exemplo de símbolo é “lar” que, para quem lê, toma determinada forma: apartamento, casa, chácara, uma casinha de sapê etc. Já o termo “Sinal” aponta, ou melhor, representa, apenas um único significado, como por exemplo, o emblema da coca cola, que aponta exclusivamente para o refrigerante.
Caveira - símbolos e sinais
Símbolos em aberto: caveira e casa. Sinal direcionado: Coca-Cola.
Ilustrações obtidas no Google
Quando ficamos muito fechados e sectários em nossa leitura de mundo (e isso inclui os símbolos e os arcanos do Tarô) podemos correr riscos de interpretações limitadas vendo um horizonte muito restrito. Acredito que o meio em que vivemos (fast-food), que exige tudo muito rápido, facilita esse processo de empobrecimento. E não basta apenas o conhecimento, a leitura de livros, palestras e cursos para não cair nesta cilada. Talvez o remédio seja viver o momento presente (sem ansiedade ou arrependimentos, afinal amanhã não chegou e ontem já passou), tendo uma observação atenta e aguçada para cada coisa, vendo cada imagem como algo único, novo, cheio de magia, sem prejulgamentos. Parece tarefa dificílima, mas creio que cada instante pode ser vivido como uma oportunidade única e cada coisa que acontece como algo singular.
Bem, eu caí na cilada. Fui convidado para participar de quatro workshops em setembro de 2014, sobre a espontaneidade (coincidência né?). Observo que espontaneidade não é o mesmo que automatismo. Espontaneidade, para mim, é a expressão singular da pessoa no mundo, tendo abertura para ousar, ser criativa, expressar-se com maior profundidade sem travas e preconceitos. Assim, espontaneidade não tem tanto a ver com rapidez na resposta, mas sim da resposta ter um significado real e mais profundo, como um gesto da essência e não da aparência. Já automatismo é apenas o representar, o responder rápido às solicitações do meio, mantendo a resposta padrão e os condicionamentos. Fui firme e marquei presença em todos os encontros, assim como vários outros participantes. Foram encontros que renderam oportunidade de crescimento e aperfeiçoamento.
A cilada aconteceu no último encontro. Numa vivência, caí com D. e percebi que em sua blusa havia o desenho estilizado de uma caveira brilhante, prateada, destacada no fundo negro. Exclamei: “Caveira!” como quem diz “Perigo”. Ela me olhou e disse: “Porque todos somos iguais”. Na hora isso me impactou fortemente. Cheguei em casa e escrevi a respeito. E neste mês de janeiro de 2015, caminhando com um amigo pelo centro de Bauru, comentei sobre a estampa de caveira numa blusa e ele me respondeu: “Porque todos somos caveiras”. Pois é, pelo anúncio do meu amigo percebi que chegou a hora de finalizar e publicar este artigo.
Sim, essas duas experiências me lembram o Arcano XIII – A Morte.
Carveira e arcanos 13 - A morte
O arcanos 13 no tarô de Marselha e de Oswald Wirth com a caveira na camiseta
Este arcano sempre foi tão poderoso e temido que alguns baralhos de séculos atrás não mencionavam o nome do arcano, apenas deixavam a sua numeração (13). Sobre esse medo absurdo faço um paralelo com “Harry Potter”, onde há um personagem terrível sobre o qual não se pode sequer pronunciar o nome: “Aquele você sabe quem”, dizem. Harry dá a dica: ele se recusa a ficar amedrontado somente pelo nome e o diz abertamente. Já percebi esse processo em várias áreas: política, saúde, social, sexual, religiosa e até mesmo em certas profissões (tarólogo?). Há coisas que não devem ser “ditas”. Acredito que só reprimir não ajuda a resolver a equação, apenas torna uma parte dela recalcada e dá abertura para outros e maiores desentendimentos. E lógico, isto se torna fonte de sofrimento.
E olhando para este arcano, XIII – A Morte, com mais cuidado e sem medo, vemos o tema “Porque todos somos iguais” ou “Porque todos somos caveiras”. É só se abrir e olhar com cuidado: veja as cabeças no chão negro. Elas estão  no mesmo plano, independente de quem usa a coroa (aliás, perceba: elas estão tristes?). Isto revela a igualdade. Nesse sentido vemos uma mão: de quem será? Não dá para saber com certeza. Outra percepção que revela esse precioso conceito que nos nivela é o próprio esqueleto: esqueleto importantíssimo, que é a fonte de sustentação do corpo, sem o qual não ficaríamos em pé e que é igual para todos. Desconheço crânios triangulares ou que sejam de outra constituição (o do Wolverine é de titânio, mas lá é o reino da ficção...). Humildade, empatia e compaixão também se mostram neste arcano: independente da cor, classe social, cultura, religião, sexo, orientação sexual, profissão, nacionalidade etc. A Morte, como diz o ditado popular, “é a certeza que chega para todos.” Olhe assim para este Arcano e o feitiço do medo se quebra. Algo novo e maior começa a surgir no seu significado, algo positivo e belo. É necessário escapar da cilada, isto é, sair do fatalismo ao interpretar esta carta, já que há, inclusive, vários tarólogos e autores que alegam que ter A Morte numa leitura não significa que alguém vá morrer.
2015 chegou e vamos seguindo em frente com os olhos abertos, atentos e relaxados, vendo mais que as aparências.
Contato com o autor:
Joneth de Carvalho é tarólogo, oferece leituras e cursos:
 www.visoesdotaro.blogspot.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Revisão: Ivana Mihanovich
Edição: CKR – 19/03/2015
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