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19 de novembro de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


Conversando com Star
Joneth de Carvalho
 
Certo dia, um cliente faltou sem aviso prévio. Isso às vezes acontece e, “de repente” (*), surge uma lacuna, um espaço vazio na agenda. Podemos preencher rapidamente esse buraco com qualquer coisa, ou então permitir a existência do vazio, sentindo-o, até brotar a inspiração do que fazer. Bem, escolhi a segunda opção. Naquelas duas horas à deriva fui dar uma volta pelo quarteirão, sentar sob uma mangueira florida e conversar com a gentil funcionária da farmácia de florais e homeopatia. O diálogo foi mais ou menos assim:
— Oi, Tudo bem? – perguntei a ela.
— Tudo. E você? – retornou a atendente.
— Tudo também. Mas tá tudo bem de verdade contigo? – insisti, pois inconscientemente estava pedindo para ouvir…
— Um pouco cansada. Saudades de ter de volta minha casa só para mim.
Uma interrogação deve ter ficado estampada em minha face, pois ela continuou:
— É que acolhi uns peregrinos em casa e a rotina muda, sabe. Entra e sai gente toda hora e se acaba perdendo um pouco a privacidade. Eles ficam com a chave e têm liberdade nos horários…
— Mas são seus amigos?
— Não, ainda não. São desconhecidos. São de uma igreja que conheço.
— Como assim? Você deixa sua casa nas mãos de desconhecidos!? E se suas coisas sumirem? Não tem medo? – perguntei numa atitude de repreensão.
— Eu não vim nessa encarnação como caramujo para ficar carregando casa nas costas...
Algumas vezes, não só ouvimos, mas também sentimos, quando a verdade é dita. Confesso: arrepiei. Bem, essa conversa realmente existiu naquela tarde da lacuna. Melhor, essa conversa ainda persiste em martelar minha cabeça: Desapego? Confiança? Sabedoria profunda e reconhecimento do para quê estou aqui? Tranquilidade e serenidade? Humildade? Fé? Algumas respostas fui recebendo aos poucos pelas sincronicidades, pedaços de músicas, provérbios, textos de livros etc. Mas só há pouco redescobri – pois já havia lido, mas não vivenciado – que a atitude da atendente está conectada ao Arcano XVII – A Estrela. E colocando no contexto:
16 A Torre no Tarô de Marselha restaurado por Kris Hadar     17. A Estrela no Tarô de Marselha restaurado por Kris Hadar     18. A Lua  no Tarô de Marselha restaurado por Kris Hadar
Cartas do Tarô de Marselha restaurado por Kris Hadar
XVI – A Torre, também conhecida como a Casa de Deus, é uma imagem forte, onde um raio (e raios são coisas que acontecem “de repente”) cai como um feixe de labaredas sobre uma torre e arremessa dois homens rumo ao chão. Assustador, libertador e incontrolável.
XVII – A Estrela é o décimo sétimo arcano maior do Tarô. Retrata basicamente uma mulher totalmente nua, de cabelos azuis, ajoelhada à margem de um rio, segurando dois jarros, enquanto despeja um na terra e outro nas águas. É noite e há oito estrelas acima da mulher. Em um canto, uma árvore com um pássaro.
Já XVIII – A Lua, a imagem de uma grande lua que absorve gotas advindas do plano inferior da carta, onde há cães (ou algo do gênero) e mais abaixo uma abertura aquática onde surge um grande lagostim. Uivos ensurdecedores, trajeto desafiante, abertura das profundezas.
Imagem do arquivo do Autor da crônica
 
Uma forma que gosto de utilizar para entrar em contato com os arcanos é a de dialogar com a imagem. Podemos fazer isso também com os objetos, pedras, árvores, plantinhas, esculturas…
Esse recurso abre oportunidade para entrar em contato com as sensações que recebemos pelos cinco sentidos, pois começamos inicialmente com uma detalhada descrição: cor, tamanho, forma, textura, temperatura, cheiro, gosto e assim vai. Depois de já conhecer e saber mais sobre o objeto, iniciamos uma conversa (que pode ser apenas mental), onde imaginamos, ou melhor, deixamos fluir a resposta em nossa direção. Às vezes nem precisamos do objeto físico (por exemplo, como já tenho praticamente a imagem do tarô de Marselha gravado na memória, nem preciso pegar a carta).
Algumas dicas: Pela prática, percebi que é melhor fazer este exercício sozinho; afinal conversar com algum objeto não é algo aceito com naturalidade em nossa cultura. Também reparei que no recolhimento solitário de um quarto as respostas parecem surgir mais facilmente.
É bom, ainda, realizar alguma meditação, silenciar interiormente, acalmar os pensamentos e emoções, diminuindo os barulhos das vozes internas para poder ouvir a voz desejada.
O relato abaixo aconteceu diante desse método, incluindo partes de músicas, livros e pessoas que surgiram de forma inesperada durante estas últimas três semanas.
Vamos, então, à conversa que tive com o Arcano. Eu a chamo carinhosamente de Star e é com ela, a mulher nua, que dialogo:
— Boa noite, Star. Tudo bem?
— Sim, obrigada. E com você?
— Não muito. Me sinto perdido. Vim pedir sua ajuda.
— Sou grata por você vir aqui.
— E eu também. Mas o que você está fazendo?
— Eu derramo na correnteza fluída da vida tudo o que possuo. Eu deixo tudo o que há em mim ir embora. 
— Mas não é bom guardar um pouquinho? Há uma longa jornada noturna pela frente!
— Não preciso de reservas. Sei que não há garantias de ultrapassar a próxima casa. Assim, escolho entregar à Vida tudo o que conquistei, fiz e aprendi. Sinto que eu já cumpri meu papel. Me sinto realizada e agora estou em paz. Isto é excelente: deixar ir embora traz uma sensação de leveza, tranquilidade e serenidade. Quando comecei a fazer isso percebi que sempre há coisas novas que surgem a partir de mim... Eu também sou a criadora.
— Fico preocupado em vê-la nua. Me parece que você fica vulnerável. Onde estão tuas roupas?
— Eu me despi na casa anterior, A Casa de Deus. Lembra-se do raio, Joneth? Aprendi que existe esse “de repente” que você menciona tanto e realmente aprendi com ele.  Mas, aqui, nesta minha casa, não fique à espera do “de repente” acontecer. Aqui, prevalece a sua escolha, que cabe só a você mesmo, de se liberar, se despir.
 
17. A Estrela, no Old Paht Tarot
The Star no Old Path Tarot
— Aprenda o que é a verdadeira libertação: “Liberdade do medo, do sofrimento, de uma sensação de insuficiência e de falta de alguma coisa e, portanto, de todos os desejos, necessidades, cobiça e dependência” (1). Venha se libertar destas ilusões. Veja, eu estou livre e meu gesto artístico foi me despir totalmente. Entenda que sou vulnerável a muitas coisas, mas, ao mesmo tempo, integrada além do tempo e espaço com algo muito maior, pois participo do Divino. Em vez de me proteger, esconder e de tentar controlar o processo da vida, eu escolho me despir dessas aparências inúteis e superficiais, de panos e tijolos, para revelar a todos o que eu realmente sou, minha verdadeira identidade, a minha Essência. Eu me entrego à sabedoria maior, com humildade. Tenho fé e confiança na bondade do Universo. “Sugiro que há um guerreiro que nasce do poeta” (3), da percepção do invisível, desta própria nudez.
Estrela num tarot brasileiro
Estrela em tarô brasileiro
Arquivo do Autor da resenha
 
— Continuo preocupado com isso…
— Por favor, pare com isso. Olhe por um momento para esse imenso céu estrelado acima de mim. Ouça seu silêncio pacífico, veja de verdade a sua imensidão e perceba a conexão que está além das aparências, além da razão, e que envolve tudo, até mesmo o canto do pássaro na árvore. Tudo está em profunda sintonia. Está tudo certo. Sente isso? E eu me sinto pertencente inteiramente a este “Todo Maravilhoso”. Entenda de uma vez:“O essencial é invisível aos olhos" (2). Aí você encontrará a coragem para desapegar. Você quer?
— Olha… Eu quero… Mas parece algo bem difícil…
— Sim, eu sei, mas esse é o desafio na minha casa. Deixe-me guiá-lo um pouco mais. Sugiro que você olhe a sua mão. O que vê?
— Bem, vejo dedos, palma, pele, unhas e pelos.
Vamos, veja algo mais. Veja a Beleza em sua mão. Percorra as linhas, olhe uma linha com profundidade. Vê os minúsculos tracinhos que parecem pequenas inscrições? Isso não é Belo? Essa mão é uma obra de arte que está além das palavras e conceitos mentais; é única, fruto da bondade da Existência. Isso soa como “Ver a eternidade num grão de areia" - Blake (3). Sentir essa beleza é a Verdade que você precisa e ela já existe em você, sempre existiu…
— Soa bonito…
— Fique então na Beleza e Humildade dessa minha casa, reconhecendo sua própria essência interior, que traz tranquilidade e serenidade para perceber qual o seu chamado. Chamado para iniciar o novo ciclo, a nova casa. Chamado para sua missão e propósito. Inspire sua própria Beleza única e incomensurável de ser quem você já é…
— Eu achava que beleza era algo superficial, estética, algo descartável...
— De modo algum. A Beleza sobre a qual estamos a falar aqui é o outro pão necessário que também nos sustenta. Nas palavras de Maomé: “Se eu tivesse somente dois pedaços de pão, trocaria um deles por jacintos para alimentar minha Alma”. Não será só do pão físico, do dinheiro, das posses materiais e recursos mundanos (e isso inclui seus livros e baralhos, meu caro), que virá a sua segurança e força no desafio da próxima casa, A Lua. Este pão da Beleza oferece a dimensão e o significado de você existir, de querer pertencer à vida e de viver, pois é “assim mesmo que é composta a vida humana... O ser humano, guiado pelo sentido da Beleza, transpõe o acontecimento fortuito... O homem inconscientemente compõe sua vida segunda as leis da Beleza, mesmo nos instantes do mais profundo desespero.”(7) A Beleza traz força às nossas palavras, sonhos e propósitos de estar aqui, então “aprenda a possibilidade de transcender o mundo das aparências”.(4)
— Tudo isso parece tão fantástico, insólito… Ilusão, utopia.
— A Ilusão existe e é necessária para você aprender a reconhecer o Real. Faça agora, por você mesmo, uma abertura na sua rotina. Seja o seu próprio “de repente”. O raio é um clarão breve. Aqui, em minha casa, a Estrela brilha leve, sutil e constante. Mais adiante, nas próximas casas, a iluminação vai aumentar em intensidade e duração. Descanse aqui comigo.
— Sim, eu quero ficar aqui com você.
— Vou lhe contar o mito da deusa assíria Ishtar. Ela, uma das mais poderosas e intensas manifestações do feminino, era deusa guerreira e também do amor. Em sua juventude, amava Tammuz, o deus da colheita. Dizia-se que seu amor lhe causara a morte. Consumida pela tristeza, Ishtar desceu ao mundo dos espíritos na esperança de rever Tammuz. A cada um dos sete portões, Ishtar tirava uma peça do vestiário, da armadura, dos enfeites e acabou totalmente nua e vulnerável. A cada portão ela sabia o que acontecia, mas reafirmava sua escolha. Não é à toa que nossos nomes se parecem. Do nosso despir mais profundo nasce a afirmação do que somos e para que estamos aqui.
— É... Eu entendo o que Ishtar fez pelo amor que sentia… Então você está também relacionada ao amor, é isso?
 
A Estrela no Tarot Egipcio Kier
A Estrela no Tarot Egípcio Kier
— Sim. Toda a jornada dos Arcanos Maiores é também para religar-se com o Amor. Joneth, eu venho lhe mostrar um caminho melhor que o da dor, sofrimento e medo que você já viveu em sua jornada, nas casas anteriores. Tudo foi necessário para que você se tornasse mais forte. Agora, veja, todos precisamos de uma ajudinha. E quero lhe mostrar que o poder mais humano de todos, a esperança, existe. Preciso que você volte a ter esperança (5). Volte a acreditar novamente em si mesmo e na Vida; que traga à tona a verdade de que você é Amor e está aqui para Amar. Quero lhe mostrar que “cada um pode com a força que tem, na leveza e na doçura, de ser feliz” (6). Fique comigo até que seu pássaro cante e assim, no momento certo, você partirá adiante em sua jornada, renovado na fé.
— Obrigado por ficar comigo, Star.
Essa conversa também aconteceu, pelo menos no meu mundo interno e isso não a faz menos real. Bem, ainda não sei exatamente qual meu propósito de estar aqui. Continuo um pouco perdido. Mas sei do que gosto. Sei que é bom amar. E sei que também quero cultivar esse Arcano na forma do desapego, serenidade, humildade, fé e esperança. Desejo que todas essas flores fiquem sempre presentes em nossos jardins. Minha gratidão a todos os que ajudam, confiam e acreditam. Uma ótima Primavera!
 
Fontes inspiradoras para este texto:
(*) A todas pessoas que “de repente” encontro e que me tocam profundamente.
(1) Eckhart Tolle - O Poder do Agora., 
(2) Saint Exupery - O pequeno principe.
(3) Rubem Alves - Lições de Feitiçaria. 
(4) Irene Gad - Tarô e Individuação.
(5) Filme X-men - Dias de um futuro esquecido.
(6) Vanessa da Mata - Onde ir.
(7) Milan Kundera - A insustentável leveza do ser.
 
Contato com o autor:
Joneth de Carvalho é tarólogo, oferece leituras e cursos:
 www.visoesdotaro.blogspot.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 18/10/2014
Revisão: Ivana Mihanovich
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