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19 de setembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Nós e o Julgamento
Denise Fernandes Marsiglia
 
Logo que terminei o texto Eu e o julgamento, encontrei o poema do Brecht "Sobre o julgamento". A sincronicidade: esse espelho onde nossa alma ecoa na realidade.
 
Sobre o Julgamento
Bertolt Brecht
Vocês, artistas que, para seu prazer e seu desgosto
Entregam-se ao julgamento da platéia, deixem-se convencer a
De agora em diante entregar ao julgamento da platéia
Também o mundo que apresentam.
Devem representar o que é; mas também insinuar
O que poderia ser e não é e seria bom que fosse
Ao representarem o que é. Que a partir do seu retrato
A platéia aprenda a lidar com o que ali é retratado.
Que o aprendizado dê prazer. Como uma arte
Seja o aprender ensinado, e também o lidar com coisas e homens
Ensinem como arte, pois praticar a arte dá prazer.
É certo que vivem num tempo negro.
Vêem o homem como um brinquedo
Nas mãos de forças ruins. Sem preocupação
Vive apenas o tolo. Destinado à ruína
Está o ingênuo. O que eram os terremotos
Da antiguidade cinzenta, frente às devastações
Que vivemos? O que eram más colheitas
Frente à miséria que nos aflige em meio à abundância?
 
Retomo o filme "De caso com o acaso", que é o filme de cabeceira da Beth que me escreveu e que também sempre tira o arcano 20 em seu jogo.
Cartaz do filme "De caso com o acaso"
O filme "De caso com o acaso"
 
Acho que o Julgamento está representado no filme nos acontecimentos que se repetem nas duas versões da história que o filme apresenta: uma quando a protagonista pega o último vagão do metrô e a outra quando não pega. Diria que julgamento é a parte do "destino" da personagem. Sempre digo a meus alunos para falarem aos que os consultam que essa carta se refere a acontecimentos do "destino". Mesmo que eles não saibam direito o que é destino, porque de fato eu também não sei muito bem conceituar destino. Mas quando sai a carta do Julgamento para algum tipo de acontecimento na vida de uma pessoa, você diz a ela ou a si mesmo que está passando algo do destino e a pessoa ou você sente que é assim.
Trabalho com uma relação das cartas do tarô com astrologia que está no Tarô adivinhatório, que a editora Pensamento vendia ou ainda vende, não sei bem. Também essa relação está no livro "Iniciação básica à astrologia esotérica", de Rosabis Camaysar. A versão do "tarô adivinhatório" é uma versão do tarô de Marselha revisto por Papus, que dizem foi um grande mago e sábio. Ele relacionou a carta do Julgamento com Saturno e considero essa analogia muito pertinente.
Jogo com a mandala astrológica e é bastante comum as pessoas,  por exemplo,  tirarem a carta do Julgamento para a
primeira casa da mandala e estarem nos seus mapas natais com Saturno transitando nessa casa.
A Nivea escreveu dizendo que para ela o arcano 20 passa sensação de volta, retorno, recomeço, até de reencarnação... volta a esse mundo...
Não interpreto essa carta assim geralmente, Nivea, mas esses sentidos pelo que meditei também tem a ver com o que conheço. Assim, acho que ampliamos a compreensão da carta e do arquétipo. Vejo essa carta como amadurecimento, mudanças que nos fazem amadurecer, responsabilidades, cobranças externas e internas. Mas as cobranças e responsabilidades nos fazem começar e recomeçar, sempre retornar embora nunca se esteja na mesma situação. A carta representa a encarnação, pois na maioria das vezes e na sua versão mais antiga tem um túmulo, uma criança, um velho, uma mulher: as diferentes fases da vida e seu tempo, o carma que é toda mudança, realidade e encarnação. Acho que a "volta a esse mundo" que você diz pode tanto ter o sentido de encarnar, viver, assumir uma responsabilidade na vida, mas também de deixar de sonhar. Porque, às vezes, vivemos fora da realidade e, portanto, podemos não ser construtivos ou responsáveis: essa carta nos faz aterrissar, aterrar...
Quando essa carta sai para situações de trabalho, muitas vezes a empresa em que a pessoa trabalha está passando por uma reengenharia ou reestruturação. Se a pessoa trabalha por conta própria, tende a passar por situações que levam a mudanças mesmo na vida profissional, com uma carga de responsabilidades maior.
 
O Julgamento no Rohrig Tarot
O Julgamento
Rohrig Tarot
Nesses mais de 20 anos de prática, só agora uma pessoa me fez uma pergunta fundamental: você acredita em reencarnação? Fiquei bem atrapalhada para responder a tal pergunta de forma sintética. Não se trata no meu caso de acreditar, mas da busca incessante da verdade e de conhecimento, das eternas perguntas que a vida vai nos fazendo. Também em muitos casos tratam-se de sensações e não de crenças: sentir que algo é familiar sem saber o porquê, sentir um repertório diferente dentro de si, como se fosse uma bagagem, uma memória de outras vidas. Esse tipo de sensação é vivido com essa carta.
Já fiz terapia de vidas passadas e não achei tão interessante quanto achava que seria. Os sofrimentos das vidas passadas vieram se somar aos dessa vida e ficou tudo bem pesado para mim.
O Julgamento no Fenestra Tarot
Fenestra Tarot
 
Acho que o passado precisa ser enterrado, como indica a carta do Julgamento. Mas, quantas mortes e quantas vidas somos capazes de viver? Tanto a carta da Morte quanto a carta do Julgamento no tarô nos ensinam a morrer dentro da vida, a viver muitas vidas dentro dessa e pensar em outras vidas mesmo nessa.
Uma questão interessante da astrologia é que o mapa pessoal continua agindo depois da morte da pessoa. Assim, nosso mapa natal sendo ativado por trânsitos vão marcar os momentos que depois de nossa morte seremos lembrados, reconhecidos ou criticados, por exemplo.
Com tudo isso, uma questão que me intriga nos dias de hoje é quem somos nós. Eu ainda consigo me pensar aqui dentro do meu corpo-sangue-mente-alma-respiração-vontade. Mas nós... quem somos nós?? E depois de escrever o texto sobre "eu e o julgamento" e ler os comentários que as pessoas escreveram fiquei com a grande sensação importante que não estou realmente só de maneira alguma, nem quando estou só e ainda assim estou sempre só; então, se sei algumas coisas de mim não são sobre mim de fato, são sobre nós. Mas esse mistério de eu não ser bem eu, como se tudo fosse também um grande nada, não me basta.
O julgamento traz a falta, o passo a ser dado, outra página em branco, o lento movimento dos planetas e elementos, o preto no branco, o lado concreto de todo movimento subjetivo, o atrito, a saudade, o meu neto crescendo, outro calo em meu pé, a morte do botão de rosa antes mesmo de desabrochar.
O arcano 20 nos dá a semente quando nem temos a terra ceifada. O arcano 20 nos dá a primeira pessoa do plural, mesmo que a gente não saiba ainda administrar muito bem a primeira pessoa do singular.
março.12
Contato com a autora:
Denise Fernandes Marsiglia - taróloga e astróloga.
Psicóloga com especialização em psicossomática.
www.mitosesimbolosassessoria.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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