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21 de abril de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


A tríade existencial
Glória Marinho
 
 
Vai me jogar no abismo que me assombrava
Sem temor, pois nada me prende
E nada do que um dia foi meu já me pertence
.
Flávio Alberoni
 
Este texto foi escrito sob a inspiração do Louco, a crítica velada da Papisa e a atuação do livre arbítrio da Temperança. Desde sempre o número três – e seus múltiplos – atuam no meu cotidiano. Tenho três filhos com a diferença de três anos de um para o outro – sem nenhum planejamento – e seis netos. O somatório da data do meu nascimento tem como resultado o número seis... Sem contar que fiquei casada durante trinta e seis anos.
Tudo isso é só o começo... Existe mais, muito mais...
A simbologia do número três é por demais conhecida: a partir das Tríades divinas até o sentido filosófico, onde o trio é o princípio intermediário entre o pensar e o agir. Pitágoras, filósofo grego, considerava o número três o primeiro número real. Os dois primeiros representavam apenas a essência. Não formavam nenhuma figura geométrica, não possuindo consequentemente realidade física.
O Louco no Tarô Universal de Waite
O Louco
Universal Waite Tarot
 
A Tríade de que vos falo – o Louco, a Papisa e a Temperança – também atuam no meu cotidiano. Sabemos que os arquétipos não podem permanecer por muito tempo em nossas vidas, sob pena de sofrermos alguns danos mentais ou cristalizarmos algumas atitudes fanáticas. Eles apenas passeiam de vez em quando, influenciando nossos pensamentos, nos levando ás ações e depois ás palavras que serão jogadas ao vento.
O meu caso com o Louco é muito antigo... Desde a adolescência praticamente. Veio a passeio e nunca mais foi embora... quer dizer ele vem... e vai. O meu equilíbrio atualmente é proporcionado pela presença da Papisa com a benção da Temperança. Para mim ele, o Louco, é um amigo um tanto ou quanto exagerado – embora aceitável – porque sei que a sua grande curiosidade (que é a minha) pode alcançar grandes coisas embora não tenha a menor ideia do que possa acontecer. Trata-se muitas vezes de um grito de alarme ou para mostrar eventos futuras.
O surgimento da Papisa, logo depois do Louco, me diz para contemplar o livro da Sabedoria que está em seu colo e aguardar os acontecimentos até que surja o momento exato para agir. Não esqueçam que a Papisa também representa as três fases da lua e os três ciclos da vida.
Ela não é controladora, mas lidera os movimentos futuros, estabelecendo a relação entre pensar, sentir e agir.
Quando a Temperança surge, traz com ela a tranquilidade e a harmonia, sabendo que o caminho a ser seguido é o da totalidade, ou seja, da união dos opostos que representa as consequências do processo de individuação de cada ser humano.
Voltando ao Arcano do Louco, vemos que o seu saber oculto indica a troca dos ciclos e mudanças necessárias para a vida. Sua espontaneidade e singeleza, até mesmo quando erra, muitas vezes acerta, pois aprendemos muito com nossos erros. Segundo Betoh Simonsen, há três níveis de manifestação do arquétipo conhecido como Louco:
1 – a fase da inocência onde a pessoa não se apercebe do que está acontecendo;
2 – a fase das confusões e trapalhadas que se originam dessas ações. Em psicologia é conhecido como a presença do Embusteiro ou Trickster. Nessa fase há o descontrole das emoções e surgem reações instintivas como raiva, agressividade e esquecimentos;
3 – é a fase do amadurecimento onde se busca o caminho do meio do Tao. Para tanto se torna necessário que o nosso autoconhecimento esteja bastante adiantado.
O maior problema é que nem sempre essas fases acontecem de maneira cronológica. Elas se imbricam e surgem onde menos se espera sem respeitar o amadurecimento de cada um.
Sobre a simbologia da imagem do Louco o que mais nos chama atenção é a sua trouxa. Tratando-se de um símbolo e possuindo várias interpretações, ela pode ser vista como a Sombra, por exemplo, ou as coisas que ficaram no passado ou ainda a essência do Eu. O importante é a identificação do seu legado para a vida de cada um. Sua criatividade ao transformar ideias em ações, precisa muitas vezes de um assessoramento constante, o que acontece com a presença marcante da Papisa, para me conduzir sã e salva à senda do caminho, depois das suas peripécias que são incontroláveis. Tudo isso acontece porque o Louco tem uma ligação muito forte com a minha criança interior, o que é essencial para o nosso entendimento do processo de individuação.
Tenho como exemplo, o Louco do baralho de Waite que me faz ter saudades de mim quando adolescente... De nariz empinado, a cabeça sempre envolta em sonhos, as vestes coloridas demais e a busca constante de aventuras, diz muito da criança que fui e... que ainda sou na intimidade. A rosa que traz na mão é o meu Ego. Hoje, ele me faz dançar num salão de baile, sozinha, rodopiando
 
A Papisa ou Alta Sacerdotisa no Tarô Universal de Waite
A Papisa ou Alta Sacertodisa
Universal Waite Tarot
por entre os casais, sem enxergar os olhares espantados dos pares dançantes. Para contrabalançar essas horas de devaneios conto com o auxílio da Papisa, cuja sensibilidade e intuição muito desenvolvidas, me reconduzem amorosamente ao lugar de origem.
As mudanças trazidas pela passagem do Louco são então analisadas, criticadas se preciso for, para em seguida serem reaproveitadas numa dimensão do bem viver. O livro que ela traz consigo fornece as revelações necessárias para se lidar com o passado, preparando o futuro, sem esquecer do presente. Seu poder vem da água. Seu conhecimento pertence ao mundo interior.
A Tempernça no Tarô Universal de Waite
A Temperança
Universal Waite Tarot
 
Não é atoa que se lê em Sais, na base da estátua de Isis – com a qual se identifica: "Sou tudo o que era que é, e que sempre será. Nem mortal algum jamais pôde descobrir o que jaz debaixo do meu véu."
Complementando o tripé dos Arcanos que povoam o meu inconsciente – e o consciente – acrescento ainda as influências benéficas da Temperança que, respeitando o livre arbítrio, sempre atenta aos erros cometidos pelo Louco, me faz pensar na volta do equilíbrio, me alertando contra os excessos cometidos. Ela é o arbitro por excelência sempre presente na minha vida. Em suas mãos estão os poderes para a renovação dos ciclos, contendo, preservando e curando os males da vida e estabelecendo harmonização no dia a dia.
Sendo uma pessoa Intuitiva e tendo a Sensação como a segunda função psíquica, o meu pensamento surge apenas quando ativada a terceira função, daí se deduz que os Sentimentos que formam a quarta função necessitam de atenção o tempo todo. Não me sinto bem em lugares barulhentos e embora seja amistosa não sou dada a demonstrações de carinho. O meu eu é complementado com a personalidade, o caráter e o temperamento presentes em mim, com a influência da Papisa quando ela surge em busca do concreto.
Considerando tudo o foi dito, a minha cautela se atém à presença do Louco para que não me crie muitos problemas. Para isso tenho para me guiar o seguinte provérbio árabe:
 
Há quatro coisas que jamais voltam:
A pedra quando é atirada
A palavra depois de proferida
A oportunidade perdida
E o tempo depois de passado.
 
A tríade acima descrita nem sempre aparece na sequência descrita. Muitas vezes o Louco desfaz projetos que me foram inspirados pela Papisa. Quando isso acontece, só mais tarde é que consigo entender que não estava feliz ou que algo tinha perdido o sentido. Então é a vez da Temperança assumir para que as coisas caminhem sem problemas maiores.
março.12
Contato com a autora:
Glória Marinho é historiadora e antropóloga formada pela UFPE.
Atende pessoalmente, seguindo a linha junguiana: glorieta@bol.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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