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18 de setembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


 
Um passeio simbólico pelos arcanos
 
O Zero no Tarô: Um giro pelos Arcanos Maiores
 
Texto de M. J. Stone
original publicado na revista Parabola
Tradução de Bete Torii
 
    Aqui vou eu de novo, girando e girando de olhos fechados, um salto quântico prestes a acontecer. Brincando na beira do abismo, rodopiando como um derviche, sou a força primordial, o Nijinsky do cosmo. Para a maioria sou um louco [fool, no inglês] um zero. Descendo sem experiência ao mundo, eu sou o ar, o sopro da vida, oxigênio puro. Como a palavra latina Follis, que significa “bolsa de vento”, sou o impulso consciente que sopra vida ao Tarô e aos vinte e um Arcanos meus companheiros. Estando além da compreensão, sou um trapaceiro, uma raposa arredia e um coelho vigilante, ou o pássaro corredor que desafia os ardis científicos do coiote.
    Afortunados são os mortais que me vislumbram, pois sou a sarça ardente de Moisés que inicia o processo evolutivo da vida. Manifestando-me em arquétipos, em fugidios vislumbres em seus sonhos, começo minha dança com o Mago dos Arcanos Maiores, e continuo a girar e a deslumbrar por toda a Era de Peixes, em vinte e uma voltas. Completo o círculo conduzindo você para a Era de Aquário, com O Mundo.
    Dois mil anos atrás, eu sou a essência do Peixe. Manifesto-me no homem que caminha sobre a água, no xamã que cura os doentes e chama Lázaro de volta do túmulo. Sou o espírito daquele salto quântico do primeiro século e sou a mensagem que mora no coração do Filho do Homem; sou a carta número 1, o Mago.
    Represento o espírito do povo onde a transição para a fé cristã está prestes a ocorrer. Moro nos corações e mentes de Roma e entre os druidas do norte da Europa, que reverenciam a natureza.
 
Moisés e a sarça ardente.
Vitral da Catedral de Joliette - França
    Sou a encarnação de Morgana, a deusa arquetípica e estado de espírito animista do segundo século. Incorporo a essência de Géia; sou a carta número 2, a luz druídica, a Alta Sacerdotisa.
 

Nascimento de Vênus - Botticelli (1485)
      Celebro a união dos opostos, onde o Cristo arquetípico desposa a Dama do Lago. Sou a fertilidade, o nascer da nova fé que se inflama no terceiro século. Eu me manifesto como Vênus transposta para Imaculada Conceição de Maria. Sou a carta 3, a Imperatriz.
    A quintessência da Era de Áries está retratada no Império Romano. Mas, por volta
do quarto século, o desatino do peixe usurpou o espírito de pioneirismo do carneiro. De 392 a 395 Teodósio, o Grande, reina como o último Imperador de uma Roma unida. Representando os avanços de uma era anterior, incorporo o espírito do Rei Artur do Tarô. Sou a carta número 4, o Imperador.
    A centelha que acende o fogo e captura a imaginação é a forma que tomo no quinto século. Sou a inspiração que incendeia o coração místico de Santo Agostinho e o de São Patrício. Santo Agostinho escreve Cidade de Deus em 411, e São Patrício retorna à Irlanda em 432. Sou o Rumi da devoção manifesto na carta número 5, o Dalai Lama dos vinte e dois, o Hierofante.
    Minha dança se torna transcendental quando o sexto século se põe em marcha. Sou o caso de amor que se desenrola entre Bizâncio e Roma, quando se reconciliam em 519. Sou um Império Cristão unificado, Vênus e Marte apaixonados. Sou a harmonia e a paz projetadas pela carta número 6, Os Enamorados.
    Sou um nobre do sétimo século, guerreiro do mundo cristão e inspiração para a Torre de Prata, a primeira ordem de cavalaria estabelecida pelo Grande Rei Balmord o Vermelho em 653. Surjo na lenda do Santo Graal. Sou o Lancelote arquetípico, a carta número 7, o condutor do Carro.
    Da cavalaria brota a flor do cavalheirismo. Sou a dança do oitavo século que ocorre quando Carlos Magno se torna rei dos francos em 771 e é coroado como primeiro Santo Imperador Romano. Benevolência, cortesia e devoção formam a trilogia inspirada por seu reino, atributos bem exemplificados pela bela e casta dama do Tarô, a carta número 8, Justiça.
    Nos calcanhares da infinita esperança vem o infinito desespero, no século nove. Luís o Piedoso sucede Carlos Magno em 814. Ele é um franco consciencioso que demonstra ser capaz como general e administrador. Mas, no trono, o bondoso imperador se torna presa fácil de intrigantes, entre os quais os piores são seus próprios filhos. Tendo dividido seu Império entre eles, Luís descobre, para sua dor, que não somente os filhos guerreiam entre si, como se voltam contra seu benfeitor real.
 
Lancelote, o grande cavaleiro
da Corte do Rei Artur
[www.uidaho.edu]
 
    Luís se vê obrigado a abdicar e buscar refúgio em um monastério. Assim é a dança de um solitário monarca, o Rei Lear do Tarô. Eu sou o espírito da carta número 9, o Eremita.
    No desenrolar do décimo século, o mundo cristão é uma nau de insensatos. Doidas reflexões e medos do milênio motivam corações e mentes do povo medieval. Mas a roda do tempo se mostra clemente, e o milésimo aniversário da vida de Cristo se passa sem conseqüências cataclísmicas. Sou benevolente e gentil, a personificação do destino tal como representado na carta número 10, a Roda da Fortuna.
    O primeiro salto quântico do novo milênio é inspirado pelo ativismo social.
 

Lady Godiva - John Collier (1898)
      Sou o espírito que se inflama na esposa de Leofork, conde de Mercia, quando Lady Godiva oferece resistência. Ela não só persuade seu marido a fundar monastérios em Coventry e Stow, mas também a reduzir os impostos excessivos por ele arrecadados, consentindo em percorrer a cidade sobre um cavalo branco, nua.
    O único que desobedece suas ordens de permanecer dentro de casa com janelas fechadas – o tolo alfaiate Peeping Tom (Tom Espiador) – fica cego no ato.
     No Tarô, sou loira e linda. Sou vista abrindo as mandíbulas daquele leão orgulhoso, Leo; sou a carta número 11, a Força.
     Eu me manifesto nas profundas convicções de um homem que é pendurado para que seque por aquilo em que acredita. O golpe esmagador de uma espada extingue a vida de Thomas Becket, Arcebispo de Canterbury, em uma fria noite de dezembro quando ele sobe os degraus do altar da sua igreja. O evento brutal sacode toda a Europa do século doze. A acusação pelo assassinato permanece ligada ao antigo amigo íntimo do arcebispo, o Rei Henrique II, que não podia tolerar que Becket fosse desafiar sua autoridade. Sou o espírito indestrutível que vive no coração dos mártires. No Tarô, sou o arquétipo do potencial frustrado, a carta número 12, o Pendurado.
     A dança do infinito é uma interpretação unívoca e hostil, no século treze. Um ponto baixo na ortodoxia religiosa se dá quando as palavras dos profetas são manipuladas para inspirar medo, e dessa forma começa a era das Cruzadas e da repressão. Essa sombria hostilidade atinge um crescendo em 1231, quando começa a Inquisição. O Papa Gregório IX investe os dominicanos da responsabilidade de investigar a heresia. Assim floresce uma era de tortura e intolerância. Historicamente, eu me manifesto como a carta número 13, um anjo demoníaco vindo a cavalo, que descobre os hereges e os queima na fogueira. Eu sou a Morte.
    No século 14, a esperança reacende quando a Renascença começa na Itália e retomamos o equilíbrio na forma do caminho do meio. Emerge então uma nova era de iluminação consciente, incentivada por homens do porte de Dante, Petrarca, Bocaccio e Giotto. Sou uma espiritualidade revigorada que se eleva acima da peste negra. Você me encontra nas Lendas de Canterbury, de Chaucer. Sou o alquimista de mente aberta e um anjo de inteligência racional; sou a carta número 14, a Temperança.
    As forças reacionárias de um estado aliado à igreja obscurecem a luz de novo. Sou o coração puro de Joana d’Arc, queimada na fogueira como bruxa, pelos ingleses, depois de seu julgamento eclesiástico. Sou a essência do povo aborígene do Novo Mundo que a Europa do século quinze descobre, demoniza e conquista brutalmente. Sou a carta número 15, a face do poder europeu, o Diabo.
 
Alquimista - Miniature de 1516
[ http://perso.orange.fr/dame.licorne/ ]
 
    Contra o pano de fundo de Martinho Lutero e o início da Reforma, e a publicação de O Príncipe de Maquiavel, vivo no espírito de Sir Thomas More, humanista século dezesseis que escreveu a Utopia. Ele é trancado na “torre” e decapitado como traidor, por se recusar a reconhecer a autoridade de Henrique VIII, o rei excomungado. Sou o arquétipo da honradez e o fantasma que habita o lugar de assassínio. Sou a Torre atingida pelo raio, a inspiração da carta 16.
    Por volta do século dezessete, o poder religioso se encontra determinado a manter a ciência sob controle. Os astrônomos desafiam a igreja, no assunto da mecânica do universo. Depois de construir um telescópio, Galileu amplia a visão e a concepção que a humanidade tem do universo. Em 1610 ele vê as luas de Júpiter através das lentes de seu telescópio. Oito anos mais tarde, Johannes Kepler propõe a última das três leis do movimento planetário. Mas em 1633 a Inquisição força Galileu a abjurar sua crença na teoria de Copérnico. Eu me manifesto na pintura Ronda Noturna, de Rembrandt, em 1653; sou o intelecto que procura uma compreensão cada vez maior das origens do universo. No Tarô, sou a carta número 17, a Estrela.
Ronda Noturna (1642), de Rembrandt Van Rijn (1606-1669)
 
    Meu grito rebelde é um chamado que acorda a democracia no século dezoito. Em 1775 a Revolução Americana começa, e em 4 de julho de 1776 é adotada a Declaração de Independência. Em 1789 começa a Revolução Francesa, com a derrubada da Bastilha. Em 1793, Luís XVI e Maria Antonieta são executados. A porta está aberta para o maior dos rebeldes, Napoleão Bonaparte. Nos Arcanos Maiores, sou um lobo uivando à meia noite, um iconoclasta que eclipsa a luz brilhante do Sol e solapa sua autoridade. Eu habito o espírito da carta número 18. Eu sou a Lua.
    Livre das limitações que a igreja e o estado antes impunham, a democracia do novo mundo escancara as portas da ciência. Sou o espírito da invenção inspirada por pessoas como Joseph-Nicephore Niepce, que tira a primeira fotografia do mundo em 1826. Resplandeço no brilhantismo de F. B. Morse, que patenteia o telégrafo em 1844. Estou presente em 1866, quando Alfred Nobel inventa a dinamite, quando Alexander Bell patenteia o telefone em 1876 e, três anos mais tarde, quando Edison aperfeiçoa a lâmpada elétrica. Em 1892 proporciono o ímpeto que leva ao patenteamento do motor a diesel, e estou presente quando Pierre e Marie Curie descobrem o rádio e o polônio em 1898. O filósofo do século é Nietzsche, que estabelece algumas das idéias existenciais que o tornam famoso, como por exemplo a proclamação de que “Deus está morto”. O ateísmo de Nietzsche – seu relato do “assassinato de Deus” – se expressa em reação à concepção de uma autoridade única, suprema e julgadora que conhece os segredos ocultos e pessoalmente embaraçosos de todo mundo. No Tarô eu sou a luz clara da razão, sou o espírito da coletividade, sou um ego que se imagina todo radiante; sou a carta número 19, o Sol.
    Deus está morto e o século vinte se torna um quantum. Estamos voando alto, com aviões no céu; a dança é um fandango automatizado, nuclear. Estou presente nos avanços de Einstein, dos Irmãos Wright e de Henry Ford. Mas também sou retorcido por duas guerras mundiais, por Hiroshima, os Campos da Morte do Cambodja, o Holocausto e as contínuas guerras nos Bálcãs. Sou um pequeno passo para o homem e um grande salto para a humanidade. Mas sou também orgulho, egoísmo e ganância. Sou a glória do intelecto e seu desespero quando funciona desligado do coração. É então que me manifesto na extinção das espécies, no aquecimento global, na superpopulação. Sou o volátil legado ambiental que as crianças estão herdando. Sou a borda do precipício na qual as coletividades valsam perigosamente. Você me reconhece como o medo do milênio. Nos Arcanos Maiores, sou o anjo da trombeta que chama os mortos de seus jazigos; sou a carta 20, o Julgamento.
    E adentrando o século vinte e um com os braços estendidos e o cosmo girando em volta, eu lhe dou a Era de Aquário. Eu personifico o novo século. Danço a dança da mãe mística, a provedora da vida e de todas as suas fronteiras metafísicas imediatas. Sou o intelecto e o coração da terra viva que respira. Sou sua deusa, seu ponto de vista científico e subjetivo como objeto de fé. Sou seu jardim, digno de veneração. Sou o terceiro planeta do sistema solar, um místico pião giratório, perfeitamente iluminado ao sol da infinita luz de Buda. Sou a divindade do novo milênio. Sou esperança e promessa, a carta número 21. Sou o Mundo.
 
    
Contato com a tradutora
Bete Torii
- btorii@uol.com.br
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