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22 de agosto de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Cavaleiro de Ouros: herói sintético
Glória Marinho
 
 
Quando as obrigações se nos propõem,
devemos aceitá-las;
Quando as coisas acontecem em nossa vida
devemos compreendê-las até o fundo.
Lü Dsu
 
Sempre que surgem novas reinterpretações utilizando a linguagem simbólica é mister que haja uma argumentação explicativa para servir de suporte aos devaneios do Imaginário. Não se pode criar uma nova abordagem aleatoriamente porque sempre estaremos lidando com a manipulação de energias que devem ser canalizadas corretamente. No tocante a este texto, que é apenas um meio condutor nos atemos ao fato de que o objetivo final é o autoconhecimento e desta forma procuramos uma identificação com o lado sensível das emoções. Na literatura do Tarô a moeda de Ouros, símbolo do Naipe do mesmo nome, é vista por alguns, portando o significado entre tantos outros de um poder espiritual sobre a matéria e não somente do seu lado material.
Cavaleiro de Ouros no Tarô de Atalla
Cavaleiro de Ouros
Tarô Atalla
 
Nos ensinamentos do mestre G. O. Mebes encontram-se os seguintes parágrafos sobre a questão:
(...) O Naipe de Ouros se refere ao estágio de aquisições externas e internas da personalidade na vida terrestre.  
(...) A capacidade de criar pontos de apoio no plano físico, facilitando realizações espirituais, e de utilizar possibilidades materiais para finalidades superiores (...)
Embora em seus aspectos negativos, o Cavaleiro de Ouros focalize e valorize tão somente o aspecto material da vida, em seus aspectos mais positivos, ele demonstra a sua dualidade podendo atuar nos dois polos – heroico e místico – promovendo uma espécie de conjunção de opostos, material e espiritual. Deduzimos então que O Cavaleiro de Ouros pertence à estruturação chamada Sintética ou Discriminatória de acordo com a teoria do Imaginário, atuando nos dois polos – o racional e o místico – no desenrolar das atividades do seu dia a dia, podendo ser incluído como Herói Impuro em um dos polos de atuação e no outro polo, Herói Místico.  A sua atitude é a do saber que indica a disposição para o aprendizado e uma abertura sempre para o novo que, de acordo com Lutz Müller, carrega consigo uma curiosidade criativa e uma enorme necessidade de entender, cada vez melhor e mais profundamente, nas inter-relações entre os humanos. A sua essência é a busca da estabilidade.
Este Cavaleiro parece ter o potencial de promover uma síntese, ou seja, a união dos opostos tema central da psicologia profunda de Jung, com mais facilidade do que os demais Cavaleiros. A busca da Estabilidade nada mais é do que o processo de completude do ser humano. É preciso que se diga que não existe nenhum julgamento de valor entre os Cavaleiros do Tarô. Eles apenas são diferentes. Simplesmente, são o que são não havendo um melhor que o outro.
Para melhor entendermos a questão da atuação dos Cavaleiros do Tarô, haja vista o que nos diz o filósofo Nietzsche: Nós somos mais livres do que jamais fomos para lançar o olhar em torno e ter a vantagem de sentir em volta de nós um espaço imenso, mas também um vazio em todas as direções; nós não percebemos limite algum. Temos esse vazio imenso...
Esse vazio imenso nada mais é do que o vazio existencial agravado pela pós-modernidade caracterizando uma consequência direta da falta de união entre os opostos. Somos seres humanos em busca de caminhos para o nosso desenvolvimento material e espiritual querendo isso dizer que todos nós percorremos um caminho imaginário dentro de nossa realidade, muitas vezes repleto de pedras.  Pedras essas que compõem os obstáculos a serem suplantados: angústia, insegurança, solidão, perdas materiais e espirituais... Ao nos depararmos com o Caminho das pedras temos três opções a priori: a primeira é quando não conseguimos suplantá-las ou removê-las e sucumbimos, tendo como consequência a depressão, ou seja, a sensação da falta de sentido da vida.
Na segunda opção se delineia uma atitude criativa, isto é, um desvio pela tangente o que Freud diria tratar-se de uma sublimação do fato em si, ou então, a tentativa de uma canalização de nossos problemas, como nos recomenda Jung. A diferença entre sublimação e canalização seria mais ou menos como esconder a poeira embaixo do tapete, para a sublimação. Já a canalização seria a poeira jogada ao vento para fazer parte do Cosmo.
Como terceira e última opção dispomos da possibilidade de um salto quântico, sendo esta a atitude mais indicada, gerando assim uma conduta ética e espiritual mais integradora e transformadora, capaz de modificar nossa realidade e o mundo que nos cerca.
Tudo o que foi dito acima faz parte da vivência do Cavaleiro de Ouros. É o seu conselho para que alcancemos a estabilidade. Mas, para que isso aconteça é preciso que nos conheçamos da maneira certa atentando para o seguinte:
  O que eu penso que sou  
  O que outros pensam que sou  
  O que sou realmente  
O Cavaleiro de Ouros parece estar preparado para seguir todos os estágios acima descritos, um por um. É o que chamo de Completude e que está implícito nas atitudes do nosso Cavaleiro através de sua perseverança e aplicação. A família de OUROS possui experiência de vida e está capacitado para conduzir o aprendizado de nossos talentos externos e internos como tão bem salientou o mestre G.O. Mebes. A representação da imagem arquetípica do cavaleiro (herói, guerreiro) acata o aprendizado de sua família possuindo os pés fincados em terra firme que o leva a valorizar o material. Esse enraizamento é realizado através da natureza, a priori, com o elemento terra que lhe concerne a função da sensação.
De acordo com Jung as funções da consciência são: Sensação, Pensamento, Sentimento e Intuição. O herói Sintético possuindo em maior grau a função de Sensação em seu enraizamento através da natureza, mesmo assim é capaz de se elevar às alturas chegando ao status de um guerreiro de alto nível. Trata-se da projeção de um arquétipo com possibilidades de interpretação intelectual no meio social, de acordo com Gilbert Durand.
Um arquétipo pode ser visto de várias maneiras. Vejamos o que nos diz Rose Gwain sobre os conceitos vigentes sobre o arquétipo:
Os espiritualistas o concebem como deuses e
  deusas,
Os racionalistas como se fossem metáforas,
Os religiosos constroem uma religação com seus
  mistérios, promovendo imagens poderosas e ícones ilustrativos.
Jung nos fala de imagens primordiais habitando o
  Inconsciente Coletivo e que nos servem de guia em nossa jornada da alma. Os arquétipos tem sua origem no Inconsciente Coletivo que no dizer de Jung “são instintos gerais de representação (imaginação e de ação)”.
Um arquétipo pode ser visto de várias maneiras. Vejamos o que nos diz Rose Gwain sobre os conceitos vigentes sobre o arquétipo:
 
O Cavaleiro de Ouros no Lovers Tarot
Cavaleiro de Ouros
Lovers Tarot
  Os espiritualistas o concebem como deuses e deusas  
  Os racionalistas como se fossem metáforas  
  Os religiosos constroem uma religação com seus mistérios, promovendo imagens  
    poderosas e ícones ilustrativos.  
  Jung nos fala de imagens primordiais habitando o Inconsciente Coletivo e que nos  
    servem de guia em nossa jornada da alma. Os arquétipos tem sua origem no Inconsciente Coletivo que no dizer de Jung “são instintos gerais de representação (imaginação e de ação)”.  
Para os tarólogos torna-se viável, portanto, a utilização das imagens representativas para o desenvolvimento do processo de aprendizagem sobre a vida. Daí surgem várias interpretações sobre o mesmo tema que são perfeitamente aceitáveis, desde que, como já foi dito acima sejam baseados numa argumentação válida.
Citando mais uma vez Rose Gwain sobre os cavaleiros do tarô vemos que: "O Cavaleiro de Paus é um bom empreendedor, o Cavaleiro de Taças contribui com o conhecimento espiritual, o Cavaleiro de Espadas com a sua rapidez mental nos atordoa, mas é o Cavaleiro de Ouros que realiza todo o empreendimento.
Na literatura do Tarô encontramos descrições variadas sobre o Cavaleiro de Ouros aonde são incorporadas diversas atitudes, em sua maioria de ordem material.  Acrescentaremos a visão do desenvolvimento espiritual, ao mesmo tempo em que se buscam o comprometimento de ordem criativa no Herói Sintético abordando os dois lados: o material e o espiritual. Com essa visão entendemos a jornada do Herói dividida em etapas. De acordo com Carol Pearson, em seu livro, O Despertar do Herói Interior são cinco as etapas, desenvolvidas na jornada em espiral do Cavaleiro de Ouros:
  1. Vencer, fazer as coisas á sua própria maneira é a sua meta.  
  2. Fraqueza e impotência são os seus medos.  
  3. Matar, derrotar ou converter o dragão (problemas) é a sua resposta (geralmente não acontecerá a morte do dragão de maneira direta).  
  4. Por tudo isso a sua tarefa final deverá ser lutar pelo que é realmente importa.  
  5. Como dádiva para si mesmo será preciso cultivar a coragem a disciplina e as habilidades inatas  
Em sua atuação diante dos problemas o Cavaleiro de Ouros vai usar de pouca ou nenhuma violência porque o seu objetivo maior é o de procurar soluções que satisfaçam a todas as partes envolvidas. Para isso precisa se perguntar a todo instante: qual a melhor solução? O que é correto para mim? O que é melhor para todos?
Assim procedendo acrescentaríamos que as maiores batalhas são aquelas travadas em nosso interior. Para um arquétipo de nível mais elevado, como o Cavaleiro de Ouros, esta luta seria contra a preguiça, a descrença, a irresponsabilidade a desesperança... Enfim, todos os males que corroem a nossa sociedade. O desenvolvimento da personalidade do Cavaleiro de Ouros é a busca de um apoio real para alcançar as alturas. A busca do ouro alquímico, no sentido psicológico.
De acordo com o autor do Teste A.T.9, Yves Durand, as pessoas de estruturação Sintética ou Discriminatória vê a vida de dois modos atuando conforme a sucessão dos acontecimentos: ora herói de si mesmo ora místico com sentimentos. Esta classificação se define como uma estruturação de espaço temporal. A força de coesão sintética das categorias se caracteriza pela percepção das imagens e do mundo, complementado por uma vivência simbólica dos conteúdos reais, que podem ser atualizados no polo heroico ou no polo místico.
Kgnith of Pentacles (Cavaleiro de Ouros) por Lorette C. Luzajic
O Cavaleiro de Ouros
Ilustração de Lorette C. Luzajic
A atuação heroica é vista como as atitudes de um herói impuro e na valorização do elemento no tempo cíclico. No Cavaleiro de Ouros essa facilidade de movimentação que a estruturação lhe fornece, faz com que possa sintetizar as suas funções psíquicas em ciclos, processando as transformações objetivas sempre que necessário e mantendo um ritmo constante na movimentação de suas funções.
Movimentação das funções:
  Intuição – sensação – pensamento – sentimento  
    ou  
  Pensamento – intuição – sentimento – sensação  
Para um melhor entendimento diríamos que essas mudanças não são aleatórias. Elas se processam de acordo com a constelação dos Arcanos em nós, fazendo com que as funções se mesclem ou mudem de dominante para inferior e vice versa. Elas, as funções psíquicas, também podem atuar aos pares e até mesmo como atitudes triplas: pensamento e intuição, por exemplo, como funções dominantes no momento e como função secundária a Sensação.
É o que chamamos de duo existencial ou até mesmo trio existencial. O importante é saber que elas não são estacionárias. Não por muito tempo... porque  são Arquétipos.
É claro que, dependendo da estruturação de cada um dos Cavaleiros, essas funções terão maior ou menor peso, em suas nuances de atitudes. Pode parecer racional por demais a nossa conceituação, mas não nos esquecemos de que as Imagens arquetípicas por si só nos remetem ao mundo espiritual ainda que utilizemos caminhos intelectuais.
  Com o Arcano de número 22 agimos pela sensação.  
  Com o Arcano de número 2 a nossa atuação se fará através da intuição;  
  O Arcano de número 19 nos levará à euforia dos sentimentos  
  O Arcano de número 8 é o protótipo do pensamento.  
Pelo exposto acima vemos que os Cavaleiros do Tarô, heróis de si mesmo e da comunidade, necessitam de orientação para se conhecerem. Cada um deles precisa viver o seu mito pessoal de acordo com a sociedade em que vivem. Ocorrendo o contrário haverá sempre um descompasso ente as atitudes e possibilidades (Arcanos Maiores) e as ações (Arcanos Menores) promovendo angústia, fracassos e desesperanças. Claro que não há uma exclusão do aspecto material nessa interpretação. Ela estará presente o tempo todo, mas não como única opção.
Concluindo, citaremos um parágrafo do ótimo livro de Carol Pearson quando ela fala da identificação de um guerreiro de alto nível, dizendo que muitas vezes esses guerreiros não são reconhecidos porque sua batalha é a sagacidade ocorrida nos bastidores da vida. Diz ela que: Nos níveis mais elevados, a vitória é alcançada não apenas sem derramamento de sangue, mas também sem que ninguém seja humilhado; a paz só pode ser mantida quando todos sentem que foram tratados com justiça.
Gostaria de acrescentar, como uma espécie de fechamento, uma frase do escritor e médico Deepak Chopra, em seu livro As Sete Leis Espirituais dos Super-Heróis, que representam toda a Síntese de ações de um Herói, ou seja, os Cavaleiros do Tarô.
Equilíbrio é a interação entre Ser, Sentir, Pensar e Fazer.
janeiro.13
Contato com a autora:
Glória Marinho é historiadora e antropóloga formada pela UFPE.
Atende pessoalmente, seguindo a linha junguiana: glorieta@bol.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
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