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23 de abril de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Das taças: um subsídio para o estudo
do naipe de Copas nos baralhos clássicos
Emanuel J Santos
 
Assim como o precedente (Das cimitarras bastardas - naipe de Espadas), a intenção deste texto é apresentar a perspectiva iconográfica das cartas numeradas de baralhos clássicos como passível de interpretação para alcançarmos os significados propostos para a leitura das cartas. Utilizamos o termo “clássico” em ambos os textos referenciados por Adriana Kastrup e Luciana Adib [A vida pelo Tarot. Rocco, 2004], Nei Naiff [Curso completo de tarô. BestBolso, 2009] e Stuart Kaplan [Tarô Clássico. Pensamento, 1989], e como referência imagética o Tarô de Marselha de padrão Grimauld, o qe não exclui os demais baralhos de mesmo padrão.
Para Nei Naiff, Tarô Clássico, ou Tradicional, corresponde ao “conjunto dos tarôs desenhados entre 1400 e 1900”, por terem sido ilustrados “no mesmo padrão”, sendo identificados “pelo nome ou editor” que o publicou. Assim, “todos os tarôs que seguem o padrão simbólico do tarô de Marselha são considerados tarôs clássicos”. Adriana Kastrup acrescenta a ideia que nos norteia, de que pode ser considerado clássico o conjunto, inspirado em Marselha, cujos “Arcanos Menores são desenhos que se utilizam somente dos elementos dos naipes”.
Ás de Copas no Tarô Mamluk    Três de Copas no Tarô Visconti Sforza    Dois de Copas no Tarô de Jean Noblet    Sete de Copas no Tarô  Mitelli    Oito de Copas no Tarô de Marselha
Da esquerda para a direita: Ás de Copas no Tarô Mamluk (séc. XV);
Três de Copas no Tarô Visconti-Sforza (1455); Dois de Copas no Tarô de Jean Noblet (1650);
Sete de Copas no Tarô de Giuseppe Mitelli (1665) e Oito de Copas no Tarô de Marselha (1760)
Os significados que utilizo aqui, e que considero pertinentes para a análise da iconografia estão presentes em diversos livros de Tarô, incluindo as referências supracitadas, e são evidentemente os significados que utilizo em minha prática. Conforme disse no texto anterior (Das cimitarras bastardas), outros significados poderiam ser propostos, referenciando-me em outros teóricos, mas deixaria de fazer sentido um estudo baseado em significados que não utilizo e não pratico. Caso haja alguma discrepância entre o que escrevo nesse e em outros textos e em sua prática pessoal, opte pela segunda.
Para entender as Copas: a Torre de Taças
Da mesma forma que no texto precedente, procurei similitudes entre as cartas de Copas, que referenciassem sua interpretação positiva ou negativa. Não foi tão fácil quanto em Espadas, porque, com exceção do Ás e do Dez (novamente), as Copas mantém o mesmo padrão em todas as cartas. Então, aqui, ao invés de analisarmos a presença, ou não, de algum elemento, analisaremos a disposição das taças em cada uma das imagens. E, como guia dessa análise, utilizaremos a Torre de Taças como referência.
Torre de Taças
Torre de Taças
Foto de www.amareloouro.files.wordpress.com
Essa é uma prática corrente em casamentos (ok, talvez não mais com frequência) e nos é conhecida também de competições de auditório, como no programa Viva a Noite apresentado por Gugu: http://youtu.be/BpqS6mQtGy4
Prestemos atenção na ideia: a partir de uma taça, todas as demais são abastecidas de forma equânime. De cima para baixo, todas serão preenchidas. Isso pressupõe que as taças estejam alinhadas adequadamente. Se observarmos o naipe, três cartas não seriam abastecidas da forma correta: o cinco, o sete e o oito, que tradicionalmente são as cartas negativas do naipe. Portanto, desta vez dividiremos o naipe de acordo com a possibilidade de enchermos as taças de cima, derramando nas que vem abaixo, sem desperdiçar o líquido precioso do Ás.
Vamos então, passo a passo, taça a taça... 
Ás de Copas. Essa carta poderia ser facilmente substituída por uma garrafa de champanhe, sem perda dos significados de celebração, encantamento, paixão e êxtase (ou embriaguez) que lhe são próprios. Dessa taça, todas as demais serão abastecidas.
Percebe-se, nos baralhos clássicos, que essa Taça foge ao padrão utilizado para as demais cartas, além de ser proporcionalmente maior. Portanto, ainda que ela as abasteça, ela não participa dos significados das demais. O que o Ás de Copas concede, transcende o que as demais cartas de Copas podem oferecer.
2 de Copas. Amor. Encher duas taças lembra-nos jantares românticos e companhias agradáveis. Encher a taça de alguém é celebrar, compartilhar, podendo ser tanto afeto filial quanto erótico. O desperdício que veremos no quatro ainda não é evidente aqui.
 
Ás de Copas no Tarô de Marselha
Taça de campanhe
Preenchimento
 
3 de Copas. Abundância. A formação triangular sugere que, ao enchermos a taça superior, as demais encher-se-ão por consequência. O transbordar da primeira taça não corresponde a um desperdício, sendo conditio sine qua non para o preenchimento das demais taças em um único movimento. Aqui, a abundância é garantia de partilha e celebração, pois o primeiro a ser servido é justamente aquele que pode servir aos demais.
4 de Copas. Pompa. Apesar de podermos aqui, também, enchermos todas as taças, o espaço entre as taças superiores sugere algum desperdício, se fizermos um único movimento.
Nessa carta, já temos excessos, e a preocupação com os excessos tende a nos deixar cuidadosos demais, cautelosos demais. E, como bem sabemos, quanto mais esforço fazemos para não fazer uma coisa – como por exemplo, não desperdiçar tanto líquido entre uma taça e outra – mais fácil fica desperdiçar. A preocupação tolhe a naturalidade do movimento.
5 de Copas. Decepção. Dado o movimento do quatro, que já era tolhido pela preocupação do desperdício, que diríamos do cinco, onde a taça intermediária não dialoga com as demais? O liquido derramado respingará, escorrerá, não chegará perfeitamente às taças inferiores, ou então não chegará à taça central. O desapontamento que essa carta representa provém de uma escolha mal feita (que seria feita de qualquer forma).
6 de Copas. Prazer. Tal como o quatro, temos aqui novamente duas colunas e a possibilidade de derramamento no meio entre as taças. Mas já contamos com a experiência do quatro e com a perda do cinco. Aqui, mesmo que haja um pouco de respingos – inevitáveis – por serem esperados, não são desagradáveis. A aceitação do possível traz de volta ao coração o alento e a celebração.
7 de Copas. Devassidão. Após superarmos a experiência do cinco, achamos ser possível encher qualquer torre de taças. Não mesmo. Como encher uma torre cuja parte superior é formada por três taças, assim como a inferior, tendo ao centro uma única taça? Até podemos aceitar o desafio, mas o resultado será desastroso, com certeza. A ilusão da possibilidade não garante um bom resultado, ainda que já tenhamos experienciado algo parecido e acreditemos ser capazes de obter o sucesso.
 
Sete de Copas no Tarô de Marselha
8 de Copas. Indolência. Depois do sete, quem estaria animado para encher as taças centrais? Apesar de serem duas, e portando desperdiçarem menos, é muito mais difícil encher as três taças inferiores. E depois de um esforço animado, porém frustrado... Abandonar o desafio é mais inteligente. Só que ninguém quer fazer isso. E, se faz, faz de qualquer jeito, com preguiça de acertar. E dá-lhe mais desperdício.
9 de Copas. Felicidade. A formação mais estável dentro da nossa abordagem, desde o três. Mínimo desperdício, máximo aproveitamento. E muitas taças para servir. Aqui temos o contentamento perfeito – além de servir, somos servidos. Aqui nada falta, aqui tudo abunda. E todos se divertem.
 
Taças de festas
 
Dez de Copas no Tarô de Marselha
Taças num arranjo de festa e no
Dez de Copas no Tarô de Marselha
<--Foto: www.noivandocasandoamando.com
 
10 de Copas. Saciedade. Lembra daquela taça maior que estava lá no Ás? Olha ela, reformulada, deitada sobre as nove, servindo a todas. Ela não se esgota, se derrama. É uma fonte que jorra, de cima para baixo, sem esgotar-se – ou seja, aqui, aquele desperdício que afetava o derramar nas demais cartas não é capaz de causar dano. O que se derrama não se perde – como um banho de champagne na Fórmula 1. Faz parte do show, baby.
Tem um aspecto que eu abordei no texto sobre as Espadas que continua uma incógnita para mim (por ora): as plantas que ornamentam a carta, qual é o diálogo delas com os significados propostos. Só dá para perceber que o Ás e o Dez (novamente) são os únicos sem tais ornamentos.
Fica aqui mais uma proposta de visão das cartas. Quando uma carta de Copas sair no seu jogo, repare se ela pode ser servida adequadamente. Daí ficará mais fácil entender como o naipe de Copas manifesta seus aspectos positivos e negativos. Se derramando.
E, tal como em Rolling in the Deep, da cantora Adele, as taças ressoam. Se o ruído iconográfico for suficientemente intenso, as taças reproduzirão seu efeito em seu próprio significado.
So, raise your glass.
abril.12
Contato com o autor:
Emanuel J. Santos - Historiador e Cartomante
Responsável pelo blog Conversas Cartomânticas:
http://conversascartomanticas.blogspot.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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