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12 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


Água: a música celebra a vida
Simone Gomes Omega
Jamais se desespere em meio às sombrias
aflições de sua vida, pois das nuvens
mais negras cai água límpida e fecunda.

Provérbio Chinês
A água lava todos os males dos mortais.
Erasmo de Rotterdam
A água – que com o ar, o fogo e a terra forma os quatro elementos que regem o planeta Terra – aparece nas mais diferentes culturas com extenso significado espiritual-metafórico. Representada pelo naipe de Copas, a água relaciona-se com a intuição e a imaginação. A água está presente nos ritos de purificação e batismo das mais diversas manifestações religiosas.
De acordo com o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, a água é a fonte de toda vida, é o meio de purificação e de morte simbólica. É um “reservatório de energia” e regeneração. Confere vida, força e pureza para o corpo e para o espírito, além de proteção e vida longa. Lava os pecados, os malfeitos e as mentiras.
O símbolo da água está presente nas mais diversas culturas. Na Ásia, é a origem da vida, símbolo da regeneração do corpo e do espírito, da pureza, da sabedoria, da graça e da virtude. É o veículo de toda vida, da fertilidade e da fecundidade. Além disso, é o medicamento para a imortalidade, uma vez que purifica e regenera. É utilizada nos mais diversos rituais religiosos, contidas em taças ou diretamente na natureza, em rios, lagos ou mar.
A água nos batismos religiosos
A água e seu simbolismo nas diferentes culturas: Batismo no Judaísmo e no Cristianismo;
purificação no Islamismo e origem da vida para os asiáticos e demais crenças.
No Islã, a água como fonte de todos os seres viventes criados por Alá, é utilizada para a purificação ritual e ablução antes das orações realizadas nas mesquitas. No Hinduísmo, as águas do rio Ganges são fonte de purificação e rituais. Para as tradições judaico-cristãs, a água é a origem da criação e fonte de todas as coisas, fonte de vida e morte, criadora e destruidora. É o instrumento do batismo e da purificação, benção e fonte da juventude. Na Bíblia figura no Dilúvio (característica destruidora, desagregadora); no rio Jordão onde Cristo foi batizado; no mar da Galileia, quando Cristo andou na sua superfície e nas Bodas de Caná, quando foi transformada em vinho (características construtivas, doadoras de vida) (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2009).
“Á água apaga todas as infrações e toda mácula” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2009). Por meio do batismo lava os pecados para que daí saia um homem novo. A imersão nas águas regenera e cura todas as dores; dilui todas as tristezas e sofrimentos. Resumindo, a água é um elemento sagrado para a maioria das religiões e culturas.
Os quatro elemenos
Representação alquímica da água: triângulo azul sem corte com a ponta voltada para baixo.
Na Biologia e na Química, a água tem papel essencial: constitui aproximadamente 60% do corpo humano em massa; participa da fotossíntese; atua no transporte de substâncias no organismo, dentre outros. Na Alquimia a água é representada por um triângulo com a ponta voltada para baixo. Na Astrologia, é o elemento rege os signos de Câncer, Escorpião e Peixes.
Para mais informações veja : https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gua. Acesso em 19/05/16.
https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81gua_(elemento). Acesso em 19/05/16.
Água e Power Metal: elemento poderoso!
Além das tradições religiosas e do papel alquímico-biológico, como citado acima, o simbolismo da água é também utilizado na composição de letras de música de Heavy Metal. Como exemplos de uma simbologia espiritual-metafórica, trago as letras Wash Away The Poison e Holy Water, da banda de alemã de Power Metal Edguy. As canções fazem parte dos álbuns Mandrake (2001) e Hellfire Club (2004, como bônus), respectivamente.
Capasdos áçbums Edguy
Mandrake (2001) e Hellfire Club (2004): álbuns de Wash Away the Poison e Holy Water, respectivamente..
Edguy, banda de Power Metal alemã fundada em 1992 em Fulda por Tobias Sammet e Jens Ludwig, possui 11 álbuns de estúdio: Savage Poetry (1995), Kingdom of Madness (1997), Vain Glory Opera (1998), Theater of Salvation (1999), The Savage Poetry (2000) – regravação de Savage Poetry, Mandrake (2001), Hellfire Club (2004), Rocket Ride (2006), Tinnitus Sanctus (2008), Age of the Joker (2011), Space Police: Defenders of the Crown (2014), Ghostlights (2016).
A banda é composta por Tobias Sammet (21/11/1977 – vocal), Jens Ludwig (30/08/1977 – guitarra e vocais de apoio), Dirk Sauer (01/09/1977 – guitarra rítmica, Felix Bohnke (02/09/1974 – bateria) e Tobias Exxel (27/02/1973 – baixo). Os principais temas das letras – de conteúdo hermético e metafórico na maioria das vezes – são: Alquimia, Esoterismo, Magia (de salão e cerimonial), Crowley/Thelema, dogmas da Igreja e perigos da civilização moderna.
O quinteto Edguy
O quinteto Edguy
Fonte: http://www.edguy.net/eng/index.php
Holy Water possui um andamento mais acelerado em relação a Wash Away The Poison, que é mais lento, porém  as letras em questão – de autoria de Tobias Sammet – tratam da mesma temática: são uma súplica, um pedido para que aconteça uma purificação espiritual por meio da água, elemento sagrado que acalma as dores, purifica e lava todo o veneno que existe na vida do narrador, como podemos ver nas traduções abaixo:
Água Sagrada
Tobias Sammet
Esperando todo o tempo para apagar isto de minha mente
Eu sinto como se eu fosse deixado para trás, meu coração está congelado
Castigado para me atirar e cair e de novo, rastejarei
Realmente não há retorno da vida escolhida?
Você quis mais de mim do que eu poderia ser
Chuva está caindo, derramando sobre mim
Água sagrada para acalmar minha dor, purifica-me
Chuva está caindo, derramando sobre mim
Água sagrada para acalmar minha dor
Estou cruzando meu caminho para digerir o ontem
Sob nuvens de chuva rumo ao pôr do sol para ser devorado
E então voltar vivo
Ensopado, mas purificado
Pronto para suportar as memórias de horas douradas
Não, não há mais nada a fazermos
Nós temos que prosseguir além
Chuva está caindo, derramando sobre mim
Água sagrada para acalmar minha dor, purifica-me (3x)
Chuva está caindo, derramando sobre mim
Água sagrada para acalmar minha dor
Lave o Veneno
Tobias Sammet
Aqui sozinho agora eu estou olhando para o mar
Por trás do longínquo horizonte
Há algum lugar melhor para mim?
Com medo de me afogar
Com medo de mergulhar
Assustado por temores
E pela quente luz do sol, sim
E eu danço na chuva,
Mergulho na piscina da vida
Lavo o veneno
E eu danço através desta dor, meu corpo em uma noite sem estrelas
Para lavar o veneno de minha alma
Entre o demônio e o profundo mar
Eu não sei como continuar
Eu apenas sinto aquela força interior
Que está me empurrando para frente
As marés da vida
Trazem claridade à minha mente bagunçada
Eu mergulharei para ver, me liberte
(Repete 1x)
E transformá-la em ouro (2x)
E eu danço na chuva,
Mergulho na piscina da vida
Lavo o veneno de minha alma
Água sagrada: lava o veneno, purifica e liberta
Na primeira letra, o narrador conta com a ajuda do tempo para apagar coisas de sua mente, que nesse caso podem ser negativas, já que seu coração está “congelado” e ele pode cometer seus erros novamente (“Castigado para me atirar e cair de novo”) e questiona: “ Realmente não há retorno da vida escolhida?”. Dizer que seu coração está “congelado” é o mesmo que dizer que leva uma vida de pecados, malfeitos e mentiras (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2009).
Assim, o narrador pede que a água, num sentido espiritual-metafórico, caia sobre ele, acalme sua dor e o purifique. Por isso afirma e pede insistentemente: “Chuva está caindo, derramando sobre mim / Água sagrada para acalmar minha dor, purifica-me / Chuva está caindo, derramando sobre mim / Água sagrada para acalmar minha dor”. Somente assim ele terá ânimo, estará disposto, preparado e firme diante das dificuldades da vida.
O narrador segue, então, seu caminho meditando, fazendo uma avaliação de sua vida pregressa. Passa por caminhos escuros e tortuosos (“nuvens de chuva”) e decadentes (“pôr-do-sol”) para finalmente compreender e superar suas dificuldades, seus temores. Neste caso temos a chamada “morte” espiritual e o renascimento por meio da água quando o narrador diz que deverá ser “devorado” para voltar “purificado”, como podemos ver no trecho: “Estou cruzando meu caminho para digerir o ontem / Sob nuvens de chuva rumo ao pôr do sol para ser devorado/ E então voltar vivo / Ensopado, mas purificado”. Ao dizer que está “Pronto para superar as memórias de horas douradas” significa que o narrador teve momentos satisfatórios e tranquilos, porém que tiveram curta duração (assim como aquele espaço de tempo muito pequeno que os fotógrafos têm para captar o momento perfeito para uma foto: mais ou menos uma hora depois do nascer do sol e uma hora antes do pôr-do-sol).
É, então, chegada a hora de seguir em frente, com o com o auxílio e poder da água, elemento sagrado, calmante e purificador; de regenerar-se corporal e espiritualmente. Água que “possui, por si mesma, uma virtude purificadora e, por mais esse motivo, é considerada sagrada” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2009).
Chuva dourada
Na segunda letra, a água também ganha um sentido espiritual-metafórico, porém mais intimista: se Holy Water trata de limpar o corpo, o lado exterior, Wash Away The Poison vai mais além, pois o narrador pede que sua alma, seu íntimo sejam lavados de todo mal, simbolizado pelo veneno.
Nesta letra, o narrador contempla o mar, enquanto se questiona sobre seu futuro, que está muito longe dele: haverá um lugar melhor? Haverá uma saída para sua vida? Pode-se dizer que há um questionamento sobre a vida e a morte, pois o mar é o “lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos”, além de simbolizar a dúvida e a incerteza, “que pode se concluir bem ou mal” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2009).
Por isso o narrador tem medo de se afogar, de mergulhar em suas águas profundas, ou seja, de fazer esse exame de consciência, pois os medos sofridos em sua vida pregressa o assustam, assim, como a “luz quente do sol” que o faz ver com mais clareza as falhas antes cometidas.
Então, o veneno é lavado na chuva, na “piscina da vida”, como se ele mergulhasse em suas águas profundas e voltasse renovado, como podemos observar nos versos de ambas as letras: “Sob nuvens de chuva rumo ao pôr do sol / para ser devorado / E então voltar vivo / Ensopado, mas purificado” (Holy Water) e “E eu danço na chuva, / Mergulho na piscina da vida […] / Para lavar o veneno de minha alma” (Wash Away The Poison).
A ideia de que sua vida passada o atormenta pode ser confirmada quando o narrador diz que dança “através dessa dor”, e se encontra na escuridão (“uma noite sem estrelas”). Mais adiante o narrador se coloca entre o “bem” (o mar profundo, que lavará o veneno de sua vida) e o demônio (os erros, “os pecados, os malfeitos e as mentiras”) admitindo não saber qual rumo tomar, mas que no seu íntimo há a certeza de que existe uma “força interior” que o leva para frente, no sentido positivo.
Água do mar
Então, entra o “poder” dinâmico do mar, que é movimento e por isso as “marés da vida” desempenham esse papel de ir e vir, de reflexão, trazendo “claridade”, entendimento sobre os fatos de sua vida e, de acordo com o Dicionário Caldas Aulete, a “capacidade de elevar, purificar, clarificar os pensamentos ou sentimentos”. Por isso o narrador decide que fará essa reflexão (mergulhará) para que a sua “mente bagunçada” seja transformada em ouro, isto é, tenha um grande valor, volte-se para o aperfeiçoamento e a transformação para alcançar a sabedoria e a felicidade (CHEVALIER e GHEERBRANT, 2009). Para que tudo isso seja possível, pede que as marés da vida esclareçam sua mente e o libertem. Finalmente, que lavem o veneno de sua alma.
Para mais informações veja: https://www.letras.mus.br/edguy/91923/traducao.html.  Acesso em 16/05/16.
https://www.letras.mus.br/edguy/98892/traducao.html. Acesso em 16/05/16.
http://www.aulete.com.br/claridade. Acesso em 20/05/16. Acesso em 20/05/16.
http://www.13profecias.com.br/dicionario/index.php/a/234-agua. Acesso em 20/05/16.
… e eu danço na chuva…
Como vimos, a água faz parte da vida e da cultura da humanidade, seja ela religiosa, alquímica, biológica, astrológica, e no caso das letras em questão, da criação artística. Tobias Sammet explorou o simbolismo da água de forma especial mostrando que além de purificar e lavar o veneno físico e espiritual, ela também está estreitamente ligada com a morte e o renascimento simbólicos.
No contexto das letras, a água ganha um significado especial, pois ao mesmo tempo em que o narrador tem medo de se “afogar”, de “mergulhar”, ainda assim, ele celebra esse momento (“Eu danço na chuva”) e deseja que essa água caia sobre ele, que lave esse “veneno”, isto é, os temores, as dores e as coisas ruins que o atormentam. Nesse caso, a água proporciona “clareza” à sua “mente bagunçada” conferindo-lhe o equilíbrio que precisa para seguir em frente. Por isso a água é sagrada.
Água da chuva
Como dizemos, depois da tempestade, vem a calmaria. Em outro contexto, não seria o momento do banho também uma oportunidade para reflexão? Não é um banho que nos renova quando chegamos a casa cansados ou estamos doentes? É como lavar a alma. A água lava e leva todas as impurezas e males. Como disse Sammet, a água acalma, purifica e lava o veneno que há em nós tornando-nos libertos!
Referências:
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos: mitos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 24ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009 (verbetes água, mar e ouro).
As ilustrações foram obtidas via Google Search.
Simone Gomes Omega
gommes78@gmail.com e
www.facebook.com/simonegomes78
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 16/07/2016
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