Responsável: Constantino K. Riemma
 
08 de setembro de 2010
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A leitura em pares: complementa ou limita?
  Jaime E. Cannes  
 
    Uma grande amiga veio me contar, cheia de entusiasmo, que fez um ótimo curso de tarot em São Paulo com um “grande” tarólogo que lhe ensinou o melhor método de ler as cartas de tarot: a leitura em pares, aquela que combina aos arcanos maiores os menores no jogo. Disse também que o tal grande tarólogo falou que sem combinar assim os arcanos a interpretação fica deficiente, incompleta.
    Argumentei imediatamente que não acreditava naquilo, simplesmente por não haver apenas um único modo de se ler as cartas, e que isso era muito mais uma questão de gosto e de afinidade pessoal.
    Somos pessoas com diferentes graus de afinidades, com mapas diferentes e por isso é que ela aceitou prontamente o que ele disse, porque fechava com o seu sistema interno de crenças, o que não significava que era o melhor, simplesmente que era o dela e do seu respectivo professor.
    No decorrer da conversa ela continuou argumentando que o seu orientador já havia tentado uma série de métodos e que nenhum se mostrou tão eficiente. Rebati mais uma vez dizendo que se tratava apenas das experiências necessárias para que ele construísse o seu sistema de valores enquanto tarólogo.
    Autores estrangeiros normalmente não separam arcanos maiores e menores nas leituras. Gente como Pamela Eakins, James Wanless, Rachel Pollack, Hajo Banzhaf, entre outros, incentivam que se misture os dois conjuntos de cartas.
    Podemos dar o desconto de que essa pode ter sido a interpretação da minha referida amiga, que no geral é bastante sóbria, mas afinal é humana! É claro que, por um lado, talvez tenha sido esse um método popularizado no Brasil porque faça parte do nosso inconsciente coletivo, tudo bem! Mas temos de convir que a nossa amada terra Brasil sempre foi uma mescla de Terra do Nunca com A Toca dos Cuspidores de Lei todos loucos para proclamar a verdade mesmo que na contramão do mundo!
 
Cartas do baralho Rider-Waite. Pares de arcanos maiores e menores.
Pares de arcanos maiores e menores
[Tarot Rider-Waite]
 
    Enquanto lá fora os autores dizem coisas como “Esse método foi desenvolvido à partir de meus anos de experiência... ” ou “Esse sistema de leitura me inspira... ” por ter relações com o xamanismo, a astrologia, a cabala, etc. Aqui eles já sabem qual é o melhor sistema! O que deixa a leitura mais completa!
    Sinto que o que deixa uma leitura mais completa é a bagagem de experiência de um tarólogo com o seu baralho, aliado à sua cultura, suas trocas com outros colegas e o que ele mesmo é capaz de apreender de suas consultas. Costumo utilizar as cartas dos arcanos menores e maiores misturadas e tem sido muito gratificante para mim e para meus clientes. A combinação em pares para a interpretação é interessante também, eu mesmo já usei esse sistema, mas achei-o rebuscado demais, com muitas cartas na mesa (de 20 a 39 dependendo do método empregado). E o que isso significa?... Nada! Significa apenas que não é para mim!
    Essa discussão com minha amiga me fez pensar que talvez o que esteja por trás de uma declaração dessas seja o fato de os arcanos menores ainda serem vistos como secundários, como apenas um complemento dos maiores e isso é perigoso, pois nos arcanos menores há a vivência do homem comum, a mais próxima de nós, a mais identificável. E a verdade é que vivemos num mundo onde o homem comum tem tido pouco valor, temos todos de ser extraordinários! O que me intriga é o seguinte: se sair um arcano menor sozinho numa posição da mandala astrológica, por exemplo, ele fica o quê? Inócuo? Pobre? Vazio?...
    Oswald Wirth disse que o limite do tarot está no olhar do tarólogo. Concordo com ele. Explorar os muitos sistemas de leitura é uma maneira de expandir a criatividade e a sensibilidade intuitiva, o que não cria autoridades inatacáveis, mas sim senhores de sua própria verdade! A vida precisa mais de todas as verdades unidas do que elas se opondo entre si, afinal isso até hoje não funcionou, não é mesmo?
julho.08
Contato com o autor:
Jaime E. Cannes - www.jaimeecannes.com
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