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15 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


A união de destino e livre arbítrio:
do grande desencontro a um possível casamento destas idéias
Luiz Felipe Camargo Pinheiro
 
 
O texto a seguir foi elaborado por Luiz Felipe C. Pinhjeioro a partir de sua exposição
na mesa-redonda promovida pelo Clube do Tarô na Livraria Cultura do Shopping Market Place, em setembro de 2010, sobre o tema Destino e Livre-arbítrio.
 
Vamos entender por destino algo que é um poder da natureza, ou que está diretamente ligado aos deuses e que o ser humano vai seguir de algum jeito, sendo guiado, sendo regido por essa força. Sem grande ou nenhum poder de diálogo, para tentar sair e fugir desta situação. A gente pode entender destino como uma força divina, que se impõe sobre nossa vontade e em nosso viver.
O ser humano passa a adquirir algum poder através do livre arbítrio, como antagonista dessa idéia de destino. O poder no livre arbítrio aparece como a vontade humana manifestada, segundo o seu próprio desejo, segundo a sua própria realização. Em momento algum, no livre arbítrio vamos achar que tem um predisposto ou uma força divina (como na idéia de destino). Não! O livre arbítrio é a atribuição da vontade humana no seu potencial mais pleno.
 
Destino e Livre escolha
Destino versus livre-escolha - "Fate versus free-will" - www.ileifa.org
 
Então, estamos falando de coisas antagônicas, de duas idéias que parecem que nunca vão se encontrar muito bem: de um lado a vontade dos deuses, de outro, a vontade humana. É assim que a gente normalmente tende a olhar estas questões. Se eu perguntar a vocês, eu aposto que um ou outro, já respondeu a questão “... se acredita em destino ou em livre arbítrio?”. Eu aposto que qualquer um já teve que responder essa pergunta, ou já ouviram alguém falar que tem uma posição, de acreditar ou não, ou em um, ou em outro.
A minha proposta é que a gente tente fugir um pouco desse condicionamento de encarar essas idéias como antagonistas. Fugir um pouco do que a gente está mais acostumado, desse embate de forças entre o divino e o humano. Então, eu sugiro que a gente tente achar um pontinho de intersecção entre essas duas idéias. E aí, eu vou sugerir que cada um de vocês use um pouco daquele conceito que a gente aprende na matemática... aquela idéia de conjuntos, sendo que cada conjunto abriga uma série de elementos. Quando a gente pensa no destino nada mais é que o conjunto de possibilidades, que talvez, não tenham a ver com a minha ação e esteja na mão dos deuses. E quando a gente pensa em livre arbítrio, talvez tenha uma série de possibilidades, contendo somente a minha vontade. Só que a grande questão que surge aí, tal qual a gente se recorda dos conjuntos na matemática, é que existe uma possibilidade de intersecção, de junção desses dois conjuntos. É o que eu proponho para vocês pensarem hoje aqui. O ser humano só se dá, só existe, justamente no contato, justamente nesse ponto de intersecção, ou seja, por mais que essas idéias sejam veiculadas, questionadas, vistas, defendidas em universos separados, a vivência do humano se dá justamente na junção das duas, ou seja, nenhum ser humano é só regido pelos deuses ou pelo destino, por mais que seja em grande parte da vida. E, ao mesmo tempo, nenhum ser humano é só a vontade dele encarnada ou só a realização de seus próprios desejos, muito embora a gente tenha que reconhecer essa força magnífica que temos, de seguir os nossos desejos e ir atrás daquilo que a gente quer. Então, a gente só vai entender o ser humano justamente nessa intersecção entre destino e livre arbítrio.
E o tarô? Onde ele entra nessa história?
Vamos pensar no seguinte: se o tarô é um jeito de expressar simbolicamente aquilo que a gente vê no ser humano, então entendo que é possível ver e entender melhor esta questão que a gente vê no ser humano, através das cartas. Eu tenho a sensação que sim. Por quê? Quando a gente recebe alguém para uma leitura de tarô, essa pessoal, no geral, está lá realizando uma vontade, ela liga, ela marca, ela vai atrás, conforme o ritual do tarólogo essa pessoa pode até escolher algumas cartas ali. Então a gente vê entre as suas perguntas aquilo que tange a vida dela, naquela consulta, ou seja, a gente vê a aplicação da vontade humana. Só que existe outro ponto de vista que está acontecendo juntinho com tudo isso, por mais que essa vontade seja grande, o que vai acontecer é algo muito diferente. O embaralhar das cartas já não é mais a nossa vontade que está no comando. Quando a gente embaralha as cartas, estamos jogando tudo numa outra esfera, fora de nosso controle, estamos entrando no universo do destino. Na questão da escolha das cartas, sempre que o tarólogo faz, ou propõem isso, faz sem o controle, sem saber a ordem das cartas, se é positiva ou negativa, ou sem saber a conclusão. Ou seja, até o passo da escolha das cartas, que se dá no campo da vontade, mas no virar das cartas e ver o significado que está ali, aí novamente nós estamos nas mãos do destino.
Tem mais um ponto interessante, que é muito forte, chama muito atenção e que me fez buscar estudar melhor o tarô. Porque, aquela carta que sai, naquela posição do jogo, ela seguramente está dizendo alguma coisa da vida, do momento, da história da pessoa. Então, quem aqui já é acostumado a manusear o tarô, sabe a força que ele tem pra quem está vivendo isso, porque você não tem nenhuma história prévia, foi só a escolha das cartas. Então pra mim, essa já é uma grande representação do divino constelada naquele momento.
Mais um detalhe que eu acho interessante de se observar, é a própria questão das cartas. Podemos perceber esta questão em relação aos arcanos maiores. Se olharmos bem, existem cartas que falam da vontade: se a gente pega o Louco, por exemplo, ou se a gente pega o Carro, a gente vai ver muito da vontade, da iniciativa, do desejo, como força motriz e de algum jeito conseguindo realizações maravilhosas. Mas quando a gente pega o simbolismo da Roda da Fortuna ou a própria Torre, a gente vai ter momentos de “chacoalhão”, momentos onde vamos girar ao sabor desses ventos de mudanças e que, muitas vezes não tem a ver com atitudes nossas. Ou seja, a gente vai encontrar essas duas idéias, ou de destino ou de livre arbítrio.
Eu gostaria que vocês pensassem na própria imagem da carta do Mundo, porque eu acho que ela sintetiza essa união, esse casamento. Ela sintetiza o valor dessas duas coisas. Na carta do Mundo a gente vê justamente a imagem de uma pessoa plena, total. Mas a gente vê que essa pessoa total não está sozinha. Ela está de algum jeito limitada pelo universo, ou cercada de figuras que parecem angelicais, ou pelos naipes dos arcanos menores, ou seja, a gente vê que o ser humano só é pleno, quando ele funciona em harmonia com esse universo, funciona em harmonia com todo esse mundo que o cerca, esse universo, que talvez, não seja nem tangível inteiramente por ele, mas que ele vai viver os seus reflexos seguramente. Então, destaco aqui a idéia da gente poder encarar o destino e o livre-arbítrio como potenciais, que ao longo da nossa experiência vão estar o tempo todo dançando sinuosamente. Em alguns momentos a gente vai estar mais em um, ou mais em outro, mas na grande maioria do tempo vivendo nos dois. Eu tenho mais três imagens que pensei, para demonstrar a história dessa junção, desse casamento de destino e livre arbítrio.
Jung certa vez, num seminário começou a falar do ser humano como um ser pré-determinado, ou seja, regido por um destino. Isso na comunidade científica causou um pavor tremendo. Ele foi questionado se estava dizendo que o ser humano tinha um destino, ou algo pré-determinado. Jung respondeu de modo afirmativo que havia falado isso mesmo e aí perguntaram para ele: como um homem da ciência, como ele via a história do livre arbítrio? Ele disse que não deixava de ver a idéia de livre arbítrio e que o livre arbítrio ajudava a gente a se conduzir com alegria ou com tristeza, pelo nosso destino.
Se pensarmos no destino, podemos perceber que somos de uma família, que tivemos uma história, que estudamos no colégio A ou B. Esses fatores não temos como mudar, por mais que se queira. No geral, é como se o destino nos desse um leque de opções e o como nos movimentamos por um leque de opções e possibilidades, o como a gente vai se orientar nesse leque, é justamente o livre arbítrio.
 
Capela Sistina
Teto da Capela Sistina
 
Se a gente olhar o teto da Capela Sistina a gente vê direitinho essa imagem, o ser humano ali que estica o braço em direção aos deuses e Deus que volta o braço em direção a esse ser humano. E é desse toque, dessa união, desse encontro que está simbolizado toda experiência, toda vivência e todas as possibilidades humanas.
Então, vou encerrar como uma citação de Scott Fitzgerald: “O teste da inteligência superior se dá na capacidade de ter idéias opostas na cabeça e ainda assim continuar funcionando”. É isso que proponho pra vocês, talvez isso seja importante e nos ajude a se orientar entre os conceitos de destino e livre arbítrio. Então, não se prendam a idéias unilaterais, não fiquem respondendo a pergunta se acreditam no destino ou no livre arbítrio. Devemos ser capazes de falar que acreditamos nos dois, como ferramenta de autoconhecimento e, mais do que isso, algo nosso que é capaz de definir o ser humano muito melhor. Acho que é o casamento dessas duas idéias. Enfim, acho que é isso.
 
Meu nome é Ricardo. Eu queria uma opinião sua, já que o tarô é um mundo de auto conhecimento, queria saber a sua opinião sobre o que você acha que tem mais valor: se uma consulta com alguém que conheça profundamente o tarô, ou uma consulta pessoal ao próprio tarô, de alguém que não tenha conhecimentos tão profundos? O que é mais valioso: a opinião de alguém que consiga decifrar os arcanos, ou as possibilidades que a pessoa tem de entrar em contato com esses símbolos, ter insights ou descobrir coisas pessoais?
 
Olha, essa é uma pergunta bem complexa, acho que ela pode seguir por várias instâncias. Vou procurar me deter um pouco, pra responder a sua pergunta. Primeiro a própria natureza do tarô. Eu costumo dizer que o tarô é, antes de tudo, um meio simbólico. Mesmo estudando por muitos anos, a gente vê que nunca se esgota. A gente quando quer saber do tarô, vai lá ao I Ching, ou recorre a Astrologia e em outras correlações vai aos mitos, em várias mitologias e sempre tecendo correlações, parece que é um ciclo. A gente sempre encontra algo novo pra colocar naquela concha. Mesmo sendo o mais novo aqui posso dizer, que a gente nunca deixa de encontrar detalhes ao longo da vida.
Então, eu acho que todo mundo que se envolve e quando a gente encontra um tarólogo que se enquadra nessa primeira modalidade que você falou, que é o estudioso que está muito ligado ao simbolismo e está sempre buscando coisas, é claro que a gente vai ter uma coisa muito ampla, muito vasta. Mas também eu não consigo diminuir as qualidades de alguém, que começou a estudar o tarô há um ano porque, nesse um ano ele talvez não tenha aquela vastidão, do que aquele que estuda mais tempo. Mas, por a gente nascer assim mesmo, nesse mundo que a gente nasce, a gente já está imerso nessa teia de significados, de símbolos, de vivências, de arquétipos e a gente já nasce com isso. Então, mesmo que se estude somente alguns dias, quando se pega uma carta da Temperança, em algum momento da vida ela já teve que fazer algum balanço, já aconteceu algo na casa dela, já foi o conciliador, o pacificador no diálogo entre amigos que estavam mais irados. Então, eu não consigo dizer que o trabalho daquele que estuda mais é seguramente melhor, do que aquele que começou a estudar há alguns dias o tarô. Porque eu acho que o tarô é um meio que tem grandes correlações com o ser humano e com essa experiência que a gente tem com o simbólico.
E aí, já respondendo num primeiro momento a sua pergunta, eu não acho que um tarólogo mais experiente é melhor que um mais novo. São duas vivências, duas profundidades, e que aí, respondendo num segundo nível a sua pergunta, eu acho que cada pessoa interessada vai encontrar um tarólogo que vai responder melhor a ele naquele momento. É a própria natureza da leitura de tarô isso. Cada um vai encontrar o tarólogo e cada tarólogo vai encontrar o que é interessante pra ele naquele momento de vida. Deu pra responder?
Vou acrescentar uma última coisa. Eu estive numa palestra nesse mesmo auditório onde estava Rui Sá, que é um astrólogo conhecido e o Constantino também estava nesse dia palestrando, onde foi focada a seguinte questão: os diversos meios de se ensinar astrologia. O Rui respondeu de um jeito que eu achei muito bonito. Ele falou que respeitava todos os astrólogos, desde os com vastos estudos até os iniciantes mesmo. Se de algum jeito o que menos estudou, sempre conseguiu trabalhar e levar a vida dele, porque se aquela pessoa, daquela forma, consegue planejar o sustento dela, em algum nível ela deve ser muito boa, porque senão as pessoas não voltariam, não iriam correr atrás dela. Acho que a gente nunca pode tentar diminuir, até porque, muitas vezes, alguns estudiosos não necessariamente são bons, ou se dão bem. O que eu acho que é legal é gente ter isso, não generalizar e não tomar uma idéia fechada, longe do melhor ou pior, são diferentes. E essa diferença vai achar um ponto de conexão, de encontro, uma vez que não são muito diferentes.
Vou tentar acrescentar um pouquinho, porque tem uma coisa interessante aí. Eu vou começar por um exemplo, pra explicar pra frente. Vamos supor: numa leitura de tarô, a pessoa pergunta sobre o trabalho dela. Em relação ao trabalho dela vai ter uma possibilidade muito grande de passar por alguma coisa financeira, que vai ter alguma dificuldade e no jogo se ressalta a necessidade de se precaver um pouco. A pessoa vai pra casa dele, dorme com aquilo e depois acorda. Ele vai e vê o que precisa na empresa dele, já vende umas coisas, se organiza, vai enxugar gastos ali e acolá. Pode ser que daqui a algum tempo esse cara tem um registro, de que a leitura foi equivocada, porque não houve crise. Talvez até ele esteja 100 ou 200 reais mais pobre, mas só ficou assim porque, em algum nível, ele levou a sério o que foi dito na leitura de tarô. Então ele se precaveu, mudou, enxugou o caixa da empresinha dele.
 
Capela Sistina
 
E aí é interessante a gente lembrar... a gente tem muito a questão do certo e do errado, muitas vezes não questionando, porque talvez o destino tenha apresentado pra essa pessoa um chacoalhão. Desde a leitura ele tenha ficado esperto e o destino se apresentou assim, até na leitura do tarô foi como um sinal também. Só que pela pessoa ter jogado de um jeito diferente, com os dados que ela tinha ali, aí o livre arbítrio se amarrou pra essa questão. Volto a dizer, tem sempre as duas forças ali interagindo o tempo todo. Vou dar um exemplo: Quando a gente veio pra cá hoje, muitos de vocês vieram de carro. Tem a faixa na rua, onde podemos mudar de faixa o tempo todo, ou permanecer em uma, mas tem uma coisa que a gente não consegue fazer, a gente tem a guia, então eu posso transitar entre as faixas, mas eu tenho o limite bem claro da guia. Acho que quando a gente pensa em destino, aí dá um tapa de realidade, mas a gente consegue transitar de muitos jeitos em torno dele. Acho que aí está a grande sacada da leitura de tarô e por isso entrei um pouco nessa história. Eu acho que é nesse jogo, nesse enlace, que a gente vai aprender muitas formas de ir vivendo até uma leitura de tarô e o certo e o errado podem ser essas mudanças de faixa.
 
Meu nome é Ivan e não sou tarólogo profissional como vocês e sou um curioso, graças ao Constantino. Minha dúvida é, e talvez até um aconselhamento já que estamos falando nisso. Tem algumas cartas que geram alguma dificuldade, e vejo alguns tarólogos até beirar um pânico quando essa carta sai. Eu gostaria de saber se vocês tiveram essa minha dificuldade e, se por acaso, vocês tem alguma dica de lidar com essas dificuldades.
 
A gente não pode pensar “Olha que maravilha de carta que saiu” ou “Olha que carta ruim”. Vou dar um exemplo: uma pessoa já está com o relacionamento muito desgastado, não vendo a hora de pintar uma outra pessoa,uma viagem. Quando pinta uma Torre, às vezes alguém pode pensar no impacto visual dela, mas para aquela pessoa vai ser ótima vir aquela Torre: sai dessa,está na hora de romper, vai pra uma coisa nova. A gente tem que aprender a ler e saber que o simbolismo é bom e mal ao mesmo tempo, ele é muito vasto. Mas eu vou fazer uma confissão aqui pra vocês: Vejo o tarô desde os 15 anos e sempre que vejo uma carta eu fico maravilhado, sempre! Nunca sei como reagir diante daquilo. Então deve ser parecido com o que a Fernanda Montenegro conta, que até hoje ela, quando vai entrar no palco, ainda fica ansiosa. O que eu te diria então é, não perca isso. Enquanto você estiver vivendo o tarô aí dentro e isso ressonando de algum jeito, é sinal que você está sendo tocado por esse símbolo.
 
Boa tarde. Quando vocês lidam com o cliente, vocês acham que o fato dele estar receptivo, dele não ter tido aquela empatia com vocês, isso influencia de um modo direto na tiragem da carta, isso influencia naquilo que vocês podem enxergar, ou até mesmo deduzir das cartas?
 
Quando você coloca aí a questão de, talvez, o cliente não tenha tido empatia, pode ser algo até interessante. Pode contar para gente onde você vê, ou sente isso? Dê um exemplo, pra gente poder pensar um pouco mais?
Foi por isso eu pedi pra você explicar um pouquinho melhor o que está pensando. A gente não tem como se responsabilizar pelo o que o outro vai sentir diante da gente. Seria pretensão demais achar que todos que estão na nossa frente vão gostar, ter empatia na consulta, vai bater o sino. Muitas vezes não bate. E não é só a questão de empatia, às vezes acha que é novo, as vezes acha que é “brega”, a pessoa acha que você está mal arrumado, uma série de preconceitos, ou até arrumado demais. Acho que a gente, de algum jeito, tem que dar um passinho um pouco pra frente... porque eu acho que o resultado é possível, diferente da psicoterapia que você entra muito nisso e faz parte do jogo, olhar a transferência, a empatia, a relação. Agora, no tarô pode ser que a pessoa não tenha simpatia com a gente, pelos mais diversos motivos. E aí o tarô dá um referencial que é o da carta. Quando você vira as cartas, segura ou não, sendo a sua primeira leitura ou a centésima, você vai ter o diferencial de falar algo e, se tudo correr bem e a tendência é essa, vai tocar aquela pessoa de algum jeito. Então, o que eu te diria, por conta de você estar começando, não tente se responsabilizar pelo o que outro vai achar ou não de você. Seria um trabalho hercúleo pra você e pra qualquer tarólogo, e não dá pra fazer. Tenta ficar pra você o que é possível, confiar nas cartas e sabe que elas vão falar algo que é importante para aquela pessoa ouviu naquele momento.
 
Eu gostaria de perguntar ainda dentro dessa temática. Quando você tira a carta pra você mesmo, e lógico num momento que você esteja bem, por um lado você se conhece, e com isso não pode estar influenciando na hora de virar a carta. O que você acha?
 
Vou responder essa questão deixando de canto a questão de você estar bem ou estar mal. Não vou dizer que não leio tarô pra mim mesmo, leio sim. Mas a gente tem que entender uma limitação que existe quando lemos o tarô para nós mesmos, que é a mesma que um psicólogo que acha que pode fazer o papel da terapia pessoal dele, por ele conhecer os macetes, as técnicas. É como um advogado que pretensamente tenta se defender em determinado caso. O que acontece nessas situações? Não por má fé ou medo nosso, nada disso, mas quando a gente tem muitos pontinhos cegos na nossa alma, e por isso que alguém que está fora, que vem com uma outra visão, as vezes vai ler de um jeito mais profundo e aí, talvez, não pegando aquele detalhe, ou colocando uma pincelada a mais naquele detalhe que a gente gostaria, nem tirando uma pincelada a menos do que eu não gostaria. Eu acho que isso não é só para o tarô, é pra qualquer área. Quando Jung fala que o psicólogo deve fazer terapia, ele recorre a uma imagem e diz que até o Papa tem um confessor. O tarô pode ser muito rico pra nós mesmos, mas corremos um risco de deixar um pontinho cego, deixar um cantinho que a gente já não vê mais, e você que está me vendo daí, por exemplo, consegue ver melhor.
Vou tentar responder a essa pergunta. Vou contar uma história de um soldado chamado Er (Platão – “A República”). Esse soldado morre, vai pela morte, só que ele volta a vida. E uma vez que ele fez todo esse itinerário de ir até a morte e voltar, ele volta com uma visão transformada. Pegando o exemplo que você deu do casamento como destino, por exemplo, é o caso do soldado ele entende qual é o destino dele, o sentido da vida dele e volta transformado por essa experiência. Ninguém aqui vai ter essa possibilidade de ver o que esse soldado viu.
Então, às vezes, quando a gente procura o sentido no casamento, a gente não está errado, vai ter sempre uma coisa entrelaçada, como entre o destino e o livre arbítrio. Eu posso escolher essa pessoa A, ter um caso, posso escolher entre as muitas variáveis ter uma relação com uma pessoa B. Só que a gente vai conseguir entender o que isso significa aqui dentro, depois de algum tempo. De qual destino essa historia tem, de qual livre arbítrio, e são coisas escondidas no dia-a-dia. Seguindo o exemplo que você deu do casamento: então vai ser respondido no dia-a-dia, nas coisas que dão certo, as coisas que a gente ri, que a gente briga, que a gente quase separa, quando saímos de casa, na volta; no cachorro que entra, do filho que vai pra faculdade. Então eu acho que são idéias complexas e acho que a gente corre o risco de um erro danado de ficar achando, ou um ou outro, e nem tentar rotular. A própria pergunta já mostra o quanto isso é pernicioso, culpar o destino. Então, ao invés da gente tentar ficar colocando uma etiqueta em cima dessa experiência, tem que deixar tudo junto e o tempo todo. E a gente fica brincando nessa junção.
junho.11
Contato com o autor:
Luiz Felipe Camargo Pinheiro - psicólogo de orientação junguiana,
especialista em psicoterapia junguiana coligada ao trabalho corporal,
tarólogo e professor do simbolismo relacionado ao tarô: lfpinheiro@yahoo.com.br
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