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15 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


Tarô e Cartomancia
Rodrigo Araês Caldas Farias
 
Símbolos nos revelam poeticamente concepções muito sutis que não conseguem ser expressas na estreita determinação das palavras.
Nem tudo pode reduzir-se à prosa dos argumentadores e dos advogados; existe coisas sutis que é preciso sentir e adivinhar junto com os adeptos desta filosofia sagaz dos simbolistas da Idade Média, que reagiram contra a escolástica escrava das palavras. (Oswald Wirth)
Quarta prancha do Mutus Liber
Quarta prancha do Mutus Liber
Primeira edição original de 1677
 
A estes mestres prudentes se remonta o Tarô, monumento único, mais instrutivo para o verdadeiro pensador do que todos os tratados sentenciosos, já que suas imagens ensinam a descobrir a pudica verdade que se oculta no fundo do poço do nosso entendimento. (O. Wirth)
Nenhuma compilação de símbolos pode se comparar ao Tarô como revelador de uma sabedoria que nada tem de arbitrária, pois qualquer um percebe seu significado livremente sem ter outra sugestão do que as imagens mudas.
Qualquer pessoa que já tenha tido nas mãos um baralho, sem dúvida não saberia o que jogar nem como jogar se se encontrasse pela primeira vez com um Tarô, pai sincrético de todos os tipos de baralhos.
A razão é simples: além da divisão tradicional (em quatro séries ou naipes, e em uma progressão de números e figuras), o Tarô conta com 22 cartas adicionais, com nomes e números individuais, que não têm uma relação seriada e se denominam "arcanos".
Em relação aos naipes (quatro séries de 14 cartas cada uma, que perfazem um total de 56), o Tarô poderia ser tomado como o
jogo originário de que descendem, por simplificação, o baralho francês (que elimina o cavaleiro) e o espanhol (que elimina a dama, e os números oito, nove e dez), entre os principais.
O fundamental frente ao Taro — convém dizê-lo — é uma atitude de disponibilidade, tão despojada de superstição como de ceticismo. Diversos são os caminhos de aproximação, diversos são os interesses, as disposições e até o entusiasmo com que cada um se aproximará deste livro mudo.
Uma coisa só é certa: para fazê-lo falar, é preciso respeitá-lo como a um sistema sintético de pensamento, cuja validade poderá interessar mais ou menos, mas que não pode ser dispensada.
I. A abordagem mágica
As disciplinas mânticas são quase tão antigas quanto a existência da humanidade, ou, pelo menos, como os vestígios mais remotos de cultura. Desde os oráculos e as consultas às vísceras dos animais sacrificados, as sociedades demonstraram uma vocação inquebrantável para a investigação do futuro.
Longe de esgotar-se ou desaparecer entre os benefícios do progresso, esta constante permaneceu, se bem que o pensamento dominante de cada época tendeu algumas vezes a encaixá-la nos limites da perspicácia e da sabedoria, ou então a submergi-la como resíduo involutivo da superstição.
Sua vitalidade não dá sinais de ceder, apesar, como provam as seções astrológicas dos jornais e das revistas, das milhares de pessoas que consultam diariamente as cartas ou dão as mãos para serem lidas, e das centenas de fios soltos (premonições, suspeitas telepáticas, bons e maus augúrios) que continuam a ligar o racionalista do nosso tempo ao chamado pensamento primitivo.
Para Gwen Le Scouézec (Encyclopédie de La Divination, pág. 253 e segs.) a última manifes-tação cultural dessa necessidade pode ser vista na interpretação dos sonhos da psicanálise ortodoxa. O aspecto ontológico (estudo do ser enquanto ser) da psicanálise impede, certamente, a sua inclusão em qualquer tipo de paralelismo mântico. Mas também é certo que, através das "interpretações", reproduz dentro da ciência contemporânea os métodos tradicionais do pensamento esotérico: a analogia e a referência.
Podemos acrescentar que essa necessidade de sonhar o mistério fez reviver as antigas práticas xamânicas.
Algumas vezes sob forma predestinada, como assinalou Mircea Eliade com relação ao xamanismo;
 
Consulta. Gravura do final do século XVI
Consulta
Gravura do final do séc. XVI
outras, produzida por uma vontade intelectual decidida e limitada. Creio que esta é a que tem sido praticada por antropólogos que se tornaram xamãs.
Vamos fazer algumas considerações sobre as disciplinas mânticas em geral, que se podem dividir entre as que utilizam um "intermediário" e as que não o utilizam. Estas últimas são sem dúvida as mais remotas, e incluem todos os tipos de videntes, médiuns, e outros investigadores dos estados intermédios da consciência.
Entre as maneiras com intermediário cabe distinguir ainda aquelas que não escapam ao âmbito pessoal do consulente, que se poderiam chamar "referenciais", já que se valem de um objeto alheio ao adivinho e ao consulente, e constituem a imensa maioria das que se praticam no mundo. Entre essas temos:
A quiromancia, ou leitura das linhas das mãos, universalmente conhecida; a partenomancia, cujo único objeto é verificar a virgindade das mulheres ou a sua perda pelo estudo da nuca; ou a abominável antropomancia que, segundo Estrabão, foi praticada pelos primitivos lusitanos e albaneses, e que consistia em sacrificar um homem para adivinhar o futuro no seu olhar de agonia.
A esta última categoria pertence à cartomancia, da qual o Tarô representa o grau mais complexo e especializado. Convém esclarecer que o Taro com a diversidade quase inesgotável da sua leitura mais afasta do que seduz os aprendizes de adivinho. Esta não é a menor das razões que lhe tenha permitido conservar a sua pureza simbólica
II. A abordagem esotérica
É freqüente que, com um critério generalizador pouco rigoroso, o esoterismo seja confundido com a mística, com a magia ou até com a simples e pura superstição. Para Charles Grandin (Les sources de la pensée sauvage, pág. 17), "o esoterismo é um método rigoroso de conhecimento;
a mística, um processo em princípio emotivo e escassamente intelectual, cujos resultados são imprevisíveis; a magia, uma técnica ou um ofício, assim como a medicina ou a cerâmica. Se estes três termos são freqüentemente confundidos, isto acontece somente porque os três apontam para o numinoso".
Partindo como parte de um pensamento mais simbólico do que verbal (na medida em que reconhece o princípio segundo o qual a verdade é inefável e toda formulação a distorce), era previsível que o conhecimento esotérico atravessasse os séculos, da escolástica até hoje, como uma sobrevivência apenas tolerada da mentalidade infantil da humanidade.
Pode-se dizer que a concepção moderna das disciplinas esotéricas, no ocidente, parte da lucidez e do esforço do metafísico francês René Guénon, que as dotou de "terminologia técnica, de um rigor e de uma precisão quase matemáticos", como assegura um de seus mais brilhantes seguidores, o filósofo e orientalista Luc Benoist (L'ésotérisme, pág. 8).
"O ponto de vista esotérico não pode ser admitido e compreendido — diz Benoist — senão pelo órgão do espírito que é a intuição intelectual ou intelecto, correspondente à evidência interior das causas que precedem toda experiência.
III. A abordagem poética
"Recomendamos este jogo sobre um jogo como um excelente treino para imaginar com justeza", conclui Roger Caillois no seu prefácio à mais recente edição de Le Tarot des imagiers du Moyen Age, de Oswald Wirth. "Somos capazes de ler um alfabeto, mas incapazes de ler uma imagem: é o triunfo da letra morta sobre a imaginação", queixa-se Wirth em um capítulo da sua obra. E mais adiante: "O próprio do simbolismo é sugerir indefinidamente: cada um verá o que o seu olhar permita perceber".
Uma tentativa de classificação:
O profetismo. Adivinhação por intuição pura em estado de vigília. É a adivinhação mais natural, intuitiva e interna. É considerada geralmente como resultado da possessão por (ou inspiração de) um deus, ou de Deus, nas religiões monoteístas.
A vidência alucinatória. Forma de adivinhação intuitiva que se produz em um estado especial, alucinatório ou hipnótico, que pode ser obtido de diversas maneiras:
I. Adivinhação em estado de transe: a) por ingestão, inspiração ou injeção de um produto alucinógeno (farmacomancia); b) por entrada em estados catalépticos, hipnóticos ou agônicos (antropomancia); c) por cataptromancia (adivinhação pelo olhar) ou procedimentos análogos (hidromancia, cristalomancia).
II. Adivinhação em estado de sonho: oniromancia espontânea.
A adivinhação matemática. É a que se realiza a partir de abstrações muito elaboradas, e que permite exercer a intuição mântica com toda liberdade:
a) astrologia e derivados;
b) geomancia e suas numerosas variantes africanas;
c) aritmomancia (em sua forma mais elevada: a Cabala);
d) aquileomancia (adivinhação das varetas originada no Che-Pou chinês; em sua forma mais aperfeiçoada: o I-Ching).
A mântica de observação:
a) estados, comportamentos ou atos instintivos de seres animados, sejam homens (paleontomancia), animais (zoomancia) ou plantas (botanomancia);
b) estados e comportamentos de seres ou matérias inanimados, compreende a aruspicíência*, a radiestesia etc.
[* Arúspice era o nome dado aos antigos sacerdotes romanos que adivinhavam o futuro mediante o exame das entranhas das vítimas.]
Os sistemas abacomânticos. São todos aqueles manipulados exclusivamente com tabuleiros ou oráculos, produzidos pela degeneração das grandes disciplinas mânticas: as "chaves dos sonhos", livros de horóscopos, interpretações mecânicas dos baralhos, etc., todos os sistemas em que a intuição e o imaginário não desempenham nenhum papel.
IV. Alice Bailey
Apresento agora uma explicação que se apóia nos conhecimentos vinculados aos estudos que faça há mais de trinta anos da obra de Alice Bailey. Para tanto levarei em conta o nível de percepção e consciência de cada adivinho.
Vamos inicialmente dividir o ser humano em três partes (Espírito, Alma e Corpo) e depois em sete planos que correspondem aos Sete Raios.
Sete planos do ser
O quadro a seguir, "Evolução sensorial do Microcosmo", em espanhol, apresenta a sequência evolutiva dos sentidos humanos.
Evolução sensorial do microcosmo
Hermes - O Iluminado
 
Observo o rosto dos presentes
sou apenas o mensageiro
meus sussurros soam como prece
para os moucos ouvidos dos crentes
Vim, quase desisti, mas vim.
Sou uma gota no oceano da vida,
que se dissolve ao infinito,
deixando apenas vestígio da mensagem,
que como uma semente
brota no húmus fértil da candura,
floresce no decorrer dos éons.
Sou tão antigo como a humanidade,
muito mais antiga do que crê a ciência
dos inconscientes,
que mal arranham
a superfície da sabedoria. 
Iludidos pela razão, esquecem,
que a vida é mais do que lógica
que a compreensão só chega com o êxtase
contemplar o sublime é a meta!
Acorda, homem, acorda.
A morte chama para o doce acordar.
Sacrifica teus efêmeros bens
na cruz da tua alma.
Espero, espero até o último despertar,
Meus pés alados de mensageiro
estão feridos pelo veneno da ignorância.
Sou um paciente mensageiro
que quando soar a hora
franquearei os portões do paraíso
entrarei após o último homem.
Sou um servidor da humanidade!
 
O Mago no Tarô de Oswald Wirth
O Mago
Tarô de Oswald Wirth
 
 
maio.11
Contato com o autor:
Rodrigo Araês - rafaria@attglobal.net
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
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