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11 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


Tarô e Internet
Ivana Mihanovich
 
Há muitos anos já temos tarólogos sérios e reconhecidos trabalhando também via internet. Nelise Vieira, provavelmente uma das pioneiras, é uma; Kelma Mazziero, que há muito vem batalhando para esclarecer as pessoas a respeito deste tema, é outra, para citar apenas dois exemplos que considero extremamente respeitáveis. No entanto, muita gente ainda acha que leitura de tarô via skype é algo que “não funciona”, porque não há “a energia da presença física”. Ao escrever sobre este assunto, percebi que a questão mais delicada não está em fazer o outro entender como funciona o Sype ou a internet, ou porque é aceitável como meio de comunicação para uma leitura de tarô, mas sim fazer com que as pessoas revejam os conceitos que tem a respeito do jogo.
Contatos e trocas pela Internet
Conceitos e expectativas nas trocas via Internet
Ilustração em www.dreamstime.com
A maioria ainda pensa no tarô como algo mágico, com conexões intrigantes com o “mundo do além”; um oráculo que tem como finalidade essencial afirmar de forma cabal o que há em nosso futuro e do que, portanto, não poderemos fugir. Grande parte das pessoas ainda acha que o tarô é coisa de bruxos e magos, seres esquisitos que transitam entre o mundo dos vivos e o impalpável mundo invisível, e que, para entender um oráculo, tarólogos obrigatoriamente precisam incorporar entidades ou algo similar. A verdade é que, sim, há uns (poucos) profissionais que na verdade são, antes de mais nada, videntes ou médiuns (bem como há uma grande parte que não é, mas alega ser), e existem, sim, raras pessoas que, ao ler o tarô, tem o foco em enxergar o futuro e que são realmente capazes disso. Porém, esses “dons” não são imprescindíveis para uma boa leitura de tarô e muito menos são comuns a todos os estudiosos sérios desse assunto. Escrutinar o futuro não é, absolutamente, a única função do tarô, nem sequer, a meu ver, a mais rica ou produtiva do jogo.
O tarô é um baralho no qual cada carta (ou arcano) abrange certos atributos. De onde ele vem, como surgiu e para quê era usado quando foi criado, bem, no fundo a mim nada disso interessa especialmente. Mesmo porque a verdade é que ninguém sabe com certeza e, embora muito interessantes, as especulações a respeito resultam em teorias diversas às quais ainda não podemos corroborar com total certeza. O fato que considero mais importante é que o mundo espiritual pode ser compreendido como psíquico (e vice e versa) e a identidade com uma ou outra ótica se dará sempre em função de características, formações e anseios particulares e pessoais. No fundo, se o tarólogo for honesto e sério, será capaz de manter-se isento e, portanto, toda leitura será um excelente auxiliar para o cliente compreender melhor a própria vida e o momento, tanto fazendo se a conexão do profissional com o baralho se dá mais no sentido espiritual, ou se sua identidade é mais com o aspecto psíquico dos arcanos. Adotando algum senso de humor, gosto de dizer que o tarô, per se, é laico.
O que aprendi de mais interessante ao longo dos anos, é que ele fala. Simples assim. Se quem o lê conseguirá compreender o que ele diz e então traduzir isso fielmente, ou, pior, se o ouvinte vai ser capaz de compreender o que for dito sem distorcer seus significados, aí é outra história. Afinal, o tarô fala através de uma linguagem simbólica, mais parecida com a linguagem do nosso inconsciente, como nos sonhos. Quando sonhamos que estamos andando numa casa que é “nossa casa” e, no entanto, ela é completamente diferente da nossa casa “real”, no sonho isso é algo que simplesmente  sentimos  ou  sabemos, embora não faça sentido lógico quando a comparamos com a casa que temos quando acordados.
 
Contatos idealizados
O sonho e o real
in www.blog.limitx.com
A casa do sonho é um símbolo e, como tal, representa um ambiente, sentimentos ou, ainda, um aspecto nosso, como o corpo, por exemplo; sua simbologia vai bem além de moradia ou lar. Na minha visão, o mesmo ocorre com os atributos dos arcanos: quando dizemos que O Louco abarca as ideias de imprevistos, viagens ou surpresas, na realidade estamos procurando tornar compreensíveis, para a mente racional, os atributos de um Eu ancestral liberto e seus conceitos mais amplos sobre autenticidade, desapego, contracultura, disponibilidade para o novo e assim por diante.
O tarô é um método de observação que seria extremamente útil se todos nós o aprendêssemos e aplicássemos como exercício pessoal frequente, mas os tarólogos acabam sendo necessários pela simples razão de que o aprendizado dessa língua, feita do cruzamento de ideias, símbolos, experiência e intuição, leva tempo para ser aprendida e aprimorada. E em prol desse aprimoramento, acredito ser fundamental que o tarô seja, também, adaptado aos novos meios de comunicação que vão surgindo, ou não seria o que realmente é: uma ferramenta eterna. E ferramentas, para continuarem sendo úteis, precisam evoluir junto com o mundo. Só um camponês medieval iria agarrar-se unicamente à pua e desprezar uma furadeira elétrica por achá-la esquisita, para fazer uma comparação singela, mas que aqui acho cabível.
Trocas possíveis pela Internet
Trocas possíveis
www.dreamstime.com
 
O fato realmente interessante (e que gera tanta curiosidade e, ao mesmo tempo, tanta resistência) é que um tarólogo não é obrigado a estar de mãos dadas com o cliente para que o tarô lhe mostre algo, exceto se ele, pessoalmente, sentir essa necessidade da proximidade física. Quando aprendemos a realmente dar a palavra ao tarô e a confiar no que ele nos diz, em vez de nos agarrarmos à ideia de que ele só fala diante de certas condições ambientais e de que temos que controlar esse ambiente (e a necessidade do contato presencial muitas vezes têm a ver com essa necessidade subliminar de controle), aprendemos a deixar o ego e suas dúvidas perturbadoras de lado. Essa disponibilidade resulta em aceitar que nossa forma habitual de lidar com a vida não é a única possível ou, ao menos, não é necessariamente a melhor para uma leitura, o que, finalmente, nos abre à linguagem amplificante e inovadora do tarô. E isso é o que independe da presença física: a mente, quando finalmente aberta a um novo olhar, faz com que a compreensão simplesmente transcenda a matéria.
Portanto, da próxima vez em que você pensar que tarô tem que ser ao vivo, que todo tarólogo tem que ser bruxo ou vidente, ou que a leitura tem que incluir um ritual assim ou assado, compreenda que um bom tarólogo é, antes de mais nada, um tradutor intérprete. Olhando para essa questão, mais uma vez com algum senso de humor, penso ser mais importante que, em vez de se preocupar com o quanto você acha estranho ele atender pela internet, procure antes pesquisar sua abordagem, verificar se ela é o que você procura e, fundamental, checar se ele é um bom tradutor intérprete ou se é daqueles que ainda traduz “coca cola” como “cueca cuela”.
Contato com a autora:
Ivana Mihanovich é escritora, taróloga, publicitária. Publicou um livro
sobre o tarô e mantem um blog de conteúdo: www.tarotluminar.blogspot.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 02/09/2014
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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