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28 de junho de 2017

Responsável: Constantino K. Riemma


A mecânica do Tarô e os operadores do oráculo
Marcelo Steil
O Tarô, apesar de nos chegar da antiguidade sem um manual de instruções, sempre foi operado da forma oracular clássica: uma pessoa, denominada Consulente, elabora um questionamento ou pergunta a uma segunda pessoa, o agente canalizador da resposta ou conselho, denominado aqui por Tarólogo.
O desenvolvimento do jogo se processa em três momentos distintos: inicialmente o Consulente verbaliza seu questionamento, e solicita uma resposta ou aconselhamento ao Oráculo. O Tarólogo então manipula as cartas e, com a ajuda do Consulente, são escolhidas algumas que são deitadas sobre a mesa. Por fim o Tarólogo interpreta o Oráculo mediante a disposição que as cartas assumiram.
Escolhas aleatórias
Diante desta dinâmica, qualquer estudante sério imediatamente deve perguntar-se: de que maneira a escolha de algumas cartas de forma aleatória de um conjunto maior, cuja sequência foi pervertida por múltiplos embaralhamentos, pode responder de maneira coerente aos questionamentos que lhe são dirigidos?
Chamo a atenção do leitor porque aqui parece residir o cerne da validação ou não deste instrumento. Reflitamos. Ora, a mera aleatoriedade não pode responder coerentemente a questionamentos específicos. Não podemos relegar à sorte a explicação de sua aparente coerência se quisermos tratar seriamente o Tarô.
Se durante a leitura de um texto comum como um jornal ou um anúncio, as frases nos fazem sentido, de modo a compreendermos uma informação por ela veiculada é porque houve uma intencionalidade em sua construção por parte de outra consciência (o escritor) com o qual partilhamos certos códigos construtivos que chamamos de gramática, semântica, enfim, da língua que utilizamos.
Achar que a mera justaposição aleatória de palavras poderá construir textos coerentes é reduzir a comunicação a um dadaísmo estéril e sem função para além da negação do próprio código. Assim, se determinada sequência de Arcanos deitados à mesa, apresenta, reiteradas vezes, inegável coerência, esta sequência só pode ter sido estabelecida de forma intencional, ou seja, não aleatória. Porém, se a metodologia de escolha das cartas utilizada pelo Tarô não se dá de forma aleatória, como o processo aparentemente sugere, visto as cartas serem embaralhadas de forma caótica, onde reside seu princípio inteligente? De onde seus arroubos de sabedoria, e, sobretudo, como isto se manifesta durante o jogo?
E cá estamos diante da pedra de toque de toda mancia. É nesse ponto, inexplicavelmente não tratado pela grande maioria dos livros de Tarô, que se separam os estudantes sérios dos deslumbrados.
Os operadores do oráculo
O que torna coerente a disposição das cartas é uma interferência espiritual! É a participação de outra Consciência Autônoma, que se aproxima do ritual (é um ritual!) porque, por alguma razão, sente simpatia pelo que é realizado e, sobretudo, por irmanarem-se em certos objetivos comuns, mesmo que não tenhamos consciência disso.
Os que não acreditam nem operam nesta conexão com outra Consciência, independente do nome que lhe dê, dificilmente obterão do Tarô sua amplitude filosófica. E, pior ainda, podem ver-se como joguete de Consciências pouco desenvolvidas, que com o tempo poderão lhe soprar pensamentos menos nobres.
O labirinto e as ajudas do mundo espiritual
Para os menos avisados vou direto ao assunto: existe um mundo espiritual, existe a coexistência de vários planos de Consciências, e por mais que a humanidade ainda não tenha compreendido, existe um grande plano do qual fazemos parte e uma de nossas funções nesta existência é compreendermos nosso lugar nesse todo.
Por mais subjetivo que possa parecer, há uma tendência à evolução que perpassa todos os seres e que, no caso de um Tarólogo sincero, cujos objetivos forem ealmente nobres, por certo atrairá, do plano espiritual, Guias e Auxiliares que compreendem a disposição do estudante para a execução de uma tarefa da qual ainda não se deu conta por completo.
Essas Consciências podem ser compreendidas de várias maneiras, desde Egrégoras que o universo espiritual tem desenvolvido desde muito, até Guias Pessoais e Protetores. Para Sarah Bartlett (A Bíblia do Tarot): “As 78 cartas do baralho de Tarot possuem a extraordinária faculdade de o conseguir espelhar, dando-lhe também acesso imediato ao seu «eu» mais profundo, quer lhe chame intuição, alma, guia interior, mensageiro divino ou anjo da guarda”.
Correto, mas como se dá esse auxílio? Por que esse Guia ou Auxiliar não se materializa na nossa frente e nos fala diretamente? Por que a necessidade do Tarô? Acredito que estas Consciências não nos contatam diretamente porque não podem, não conseguem, quer seja por diferenças entre as características “físicas” de nossas dimensões, ou ainda, talvez, para não interferir de maneira contundente em nosso livre arbítrio.
A simbologia quanto sintaxe
Creio que única maneira controlada de se expressar na exígua interseção de nosso plano “real”, com o universo operativo dessas Consciências advindas de outros planos, se dê através da manipulação mental de símbolos e/ou arquétipos. Conceitos complexos como Justiça, Verdade ou Amor, com um pouco de treino mental podem ser disparados através de uma imagem.
Arvore da Vida
Ilustração de Daniel B. Holeman em www.awakenvisions.com.
E aqui parece residir a chave, pois tais conceitos perpassam todo o tipo de comunidade minimamente evoluída. Conceitos matemáticos também parecem universais. Por exemplo, independentemente da unidade de distância (metros, polegadas ou as dimensões utilizadas no planeta XYZ), quando se divide a circunferência de um círculo pelo seu diâmetro, se obtém sempre 3,14 vezes a unidade utilizada. O número π (pi) existe, independente do ponto do universo que nos encontremos. (A propósito: 22 Arcanos divididos por 7 dimensões de manifestação= 3,14. Meditemos).
Assim, se conseguirmos “traduzir” nossos conceitos em imagens mentais, associados a uma atitude receptiva, parece que disponibilizamos a esse Guia condições de manipulação de informações, e que este pode nos responder igualmente na forma de imagens que, dependendo de nossa disposição e talvez certa paranormalidade, a mente resgata na forma de pensamentos ou insigts.
O Tarô neste caso funciona como ferramenta abstratizante da mente, disponibilizando símbolos capazes de serem operados por Consciências Espirituais. Por esta razão, a mente do Tarólogo deve, durante a leitura, se colocar de forma abstraída de suas funções normais/cotidianas de classificar, medir, ponderar, funcionando mais como antena de recepção.
Essa manifestação espiritual se dá em dois momentos durante a prática do Tarô. O primeiro momento é durante o embaralhamento das cartas, onde, esta Consciência, já conectada com o questionamento que foi direcionado ao Oráculo, influencia certos nervos dos braços e das mãos do Tarólogo para que se ordenem as cartas conforme seu (da Consciência Espiritual) objetivo de comunicação.
Para tal o ato de embaralhar deve ser mecânico, quase irracional. A mente do Tarólogo deve permanecer concentrada na pergunta e no esquema de disposição de cartas que será utilizado. Neste caso a interferência do guia espiritual se dá de forma sutil, através de sugestões mentais ao controle do sistema motor.
A segunda interferência se dá durante a leitura das cartas posicionadas adequadamente pelo Guia, pois estas, por sua capacidade de abstração, têm a função de evocar pensamentos e analogias que disparam imagens e que são acolhidas pela intuição do Tarólogo. Assim, quando da observação do conjunto de cartas tiradas, associadas a todo o arcabouço simbólico que o Tarólogo tem condições de disponibilizar, alguns símbolos, por um processo misterioso, parecem se sobressair ante os demais, e são percebidos intuitivamente pela mente preparada.
Estudo dos arcanos com Marcelo Steil
Aparentemente a escolha seletiva de algumas simbologias sobre outras é trabalho de projeção mental deste Guia, que por alguma razão se dispõe a auxiliar. Novamente chamo a atenção de que se o objetivo do tarólogo não for nobre ele atrairá consciências igualmente pouco desenvolvidas.
Por fim, uma sugestão oculta para que se desenvolva a eficácia deste jogo mágico/intuitivo é a desenvolvimento de um vínculo afetivo com este Guia, de modo a dirigir-se a ele como um velho confidente, como um amigo sábio e acolhedor sempre pronto a auxiliar, mas também para chamar a atenção para falhas. Há autores que sugerem associá-lo com algum Arcano específico, como O Eremita ou A Temperança, via contato mental constante. Meditemos.
Marcelo Steil, estudioso do Tarô, é escritor e publicou
"Arquipélago de Eclipses", “Sonhos Além Sóis”, “Asa no Olho”,
“Riovário”, “Fogofurto”, entre outros trabalhos e organizações literárias.
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
www.facebook.com/Marcelo-Steil-1752665801668378
Edição: CKR – 03/02/2017
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