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11 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


As Drogas sob Análise Simbólica do Tarô
Giancarlo Kind Schmid
As drogas, como crescentes males dos séculos, ampliam-se em seu consumo de forma descontrolada, como uma hidra que, por mais que se corte uma ou duas cabeças, crescem três ou quatro em seu lugar. Vários programas sociais acontecem no mundo, clínicas de recuperação, e a tentativa de alguns governos regularizarem o consumo de certos tipos de alucinógenos (como a maconha) é a alternativa encontrada para enfrentar o tráfico e controlar a utilização por parte dos usuários. Com uma sociedade patológica, a rapidez com que as drogas se espalham e são criadas não é acompanhada pelos programas de recuperação de dependentes.
Segundo Sérgio Nicastri (2006), droga, de acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), é qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas, produzindo alterações em seu funcionamento.
Ilustração de autor desconhecido
Ilustração de Pinchi Aquino - 15/09/2011
Uma droga não é por si só boa ou má. Existem substâncias que são usadas com a finalidade de produzir efeitos benéficos, como o tratamento de doenças, e são consideradas medicamentos. Mas também existem substâncias que provocam malefícios à saúde, os venenos ou tóxicos. É interessante que a mesma substância pode funcionar como medicamento em algumas situações e como tóxico em outras.
As principais drogas utilizadas para alterar o funcionamento cerebral, causando modificações no estado mental, no psiquismo, são chamadas drogas psicotrópicas, conhecidas também como substâncias psicoativas (NICASTRI, 2006).
A lista de substâncias na Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão (CID-10), em seu capítulo V (Transtornos Mentais e de Comportamento), inclui:
• álcool;
• opioides (morfina, heroína, codeína, diversas substâncias sintéticas);
• canabinoides (maconha);
• sedativos ou hipnóticos (barbitúricos, benzodiazepínicos);
• cocaína;
• outros estimulantes (como anfetaminas e substâncias relacionadas à cafeína);
• alucinógenos;
• tabaco;
• solventes voláteis.
O fato é que as drogas matam milhões no mundo, seja pela colateralidade do consumo (males físicos oriundos dos vícios), desequilíbrio das funções psíquicas (disparo de psicoses, esquizofrenia, depressão, etc.) levando ao suicídio, acidentes causados pelo abusivo consumo (como acontece com o álcool), mortes súbitas geradas por excesso de medicamentos e overdose (mistura de substâncias).
Sabemos que drogas como o ópio, o tabaco, o álcool, a maconha, já são consumidas há séculos de forma aberta ou discreta, fazendo parte até do cenário de artistas famosos, escritores, filósofos e mesmo cientistas. Entre as elites, o álcool sempre esteve presente como símbolo de status, assim como o tabaco atrelado à ideia de charme e estilo de vida. Durante milênios, certas civilizações antigas usavam as drogas como meio de alcançar (ou estreitar) a comunicação com certas divindades, utilizadas como ervas de poder ritualístico sem, contudo, serem consumidas sem a orientação de certos xamãs, sacerdotes ou pajés. Devemos enfatizar que certas substâncias alucinógenas quando sob supervisão de um guia espiritual ou médico podem ser aplicadas como recurso para expansão da consciência e, em último caso, pesquisa.
Basicamente, as drogas podem ser classificadas (conforme as leis) como lícitas e ilícitas. As lícitas são aquelas comercializadas de forma legal, podendo ou não estar submetidas a algum tipo de restrição. Como por exemplo, álcool (venda proibida a menores de 18 anos) e alguns medicamentos que só podem ser adquiridos por meio de prescrição médica especial. As ilícitas, obviamente, são aquelas proibidas pela lei.
De acordo com Nicastri (2006), existe uma classificação – de interesse didático – que se baseia nas ações aparentes das drogas sobre o Sistema Nervoso Central (SNC), conforme as modificações observáveis na atividade mental ou no comportamento da pessoa que utiliza a substância. São elas:
1. drogas DEPRESSORAS da atividade mental;
2. drogas ESTIMULANTES da atividade mental;
3. drogas PERTURBADORAS da atividade mental.
1. Drogas depressoras
Essa categoria inclui uma grande variedade de substâncias, que diferem acentuadamente em suas propriedades físicas e químicas, mas que apresentam a característica comum de causar uma diminuição da atividade global ou de certos sistemas específicos do SNC. Como consequência dessa ação, há uma tendência de ocorrer uma diminuição da atividade motora, da reatividade à dor e da ansiedade, e é comum um efeito euforizante inicial e, posteriormente, um aumento da sonolência. Podemos citar o álcool, barbitúricos (indutores do sono), benzodiazepínicos (tranquilizantes), opioides (substâncias que imitam outras necessárias ao organismo), solventes e inalantes (funções anestésicas).
2. Drogas estimulantes de atividade mental
São incluídas nesse grupo as drogas capazes de aumentar a atividade de determinados sistemas neuronais, o que traz como consequências um estado de alerta exagerado, insônia e aceleração dos processos psíquicos. Podemos citar as anfetaminas, substâncias sintéticas produzidas em laboratórios (prolongadores do tempo de atuação de neurotransmissores utilizados pelo cérebro, a dopamina e a noradrenalina) como é o caso da cocaína.
3. Drogas perturbadoras da atividade mental
Nesse grupo de drogas, classificam-se diversas substâncias cujo efeito principal é provocar alterações no funcionamento cerebral, que resultam em vários fenômenos psíquicos anormais, entre os quais destacamos os delírios e as alucinações.
Por esse motivo, essas drogas receberam a denominação alucinógenos. Em linhas gerais, podemos definir alucinação como uma percepção sem objeto, ou seja, a pessoa vê, ouve ou sente algo que realmente não existe. Delírio, por sua vez, pode ser definido como um falso juízo da realidade, ou seja, o indivíduo passa a atribuir significados anormais aos eventos que ocorrem à sua volta. Há uma realidade, um fator qualquer, mas a pessoa delirante não é capaz de fazer avaliações corretas a seu respeito.
Por exemplo, no caso do delírio persecutório, nota em toda parte indícios claros – embora irreais – de uma perseguição contra a sua pessoa. Esse tipo de fenômeno ocorre de modo espontâneo em certas doenças mentais, denominadas psicoses, razão pela qual essas drogas também são chamadas psicotomiméticos. Podemos citar o LSD, a maconha, ecstasy, crack, etc.
Dentro desse grupo há um subgrupo de substâncias classificadas como enteógenas ou enteogênicas com fins ritualísticos para expansão da consciência e experiências psicoespirituais como é o caso da jurema, ayahuasca, peiote, amanita e até mesmo a cannabis sativa (maconha). Segundo os grupos espiritualistas que as utilizam, essas “plantas de poder” não são vistas, apenas, como vegetais em seu reino, mas como entidades, seres com capacidade de ensinar a humanidade a confrontar seus males internos e se libertar das armadilhas do ego. Obras foram escritas e até mesmo romanceadas envolvendo o assunto, como é o caso do falecido escritor Carlos Castañeda que, a cada livro aprendia algo novo com seu mestre espiritual Don Juan, através da experiência com o peiote (“A Erva do Diabo” é um dos seus trabalhos mais famosos).
Há substâncias que não estão catalogadas nas três descrições, mas que também são drogas e causam diversos efeitos colaterais, verdadeiros estragos no organismo, como é o caso do tabaco, cafeína e os esteroides anabolizantes.
Mapeando o uso de drogas através do tarô
O tarô, além de conhecido oráculo, é funcional nas análises de cunho comportamental. Nas experiências ao longo dos anos, pude observar que a reincidência de certas combinações entre os arcanos maiores e menores (grupos de cartas do baralho) sinalizava certos padrões de comportamento pelos hábitos dos envolvidos. No tarô, quando em foco a observação psicológica, os arcanos maiores têm a função de simbolizar aspectos psicológicos como perfis, temperamentos, chaves do caráter, a identidade; já os arcanos menores são utilizados para entender atitudes, as 4 funções psíquicas (pensamento, sentimento, intuição e sensação) e suas manifestações, ambientações, reações.
Catalogando ao longo de duas décadas várias leituras, quando um consulente normalmente tem inclinação a algum vício, é o arcano 15. O Diabo quem sinaliza essa tendência a compulsões ou obsessões e também o arcano 18. A Lua, por representar as dependências psíquicas e o inconsciente amedrontador. Normalmente, o arcano 15 aponta para o hedonismo exagerado (prazer pelo prazer), enquanto o arcano 18 diz respeito às fugas da realidade, levando o consulente ao uso de qualquer tipo de droga, especialmente o álcool.
O Diabo, a Lua e o Louco
O Diabo, a Lua e o Louco
Cartas do Radiant Rider-Waite Tarot
No arcano 15 os personagens estão acorrentados ao personagem central e são submetidos ao seu poder e comando. As drogas, tal como descrito, agrilhoam de tal maneira seus usuários que dificilmente conseguem debelar, sozinhos, a dependência. Nesse caso, o arcano 15 representa o prazer proporcionado pelo uso de certas substâncias, tornando-se um tormento a seguir: arcano 16. A Torre.
Já no arcano A Lua temos por referência simbólica o “livrar-se da dor a todo custo”, mergulhando perigosamente no inconsciente. Usuários de substâncias enteógenas aparecem também representados por esse arcano, em busca de uma consciência superior simbolizado pelo arcano seguinte, o 19. O Sol. Quando em uso sem fins ritualísticos, os usuários de drogas sob a representação da “Lua” apresentaram depressão e altos níveis de angústia.
Em certas análises, a presença do arcano “sem número” (ou, em alguns baralhos modernos é numerado com o 0 ou 22) chamado O Louco apontou para o uso de certas drogas com fins “recreativos”. No entanto, encerra-se nesse arcano a imaturidade ou mesmo ingenuidade de não mensurar os riscos gerados pelo uso prolongado de certas substâncias, levando-os invariavelmente ao vício ou dependência. Quase sempre, os usuários de alucinógenos sob a representação desse arcano nas leituras têm idade inferior a 25 anos, com uma taxa significativa entre 16 e 18 anos. Talvez, por ser um arcano que se refira à imagem arquetípico do Puer, infantil, inconsequente e até mesmo aventureiro.
Por si só, os arcanos 15, 18 e 22, sozinhos, são evocavam, em si, a confirmação do uso de drogas. A combinação com os arcanos menores é que confirmavam uma tendência maior ou menor a certos hábitos e, quando em leitura, questiono sempre se há casos de alcoolismo, alucinógenos ou hipocondria na família. Logo abaixo, podemos identificar os arcanos que simbolizam a indução aos vícios ou abuso de qualquer tipo de droga. A presença de Copas (água, função sentimento), como representação do campo psicoemocional, é insistente. Diferente de Espadas (ar, função pensamento) que, normalmente, aponta para tratamentos de ordem exclusivamente psiquiátrica.
Um dos arcanos menores que frequentemente surgiu nas leituras para representar o uso de drogas, especialmente alucinógenos, foi o Sete de Copas. Nele temos um indivíduo deslumbrado diante de uma miragem ou aparição, que poderemos também tratar como uma alucinação. Na sexta taça (de cima para baixo) temos seu rosto refletido fantasmagoricamente, como de uma caveira. As outras taças envolvem aspectos distorcidos da realidade, como falso poder, contato com os “demônios pessoais”, ter um domínio sobre as coisas que não existe, etc. Essa é uma lâmina que evoca claramente delírios e alucinações provocadas pelo uso de alucinógenos ou mesmo do abusivo uso do álcool. As taças sugerem bebidas, mas a fumaça ou nuvem também simbolizam o uso de substâncias tóxicas queimadas ou vaporizadas. Quando combinado com o arcano 15. O Diabo sugere o uso de drogas perturbadoras da atividade mental. Em combinação com o arcano O Louco apontou para drogas estimulantes (no teste antidoping, normalmente é esse o arcano envolvido).
Cartas do naipe de Copas
O Sete, o Nove e o Quatro de Copas
Cartas do Radiant Rider-Waite Tarot
Outro arcano do mesmo naipe de Copas, que revela abusos, especialmente quanto ao uso de álcool, frequente nas leituras em combinação especialmente com o arcano 18. A Lua, é o Nove de Copas. Sua imagem sugere uma mesa larga onde aparecem nove copas, com um homem risonho, gorducho e corado à frente, tendo às costas as taças. Um dos maiores problemas entre os alcóolicos é exatamente admitirem que são dependentes. O álcool, enquanto droga pouco controlada e consumida livremente por todos, é um dos grandes vilões na maioria dos acidentes automobilísticos, violência doméstica e até mesmo crimes com mortes. Por ser uma droga “socialmente aceita”, acaba por ser camuflada por um marketing onde beber é sinônimo de alegria e festividade, quando não sucesso e status (como acontecia com o cigarro antigamente).
Em alguns casos, a combinação do arcano 15. O Diabo com o Nove de Copas sugeriu combinações de substâncias (por exemplo, álcool e ecstasy) em raves, festas que atravessam a madrugada até o amanhecer. Em todo caso, há sempre o álcool envolvido. Normalmente esse arcano aponta para overdose.
Por último, envolvendo especificamente as drogas depressoras (tranquilizantes em destaque), temos o arcano Quatro de Copas. A apatia representada pela figura que, aos seus pés tem 3 taças (e mais uma oferecida pela misteriosa mão que sai da nuvem) revela-se como abuso de tranquilizantes. Vivemos numa cultura onde o Rivotril parece ter se transformado na única maneira de se lidar com o estresse e todo tipo de contratempos gerados pelo mundo moderno. Essas substâncias tomadas sem qualquer controle e a mistura com o álcool costuma induzir a mortes por parada cardiorrespiratória. A atitude desdenhosa da personagem da lâmina revela um tipo de atitude “tanto faz”. Esse processo de “anestesiamento” perante as agruras do mundo revela-se como uma perigosa fuga potencializando as crises pessoais. Para tudo há um “peso e uma medida”, e tudo que é excessivo e se torna hábito, é perigoso.
A combinação com o arcano 15. O Diabo apontou para o uso de inalantes (como o éter e a cola de sapateiro); combinado com o arcano 18. A Lua registrei mergulhos perigosos no uso de soníferos; em dupla com o arcano 22. O Louco apontou para dependência de calmantes.
Esse é um singelo registro das experiências envolvendo alguns arcanos e suas combinações, não se encerrando aqui. Vários registros ainda são feitos e catalogados, cruzando-se dados para chegar a conclusões mais assertivas. De qualquer maneira, temos aqui um ponto de partida para futuras pesquisas.
 
Bibliografia
BENZECRY, Daniela. Drogadição, A Recuperação em A.A. e N.A. e a Espiritualidade – à luz da psicologia de C. G. Jung. São Paulo. Clube de Autores.
JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.
NICASTRI, Sérgio. Drogas: classificação e efeitos no organismo (Unidade 1).
Disponível em:<http://www2.ufrb.edu.br/crr/material-didatico-ok/category/3-curso-de-atualizacao-em-atencao-integral-aos-usuarios-de-crack-e-outras-drogas-para-profissionais-atuantes-nos-hospitais-gerais?download=36:unidade-1-drogas-classificacao-e-efeitos-no-organismo.pdf >. Acessado em 10/11/2015.
 
Giancarlo Kind Schmid
é tarólogo, terapeuta, escritor e conferencista.
www.taroterapia.com.br e www.sobresites.com/taro
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 7/01/2016
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