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11 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


  Mesa redonda com: Teca Mendonça | Luiz Felipe C. Pinheiro | Constantino K. Riemma  
Terapias & Tarô: a preparação desejável
Constantino K. Riemma
 
  Caduceu - terapia  
Tarô e Terapias - Caminhos possíveis, aplicações e experiências, foi o tema de um encontro para discussão e troca de experiências realizado em setembro de 2013, em São Paulo, com exposições de dois psicólogos, Teca Mendonça e Luiz Felipe Camargo Pinheiro, e do pedagogo, prof. de psicologia, Constantino K. Riemma. Acesse os textos no menu, acima.
A transcrição da gravação do evento e o copidesque do material ficou a cargo de Ivana Mihanovich, taróloga e colaboradora do Clube do Tarô.
 
O principal desafio na utilização do baralho em processos pedagógicos ou terapêuticos é, a meu ver, que o jogo de cartas está intimamente associado, na história ocidental, não só ao lazer, ao descompromisso, mas também à jogatina, ao blefe e às artimanhas destinadas a levar vantagem sobre os outros. Apenas nos últimos dois séculos o baralho foi alvo de estudos simbólicos e esotéricos, porém sem um lastro tradicional, sem uma linhagem de transmissão que sustentasse sua origem ou destinação mais sutil.
Jogo de cartas - O trapaceiro com o Ás de Ouros
Le tricheur à l'as de carreau (O trapaceiro com ás de ouros)
Pintura de Georges de La Tour, 1630  -  Museu do Louvre, Paris
Sob esse ângulo de referências tradicionais, o baralho está bem distante da astrologia, que tem o respaldo histórico milenar e remonta ao período das “ciências sagradas”, em que astronomia e astrologia constituíam uma unidade. Já o contexto histórico e cultural que cerca o jogo de cartas torna compreensível que, nas áreas acadêmicas, existam reservas à sua utilização como recurso de terapia. Por exemplo, os adornos utilizados por muitos cartomantes e tarólogos na divulgação de leitura das cartas, muitas vezes paramentados com adereços criados a partir de imagens ciganas ou de vestes sacerdotais, também tem o seu peso. Essa atmosfera imaginativa parece reforçar as precauções dos órgãos de classe de profissões terapêuticas e psicológicas em associarem seu trabalho ao jogo de cartas.
O caráter terapêutico
Neste cenário sociocultural, a tentativa de justificar uma possível aplicação terapêutica do baralho não se mostra uma tarefa simples. A rigor, no entanto, qualquer jogo tradicional dispõe de suportes simbólicos. O dominó, por exemplo, combina símbolos numéricos de um a seis, o que o coloca em paralelo à Estrela de Davi. O xadrez, um jogo de alta exigência intelectual, tem um tabuleiro positivo-negativo, Yin-Yang, com peças representativas de arquétipos sociais, incluindo um suporte consistente de regras. Para recorrer ao bom humor, até podemos imaginar que o xadrez nos daria um suporte mântico ou terapêutico mais “sério” que o tarô... No entanto, na prática, não vemos alguém oferecendo xadrez-mancia ou xadrez-terapia, nem dominó-mancia ou dominó-terapia!
Peças de xadrez fundidas em Bangladesh
Peças de xadrez fundidas artesanalmente em Bangladeshi
http://www.zimbio.com/pictures/SEGtIgbnje4/Bangladeshi+
Metal+Worker+Crafts+Arworks+Using/23BLedsRxdC
No contexto tradicional, os jogos não são gratuitos, ou seja, estão sempre cercados de referências simbólicas, de analogias ao conhecimento sutil. Ao jogar, a pessoa estará digerindo, trabalhando e aplicando tais símbolos. Nos jogos tradicionais, quebramos o nosso padrão rotineiro de lidar com as coisas e nos colocamos numa atividade inusual. Num jogo em grupo, seja com baralho, xadrez ou dominó, as trocas e desafios de atenção, raciocínio e estratégias, podem ter um efeito educativo, interativo, e de lazer.
Os jogos propiciam experiências renovadas. Isso pode ser enriquecedor e gratificante; é nesse sentido que podemos atribuir aos jogos de lazer uma função “terapêutica”, no sentido amplo do efeito terapêutico que o lazer proporciona.
Conceitos de terapia
No tema tarô & terapia, os nomes e conceitos valem à pena ser levada em conta. Por exemplo, o dicionário Houaiss define terapia como substantivo feminino, que começou a ser usado em medicina em 1881 e significa: ‘1 - tratamento de doentes; 2 - toda intervenção que visa tratar problemas somáticos, psíquicos ou psicossomáticos, suas causas e seus sintomas, com o fim de obter um restabelecimento da saúde ou do bem-estar.
O dicionário Aurélio acrescenta que “terapia” enquanto termo de composição – por exemplo, fisioterapia, hidroterapia – significa ‘tratamento de’, ‘tipo de tratamento que tem certo princípio, meio ou fundamento’.
Portanto, falando estritamente em termos técnicos, não podemos afirmar facilmente a ligação do jogo de cartas com a terapia, embora em seu sentido genérico essa palavra seja utilizada habitualmente nos artigos sobre cartomancia e leituras do tarô.
Para falar de terapia e tarô, acredito ser importante pontuar, igualmente, o papel das formalidades oficiais para a regulamentação das profissões. As exigências são poucas, o que torna compreensível o motivo pelo qual até mesmo para a Astrologia, que tem fundamentos relativamente sistematizados, não existem condições fáceis para definir critérios coerentes de qualificação escolar e de exercício regulamentado da profissão.
Para complicar o cenário, acredito que no caso da cartomancia e das leituras das cartas do tarô, a maior parte dos praticantes não teria o menor interesse em sair da informalidade e se tornar sujeita a exames, inspeções, pagamento de taxas e de impostos. Esse ângulo da questão tem vários registros no acervo do Clube do Tarô. Veja:
Aplicações das cartas:
Preparo profissional do tarólogo e cartomante : www.clubedotaro.com.br/site/p55_8_comentar.asp
Regulamentação profissional :
www.clubedotaro.com.br/site/p55_8_comentar.asp#regulamentos
Ética e valores : www.clubedotaro.com.br/site/p55_8_comentar.asp#etica
Qual seria a especialidade terapêutica do tarólogo?
Considero relevante buscarmos esboçar a qualificação profissional de psicólogos, pedagogos, assistentes, e o que seria uma atividade formal baseada no tarô. Para dar um exemplo pessoal, posso contar que me formei como pedagogo. Minha especialidade de trabalho esteve voltada à educação, formação e orientação profissional: estimulação ao crescimento
interior e desenvolvimento das habilidades a serem exercidas na vida cotidiana. Nessas atividades, o profissional de educação deve ainda estar atento às dificuldades apresentadas pelos estudantes e atuar para a correção e transposição das eventuais deficiências. No entanto, os casos de problemas de saúde ou de desvios de conduta são devidamente encaminhados aos especialistas. As especialidades profissionais são respeitadas.
Entendo a vocação educacional como estimuladora do crescimento dos indivíduos. As atividades intelectuais e de cunho prático, as participações recreativas e artísticas, tudo faz parte de um conjunto orgânico de estimulos ao crescimento. Portanto, pessoalmente, só posso lidar com o tarô a partir dessa linha de experiência pessoal acumulada por anos a fio.
 
Cenário mágico de atendimentos com as cartas
Cenário magista
Em anúncio de atendimento gratuito na Internet
Os símbolos das cartas podem servir de apoio para a tradução das questões examinadas em uma sessão; não têm, porém, a força específica de solução.  Acredito que o mesmo acontecerá com as pessoas com outro histórico de formação e de experiências profissionais, a partir das quais encontrarão o sentido próprio de utilização do tarô em seus atendimentos, não como o “remédio”, mas como um apoio de diagnósticos e de interlocução com o seu cliente. Não dispomos de regras consensuais, pré-definidas, para aplicação das cartas ao propósito terapêutico.
O que podemos, de fato, observar no âmbito social relacionado à profissão informal de cartomantes e tarólogos? Tem de tudo na realidade.
(1) Senhoras, matronas e matriarcas, com muita experiência de vida acumulada para ajudar outras pessoas; estão quase sempre comprometidas em suas comunidades, numa rede de contatos pessoais em que prestam ajuda e conselhos.
(2) Existem também os profissionais qualificados em diferentes especialidades de atendimento que utilizam seus conhecimentos específicos para traduzir os símbolos das cartas; neste caso, a real qualificação para o aconselhamento resulta do preparo formal e prático em suas especialidades.
(3) Sensitivos e paranormais que encontram nas cartas do tarô um apoio para traduzir suas captações-percepções dos ambientes ou das pessoas; ou seja, o jogo de baralho é um suporte e não a fonte.
(4) Por outro lado, constatamos várias pessoas que adotam nomes mágicos ou de mestres, figuras mitológicas, ciganos, para criar imagem atraente e oferecer serviços de previsões e de aconselhamentos para os quais nem sempre tiveram um preparo consistente.
(5) No extremo, estão os enganosos, especialistas em ludibriar, que dão a pior nota para descreditar a prática séria do tarô.
A decisão pessoal
A liberdade de escolher
 
Trata-se de um quadro coletivo que exigirá muito trabalho e cuidados para estabelecer as referências práticas de uma atuação realmente terapêutica com as cartas do baralho.
Além desses desafios mencionados, na cartomancia ou na leitura divinatória há um risco latente: aprisionar o ouvinte na previsão. Do ponto de vista espiritual e religioso a previsão factual, dependendo do modo como é feita, corre o grave risco de fixar a pessoa a um sentido determinista. A cartomancia pode facilmente cair num papel anti-terapêutico. Apenas estabelecer prognósticos, muitas vezes difíceis, sem apontar os caminhos de superação e alternativas práticas ou interiores para enfrentar os desafios, constitui uma interação que nada tem de terapêutica, nem na dinâmica, nem nos seus efeitos.
Sensitivos, médiuns e sacerdotes
Existem sensitivos (paranormais, médiuns, videntes) com diferentes ênfases de percepção. Uma boa parte deles utiliza suportes materiais diversos, tais como copos d’água, bolas de vidro ou de cristal, pêndulos, borras que se formam no fundo da xícara de café. Veja
SIMBOLOGIA - Artes divinatórias : www.clubedotaro.com.br/site/r68_0_mancias.asp
Para certas pessoas com dons intensos de sensitividade, o tarô é simplesmente utilizado como um suporte entre outros. Nesse caso, não existem cursos formais de preparação e os significados das cartas são estabelecidos de modo subjetivo, em contextos próprios, com ou sem a ajuda de outros sensitivos mais velhos e experientes.
É importante constatar, na história das culturas humanas, que a sensibilidade especial de certos seres nas comunidades em que vivem é naturalmente integrada ao âmbito religioso, numa linha ancestral de transmissão, tal como vemos ainda hoje na formação dos sacerdotes cristãos, dos babalorixás nos cultos afros, dos rabinos na tradição judaica e assim por diante. Nenhum deles se auto-atribui títulos ou qualificações: todos devem passar por uma longa preparação, preenchendo todos os preceitos e obrigações exigidas para suas funções.
Educação e terapia à distância?
Existe outro ponto que considero importante, mas que está se tornando cada vez mais vago devido ao crescimento acelerado da comunicação à distância. Na internet, por exemplo, trocamos a informação pela informação, sem os atributos da energia sutil que está associada
à presença pessoal. Do ponto de vista tradicional, ancestral, no entanto, é exigida uma prolongada convivência direta do aprendiz com os instrutores. O ancião da tribo, uma parteira ou benzedeira das antigas comunidades, uma mãe de santo ou um pai de santo, um padre ou conselheiro, enfim, um líder religioso na comunidade, são todos qualificados pela experiência viva e pessoal que receberam de seus provedores espirituais e pela atenção direta que oferecem aos que se encontram ao seu redor. Essa assistência sutil não se transmite por meio do telefone celular ou do laptop, por mais envolventes que os recursos tecnológicos se mostrem para todos nós. Aliás, para fazer uma comparação simples, todos sabemos bem da grande diferença entre namorar ao vivo, com toque e presença, e namorar pela rede de contatos eletrônicos!
 
Contatos à distância
O contato à distância
Em anúncio de trabalho em casa
Temos, assim, mais um dado na configuração de um bom conselheiro: o tempo, a experiência e a presença. E isso vale também no sentido do que estamos trocando, aqui, em relação à prática do tarô e seus efeitos terapêuticos. Ou seja, não é o baralho, em si, que qualifica o ato terapêutico.
Utilização criativa e terapêutica das cartas
No caso do baralho, gosto de lembrar que para a sua utilização nos jogos recreativos não existem regras absolutas. Cada um joga como bem entender, inventando novas formas ou adaptando outras conhecidas. As regras específicas são montadas e direcionadas para cada tipo de jogo, em comum acordo entre os participantes. Jogamos com o baralho inteiro? Está bem, jogamos com todas as cartas. Tiramos metade do baralho, como o baralho espanhol? Tudo bem, usamos metade do baralho. Juntamos dois baralhos para jogar canastra? Sim, por que não?! Quantos se sentam à mesa, dois quatro, sete, oito? Será como combinarmos.
O jogo com as cartas
Cartas: jogos em aberto
Imagem no www.griswoldhomecare.com
 
O mesmo poderia valer para a aplicação do tarô. Ou seja, quando chegar o momento em que cada interessado tiver condições de definir sua próprias referências na aplicação do tarô em consultas, será um bom sinal. É um marco significativo incorporar o tarô em acordo com a vocação e o estilo pessoal. Isso resulta em naturalidade, em organicidade, muito diferente da adoção de um formato pronto e artificial de utilização das cartas como se fossem ritos ou dogmas. Adicionar de modo gradativo o tarô às nossas ações de orientação e de ajuda, enriquece a compreensão dos símbolos e sua conexão essencial com os temas de nossa prática profissional.
É bom lembrar que entre os recursos da psicoterapia moderna há instrumentos, como banco de areia, bonecos ou objetos para compor cenas etc. Isso faz parte dos apoios interativos para estabelecer conexões, para evocar marcas significativas do paciente. Nesse sentido, torna-se inteiramente justificável entender que as cartas do tarô poderiam constituir um desses apoios ou recursos terapêuticos. É evidente que sempre, por trás da utilização, deve estar a habilidade e a maturidade daquele que orienta a dinâmica.
Em síntese, estou convencido de que a utilização terapêutica do tarô não depende das cartas em si, nem de uma hipotética preparação acadêmica de cartomantes ou tarólogos, mas sim da qualificação profissional específica de quem eventualmente utiliza esse jogo desafiador em seu trabalho.
Num cenário como esse, torna-se muito estimulante intercambiar experiências e o site Clube do Tarô continua disponível para divulgar os diferentes pontos de vista sobre o tema.
Contato com o autor:
Constantino Kairalla Riemma - contato-ct@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 20/08/2014
  Mesa redonda com: Teca Mendonça | Luiz Felipe C. Pinheiro | Constantino K. Riemma  
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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