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11 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


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Ver com os olhos livres *
  Zoe de Camaris  
  “O lance com o futuro é o seguinte: Toda vez que você olha o futuro ele muda porque você olhou. E isso muda todo o resto”.  
 
    A frase está no filme “O Vidente” (2007) de Lee Tamahori. É bacana quando alguém resume em poucas palavras aquilo que você sempre percebeu. Porque sei que em todas às vezes que retiro cartas aleatoriamente de um maço, assim o é.
 
Filme "O Vidente" de Lee Tamahori
O Vidente
Filme de Lee Tamahori
      O futuro se modifica porque ao imbuir significado às cartas e ao respeitá-las como detentoras de uma função oracular, uma transformação ocorre em mim. Seja para me certificar do que já sei, seja para descobrir uma nova ligação entre os fatos.
    Por isso, só lanço mão do Tarot se considerar este gesto um ato mágico. Neste momento, abre-se a cortina: ali estão os cenários, as personagens, a ação que envolve o enredo. Os temas. Os grandes temas e os temas cotidianos, por assim dizer. Os Arcanos Maiores e Menores. E nós, as personagens, equilibrando num entusiasmado malabarismo, moedas, chaves, torres, gadelhas, cavalos, livros e trombetas.
    Vítimas do destino, como os animais na Roda da Fortuna, diriam alguns. Responsáveis pelo caminho, os defensores do livre-arbítrio.
    Especulações sobre o que é oculto!, seria a fala da Sacerdotisa, aquela que sibila. Conjecturas inefáveis sobre os ditames do Universo. Mas se existe um desenho, o desígnio dos deuses está sendo traçado. Os imortais estão, no momento presente, manipulando as cordas que mexem os
membros das marionetes. Posso, no ato de consultar o oráculo, ao lançar a sorte, investigá-lo, descobrir antes que aconteça. E refletir sobre o caminho a tomar.
    Podemos também fazer uso da informação que modifica o curso dos acontecimentos e apenas observá-la. Observar é uma ação. Podemos agir diretamente sobre os azares, criando clímax, prevendo um resultado. Ou podemos tratá-los como poesia e deixar que o som de suas palavras nos norteie.
    Seja como for, algo mudou.
    Os véus foram retirados em uma pausa de significado, em um novo raio de interpretação, em um arranjo revelador – um lance de dados, diria Mallarmé. Aí está a transformação.
    Disse a personagem “Oráculo”, em Matrix:
    – Se eu não tivesse dito, você teria derrubado? quando Neo esbarra em um vaso.
    Não se vai ao Oráculo impunemente. Alguma coisa sempre acontece. Um rito está em arranjo. Uma fonte de água nasce em algum lugar.
    E lançada a pergunta, como virá a resposta? Em Curitiba há o exemplo da Mulher das Balas. Viúva, com muitos filhos para criar, um dia entra em uma Igreja e pede ajuda aos céus:
    – O que fazer para sustentar meus filhos? Que Deus me dê um sinal! e curva-se em respeito.
    No chão, um papel de bala aberto. No alumínio, um estranho brilho. Desde então passa a catar papéis de bala pelo chão da cidade. E inventa moda: bonecas, trajes, brinquedos. Vende sua arte numa feira, em outras feiras. E em pouco tempo uma atriz global abre o desfile de suas criações. É o jogo dos deuses.
    Nós, acostumados a filosofar e a superinterpretar, dificilmente levaríamos o oráculo ao pé da letra. Pensaríamos:
    – “Bem, os deuses querem que eu desembrulhe minha vida”, ao vermos o papel de bala. Percepção que nos levaria a outra pergunta:
 
A Sibilia de Delfos, de Michelangelo, na Capela Sistina
A Sibila de Delfos (1510) de Michelangelo
Capela Sistina, Vaticano
 
    – Mas como? E talvez não chegássemos nunca a resultado algum.   
    Um pequeno índice, um papel caído no chão pode conter a resposta. Cada um verá o que seus olhos possam perceber.
    Quando os filhos do rei de Roma são mandados para Delfos no intuito de saber quem sucederia a Tarquínio, a resposta do oráculo foi: – Aquele que primeiro beijar sua mãe. Lucius Junius Brutus, um Louco com “L” maiúsculo, fez de conta que tropeçou e cai no chão dizendo: – Beijo-te, Mãe Terra! Conta-se que assim se tornou cônsul e fundou a República Romana. O Louco pode ser sábio, até sem querer. E a Fortuna brinda com a sorte os brincalhões.
    Se o futuro está em nossas mãos ou não, eu não sei. Sei que ele muda quando se olha pra ele. É ótima a imagem da bola de cristal para representar a idéia oracular. O cristal transparente nada esconde por isso é possível ver através dele em uma lufada de inspiração e imaginação.
    Gancho que pode lançá-lo para fora de um poço de dúvidas. Colocá-lo como sutil observador do cristal. E algo mudará.
    Algo sempre muda quando se olha para o futuro. Mesmo que você não acredite nisso.

    (*) A expressão “ Ver com os olhos livres” é do poeta Oswald de Andrade.

março.09
Contato com o autor:
Zoes de Camaris - www.zoedecamaris.blogspot.com 
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