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11 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


A tiragem de cartas da Vovó Dora
Jorge Purgly
 
Para poder falar sobre o assunto do título, é necessário, antes, que eu conte um pouco sobre minhas origens e como o Tarô entrou na minha vida.
Sou descendente de húngaros, nascido no Brasil e estudioso do Tarô desde os meus 7 anos de idade. No ano passado completei 57 anos (portanto, 50 anos de estudos) e posso dizer que só agora estou realmente aprendendo, aproveitando e curtindo a minha aposentadoria.
Desde que nasci em 1956, na minha casa (em São Paulo) só se falava o húngaro. Fui aprender a falar o português quando passei a frequentar o Jardim da Infância, aos 5 anos de idade, bem como o Alemão e outras línguas. Até os sete anos minha infância foi uma delícia: só brincar e brincar e aprender brincando.
A casa dos meus pais estava sempre repleta de visitas, principalmente nos finais de semana ou durante as férias. Meu pai era patriarca da colônia húngara e amigos alemães e húngaros vinham frequentemente jogar cartas, xadrez ou mesmo pedir conselhos para os meus pais. Cresci, portanto, vendo os mais velhos jogarem Taroko, Skart, Bridge, Canastra, Poquer, Xadrez, Damas, Dominó. Assim, eu estava já, desde pequeno, bem familiarizado com os naipes das cartas.
Familia Purgly
Família Purgly: minha avó, Lenke Meliorisz (Checoslováquia, 1919); vovó Dora (minha mãe)
aos 92 anos, com seu irmão que completava 100 anos (Bratislava, Eslováquia – 2011);
e eu, Jorge Purgly (Indaial, SC - março de 2014).
O Liceu Brasil, onde eu estudava, ficava a cerca de um quilômetro da minha casa e todos os dias alguém da minha família me levava e buscava para as aulas. Eu era bem pequeno, mas lembro que muitas crianças tinham talentos: umas sabiam recitar poesias, outras sabiam contar histórias, outras mais sabiam cantar, dançar, as maiorzinhas até tocar violão, e eu? Eu não sabia nada. Sentia-me ridículo com aquela bermuda verde, camisa branca, gravatinha e uma enorme mala escolar. Um dia, lamentei-me com a minha mãe (que é até hoje viva e lúcida, com 95 anos de idade) sobre minha falta de talentos e ela, em resposta, disse-me que iria ensinar-me algo que, se eu aprendesse bem, faria com que nunca me sentisse solitário, além de poder ajudar as pessoas. Curioso, perguntei o que era e ela me disse que iria me ensinar a colocar as cartas e também a arte da quiromancia, a leitura de mãos, dons que aprendera há muito tempo, com uma cigana, na Hungria.  
A vida na Hungria
Minha mãe me contou, então, que havia sido criada na Checoslováquia e que havia tido uma governanta alemã, mas que também falava eslovaco e húngaro com as crianças da região. Quando minha mãe atingiu a idade escolar, meus avós contrataram uma professora particular exclusiva que vinha diariamente ministrar as aulas em húngaro, devendo ela prestar os exames anualmente na escola para ser aprovada no curso primário. Finalmente, quando terminou o primário, aos doze anos, ela foi enviada, por vontade dos meus avós, para estudar na Áustria, no internato de Presbaum, no Sacré Coeur de Marie, uma prestigiada escola de freiras. Ali, ela cursou o ginásio. Aos 16 anos, minha mãe ainda cursou um ano de Sacré Coeur em Budapeste, como colégio e pré-universitário, mas logo em seguida conheceu o meu pai e se casou.
Seu casamento aconteceu em Budapeste e logo após a noite de núpcias ela e o meu pai foram morar na fazenda dele, há cerca de cem quilômetros de distância. Em 1937, a atividade na fazenda era muito intensa e cabe dizer que lá se produzia de tudo. Além de leite, manteiga, queijo e ovos, havia a produção, no verão, de verduras, frutas e também carne suína. Meu pai tinha também um imenso cultivo de arroz, cuja supervisão ocupava muito do seu tempo, pois era a atividade principal da fazenda.
Árvore centenária na Hungria
Arvore centenária de carvalho negro, ainda hoje existente
no local da antiga fazenda dos meus pais na Hungria (2012)
Minha mãe tinha uma amiga que vivia na fazenda vizinha, muito simpática. O marido dela havia sido ministro das Relações Exteriores da Hungria, anos antess. Agora, estava aposentado e eles tinham um menino. Frequentemente esse casal vinha visitar os meus pais e jogar cartas. Tomava-se longamente o café da tarde e conversava-se sobre os mais diversos temas. Um dia, o assunto em questão era sobre como era possível encontrar água embaixo da terra mediante o uso de uma varinha. A vizinha explicou que era fácil se a pessoa tivesse nascido com o dom e muito difícil em caso contrário. Então, meu pai, minha mãe e o meu irmão, Janós Filho, foram para o jardim acompanhados do casal da fazenda vizinha. A mulher pegou um galho da árvore de chorão e cortou em forma de forquilha. Tirou as folhas, limpou e segurou na forquilha, a ponta do meio apontando para baixo, enquanto caminhava pelo jardim. De repente, a forquilha começou a girar sozinha nas suas mãos e ela disse que ali havia água. Curiosamente, era um lugar onde sempre caíam relâmpagos e a plantação ali não ia bem.
Então a senhora disse:
— Vou passar o meu dom para a senhora, dona Dora, seu marido e o seu filho. Se vocês forem receptivos vocês terão o dom, do contrário o dom volta para mim. Isto é algo muito pessoal.
Ela colocou as mãos da minha mãe sobre a forquilha, sobrepôs-lhe suas próprias mãos e, após dizer algumas palavras, ambas começaram a andar pelo jardim até que, novamente, a forquilha começou a girar, desta vez na mão da minha mãe. E a história se repetiu com o meu pai e com o meu irmão ainda menino.
Então a senhora disse que era muito interessante e uma dádiva, pois era raro que todas as pessoas de uma mesma família tivessem esse dom naturalmente. Todos ficaram contentes com a descoberta e na verdade, no futuro, essa habilidade mostrou-se muito útil, mas isto é assunto para um outro artigo.
Retirada da água nos antigos poços da Hungria
Antigo poço húngaro
Os poços de água na Hungria naquela época tinham um sistema de retirada de água diferente: havia uma grande e alta gangorra e, em uma ponta, havia o balde preso a uma corda que era mergulhada no poço; em outra, havia um contrapeso. Assim, rápida e facilmente se retirava a água do poço.
A amiga cigana
Um dia a vizinha da minha mãe nos chamou, gritando e pedindo ajuda, pois uma criança havia caído dentro do poço. Meus pais correram para acudir e, felizmente, quando lá chegaram o menino já tinha sido socorrido e tudo estava bem. Porém, para a alegria da minha mãe, a mãe desse menino era uma cigana vinda da Romênia, da região húngara de Erdély, cujo marido era eslovaco. Ela, então, conversou com a cigana nessa língua (“totul”, como se diz em húngaro), com muita saudade de sua infância e de sua antiga governanta. Esta cigana tornou-se, assim, uma amiga da minha mãe e algumas vezes, quando ela ia visitar a vizinha da fazenda ao lado, aproveitava um pouco para conversar com a cigana.
Um dia, a cigana leu a mão da minha mãe e previu que ela faria uma grande viagem através do oceano (minha mãe só se lembrou disso quando imigrou para o Brasil). A cigana fez também uma profecia para o meu pai, que se concretizou quando ele morreu no Brasil aos 80 anos de idade, em 1980 (na verdade, vários ciganos costumavam fazer previsões, como no dia em que o céu ficou todo vermelho e o mordomo do meu pai, que era cigano, entrou em casa chorando, dizendo que haveria uma grande guerra e que muitos ali morreriam. E, de fato, cinco anos depois, isso veio a acontecer. Naquela época de convívio com os ciganos e no ambiente rural, todas estas manifestações eram muito naturais e parte do dia a dia).
Foi essa cigana que passou para a minha mãe os dons da quiromancia e da cartomancia e as duas muitas vezes colocavam cartas de Taroko ou de Canastra uma para a outra, apenas por diversão ou como passatempo. Anos depois, já aqui no Brasil, em 1963, minha mãe me ensinou pacientemente o significado de cada carta e algumas tiragens que agora compartilho com o paciente leitor.
Grupo de ciganas na Hungria
Ciganas da Hungria
Todo este preâmbulo foi necessário para demonstrar a seriedade, a legitimidade, e a procedência dos dons e habilidades nesta arte do Tarô que estão na minha família há muito tempo, assim como na geração do meu pai que sempre foi um estudioso da Kabala, como o meu avô e meus outros antepassados.
A tiragem da Vovó Dora
A tiragem básica de cartas da Vovó Dora (agora bisavó) é assim:
Primeiro escolhemos uma carta que representa a pessoa e colocamos a mesma aberta no meio da mesa.
Então o consulente, isto é, a pessoa que recebe a leitura, escolhe, com a mão esquerda, doze cartas. As cartas são dispostas três a três: em cima, na frente, atrás e embaixo da “carta testemunho”, já sobre a mesa.
Então dizemos:
— Agora vou dizer o que está no seu pensamento, na sua frente, atrás de você e em quê você está pisando.
Então viramos as cartas três a três e fazemos a leitura correspondente. A seguir, perguntamos:
— Sobre que assunto você gostaria de saber mais?
O consulente responde e então colocamos uma carta representando esse assunto embaixo da carta do centro, a que chamamos de testemunho da pessoa. Então pedimos ao consulente que escolha sete cartas com a mão esquerda e que serão colocadas da seguinte forma: três à direita, uma em cima da carta ao centro e três à esquerda. Abrimos essas cartas e fazemos a leitura.
A seguir, colocamos sobre a mesa todas as cartas, após embaralharmos muito bem e a consulente cortar com a mão esquerda, fazendo três montes. Então fazemos a leitura com todas as cartas.
Finalmente, vem o sim ou não: o consulente pensa uma pergunta, mas sem dizer o que é. Escolhe nove cartas com a mão esquerda e dizemos se a resposta é sim, não ou talvez.
Significado das cartas na tiragem da Vovó Dora
Complemento adicionado em 2/07/2015
Atendendo a pedidos segue o significado das cartas na Tiragem da Vovó Dora.
Os ciganos húngaros na época entre as duas guerras mundiais utilizavam um baralho de cartas comum com quatro curingas para fazer suas leituras. O dom e as habilidades eram passados por herança e afinidades.
Nasci com o dom e a minha mãe me ensinou e treinou minhas habilidades desde os meus 7 anos de idade. Como na maioria das famílias de ciganos húngaros a interpretação é secreta, permanece restrita aos familiares do grupo. Entretanto, passados quase 100 anos, este conhecimento se perdeu no plano fíísico da Terra, mas permanece no Plano Astral.
Os significados das cartas dos arcanos menores do Tarô são aparesentados, a seguir, pela ordem numérica, em sequência à numeração 22 arcanos maiores, embora estes não façam parte do processo de leitura da Vovó Dora.
Naipe de Paus (O Dinheiro)
23. Rei
24. Dama
25. Valete
26. Curinga (escravo)
27. Dez de Paus – Ganhos e reconhecimento
28. Nove de Paus – Projeto concretizado
29. Oito de Paus – Ganhos
30. Sete de Paus – Viagem de negócios
31. Seis de Paus – Compras
32. Cinco de Paus – Renda extra
33. Quatro de Paus – Bom negócio
34. Três de Paus – Promoção
35. Dois de Paus – Presente
36. Ás de Paus – Muita renda
Naipe de Copas (Amor)
37. Rei de Copas
38. Dama de Copas
39. Valete de Copas
40. Curinga (Escravo) de Copas
41. Dez de Copas – Amor físico
42. Nove de Copas – Paixão
43. Oito de Copas – Romance
44. Sete de Copas – Amor espiritual
45. Seis de Copas – Sexo
46. Cinco de Copas – Jantar
47. Quatro de Copas – Passeio
48. Três de Copas – Beijo de amor
49. Dois de Copas – Encontro de amor
50. Ás de Copas – A melhor carta
Naipe de Espadas (Dificuldades)
51 – Rei de Espadas
52. Dama de Espadas
53. Valete de Espadas
54. Curinga (Escravo) de Espadas
55. Dez de Espadas – Afastamento
56. Nove de Espadas – Discussão
57. Oito de Espadas – Fofocas
58. Sete de Espadas – Esfriamento sexual
59. Seis de Espadas – Cansaço
60. Cinco de Espadas – Estresse
61. Quatro de Espadas - Afastamento por doença
62. Três de Espadas – Solidão
63. Dois de Espadas – Aborrecimento
64. Ás de Espadas – A morte, a pior carta
Naipe de Ouros (Família)
65-  Rei de Ouros
66. Dama de Ouros
67. Valete de Ouros
68. Escravo (curinga) de Ouros
69. Dez de Ouros – Encontro familiar
70. Nove de Ouros – Amor familiar
71. Oito de Ouros – Visitas
72. Sete de Ouros – Apoio familiar
73. Seis de Ouros – Boa conversa
74. Cinco de Ouros – Sucesso
75. Quatro de Ouros – Visita
76. Três de Ouros – Boa notícia
77. Dois de Ouros – Boas pela internet
78. Ás de Ouros – Emprego novo.
Um exemplo de tiragem rápida pelo método da Vovó Dora [1:45 min]
Realizada por Jorge Purgly
Jorge Purgly atende com Tarot Egípcio, leitura de mãos,
Terapia Floral, em Indaial - SC : www.purgly.blogspot.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 30/07/2014
Revisão: Ivana Mihanovich
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  Tarô Egípcio
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  O Momento
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