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12 de dezembro de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


Poemas e reflexões sobre a Kabbalah
  Rodrigo Araês  
 
  Kaballah
 
 
Árvores, por La Fazio
Tree of Life
[Jane LaFazio - 2005]
 

Encontro a tradição que abandonei
em séculos de ilusão e falsidade
Vislumbro a árvore da vida
alimento de sábios e loucos.
 
Pereço, ressurjo sem forma,
meu corpo é luz
a brisa que me carrega
mal verga o talo da rosa
No jardim do paraíso
encontro a fonte sempre buscada
descubro que eu e tu somos um
aos olhos do Amado
 
Este mundo não mais me atrai
mas volto a ele coberto de glória
cumpro minha função
indicando o começo do percurso,
nada mais posso fazer.
Sei que vim de lá,
sei onde o retorno se inicia
posso apenas sinalizar.
 
Meus amados, confiem no sentido interior,
busquem primeiro o equilíbrio
caminhem sem pressa
a busca exige paciência.
 
Quando a luz nos atinge,
nos transporta,
enlouquecemos ou divinizamos,
o equilíbrio nos protege
e tudo só tem sentido
na compaixão por teu irmão

Só não se pode vacilar
depois do portão aberto,
acautele-se, abra o portão com amor,
tendo certeza de que não há o que temer,

O Profundo nos acolhe.

abr.06
 
Um detalhe
    Apenas um detalhe: o caminhar sem pressa é apenas antes da luz nos atingir. Depois estaremos na eternidade e a pressa ou não pressa passam a ter o mesmo significado – nenhum. Confesso que quis provocar a todos. Escrevi este poema (?) sob o forte impacto da leitura de um livro. De repente toda a minha busca teve uma explicação. Senti-me profundamente judeu hassídico e através deste sentimento, fiquei uno com todas as buscas religiosas. Não escrevi este texto para ninguém em particular, mas para por para fora uma emoção que vinha do fundo da minha alma. Toda a minha sensação de solidão desapareceu e estive pleno. Explico o que houve.
    
Um livro
    Nesta última quarta-feira ganhei da Tânia Fator um livro, junto com outros muito interessantes, que conhecia de lombada e nunca havia sequer aberto: Cabala, o Caminho da Mística Judaica de Perle Epstein.
    Logo na Introdução uma pequena história me calou fundo. Eis a história:
    “Um místico judeu do século XIII foi abordado por um discípulo que desejava aprender a arte de hitbodedut, ou meditação.
    ‘Você está numa condição de perfeito equilíbrio?’, indagou o mestre.
    ‘Creio que sim’, disse o discípulo, que tinha orado religiosamente e praticado boas obras.’
    ‘Quando alguém o insulta, você ainda se sente ofendido? Quando é elogiado, seu coração expande-se de prazer?’
    ‘O pretendente a discípulo pensou por um momento e respondeu, um tanto embaraçado: ‘ Sim, acho que me sinto ofendido quando insultado e orgulhoso quando elogiado’.
    ‘Então vá e pratique o desprendimento da dor e do prazer mundano por mais alguns anos. Depois volte e eu o ensinarei a meditar.’ ”
    
    Mais adiante, nesta mesma introdução, ela diz:
    “O Maggid de Mezerich, brilhante filósofo hassídico do século XVIII, explicou da seguinte maneira:
    ‘O homem deve realmente apartar seu ego do corpo até ter passado por todos os mundos e ter-se tornado um com Deus, até desaparecer inteiramente do mundo corpóreo.’ ”

    O primeiro capítulo começa pelo parágrafo a seguir:
    “O jardim oculto. Estudar a Cabala é algo semelhante a entrar num jardim esplêndido porém perigoso. Abra o primeiro portão e terá à sua frente videiras e trepadeiras viçosas, flores em movimento, pássaros dourados e borboletas falantes. Entre pelo portão seguinte e descobrirá que a cena toda desaparece; agora você está cercado por uma miragem de água iluminada pelo sol que, examinada mais de perto, revela ser na realidade o salão de mármore de um grande palácio. Abra outro portão e entrará no mundo incorpóreo, onde o suave bater de asas anuncia que você atingiu a morada dos Ofanins, seres angelicais com a forma de rodas. Cada portão desse jardim conduz mais fundo para visões alucinatórias, ciladas que ludibriam o viajante incauto em cada volta.
    O peregrino bem-sucedido, tendo integrado seus eus psicológico, ético e espiritual, continuará até atingir um espaço aberto. Ali cresce uma árvore cujos ramos são compostos por dez esferas de cores diferentes, cada uma representando um “mundo” ascendente, ou um nível de percepção espiritual. Ao encontrar essa “árvore da vida”, o místico sabe que atingiu o ponto em que ele está realmente pronto para a escalada. Os portões conduziram-no ao Pardes oculto, o jardim onde cresce a árvore sagrada que marca sua ascensão a Deus.
    Os sábios judeus previnem a todos, exceto ao homem perfeitamente estável e perfeitamente ético, que se afastem desse lugar. Eles dizem que as letras da palavra hebraica “pardes” contêm a chave para o segredo ali oculto: P representa Peshat, o sentido simples e exterior da Tora; R representa Remer, o sentido homilético; D é Drush, o sentido alegórico; S é Sod, seu sentido secreto ou mais íntimo. Para ilustrar a natureza da perigosa jornada pelo “jardim” da vida mística judaica, os rabinos talmúdicos contam a história de quatro grandes sábios: Ben Azai, Ben Zoma, Ben Abuyah e o rabino Akiva. Estes estudiosos realmente viveram e ensinaram na Palestina durante os primeiros séculos da nossa era. Todos eram renomados juristas na academia central judaica de ensino em Yavneh, após a segunda destruição do templo de Jerusalém. Segundo os relatos históricos, Ben Abuyah tornou-se um traidor apóstata, Ben Azai morreu em sua plenitude e Akiva, aos noventa anos, tornou-se um santo iluminado e um mártir.
    A lenda diz que todos quatro “adentraram o Pardes”, ou seja, abraçaram a vida mística. O rabino Akiva, o mais velho e mais preparado, foi o primeiro a atingir os estados de supra-consciência. Porém ao “retornar” ao estado de vigília, preveniu os outros três de que não sucumbissem às ilusões que suas mentes iriam criar ao longo do caminho.
    “Quando estiverem perto das pedras puras de mármore, não digam ‘Água! Água!, pois os Salmos afirmam: ‘Aquele que falar falsidades não permanecerá ante Meus Olhos’.”
    O santo rabino Ben Azai “olhou e morreu”, pois sua alma ansiava tanto pela sua fonte, que instantaneamente abandonou o corpo físico ao entrar na luz.
    Ben Abuyah, cuja confusão mental não tinha sido suficientemente aclarada, olhou e, vendo não um Deus mas dois, tornou-se instantaneamente um apóstata.
    Ben Zoma olhou e enlouqueceu, pois não tinha reconciliado a vida comum com a experiência visionária.
    Apenas o rabino Akiva, o homem de equilíbrio perfeito, entrou e saiu em paz.”
    O texto continua, mas paro por aqui. Estamos longe e perto da fonte. Não vamos desanimar caindo na rede do mundo mal amado.

fevereiro.09
Contato com o autor:
Rodrigo Araês - rafaria@attglobal.net
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