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18 de setembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


 
Eros ou Cupido e o Taro
 
O caminho que sobe é o caminho que desce
Texto de Ken Wilber
original publicado na revista Parabola
Tradução de Bete Torii
 
    Aquilo que foi desmembrado precisa ser remembrado. [Nota da tradutora: em inglês, remember significa tanto remembrar como relembrar]. Esse re-membramento, ou recordação, ou re-união, constitui o Caminho da Subida, que, segundo Sócrates, é conduzido por Eros, pelo Amor, pela descoberta de uma união cada vez maior – uma identidade mais elevada e mais ampla. Por meio de Eros, diz Sócrates, os amantes saem de si mesmos e entram em maior união com o amado, e esse Eros continua dos objetos do corpo para a mente e a alma, até que a União final é remembrada e relembrada.
    Eros, no sentido em que Sócrates (Platão) utiliza o termo, é essencialmente transcendência de si, o motor mesmo da Ascensão ou desenvolvimento ou evolução: a descoberta de uma identidade do eu cada vez mais alta, com inclusão cada vez maior de outros. E o oposto disso é a regressão ou dissolução, um movimento que desce rumo a menos unidade, mais fragmentação.
    Aqui darei uma última comparação: Freud, como bem sabemos, terminou por considerar toda a vida psíquica governada por duas “forçasopostas – Eros e Tanatos, que são normalmente referidas como sexo e agressão, embora não seja essa a maneira final como Freud as descreve. Em Um Esboço da Psicanálise, ele dá sua declaração final: “Depois de longa hesitação e vacilação, decidimos assumir a existência de apenas dois instintos básicos, Eros e o instinto destrutivo. O objetivo do primeiro desses instintos básicos é estabelecer unidades cada vez maiores – em resumo, ligar ou unir”. Não há como se enganar quanto ao significado disso: é puro Eros. “O objetivo do segundo é, ao contrário, desfazer conexões e, assim, destruir coisas. No caso do instinto destrutivo podemos supor que seu objetivo final é levar o que está vivo para um estado inorgânico (matéria). Por essa razão também o chamamos de instinto de morte”.  
Eros e Psique

    Precisamente porque Freud, diferentemente de Platão, não levou a Ascensão até sua conclusão no Um, ele não tinha meio algum de uni-la a uma radiosa Descida rumo à Multiplicidade. Isto é, não havia maneira de unir Eros e Tanatos – unir o caminho que sobe e o caminho que desce – para superar sua eterna contenda. Freud viu Eros com clareza e precisão; viu Tanatos com clareza e precisão; e, talvez com maior clareza do que qualquer pessoa na História, viu que muito do sofrimento humano é e sempre será uma batalha entre os dois, e que a única solução para o nosso sofrimento é uma união de Eros e Tanatos – e, no entanto, não havia nada que Freud pudesse fazer a respeito. Nesse ponto ele encalhou e nos deixou retidos a todos.
    Não considerando o Coração unificador, o inomeado Um, que une Ascensão e Queda no eterno Círculo da Redenção e do Acolhimento, Freud permaneceu como uma das muitas, e certamente uma das maiores, notas de rodapé incompletas de Platão.
    A cada estágio da Ascensão, segundo Plotino, o inferior tem que ser “acolhido” e “permeado”, de modo que a Descida e a aceitação devem, se tudo caminha bem, coincidir com cada etapa da Subida e do desenvolvimento (até o nível atual da pessoa). Em termos cristãos, Eros, a sabedoria transcendente (o mais baixo buscando o mais alto), tem que ser harmonizada com a compaixão ou Ágape (o mais alto buscando e acolhendo o mais baixo) – em cada etapa.
    Assim, para dar somente um rápido exemplo, os Platônicos de Cambridge, que teriam uma influência tão interessante na formação da modernidade, tinham “suas raízes no platonismo da Renascença, tal como fora desenvolvido no século 14 por Ficino e Pico. Esse platonismo foi muito influenciado por Plotino. Era uma doutrina em que o amor tinha papel central; não apenas o amor ascendente do mais baixo pelo mais alto: o Eros de Platão, mas também um amor do mais alto que se expressava em desvelo com o mais baixo e que podia facilmente ser identificado ao Ágape cristão. Os dois juntos formam um vasto círculo de amor através do universo.” O Grande Círculo é composto de Eros que reflui (a Multiplicidade retornando ao Um: sabedoria e Bem) e Ágape que emana (o Um tornando-se Multiplicidade: Bondade e compaixão).
    Nessa concepção geral (que é como passarei a usar os termos), Eros é o amor do mais baixo que se eleva ao mais alto (Ascensão); Ágape é o amor do mais alto que desce ao mais baixo (Queda). No desenvolvimento individual, a pessoa ascende por meio de Eros (ou se expande para uma identidade mais ampla e elevada) e então integra por meio de Ágape (ou desce para aceitar amorosamente todos os estratos inferiores), de forma que um desenvolvimento harmonioso transcende mas inclui – é negação e preservação, subida e descida, Eros e Ágape.
    Da mesma forma, o amor do Cosmos que desce até nós, de um nível mais elevado do que o nosso atual estágio de desenvolvimento, também é Ágape (compaixão), e nos ajuda a responder com Eros até que a fonte desse Ágape seja nosso próprio nível de desenvolvimento, nosso próprio eu. O Ágape de uma dimensão superior é a atração ômega para nosso próprio Eros e nos convida a ascender por meio da sabedoria, expandindo, assim, o círculo de nossa própria compaixão por mais e mais seres.
    Quando Eros e Ágape não estão integrados no indivíduo, Eros aparece como Phobos e Ágape aparece como Tanatos.
    Isto é, o Eros não integrado não se alça simplesmente ao nível superior transcendendo o inferior; ele aliena o mais baixo, reprime o mais baixo – e faz isso por medo (Phobos), medo de que o mais baixo vá “arrastá-lo para baixo”; sempre é o medo de que o inferior irá “contaminá-lo”, “sujá-lo”, “puxá-lo para baixo”. Phobos é Eros que foge do mais baixo, ao invés de abraçá-lo. Phobos é a Ascensão divorciada da Queda. E Phobos, como se pode ver, é a força última de toda repressão (uma transcendência rançosa).

    E Eros conduz os que apenas Sobem
    Em seu desejo frenético de um “outro mundo”, seus esforços ascendentes de Eros, que de outra forma seriam tão apropriados, são atravessados com Phobos, com repressão ascética, com negação, medo e aversão de qualquer coisa “deste mundo”, uma negação da força vital, da sexualidade, da sensualidade, da natureza, do corpo (e, sempre, da mulher).
    São pessoas perigosas, esses Ascendentes, pois a mão violenta de Phobos espreita sempre, por baixo do “amor” pelo mais alto que eles professam frente a tudo e a todos. Com lágrimas correndo pela face e olhos voltados para o alto, esses Ascendentes estão prontos a destruir este mundo – ou, no mínimo, relegá-lo à morte – para chegar à Terra Prometida, uma terra que, por muito vagamente que possa ser de fato concebida, é entendida de forma clara o suficiente para ser qualquer coisa menos esta terra, definitivamente não este mundo, que é sombrio até a medula, é profundo engano; ilusão na melhor das hipóteses, demoníaco, na pior. Os Ascendentes estão destruindo este mundo porque é o único mundo que eles estão certos de que desprezam inteiramente.
    Tanatos, por outro lado, é a Queda divorciada da Ascensão. É o mais baixo fugindo do mais alto, a compaixão enlouquecida... Em outras palavras, Tanatos é Ágape sem Eros.
    E Tanatos conduz aqueles que apenas Descem
    São pessoas perigosas, esses Descendentes, pois em nome de Ágape e da compaixão, que de outra forma seria tão apropriada, eles erradamente destroem tudo o que é mais alto, em uma tentativa frenética de abraçar o mais baixo. E o que é mais perigoso ainda: em sua tentativa de transformar este pobre mundo finito em um mundo de infinito valor – e cada Descendente faz exatamente isso de mil maneiras diferentes – eles lenta, dolorosa e inevitavelmente destroem este mesmo mundo, porque colocam sobre ele um peso que a pobre besta jamais poderia carregar. Os Descendentes estão destruindo este mundo porque é o único mundo que eles têm.
 
Artigo publicado originalmente pela revista Parabola (1995, Volume 20, nº 4)
Parabola é uma publicação trimestral da Society for the Study of Myth and Tradition,
dos EUA, dedicada a “Mito, Tradição e Busca de Significado”: www.parabola.org
    
Contato com a tradutora
Bete Torii
- btorii@uol.com.br
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