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18 de setembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Cartas para Perséfone
Júlio Soares
O tarô mitológico é um dos meus favoritos devido às analogias entre as cartas e mitos. A função deste texto é demonstrar que, apesar das cartas e mitologia serem análogas, a comparação entre seus universos não deve ser limitadora.
O Tarô Mitológico é, sem dúvidas, uma das grandes obras e um dos maiores nomes dos chamados tarôs transculturais. A forma como as cartas são explicadas através da simbologia dos mitos gregos demonstra o poder dos arquétipos no mundo; não importa por qual meio. Porém é comum a generalização: uns acreditam que toda a complexidade das cartas pode ser resumida em um mito/significado; enquanto outros limitam o mito em uma carta. Tal coisa faz da analogia, que serve para aprofundar os conhecimentos que nos são passados tanto pelas cartas quanto pelos mitos, um simples resumo.
Prosérpina de Dante Gabariel Rossetti
Proserpina
Pintura de Dante Gabriel Rossetti
A função deste texto não é denegrir a imagem deste ou aquele baralho, mas sim demonstrar que, apesar das cartas e mitologia serem análogas, a comparação entre seus universos não deve ser limitadora tanto para o mitólogo quanto para o tarólogo.  Uso aqui, como exemplo, o mito do rapto de Perséfone, para demonstrar como o tarô abrange situações de imensa complexidade, e como os mitos são muito simbólicos para serem simplesmente resumidos. Contudo, não desejo, através deste texto, fazer uma comparação direta entre o tarô e o mito de Perséfone, e sim usá-lo para demonstrar que afirmar que "carta x é o mesmo que o mito x" é uma forma de encurtar a narração e os arcanos que perduram há milênios, fazendo com que estes percam toda a sua complexidade. Uma história inteira não pode ser resumida em uma moral, assim como as cartas não podem ser definidas por uma simples palavra-chave. Da mesma forma não farei a interpretação de todo o mito pelas cartas, pois isso tomaria todo o espaço do texto e o mesmo teria de ser dividido. Aqui meu foco é no Rapto, o Luto de Deméter e a Transformação de Perséfone, ou seja, o momento em que ela come o romã e o acordo é firmado. Usarei três arcanos maiores para falar dessa história, mas tenho a consciência de que maiores detalhes poderiam ser reunidos com mais outras tantas cartas (sejam arcanos maiores ou menores). Minha tentativa é demonstrar como um mito e como o tarô são infinitos em suas interpretações, e, por isso, aceito o fato de que, ao encurtar a narrativa, corro o risco de resumi-la e tornar-me o alvo de minha própria critica.
Koré (donzela, em grego), filha de Deméter a Zeus, é a Deusa das flores, frutos, perfumes, ervas e estações do ano. Hades¹, Deus do Submundo, ao ver a bela filha da Senhora da Agricultura, se apaixonou. Logo pediu para que Zeus aprovasse seu casamento com Koré, que consentiu sem consultar a sua mãe. Koré estava em Enna, na Sicília (Itália), colhendo narcisos² com ninfas às margens doLago de Pergusa, quando foi surpreendida pelo Deus que, impaciente, surgiu debaixo da terra e raptou-a, a levando para o submundo e fazendo dela sua rainha.
Deméter, que é Deusa da fertilidade da terra, em tristeza pela perda de sua filha, passou a descuidar de seus afazeres - tudo o que podia fazer era chorar e procurar em vão por Koré. A terra, então, pela primeira vez, conheceu a escassez. Ao encontrar Hécate (Deusa da Magia e das encruzilhadas) e Apolo (Deus-Personificação do Sol e da Profecia), a mesma soube que sua filha fora raptada e feita rainha por Hades. Com a ajuda de Hermes, ela chega ao submundo, determinada a recuperar Koré. Ao chegar lá, porém, descobre que sua filha havia comido seis sementes de romã e, portanto, não havia rejeitado Hades por completo. Koré agora era Perséfone (aquela que destrói a luz, em grego), a sombria rainha ctônica. Foi então feito um acordo em que Perséfone permaneceria seis meses com seu esposo, presidindo ritos fúnebres e ajudando as almas dos mortos, e seis meses em que retornaria à terra, cumprindo suas funções de Deusa das flores. O mito de Perséfone representa as estações anuais e, em um nível mais interior, as mudanças relativas à maturação sexual e as questões de adaptação e retomada por cima de uma situação não prevista.
O Rapto de Proserpina de de Luca Giordano
O Rapto de Proserpina
Pintura de de Luca Giordano
A Donzela viu seu mundo cair terra abaixo quando, do nada, o chão se abriu e de dentro da fenda saiu o poderoso Deus Hades, raptando-a de imediato. A imagem representa a quebra da realidade, a transformação brusca que força a própria Koré a mudar através da destruição de seu mundo. Na antiguidade os ritos de casamento costumavam ocorrer perto do final do outono, em harmonia com os ritos de vegetação cretenses. Era comum que, antes do casamento, as noivas corressem em fuga, enquanto os noivos fingiam que iriam raptá-las. Elas gritavam e se agarravam às mães, e tais rituais simbolizavam a Morte de sua imaturidade como mulheres e da ligação com suas mães.³
No caso de Koré, pela quebra da imaturidade ter se dado de forma tão abrupta, a carta que mais se assemelha a tal situação é A Torre, arcano da mudança brusca e inesperada. Na mitologia, Perséfone era impossibilitada de casar ou ter qualquer tipo de romance com os diversos admiradores (entre eles Deuses como Hermes e Apolo) devido ao fato de que sua mãe era muito apegada à filha. No arcano XVI, vemos, entre diversos simbolismos, os raios multicoloridos que derrubam a torre. Tais imagens representam uma influência direta e inegável do Divino, do Destino, etc. É algo além de nossa compreensão - no caso da filha de Deméter, os "raios" vieram de baixo, da terra - o local que mais lhe era seguro. Nem mesmo sobre as planícies de sua mãe ela poderia mudar o seu destino. Sua transformação era inevitável - a Torre sempre cai. 
Na Morte, ou Arcano Sem Nome, encontramos o aspecto que representa o que passou a mãe de Koré ao saber do rapto de sua filha. Envolta em tristeza e revolta pelo fato de a terra ter-se aberto e engolido a filha para suas entranhas, Deméter proferiu a maldição que cessava os frutos e fertilidade dos prados - parara de executar seu trabalho divino, dando vida ao primeiro inverno. A Morte representa o desapego, as mudanças doloridas porém necessárias. Aqui há em Deméter uma necessidade de desapegar do idealismo que envolve sua relação com Koré. Ela não tem controle sobre as mudanças naturais, sobre a maturação que ocorre em sua filha. Também fala a Morte em escassez e dificuldades, coisas que se associam diretamente com a situação da própria terra durante o luto de Deméter. 
Perséfone, ao comer a romã - fruta que representa o mergulho total em sua feminilidade, a descoberta do Sagrado Feminino, torna-se A Sacerdotisa. As virtudes dos magos são quatro: querer, saber, ousar e calar. Perséfone, como a Sacerdotisa, é aquela que conhece a importância do silêncio. A Deusa é vista na mitologia como alguém distante (embora não insensível, pois existem mitos em que a mesma favorece os mortais por compaixão), impassível, não afetuosa. A Sacerdotisa é a mestra da magia, e esta, por sua vez, insinua. É um convite para as sombras. Ela mostra, através de seus atributos, ser rainha de um reino vasto, fértil e cheia de conhecimentos que mal podemos imaginar - mas jamais revelará seu segredo. Para que você faça o mesmo, deve enfrentar a descida ao Hades - ao invisível que habita em você. Perséfone, como a Sacerdotisa, não inicia ninguém diretamente; diferente da figura do Hierofante, que mostra a transformação espiritual e fala dela de forma pública, iniciando seus discípulos sem segredos.
A Sacerdotiza, a Morte e o Hierofante no Tarô Mitológico
Cartas do Tarô Mitológico
É importante ressaltar que a confusão simbólica se deu de forma extremamente mais intensa com o lançamento do Tarô Mitológico, em 1988, concebido pela psico-terapeuta Juliet Sharman-Burke em parceria com a astróloga Liz Greene. A proposta do Tarô Mitológico é justamente fazer uma comparação e análise das cartas com os arquétipos Junguianos, e, nesse sentido, o baralho da dupla é realmente um sucesso. Um dos grandes problemas é que o Tarô Mitológico foca-se somente na questão arquetípica, sem dar quase nenhuma atenção aos símbolos que compõem o tarô. E não apenas isso: como também tende a encaixar as cartas em função dos mitos, o que limita muito a leitura dos arcanos, principalmente dos menores. A explicação para as cartas fala apenas na relação mito x arquétipo, o que, no estudo do tarô, é prejudicial. Alguns elementos simbólicos dos tarôs clássicos encontram-se nas cartas do tarô mitológico, mas parecem apagados, como se não importassem. Para as autoras, o importante é o mito e sua representação - mas no mundo do "verdadeiro tarô", o que faz o significado é o seu conjunto de significantes. Não há um estudo completo entre os componentes como as coroas, os cetros, os tronos, espadas, todas as coisas que fazem do tarô o que é. E isso é extremamente nocivo para o estudo dos arcanos - afinal, o Tarô Mitológico tornou-se popular desde o seu lançamento, abrindo um leque enorme de interessados pelo tarô. Mas aqueles que iniciam seus estudos pelo tarô mitológico e não expandem ou tampouco buscam entender o que faz do tarô o que é, observando apenas do ponto de vista das suas autoras, perdem a capacidade de discernimento e um grande leque de possibilidades interpretativas, confundindo mito e símbolo, que, apesar de dialogarem, não devem tomar o lugar um do outro.
Não são poucas as vezes em que, em um workshop ou mesmo papo casual sobre o tarô, alguém me diz que prefere o Tarô Mitológico por ser mais fácil de ler. Tarô não é "fácil", afinal, para aprender a sabedoria dos arcanos requer-se muito estudo e paciência, e, mesmo com imensa sabedoria e anos de experiência, um tarólogo não vai saber tudo sobre o tarô nunca. O tarô é composto de símbolos, e estes, por sua vez, mudam a todo instante. Determinada imagem que um dia significou certo atributo pode mudar, e o tarô reflete isso. Não é à toa que temos milhares de baralhos diversos onde os clássicos bastões segurados pelo Mago são substituídos pelos mais diferentes objetos, sem mudar a sua significação. Ou, então, não em diferente proporção, os mesmos símbolos são lidos de maneiras diferentes a cada segundo. Quem fez e quem faz o significado das cartas é o tarólogo - nunca houve manual, lista de significados prontos para o tarô. Tudo o que sabemos hoje é fruto de séculos de estudos envolvendo história, religião, linguagem, semiótica e intuição daqueles que um dia tiveram em suas mãos essas 78 cartas.
Portanto, dizer que o Tarô tal é fácil de ler é uma forma limitadora de tratar esse oráculo, e, na minha opinião, desrespeitosa. Da mesma forma, muitos acreditam saber ler as cartas apenas por terem visto materiais que dizem coisas como "O Mago significa começo", como se os arcanos seguissem alguma receita mágica ou manual de instruções. As possibilidades de leitura dos significados do tarô, como um oráculo do estar, são tão mutáveis quanto o olhar de quem o manuseia. Dizer que a Sacerdotisa significa imersão espiritual apenas por que Perséfone teve de lidar com o Hades é simplório, e não leva em conta todos os diversos estudos tanto sobre o tarô e sobre os mitos/histórias nele representadas. O Tarô Mitológico, e todo outro tarô é uma excelente ferramenta. Mas eu repito, a generalização, o resumo forçado, apenas corta as incríveis possibilidades que este oferece. Seja um tarô transcultural, seja qualquer outro, há uma história mais antiga por trás. Pesquisem, leiam, aceitam todas as visões e o tarô se mostrará um verdadeiro espelho da alma.
 
Notas:
¹: algumas versões do mito falam que a paixão súbita de Hades por Koré foi obra de Afrodite, que desejava expandir seu território, fazendo com que o amor alcance mesmo o reino dos mortos.
²: segundo algumas versões do mito, também na companhia de Atena e Artémis. Também há versões em que Aretusa estava lá.
³: BRANDÃO, J.S. Mitologia Grega (ed. Vozes; 1986) 
Julio Soares, tarologo, oferece consultas e workshops
em Porto Alegre : www.facebook.com/tarotisfun
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 22/01/2016
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