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12 de novembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Numerologia e Tarô
Constantino K. Riemma
A Numerologia, sistema simbólico milenar ligado aos ensinamentos tradicionais, é uma fonte imprescindível para a atribuição de significados às cartas do Tarô, conjunto simbólico mais recente, criado por volta do século XIV.
Algumas correlações entre essas duas linguagens simbólicas estão consolidadas. Por outro lado, existe uma grande variedade de aplicações particulares, nem todas com o mesmo nível de adequação e que devem ser bem avaliadas antes de as adotarmos ou não. Delineamos, a seguir, um cenário das correlações entre numerologia e tarô.
As quarenta cartas numeradas: os naipes e os números.
Para dar um significado simbólico às quarenta cartas numeradas do baralho, contamos com a combinação de duas referências fundamentais: os quatro elementos e os símbolos numéricos de 1 a 10.
Os quatro naipes são naturalmente associados aos quatro elementos da cosmogonia ocidental e da astrologia: Fogo (naipe de Paus), Terra (naipe de Ouros-Moedas), Ar (naipe de Espadas) e Água (naipe de Copas-Taças). Estudos sobre a quadruplicidade podem ser linkados no Clube do Tarô: Arcanos Menores/Os quatro naipes
Representaçõs geométricas dos núemros
Glifos representativos dos quatro elementos e os ases de cada naipe:
Fogo-Paus,  Terra-Ouros,  Ar-Espadas  e  Água-Copas.
Ilustrações: glifos no www.cartoondistrict.com e cartas do Tarot Jean Noblet (1650)
Quanto aos atributos das cartas de 1 a 10 de cada naipe, contamos basicamente com referências numerológicas. Além das fontes ocidentais sobre a simbólica dos números, em tratados gregos e romanos, dispomos também de associações com os significados dos dez sefirot (ou emanações de Ain Soph) da Árvore da Vida na tradição cabalista.
Para quem quiser ir além do receituário simplificado que aparece na maior parte dos manuais sobre os arcanos menores e estiver disposto a refletir sobre a aplicação dos símbolos numerológicos, sugiro o texto de Maela & Patrick Paul, disponível na Biblioteca Digital do Clube do Tarô: O número vivo. O canto sagrado das energias.
Representaçõs geométricas dos núemros
Exemplos de representações geométricas dos números aplicáveis às cartas do baralho
Ilustrações em O número vivo. O canto sagrado das energias. Texto de Maela & Patrick Paul
Sobre as correlações cabíveis entre a Árvore da Vida e as cartas do tarô exitem vários textos introdutórios na seção Simbologia/Cabala do Clube do Tarô. Mas não custa lembrar a quem deseja dar um passo além, que o melhor caminho é consultar diretamente as fontes da própria tradição judaica, como é o caso do livro Numerologia Judaica e seus Mistérios de David Zumerkorn, Ed. Maayano.
As conexões de linguagens simbólicas tradicionais com o baralho, de fato, não são fáceis de serem estabelecidas com todo rigor. Na prática, nos deparamos com os diversos níveis de correlações que, no caso do tarô, variam de um receituário restrito, marcado por um ou outro detalhe factual até, o que é bem mais raro, tratados que se apoiam em fontes consistentes de significados simbólicos. Tem de tudo!
Nos tarôs clássicos, as cartas numeradas dos naipes variam apenas pela quantidade de figurações do respectivo naipe, de 1 a 10 objetos (confira os desenhos antigos na Galeria do Clube do Tarô). Já a tendência moderna de substituir as abstrações numéricas por figurações e cenas, tem levado a incontáveis desvios e aberrações.
É surpreendente, por exemplo, a distorção simbólica cometida por Arthur Edward Waite em seu baralho ao dar figurações para o naipe de Espadas. De que fonte teria ele bebido para supor que a combinação do número 10 com o elemento Ar (Espadas) resultaria em um homem assassinado com dez espadas cravadas em suas costas?! O que nessa cena do seu baralho tem a ver com o 10 — retorno à unidade — e com o Ar — signos de Gêmeos, Libra e Aquário, significadores de interação, diplomacia e inteligência?
Cartas de Espadas inspieradas pelo Waite
Oito, Nove e Dez de Espadas copiados ou redesenhados do Rider-Waite Tarot.
Seus pesadelos simbólicos tornaram-se padrão de referência no mundo da Internet.
Delírios como esse não faltam nas recriações subjetivas que existem aos milhares no mercado das cartas, mas que poderiam ser evitadas se fossem utilizados os fundamentos numerológicos, tais como os recapitulados em O número vivo de Maela & Patrick Paul e no Numerologia Judaica de Zumerkorn.
Ao pesquisarmos imagens das cartas na Internet veremos que o maior volume de referências nos serviços de busca reproduzem cartas do Waite Tarot e de seus imitadores. Fica evidente que as distorções do famoso tarólogo inglês vieram para ficar.
Os números e os 22 arcanos maiores
A compreensão simbólica das figurações dos arcanos maiores pode ser feita diretamente pelas imagens das cartas, sem necessidade do apoio da linguagem numerológica. É o que ocorre usualmente, inclusive nos grandes tratados sobre esses arcanos.
A sequência dos números nas cartas dos arcanos maiores não é tão clara como nos arcanos menores e, por essa razão, as associações não são imediatas. No entanto, pode ser muito esclarecedor o exercício de estabelecer paralelos simbólicos entre a sequência dos números e a ordem dos arcanos maiores, em especial com apoio de textos coerentes. São também estimuladores os exercícios combinatórios de Oswaldo Wirth.
Vários recursos numerológicos cabem no estudo dos arcanos maiores e nos ajudam a estabelecer ressonâncias entre as cartas. Por exemplo, a redução do número da carta O Julgamento (20 -> 2+0=2) nos leva à Papisa: as duas cartas evocam, de fato, componentes comuns de acolhimento, reflexão, avaliação. O Sol (19) por sua vez se reduz a 10 (1+9) que de sua parte se reduz ao 1 (1+0), operação que coloca em linha três cartas de movimento, de tomada de consciência das leis cósmicas e de criatividade: Sol, Roda da Fortuna e Mágico. A Temperança (um anjo) se comunica com o Papa (14 -> 1+4=5), dois arquétipos da manifestação do Mais Alto no plano terrestre.
Sol, Roda da Fortuna e Mágico
O Sol (19) se conecta à Roda Fortuna (1+9=10) que se liga ao Prestidigitador (1+0=1).
Um exemplo de exercício numerológico para apreciar sintonias simbólicas entre as cartas.
Ilustrações do Tarô de Marselha-Camoin-Jodorowsky
Outro paralelo simbólico para elucidar os arcanos maiores pode ser feito com as 22 letras do alfabeto hebraico (que também têm sentido numerológico) associadas os 22 caminhos da Árvore da Vida. E aqui, mais uma vez, as divergências de entendimento aparecem: alguns autores começam o paralelo com o Louco (arcano zero) e, outros, com o Mago (arcano 1). Essa questão está documentada na seção Simbologia/Cabala no site do Clube do Tarô.
Linha da Vida
Existem várias técnicas para estabelecer correspondências entre operações numerológicas e as cartas do tarô. Um bom exemplo é a “Linha da Vida” que parte do cálculo dos valores numerológicos das letras do nome e da data de nascimento de uma pessoa. No Clube do Tarô estão disponíveis dois artigos com instruções para esse procedimento na seção de Simbologia/Numerologia. Um deles com o cálculo de cinco cartas para indicar a “linha da vida” e, outro, com a inclusão de uma sexta carta de síntese.
O "arcano do ano" em xeque
Nos artigos de previsões anuais é muito comum a redução numérica do ano, por exemplo, 2016 -> 2+0+1+6 = 9. Nesse caso se considera o arcano 9. O Eremita, como a referência simbólica para o ano em questão.
As reduções numerológicas dessa natureza são usuais. Mas no caso do “arcano do ano” esse procedimento tem caráter vicioso. Ao ser utilizado em toda extensão do século 21, de 2000 a 2099, deixará de lado três cartas:  0 ou 22 (o Louco),  1 (Mago) e 21 (O Mundo), pois nesse período nenhum valor anual dará redução para os números desses três arcanos.
2016
Um caminho discutível para identificar com rigor os atributos do ano
Ilustração de Daniel Cipolat
Esse modo de escolher um arcano representativo do ano, só levará uma única vez em conta, no transcurso de 100 anos: a carta 2 (A Papisa) no ano 2000 e a carta do Julgamento (20) em 2099. Mais grave, ainda, é o caso da carta 1, que só aparece nos anos 1.000 e 10.000, ou seja, O Mago só dá as caras duas vezes no transcurso de nove milênios...
Basta continuar fazendo as contas para ver que esse procedimento é vicioso e que, se for utilizado como recurso único para sugerir o clima anual, está longe de dar espaço equitativo para todas as cartas dos arcanos maiores. Enquanto algumas cartas ficam excluídas, outras aparecerão em todos os decênios de 2.000 a 2.090, como é o caso do número 11. A Força. Trata-se, obviamente, de uma técnica de “cartas marcadas”... É uma opção contraditória com a prática de sorteio das cartas, em que todas elas têm a mesma probabilidade matemática de sorteio numa tiragem pessoal ou coletiva.
Em suma...
Os símbolos numerológicos são indispensáveis para traduzir as 40 cartas numeradas dos arcanos menores e para enriquecerem nosso entendimento dos arcanos maiores. No entanto, as várias aplicações de recursos numerológicos ao tarô precisam ser avaliadas com atenção, para não cairmos em práticas limitadoras, como é o caso da escolha de um arcano para representar um período de tempo, apenas pela redução do número do ano.
Constantino K. Riemma - ckr@clubedotaro.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 30/01/2016
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