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20 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Sobre o tal “arcano do ano”
Ivana Mihanovich
Discussões acadêmicas demais me entediam, admito. Eu larguei USP e PUC por outras razões, mas é fato que ali me engalfinhei em diversos embates pela forma destituída de pessoalidade que a abordagem acadêmica esperava de mim. E, especialmente em relação a assuntos tão dificilmente comprováveis empiricamente, como é o caso do tarô, acho esse debate um tanto híbrido, mas, sem dúvida, pode render trocas interessantes. Porém, um assunto como esse nos impede a brevidade e, assim, não estou certa de que muitos tenham real desejo de ler as ideias de todos. Tentemos, porém. É a contribuição que me atrevo a dar.
Antes de tudo, penso que o embasamento formal ou intelectual é essencial na formação de um bom tarólogo, como o é na formação de qualquer profissional. No entanto, isso não pode, absolutamente, pretender ser a forma exclusiva ou definitiva de dar vereditos de leitura nos caminhos onde o Imponderável tem uma participação cuja interferência é inegável. Se Hidrogênio e Oxigênio resultam em água, é coisa que se comprova em laboratório e que se pode repetir ad nauseam, sempre com o mesmo resultado, admitindo-se ou não a presença de algo não mensurável (como psique, deuses, destino etc).
Pensamento acadêmico vs. pensamento simbólico
Pensamento acadêmico vs. pensamento simbólico
Ilustrações em https://symsys.stanford.edu e www.media.photobucket.com
Mas se a presença da Sacerdotisa num jogo implicará em parto ou se será só uma gravidez sem garantia de ser levada a termo, ah, bem, isso dependerá de diversos outros fatores. Incluo aí os outros arcanos presentes, bem como o exercício da Filosofia e a consideração de diretrizes da Psicologia, já que o peso disso, em especial o Inconsciente, é, como disse Jung, a maior das forças (seja ela considerada ou desprezada pelo tarólogo, sinto dizer). E isso não se pode comprovar de forma cabal e muito menos analisar cientificamente, posto que seria praticamente impossível repetir os fatores e suas variáveis, bem como a psique daquele específico cliente.
Para mim, a riqueza do tarô está no fato de que seu estudo é infinito e, o mais belo, de que ele se revela para além das cartas. Inclui a mágica daquele específico momento da leitura, mas inclui também a percepção daquela exata soma entre o momento do cliente, o momento do tarólogo e a apresentação lúdica, psíquica ou espiritual das cartas. A cada leitura a Sacerdotisa apresentar-se-á diversa; seus atributos essenciais ali sempre estarão, mas suas nuances, e, portanto, suas indicações, serão determinadas pela somatória de todos esses fatores. Porém, devem, creio, ser acrescidos também da consideração ou inclusão, como fator ou possibilidade, do Invisível, dos Mistérios ou do nome que cada um queira dar ao que está fora de nosso controle. Descartar essa variável, a meu ver, torna o tarô uma ferramenta medíocre, para não dizer que simplesmente rouba-lhe a acuidade.
Existirá alguma exigência de que para ser excelente o tarólogo saiba discernir entre os estudos de Eliade e de Campbell? Ou que conheça a fundo Freud, Jung, Adler, Wertheimer e a Gestalt, Skinner e o behaviorismo? Ou que estude profundamente Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, Aristóteles, Santo Agostinho? Ou que saiba citar Poe, Baudelaire, Pessoa, Cortázar, Proust ou Beauvoir? A meu ver, não. Estudar tudo isso e muito mais é algo maravilhoso e amplia mentes e horizontes, sem dúvida. Faz de você uma pessoa mais requintada (no bom sentido) e um oraculista com mais ferramentas na mão, indiscutivelmente. Mas conheci cartomantes cuja explicação para a forma como liam era totalmente destituída de coerência, para dizer o mínimo. No entanto, suas leituras eram acuradas e, mesmo simples na sua forma de abordar um assunto, retinham aquela sofisticação cristalina presente no instinto. A coisa toda acaba em que há Loucos que leem tão bem ou melhor que Eremitas, Sacerdotisas ou Papas. Talento faz parte dos Mistérios: refina-se com estudo, mas o talento, per se, é infalível e o talentoso simplesmente independe.
O Arcano do Ano
Pedem-me que apresente minha forma de ver a questão do arcano do ano. Já falei sobre isso em outras ocasiões, mas penso que seria melhor enfatizar que sou intuitiva (o que absolutamente não significa vidente, sensitiva etc, é bom lembrar) e que minha abordagem com o tarô dá-se pelo estudo formal desde 1989, mas mais, muito mais, pelas conclusões calcadas em reflexões, vivências, observações e, evidentemente, pela corroboração ou não que o feedback dos clientes tem me dado ao longo dos anos. Não descarto, claro, o fato de que minha curiosidade natural e uma família extremamente ligada ao gosto do exercício intelectual levaram-me a ler muito, mas atesto que agregou mais às minhas reflexões o que li à parte do assunto em si, do que o que li sobre tarô, simbologia ou oráculos em geral (à exceção, arrisco, do livro de Sallie Nichols, que, a meu ver, elevou a teoria do tarô em vários degraus, intelectualmente falando). O tarô é (e creio que sempre será) um campo vasto onde toda colaboração se faz necessária, mas que, antes, pede a ausência de preconceitos entre os estudiosos. Ausência essa que o próprio tema exige, ou seremos nós os que demonstraremos falta de coerência.
A soma habitual (no caso deste ano 2+0+1+6 = 9) não me satisfaz. Simples. Ponto. É a soma que a maioria dos tarólogos usa para calcular o arcano do ano e ela sempre – sempre – me pareceu ineficaz, não por ser descartável, mas por ser incompleta e, a meu ver, simplista. Eu acato essa soma como uma vibração latente, concomitante ao que considero o arcano tônico, mas uma latência esmaecida. Dizer que o ano passado foi o ano da Justiça, por exemplo, parece-me uma forma superficial de aplicar o tarô na análise e na observação da vida. Sim, 2015 foi um ano com inúmeras questões jurídicas, sem dúvida. Corrupção escancarada, uns poucos corruptos presos, ameaças à laicidade do Estado, indicações de impeachment etc. No mundo, tivemos as tensas questões sobre imigração, por exemplo. Mas a verdade dos fatos é que, por mais que muitos prefiram negar, tudo acabou em pizza no pretenso ano da Justiça.
O arcano VIII trata da honra, da correção, das consequências, do olhar isento e responsabilizações etc. Podemos realmente afirmar que no alegado ano da Justiça ela aconteceu? Para mim, que considero 2015 como o período cuja tônica foi o XV, O Diabo, a questão parece infinitamente mais coerente quando admitimos seus atributos evidentes: a egolatria por trás das intenções; a astúcia, inclusive na forma de lidar ou de livrar-se das sanções jurídicas; a violência nas repressões às manifestações públicas; o dinheiro astronômico dos roubos públicos, as loterias duvidosas, a dificuldade de distinguirmos entre o falso e o verdadeiro. Mas, o mais importante: a dualidade radical entre petistas e não petistas, entre feministas e machistas, entre homofóbicos e pró diversidades, entre anti-islâmicos e pró islâmicos etc. À parte a ação dos estudantes em São Paulo, que usaram seu poder pessoal de forma criativa e unidos, porém sem a perda da individualidade  – uma face luminar do arcano XV – de resto vimos muito mais a divisão e o fanatismo da radicalização. Um “racha” típico do Diabo na sua parte mais sombria, com o desafio implícito de que nos víssemos como uma tribo única, cujo inimigo é comum, em vez de nos dividirmos entre os pró ou anti, alimentando, pela separação, a força da real besta que arrocha a todos nós. Uma cizânia que é a cara negativa desse arcano e cujo resultado caótico o fez, creio, gargalhar, enquanto lixava o casco.
A partir do ano 2000, e reiterando que não posso simplesmente desconsiderar o Zero, já que ele representa meu Louco, o que percebi é que começaríamos, como humanos, uma nova etapa, espiritual e psiquicamente. O 20 inicial apresentou-se, portanto, como o indicativo dessa nova etapa: renascimento, reflorescimento etc – os atributos do Julgamento. Mas, mais importante, algo que a mim parece claríssimo nesse arcano, ele aponta a necessidade de entendermos nossas partes desconexas, integrá-las e compreendermos quem realmente somos, para podermos sê-lo, finalmente.
[OBS: Fica claro que não retroagi essa ideia a séculos anteriores, uma vez que seu sentido seria totalmente diferente. Anos do século passado, por exemplo, teriam como etapa humana o Sol, 19. Pode-se desenvolver uma tese interessante sobre isso, já que realmente foi o século da busca de sucesso, por exemplo. Porém, meu insight deu-se pela meditação do caminho da humanidade dentro do contexto do advento de um novo século e essa outra pesquisa, embora atraente, até agora não me interessou.]
Os outros números seriam a ferramenta com a qual lidar naquele período, na busca desse “objetivo do novo século”. Assim, os anos 2000, para mim, trazem os embates necessários à mudança que a humanidade necessita, se é que quer aqui permanecer. Portanto, trazem (como vem fazendo) o fim dos padrões obsoletos de economia, sexualidade, células familiares, caminhos profissionais, formas de moradia e de consumo etc. E cada ano indica, nos outros números, com qual parte (nossa, interna, arquetípica) lidar para atingirmos essa mudança. Essa tem sido minha pesquisa, que vem se mostrando regularmente coerente e coesa. Mas meu olhar é, como já disse, do micro para o macro; do indivíduo para o grupo. Essa busca de si mesmo e da fidelidade a isso importa-me mais do ponto de vista individual do que coletivo.
Na verdade, eu não dou muito peso ao arcano do ano no sentido político ou coletivo, já que escolher um único arcano como “regente” para toda a Terra, parece-me, no mínimo, um tanto prepotente. Podemos falar dos belgas e dos aborígenes usando um único denominador? Para mim, isso é um contrassenso. Posso ver no arcano tônico indicações e tendências e ele contará como um dado de importância, quando e se eu me atrever a analisar eventos em um determinado país, por exemplo. Mas penso que seria ridículo pretender que uma única carta demarque ou possa prever, real e definitivamente, todos ou quase todos os acontecimentos mundiais.
De qualquer forma, como já coloquei antes, há excelentes autores (alguns com todo o bom peso do academicismo, aliás) tratando dessas questões. Meu trabalho, minha missão, minha realização, o meu 20, enfim, é no tête-à-tête. Para mim, importa infinitamente mais auxiliar cada cliente para que caminhe em direção a esse encontro, a essa percepção de quem realmente é e, então, ajudá-lo a saber quais ferramentas utilizar nesse autoacolhimento, evolução ou libertação. Nem eu nem meu tarô acreditamos em previsões ou soluções macro, enquanto não houvermos evoluído e refinado os micros que o compõe.
Ivana Mihanovich é escritora, taróloga, publicitária. Publicou um livro
sobre o tarô e mantem o blog de conteúdo: www.tarotluminar.blogspot.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
Edição: CKR – 31/01/2016
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