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22 de fevereiro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


O Guia Silencioso
Os Problemas decorrentes de localizar a Espiritualidade na Psique
Pe. Bede Griffiths
 
 
Bede Griffiths (17.dezembro.1906 - 13.maio.1993), nascido Alan Richard Griffiths na Inglaterra, de pais anglicanos, é também conhecido como Swami Dayananda (Bem-aventurança da Compaixão). Estudou em Oxford e após a Primeira Guerra Mundial entrou para
Pe. Bede Griffiths
 
a ordem beneditina da Igreja Católica Romana. Depois de uma longa estadia em três monastérios ingleses, em 1955 partiu para continuar sua busca espiritual como cristão entre os devotos aldeões hindus do sul da Índia. Lá dirigiu o Saccidananda Ashram, uma casa de orações e retiro (fundado por dois beneditinos franceses, Jules Monchanin e Henri le Saux) na bela zona rural no oeste de Tiruchirapalli nas margens do rio sagrado Cavery.
Diz o entrevistador, Marvin Barrett, por ocasião de seu encontro com Bede Griffiths: “Apesar de octogenário, ainda viaja por todo o mundo para se encontrar com grupos interessados em explorar os pontos comuns entre a religião oriental e a ocidental, e sua importância crucial uma para a outra. Em casa, está em geral trabalhando em algum livro, seis dos quais já foram publicados – entre eles os clássicos espirituais contemporâneos The Golden String, The Return to the Center e The Marriage of the East and the West (Templegate Publishers, Springfield, Illinois)”
A tradução dessa entrevista concedida a Marvin Barrett e publicada na revista Parábola foi revista e resumida por Bete Torii.
 
Marvin Barrett: O senhor tem uma definição do que significa o testemunho no contexto religioso?
Padre Bede Griffiths: Na meditação a pessoa tenta acalmar o corpo e os sentidos, acalmar a mente e tornar-se aquilo que é chamado "a testemunha silenciosa", a testemunha além da mente. Nós do Ocidente acreditamos que a mente é tudo, mas toda a prática oriental consiste em ir além da mente, até o ponto da testemunha silenciosa, onde você está testemunhando a si mesmo, onde se está além do ego, além do self.
A tradição hindu se fundamenta naquilo que o ocidente em grande parte já perdeu: que há três níveis. Há o nível do corpo e há o nível da mente, que o mundo ocidental pensa que é o fim. Mas além desses está o espírito. É o Atman, o pneuma, segundo S. Paulo, uma outra dimensão para onde vamos além da mente, dos sentidos e dos sentimentos, e onde estamos conscientes da realidade transcendente. E esse é o objetivo da vida, chegar a isso.
MB: Como o senhor vê o desenvolvimento da capacidade de testemunhar validamente? O que está envolvido nisso?
BG: O supremo exemplo disso no hinduísmo é o guru que é visto como capaz de despertar por completo uma pessoa. Mas acho que em quase todos os níveis pode haver compartilhamento – veja, nós influenciamos verdadeiramente a mente da pessoa com quem estamos conversando, e alguém que tenha ido além da mente consegue ajudar outros a irem além da mente.
MB: O guru último é a testemunha dentro de nós.
BG: Sim, mas isso é muito complicado, traiçoeiro. Pode-se atingir um nível bastante profundo de experiência, mas o ego está sempre lá, por trás. Ele sempre pode aparecer de novo, e às vezes você pode não reconhecê-lo. Há alguns gurus que são de fato bastante egoístas. Lembro-me de um guru muito conhecido, que eu respeito, falando que um outro guru era ego da cabeça aos pés.
MB: E quanto à dependência ou independência do testemunho em relação à fé?
BG: Eu vejo a fé como um despertar para a transcendência. Na perspectiva cristã, dizemos que Deus está além da razão, completamente além do mundo criado, e que é necessário abrir o coração e a mente para a transcendência. Em geral o transcendente se manifesta por meio de alguma tradição em particular. Isso parece ser onde as religiões diferem. Se você desperta para a transcendência na tradição budista você a chama Nirvana, e você entra para o Caminho das Oito Vias, e assim por diante. Se você for hindu você a denominará Brahma ou Atman e seguirá o caminho da ioga, e se for cristão a denominará Deus Pai e entrará no caminho de Cristo. Portanto, cada um é um caminho para o Supremo, tendo seu caráter próprio e único.
MB: O que o senhor vê como propósito e função da vida monástica em relação ao testemunho?
BG: Esse despertar pode ocorrer sob quaisquer circunstâncias, e ocorre. Mas, para que ele seja alimentado e cresça, a maioria das pessoas precisa de um tempo de reclusão. E muitos precisam não só de algum tempo, mas de toda a vida. Um monastério ou um ashram é um lugar que existe exatamente para permitir que as pessoas despertem e cresçam em sua consciência da transcendência.
MB: Em um período sensível de seu desenvolvimento.
BG: Sim. E pode ser temporário. No Budismo, particularmente, há o monacato temporário, e muitos de nós sentem que deveria haver o monacato cristão temporário. Mas em nossa tradição, em geral é para a vida toda. É necessário haver centros onde as pessoas possam encontrar essa experiência, e nesse centro é necessário que haja uma ou duas pessoas, pelo menos, que estejam completamente comprometidas com ele. O monge beneditino é uma
pessoa que está comprometida com essa busca, a experiência de Deus, e que cria centros onde outros possam encontrar isso.
MB: Com base em sua experiência, obviamente não é fácil estabelecer tal centro.
BG: E atualmente talvez seja mais difícil que nunca, porque a mente racional está assumindo o comando em todos os lugares. A ciência e a tecnologia fazem avanços incríveis, e as pessoas se tornam mais e mais absorvidas por eles. Isso está inteiramente no nível da mente racional, e as pessoas começam a pensar que não há nada além disso. Portanto, torna-se mais difícil agora. E muitas pessoas acham que aqueles que se retiram da atividade da vida são pouco equilibrados ou são escapistas. Mas duas coisas estão acontecendo. Uma é que o antigo sistema da ciência e tecnologia segue em frente, com seus desenvolvimentos maravilhosos, mas a outra é que houve uma ruptura na ciência, em
 
O recolhimento iluminador
Disponível na web, de Autor desconhecido
especial na física, e uma abertura para níveis mais profundos de consciência.
MB: Isso vem acontecendo há algum tempo.
BG: Isso vem acontecendo há algum tempo e sinto que esse movimento é a esperança para o futuro. Nesse sentido está ficando mais fácil, mas o movimento principal ainda é em direção ao avanço da tecnologia.
MB: O senhor acha que há uma tradição esotérica e outra exotérica do testemunho?
BG: Eu em geral não faço essa distinção tanto quanto algumas pessoas fazem. Particularmente no Cristianismo, sou mais inclinado a pensar que o esotérico existe dentro do exotérico. Não são dois movimentos separados. Muitas pessoas vêem somente a superfície da religião, mas sempre há quem consiga ver a profundidade interna dela. Acho que Agostinho ou São Tomás de Aquino estavam bem no centro da igreja esotérica e, entretanto, permaneciam com o exotérico.
MB: Sempre há, portanto, acesso...
BG: Sim. Sou cristão porque realmente acredito que dentro das igrejas católicas, não importa quão exteriores sejam, o Espírito Santo está sempre presente.
MB: E quanto à relação entre a moralidade e o testemunho?
BG: Isso é bem difícil. Mesmo um nível bem alto de experiência espiritual pode ainda deixar as pessoas sem muito desenvolvimento moral. Na verdade, faço aqui uma distinção entre o psicológico e o espiritual. Quando se entra no mundo da meditação, entra-se no mundo psíquico que está além do físico. Toda a parapsicologia está lá – clarividência, poderes de cura, e assim por diante – e esse mundo é ao mesmo tempo bom e mau. Você consegue passar além dele, para o espiritual, que transcende o psíquico e que é propriamente o mundo e reino do testemunho. Mas todo o vasto mundo psíquico está no meio e as pessoas podem ficar presas nele. E isso pode ser muito mau. Acho que um homem como Rajneesh tem um incrível poder psíquico – mas não é de maneira alguma um homem espiritual. Portanto isso é totalmente ambivalente – pode ser bom e mau. E é muito difícil separá-los.
MB: E quanto à testemunha em relação à compaixão?
BG: Isso é fundamental, penso eu. Quando se vai além da mente com todas suas divisões entre bom e mau, certo e errado, chega-se à compaixão infinita. Foram ultrapassados todos os limites e agora se pode ver tudo em uma perspectiva muito mais profunda. Acho que é quase o sinal de uma experiência espiritual genuína. Pegue o Budismo – é notável. Tem-se um vasto método de meditação e disciplina, e em seu centro há essa extraordinária compaixão. Normalmente, pode-se reconhecer um mestre genuíno – um mestre Zen ou um iogue hindu – exatamente por isso; quando se vê sua compaixão sabe-se que eles são genuínos. Quando não se vê a compaixão, são altamente suspeitos.
Embora haja diferenças. A compaixão budista não é o mesmo que a devoção e o amor hindus, que não é exatamente igual ao ágape cristão. Cada um tem seu caráter distintivo.
MB: O que o senhor vê em relação a dar o testemunho do que testemunhou dentro de si mesmo?
BG: Na Índia, estamos muito preocupados com todo o problema de pobreza e sofrimento, e há um sentimento muito forte – especialmente entre os cristãos, mas também entre os hindus – de que uma pessoa genuinamente espiritual deve se preocupar com os pobres e sofredores. Portanto isso se associa à questão da compaixão. Quando você penetra mais profundamente dentro de seu eu interior e descobre o mistério transcendente lá dentro, você se torna mais aberto ao sofrimento das pessoas, aos problemas do mundo. Temos tido uma tradição na Igreja Católica de separar a vida contemplativa da vida ativa. Algumas pessoas são ativas e vão para o mundo; algumas são contemplativas, deixam o mundo e meditam. Acho que é uma divisão artificial. O que realmente se quer é muito difícil. Há dois movimentos diferentes: um é se retirar do mundo em total recolhimento e silêncio; e o outro é ter, ao mesmo tempo, uma abertura horizontalmente. Portanto há um movimento vertical e um movimento horizontal, que têm um ritmo dual, uma polaridade que você tem que descobrir.
MB: Quem são aqueles que exemplificariam isso na tradição cristã?
BG: É bastante comum na tradição cristã, de fato; o próprio Jesus é a melhor de todas as testemunhas. Esquecemos algumas vezes que, enquanto seguia fazendo o bem, Ele também, ao mesmo tempo, estava em comunhão com o Pai. Jesus estava vivendo em comunhão com o Pai, esse testemunho interno, e a partir daí vinha todo o Seu trabalho, todos os Seus ensinamentos. É característico da tradição cristã, mas infelizmente nos últimos dois ou três séculos nos voltamos mais para o lado ativo e não há muitos testemunhos de uma experiência contemplativa realmente profunda.
Mahatma Ghandi
 
MB: Como o senhor distingue entre a investida missionária e o testemunho autêntico?
BG: Eu não vejo sentido em um tipo de testemunho evangélico que não é um testemunho do espírito. Como o Mahatma Ghandi costumava dizer, "você deve divulgar o Evangelho como uma rosa espalha seu perfume". Algo que vem de seu coração e de sua vida e de todo seu ser interior – aí sim, isso é convincente.
MB: Eu me pergunto sobre o testemunho em relação à auto-realização ou ao êxtase.
BG: A testemunha silenciosa: isso realmente é auto-realização. É encontrar o verdadeiro eu, que é a testemunha por trás do eu ativo. Eu sempre entendo isso no sentido cristão de espírito, da alma de São Paulo; que é a faculdade de Deus em cada ser humano. Há esse ponto do espírito além do corpo, além da alma
com todas as suas atividades; existe um ponto do espírito em que estamos abertos para Deus. É o ponto de nossa abertura para o Divino. E esse é o ponto de testemunho e auto-realização. O espírito é o princípio do eu: o eu divino manifestando-se no eu humano no ponto do espírito.
MB: E isso seria sinônimo de êxtase?
BG: Bem, êxtase tem dois sentidos, como você sabe. Um é quando você perde a consciência do corpo-alma e somente vivencia o espírito. Eu penso que muito mais normal é um despertar para o espírito, para a presença interior de Deus, enquanto permanecemos completamente conscientes dos níveis físico e psicossomático.
Em geral, quando as pessoas falam de êxtase querem dizer uma saída da consciência presente para um estado de transe ou algo parecido. Para mim é importante que a experiência de Deus, do verdadeiro eu, não destrua nem de forma alguma iniba o eu inferior, o organismo psico-físico que é seu meio de experiência e expressão. Você vai além dele, mas não o rejeita nem nega.
MB: E quanto ao corpo? Qual a sua função no testemunho?
BG: Eu me interessei particularmente por aquele número da revista Parábola, "O Corpo". Sinto que na visão cristã, que compartilho, o corpo tem grande importância. Há uma tendência, certamente em algumas formas de Hinduísmo, de pensar que o propósito dos exercícios espirituais é ir além do corpo. Mas no meu entendimento o ser humano é corpo-alma-espírito e é um todo integrado. Corpo e alma – o corpo é dependente da alma e integrado a ela, e corpo e alma são dependentes do espírito e integrados a ele. O corpo é parte da totalidade do ser humano. E é por isso que a encarnação é muito importante. Deus entra no reino psico-físico, assume-o e não o descarta. E na ressurreição o corpo não é descartado, é assumido na vida com a alma e o espírito.
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