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16 de julho de 2018

Responsável: Constantino K. Riemma


Alquimia e os Arcanos Maiores do Tarô
Glória Marinho
 
”Aquilo que é consciente para uma geração como o ápice do conhecimento, normalmente é considerado um absurdo para a geração seguinte, e aquilo que é visto como superstição num século pode formar a base da ciência no século seguinte”.
Paracelso, alquimista do século XV
 
Alguns anos atrás fiz uma terapia intitulada Aprendendo a Envelhecer. A psicóloga utilizou para tal finalidade o livro do Dr. Thorn Cavalli,  Pscologia Alquimica - receitas para viver num mundo melhor. Foi muito prazerosa e produtiva porque já conhecia os conceitos básicos da Alquimia.
Lendo recentemente o livro Alquimia e Tarô, de Robert M. Place, fui surpreendida com as várias correlações entre os autores, tendo como ponto de partida o Tarô nos conceitos utilizados nos dois sistemas dos autores acima citados. Pensando então na sincronicidade neles existentes, elaborei uma síntese utilizando um tripé com os seguintes livros: Jung e o Tarô, Psicologia Alquímica e Alquimia e Tarô – em busca, quem sabe, de uma teoria das inter-relações e correlações existentes entre eles. Gosto disso. Sou de estruturação Sintética. Acredito que partindo dos princípios básicos da Alquimia chegaremos ao entendimento de que estes princípios já existiam nos trunfos do Tarô antes mesmo de ser adicionada como uma interpretação.
Quaetro estágios do processo alquímico
As quatro cores, os quatro estágios do processo alquímico.
Ilustração original de Michael Maier, Atalanta fugiens, Oppenheim, 1618
No dizer do Dr. Thorn “A Alquimia é uma descoberta que envolve trabalho físico, psicológico e espiritual. Se qualquer um desses elementos for retirado do contexto segundo a tradição, a totalidade e o verdadeiro espírito da Alquimia estarão perdidos”.
No caso do Tarô o aspecto espiritual domina o cenário, mantendo o foco nos ensinamentos alquímicos como um meio de enriquecimento nas interpretações das cartas. Tudo vai depender da identificação do Tarólogo com os conceitos básicos da Alquimia. Já na psicologia esta correlação é vista na ação comportamental.
Tendo em vista o que nos diz Jung “O arquétipo é um símbolo que libera energia relacionada a uma imagem coletiva“ e seguindo a jornada de vida contida nos Arcanos do Tarô, a atenção estará também com a jornada alquímica e cada trunfo poderá ser conectado a uma etapa desta jornada. Assim sendo o Louco vai atuar como um alquimista neófito amadurecendo com o tempo e as etapas vividas. O Mago será visto como a matéria prima da Opus ( obra)  sendo a base  para a transformação. Os Amantes, por sua vez, representam o momento conhecido como Hierogamos, ou seja, o casamento divino ou a complementação do Coniunctio.
A alegoria do Tarô será dividida para uma primeira compreensão nos quatro Estágios: Nigredo, Albedo, Citrinitas e Rubedo.
O primeiro estágio – Nigredo – é conhecido como a época da escuridão. No estudo da Alquimia a escuridão é vista como se fosse o desconhecimento de si mesmo. É uma fase de inconsciência dos atos pessoais.  Deveria ir até os dezoitos anos, mas nós sabemos que não é bem assim...  Então o Nigredo pode permanecer em qualquer idade.
Nigredo-Albedo-Citrinitas-Rubedo
Quatro estágios do processo alquímico
Ilustração de www.typeindepth.com/2015/10/the-spectrum-of-consciousness
A maioria dos trunfos permanecerá no estágio do Nigredo como uma Sombra. Do Mago ao Diabo, na verdade, será esta permanência. A operação será a Calcinatio. Este é o estágio dos extremos das emoções, da aprendizagem e até mesmo da depressão. Neste processo o Louco com seus erros e acertos sempre em busca da maturidade permeia toda a jornada. A vida é tão tumultuada que é preciso manter a movimentação da Roda enquanto aguarda o renascimento com a Torre e seu raio luminoso para atravessar a escuridão.
O surgimento da Torre representa um avanço na escuridão da alma. O chumbo negro – Rubedo – irá se transformar no Albedo representado pela brancura da Lua.  O surgimento da Torre marca o fim do Nigredo. A luminosidade do raio é realizada com a operação Solutio.
O segundo estágio – Albedo – a alma está em ascensão à procura do outro e em busca da consciência dos fatos.  Neste estágio teremos a Estrela com simbolismo da água e purificação até se tornar totalmente branca. É a fase de transição para a conscientização da vida. O Albedo vai clareando os caminhos para uma resolução final eliminando o Diabo e aprendendo a conviver com a sua sombra.
Em seguida vem o estágio do Citrintius com o Sol que é a luz que vai realizar a fusão do Consciente com o Inconsciente numa conjuntura chamada por Jung de Individuação.  Logo em seguida o Julgamento trará a morte final do Nigredo. Renascendo com o poder da Lua e do Sol em direção da operação final. A operação é o Iluminatio.
Resumindo, diz o autor: “A Torre é separada do Diabo purificada na Estrela e restaurada de novo com a Lua e o Sol. Ressuscitando na carta do   Julgamento quando os elementos tomarem seus lugares no Mundo, finalizando todo o processo”.
O terceiro estágio é o Rubedo. O sangue é a essência da vida. O último estágio é de cor rubra e a ênfase não é na alma e sim no espirito. É a energia espiritual por excelência chamada de Self.
“O primeiro estágio é a perfeição Inconsciente; o segundo estágio é a Imperfeição Consciente e o terceiro estágio, o Rubedo é a plenitude Consciente.”
No Nigredo a consciência descobre o seu mundo o seu Eu.
No Albedo a consciência descobre o mundo dos outros. Self individual
No Rubedo a consciência descobre o mundo divino. O coletivo.
O Mundo é a cartada final do quarto estágio – Rubedo – que é a essência da pedra filosofal.  Poucos seres chegarão ao clímax total do Rubedo. No Tarô, geralmente na terceira idade haverá uma maior Conscientização observando-se nas conquistas espirituais.
Em um breve resumo resumo, os quatro estágios alquímicos:
  • Nigredo (preto) – arcanos Mago e Diabo
  • Albedo (branco) – arcanos Torre e Lua
  • Citrinus ( amarelo) – arcanos  Sol e Julgamento
  • Rubedo (vermelho) – arcano  Mundo 
Além dos 4 estágios vistos acima de maneira sucinta, há operações em número de doze. Somente quatro delas são mais conhecidas, a outra vai depender de um estudo mais aprofundado. São elas:
  • Calcinatio
  • Solutio
  • Iluminatio
  • Sublimatio
O estudo destas operações em sua atuação na tiragem das cartas do Tarô é recomendado para aqueles que querem seguir a orientação alquímica aplicada ao Tarô e o uso do Alchemical Tarot.  Tentei apenas despertar a curiosidade dos leitores para o estudo.
Sabemos que as ilustrações da Alquimia não são autoexplicativas...  mas as lâminas do Tarô também não. Elas são simbólicas. Eu entendo que quanto maior for seu repertório de composições simbólicas maiores serão as possibilidades de aprendizado e uso. Diz o autor que o resgate das mensagens simbólicas começa com o descarte das informações deturpadas e seguindo com a compreensão do contexto, até chegarmos ao objetivo da “Iluminação”. Creio que cada um de nós escolherá o caminho que mais combina em seu eu íntimo.
Fases do processo Alquímico
Fases do processo alquímico
Ilustrações do século XVII
Uma referência a Jung e a alquimia psicológica: Carl G. Jung, psicanalista suíço e pai da psicologia profunda, descobriu que o processo alquímico era similar ao processo de individuação. Podemos estabelecer a relação das quatro funções e os quatro naipes no Tarô:
  • Sensação – Naipe de Ouros
  • Intuição – Naipe de Copas
  • Pensamento – Naipe de Espadas
  • Sentimento – Naipe de Paus
Eis o que nos diz Rachel Pollack em seu livro Setenta e Oito Graus de Sabedoria: O naipe de Paus descreve as decisões sem julgamentos de valor de acordo com o dizer de Jung sobre Sentimentos: “Paus lutam constantemente, não tanto devido a problemas e objetivos reais, mais por gostarem de conflito, de uma oportunidade para usar a sua energia. Nos negócios, Paus representa comércio e competição; no amor, simbolizam romance, propostas, o ato de conquistar um e não a emoção do próprio amor.” Continuando as decisões com julgamento de valor...
O Fogo representa a ação, a Água, a falta de forma ou a sua passividade Água não simboliza fraqueza; representa, antes, o Eu íntimo. A sequência de Copas mostra uma experiência íntima que flui em vez de limitar, que abre em vez de restringir.
“Ambas as declarações se encaixam no conceito junguiano da função Intuição, que é passiva, e focada na experiência interna.”
Falemos agora das possibilidades da interpretação alquímica dos Arcanos Maiores, na apresentação de um equilíbrio real, levando-se em conta a sincronicidade das ideias. Claro que será algo abstrato de se fazer ao lado das interpretações das figuras dos arquétipos do Tarô.
  • Sempre haverá a presença dos estágios e operações
  • Poderá acontecer miscigenação de Estágios, o que é normal não se passa de um para o outro de repente.
  • É a sequência das cartas que indicará o equilíbrio conquistado ou não.
  • A presença do Louco será sempre sentida...   mas se nunca aparece para esta consulente indica um certo aprisionamento das ideias.
  • O Rubedo puro dificilmente será visto (madre Calcutá)
  • As idas e vindas dos princípios dos estágios indicarão as escolhas que fazemos no dia a dia.  As dúvidas e incertezas...
É claro que este sucinto artigo não revela todas as nuances da aplicação alquímica às cartas do tarô. Trata-se apenas de um lembrete para o estudo da leitura do livro em questão, Alquimia e Tarô, de Robert M. Place.
Concluindo diria que tudo vai depender da condição e interesse do Tarólogo em compreender e aplicar nas interpretações mais uma ferramenta de conhecimento perfeitamente plausível e de acordo com a tendência de cada um. Há muitas correlações que podem coexistir com a visão clássica da essência de cada arquétipo. Mas como símbolo, as cartas mudam as figuras, mas não o significado original do símbolo. Como diz Nei Naiff, Tarô é Tarô.
Glória Marinho é historiadora e antropóloga formada pela UFPE.
Atende pessoalmente, seguindo a linha junguiana: glorieta@bol.com.br
Outros trabalhos seus no Clube do TarôAutores
Edição: CKR – 4/01/2018
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