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20 de outubro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


O conhecimento simbólico
Lívia Krassuski
 
  Esse texto reune apresentações feitas num dos fóruns do site "Clube do Tarô", entre julho de 2009 e janeiro de 2010. Trata da natureza do pensamento simbólico e sua missão de reintegrar o ser humano a esferas mais amplas da sociedade, cultura, universo. Discute a ligação do microcosmo ao macrocosmo.  

O pensamento simbólico é um conhecimento ancestral próprio do ser humano, que antecede à linguagem e à razão. Longe de serem criações fortuitas da psique, os símbolos e mitos nascem da necessidade humana de elaborar e trazer à luz os segredos mais recônditos da alma. Sendo um meio de expressão simultaneamente particular e universal, o simbolismo, de qualquer forma, apresenta-se como um sistema de complexas relações em que sempre prevalece o caráter polar, a capacidade de ligar o microcosmo ao macrocosmo, o casual ao acausal, o desordenado ao ordenado. Seguindo essa abordagem, partilho da mesma ideia com a qual comungam Mircea Eliade e Carl Gustav Jung, que ao símbolo também cabe a missão de reintegrar o ser humano – partícula dissociada do todo – a esferas mais amplas: cultura, sociedade, universo.

Tapecaria La Dame à la Licorne
A Dama com o Unicórnio (La Dame à la Licorne) constitui uma série de seis tapetes
do final do séc. XV, que pode ser visitado no Museu Nacional da Idade Média, em Paris.
Conhecimento perdido pelo ocidental civilizado, fato que pode ser, em grande medida, atribuído à herança cartesiana que remonta o século XVII, o simbolismo voltou a ser valorizado em nossa cultura a partir de meados do século XIX em reação ao racionalismo, ao positivismo e ao cientismo em voga na época. A volta do interesse pela religião e pelo ocultismo, somou-se, após a Primeira Grande Guerra (1914-18), ao crescente apreço das novas teorias psicológicas, notadamente a psicanálise de Freud, que inspirava as experiências do surrealismo. Assim sendo, o símbolo, a partir desse momento, veio a ser reconhecido como uma modalidade de conhecimento autônoma.
Pesquisas acerca do funcionamento mental das culturas ditas “primitivas” revelaram o papel crucial do processo de simbolização no pensamento arcaico, concomitantemente à fundamental importância que o símbolo possui na vida de qualquer sociedade tradicional. A contínua dessacralização do homem moderno certamente teve impacto sobre sua vida espiritual; não obstante, não foi suficiente para refrear sua imaginação, que anima, por meio das imagens, um conteúdo arcaico subjacente à sua consciência. Ainda que conscientemente o homem insista em viver num plano estritamente racional, seu inconsciente, em compensação, permanece sobrecarregado de material simbólico, que exerce grande influência em sua vida, mesmo que ele não o admita.
Concordo com Mircea Eliade (2002) ao afirmar que o símbolo, o mito e a imagem são inerentes à vida humana e, portanto, não são passíveis de serem eliminados, mesmo que sejam dissimulados, mutilados ou degradados; devido a essa permanência, eles têm a capacidade de revelar os conteúdos mais profundos da realidade, colocando à prova qualquer outro meio de conhecimento. Se o inconsciente se serve de imagens para transmitir a realidade profunda das coisas, é justamente porque a realidade se mostra contraditória, o que torna impossível expressá-la por meio de conceitos. E é o símbolo, prenhe de todas suas possíveis significações, que é vivo, atual e verdadeiro, e não somente uma de suas significações ou um de seus incontáveis conjuntos de referências.
O símbolo é um mediador entre a consciência e o inconsciente. Em nosso inconsciente estão as respostas que procuramos, mas não conseguimos acessar diretamente; o símbolo faz justamente essa ponte. Um bom exemplo está no jogo de tarô: por meio da intuição que, segundo Jung, é percepção via inconsciente, nosso inconsciente escolhe determinadas cartas que traduzem a situação de vida que atravessamos. As imagens das cartas funcionam como símbolos, revelando à consciência aquilo que inconscientemente já sabíamos.
Nesse sentido, é sempre a própria pessoa que cria seus símbolos, que possuem um significado pessoal e particular, ao mesmo tempo que participam de imagens universais. Portanto, o tarólogo não cria símbolos para o consulente; a ele cabe uma interpretação isenta daquelas imagens universais no contexto pessoal de cada situação.
O simbolismo é um assunto muito vasto que pretendo desenvolver ao longo dos próximos tópicos. Em resposta à última pergunta do Flávio, um símbolo pode ser considerado em todos os planos - espiritual, emocional, mental ou físico. Mas num jogo de tarô, especificamente, devemos nos ater, para uma interpretação precisa, ao plano da pergunta. Portanto, se a pergunta foi de cunho afetivo, por exemplo, devemos interpretar os arcanos somente no plano emocional. 
Trabalho prático com os símbolos
Por meio de símbolos podemos acessar as mensagens que estão adormecidas em nosso próprio inconsciente e assim obter orientação da direção a seguir, atingindo equilíbrio, bem-estar e a resolução de problemas.
Detrás do mundo palpável existem processos que já sentimos, mas ainda não conhecemos. Essa realidade oculta pode conter a essência do que somos, nossos sonhos futuros e nossos anseios por mudanças. Aí entra o papel dos símbolos, que fazem a ponte entre a nossa consciência desperta, cotidiana e nosso saber superior, inconsciente.
Essas imagens misteriosas, carregadas de múltiplos significados, podem nos ajudar a compreender a nós mesmos e a mudar de rumo, quando necessário. Isso é o que acontece numa consulta oracular. Ao consultar o tarô, runas ou I Ching, por exemplo, nossa sabedoria intuitiva interior "sorteia" os símbolos que se relacionam às situações conflituosas que vivemos, conduzindo-nos a uma compreensão ampliada da questão, fazendo-nos ver aspectos que antes ignorávamos.
Daí entra em cena o livre-arbítrio de cada um: escolher o próprio caminho conscientemente.
O sonho da bola
Certa vez um homem contou-me um sonho que teve, intrigado com a possibilidade de significar alguma coisa que ele não conseguia compreender. Eu lhe disse que quando temos um sonho marcante, que nos impressiona, frequentemente trata-se de um sonho simbólico, isto é, que traz mensagens do inconsciente por meio de certas imagens. Percebi que ele intuía que o sonho era importante, mas não conseguia interpretá-lo por si próprio. Eis o sonho:
Morgan's Tarot
O Carro
Morgan's Tarot
 
"Eu dirigia meu carro, e precisava manobrá-lo, mas junto à guia havia algo que me atrapalhava: uma velha bola furada, que anos atrás eu havia guardado em casa achando que ainda iria usá-la. Mesmo quando me mudei de cidade, levei a tal bola comigo, mas depois de algum tempo, percebi que deveria me desfazer dela, e assim o fiz. O que aquela bola fazia ali, no sonho? - ele se indagava - Eu já havia me desfeito dela há tanto tempo... Então, alguém que estava no carro comigo, de quem não me lembro mais, sugeriu que eu passasse por cima dela mesmo, já que estava furada. Então acelerei e passei por cima dela."
Refleti um pouco e sugeri um possível significado:
"O carro (arcano VII do tarô) é um símbolo arquetípico, isto é, simboliza mais ou menos a mesma coisa para todas as pessoas. Significa avanço, progresso, independência. Vontade e determinação em avançar, ir em frente, conquistar, com rapidez e uma certa ansiedade (de carro vamos bem mais rápido do que a pé!).
Já a bola parece-me um símbolo pessoal, isto é, uma imagem que tem um significado específico para você. Parece simbolizar alguma coisa que você resgatou do passado por julgar que lhe seria importante ou proveitoso, mas que depois mostrou-se um entrave para prosseguir em seu caminho.
Desta forma, você tomou a decisão de abandoná-la e passar por cima, isto é, superar.
Ou seja, este sonho indica um momento de tomada de consciência e superação de uma situação que não lhe serve mais, ou simplesmente não atendeu às suas expectativas iniciais (que você tinha quando 'guardou a bola')."
Perguntei-lhe se ele se recordava de alguma situação que vivia no momento que poderia se encaixar nessa descrição. Ele me revelou que estava prestes a terminar um relacionamento de alguns meses com uma mulher que conhecera nos tempos de estudante e reencontrara recentemente, muitos anos depois. De fato, se ainda havia alguma dúvida a respeito de encerrar o relacionamento ou não, foi desfeita assim que ele atinou o que a bola significava naquele sonho.
Esse homem havia inicialmente me questionado sobre a utilidade de saber o que os sonhos significam. Respondi que eu, particularmente, quando tenho um sonho simbólico como esse, fico muito contente (mesmo quando o sonho é ruim), porque as mensagens que recebemos do inconsciente são muito verdadeiras. Nosso inconsciente pode ser chamado de "Consciência Superior", porque sempre sabe mais do que nossa consciência desperta. As respostas, a verdade, estão sempre lá; quando chegam a nós, é por meio de símbolos - nesse caso, as imagens do sonho.
A Grande Mãe e a sexualidade
De acordo com Jamake Highwater (1992), a sexualidade humana desenvolveu-se com base na condição feminina que, ao diferenciar-se dos outros mamíferos, substituiu o ciclo do estro (cio) pelo ciclo menstrual, que possibilitou à mulher ter uma vida sexual contínua, transformando o ato sexual num aspecto da cultura, muito além de mero meio de reprodução. Segundo ele, enquanto a sexualidade feminina foi o eixo da sociedade, nas culturas primitivas, a mulher foi a principal fonte da espiritualidade humana, em que a imagem da Grande Mãe é o mito dominante.
Esse autor situa que, milhares de anos antes de Homero e Hesíodo escreverem os mitos clássicos no século VII a.C., já dentro de uma ordem social patriarcal, os mitos eram formados por uma rica tradição oral matricêntrica, em torno do simbolismo da Terra; traços dessa raiz mítica primitiva teriam permanecido nos mitos homéricos dos deuses do Olimpo. Highwater ainda menciona estudos antropológicos reveladores de que o conceito de uma divindade masculina suprema é relativamente recente: Zeus, o grande deus do panteão helênico, surgiu por volta de 2.500 a.C. e Abraão, o patriarca do povo judeu, em torno de 1.800 a.C. Imagens votivas de divindades femininas, por sua vez, datam de até 25.000 a.C., fato que atesta a proposição de que as mulheres foram o primeiro foco da religião. Dentro da nova ordem patriarcal, os sacerdotes teriam absorvido o simbolismo arcaico da Terra, bem como seus rituais e invertido seu significado sexual, subordinando o poder da mulher a uma hierarquia religiosa masculina. Anteriormente ao declínio das deusas, porém, havia uma concepção de mundo e sociedade totalmente diversa desta que hoje conhecemos. Encontram-se vestígios dela na Grécia pré-helênica, na Europa pré-cristã, na Índia e na Ásia.
Descobertas arqueológicas mostraram que no Oriente Próximo, em cerca de 7.500 a.C., havia uma contínua adoração de deusas-mães, na época em que se desenvolveram a agricultura e a pecuária. Segundo vários antropólogos, por ser a propriedade comunitária, não havia preocupação com a paternidade ou a legitimidade dos herdeiros.
 
Artemis ou Diana
Artemis ou Diana, a Grande
Mãe venerada em Éfeso
in www.livius.org
É provável que também não houvesse, para os povos do neolítico, ligação entre a relação sexual e a gravidez, dissociação que ainda pode ser observada entre povos primitivos. Os laços familiares centravam-se na figura materna, que originava e sustentava a vida. Como herança até os dias atuais dessa tradição, para o povo judeu, é considerado judeu aquele que nasce de mãe judia, independente da origem do pai.
Naquele contexto, a sexualidade tinha um caráter igualitário entre os sexos; não havia uma dupla moral para orientar, de modo diferenciado, o comportamento sexual e social de homens e mulheres. Na cultura neolítica, matricêntrica, uma mulher “virgem” era simplesmente uma mulher disponível, que não estava vinculada a um homem, e não alguém sem experiência sexual. As crianças nascidas fora do casamento eram chamadas “filhos de virgens” (parthenioi); de forma análoga, nas mitologias pré-patriarcais, presentes em diversas culturas, a Grande Mãe se reproduzia sempre por partenogênese, tal como Gaia, que era filha de si mesma, ou Deméter, simplesmente uma manifestação da Grande Mãe eterna. E quando a Grande Mãe dava à luz, os filhos eram só dela: se fosse menina, herdava os poderes mágicos da mãe; se fosse menino, tornava-se consorte da mãe e junto a ela permanecia em uma condição subalterna.
Cada sociedade elabora seus próprios símbolos, que podem assumir significados totalmente distintos de acordo com o lugar e época considerados. A virgindade, neste caso, é um símbolo que nos permite ver as diferentes formas que assumem as relações de uma sociedade, simbolizando o autodomínio da mulher, numa sociedade matricêntrica, ou a escravidão ao marido, no sistema patriarcal. Dentro de uma sociedade matriarcal, portanto, o corpo da mulher não é uma propriedade do pai que é transferida ao marido; a jovem é dona de si mesma até o casamento, com plena liberdade em sua vida sexual, inclusive a de recusar intimidades indesejadas. E, ao ver-se posteriormente sem o marido por separação ou viuvez, torna-se novamente “virgem”, na acepção original e arcaica do termo.
Toda a Europa do período neolítico tinha por base religiosa o culto à Grande Mãe, conhecida por diferentes nomes e assumindo várias formas: protetora na hora do parto, fonte de sabedoria, curadora e guardiã da saúde, protetora dos animais, detentora das profecias, espírito que ampara no momento da morte. Além de tudo, a deusa simbolizava a fertilidade e garantia as colheitas; era a Mãe-Terra que assegurava o fornecimento de alimento e, por conseguinte, a sobrevivência humana e dos animais.
A Grande Mãe começou a se ver destituída de seus poderes quando, nas antigas civilizações da Babilônia, Assíria, Suméria e Egito, as noções de propriedade privada, estrutura de classes e hierarquia patriarcal assumiram forma concreta: foi o início do fim do igualitarismo entre os sexos.
Daí a concepção matriarcal de sexualidade só viria insurgir na sociedade industrial europeia da virada do século XIX para o XX, quando  despontou a figura da "nova mulher", dona de seu próprio dinheiro e, por conseguinte, de seu próprio corpo. Que longo caminho não tivemos de percorrer, nós mulheres, para resgatar nosso direito de vivenciar livremente nossa sexualidade e nossas escolhas sexuais?
 
Referência bibliográfica:

CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus: mitologia primitiva. Trad. Carmen Fischer. São Paulo: Palas Athena, 1992.
ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. Trad. Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
HIGHWATER, Jamake. Mito e sexualidade. Trad. João Alves dos Santos. 1a. edição. São Paulo: Saraiva, 1992.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Trad. Maria Luiza Appy, Dora M. R. Ferreira da Silva. 5a. edição. Petrópolis: Vozes, 2007.
NEUMANN, Erich. A Grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. Trad. Fernando Pedroza de Mattos e Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo: Cultrix, 1996.

 
jullho.09-jan.10
Contato com a autor:
Lívia Krassuski - liviakrassuski@gmail.com
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