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14 de dezembro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


Trusse um Tarot pra nóis jogá!
Nei Naiff
 
Ouço muito falar que a aplicação da norma-padrão ou culta da língua é algo elitista, para poucos. Bem, elitismo é ter um Mercedes conversível e viajar todo mês à Nova Iorque. A tão execrada norma nada mais é do que a gramática contida nos livros de português de toda rede escolar; ou seja, normativa ou descritiva, qualquer um pode assimilar a concordância verbo-nominal para falar adequadamente, entender as classes morfológicas, escrever corretamente, entre outros aspectos técnicos da língua. Duvido que um professor ensine a articular ou a redigir: nóis tem um pobrema; a gente queremo dois pastel. Ora, se todos possuem acesso ao correto linguajar, como o uso da norma pode ser elitista? Não, não é. Pare de pensar dessa forma. A língua é um patrimônio de todos, um legado inestimável.
Há muita discussão sobre o que é correto ou não em nosso idioma, e algo necessita ser esclarecido antes de continuarmos — há um abismo entre o que seja a validação linguística e a legitimidade do idioma. No primeiro, tudo é permitido na comunicação: até falar ou escrever inapropriadamente (como o título deste artigo); contudo, para o segundo, a sintaxe e a ortografia correta é imperativo (Trouxe um tarô para jogarmos). Observe que um atende a um grupo específico de falantes enquanto o outro estabelece a coesão nacional. A comunicação verbal antecede a escrita na história humana, mas é a escrita que preserva o conhecimento adquirido. Se cada um arbitrasse o próprio linguajar ou grafia, viveríamos em uma verdadeira torre de Babel ou em meio a registros de línguas mortas. Por essa razão, a alfabetização existe em todos os países. No Brasil, os filólogos da Academia Brasileira de Letras registram no VOLP (vocabulário ortográfico da língua portuguesa) as palavras de nossa língua que, posteriormente, são explicadas em dicionários. Igualmente competiu a esse órgão estabelecer a NGB (nomenclatura gramatical brasileira) e o Formulário Ortográfico que se encontram explícitos em todos os livros de gramática da língua portuguesa.
E daí?
O leitor já deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o tarô ou o esoterismo? Bem, chegamos, então, ao cerne da questão. Encontramos nos livros e publicações esotéricas grafias diferentes de uma mesma palavra que, por sua vez, são copiadas indistintamente por centenas de profissionais, por exemplo: tarô/tarot, cabala/kabbalah, ioga/yôga, sânscrito/sanskrito, autoconhecimento/auto-conhecimento, etc. Outra questão deve imediatamente ser pontuada antes de prosseguirmos — geralmente as grandes editoras não permitem que se publique um texto em desacordo com a gramática normativa, salvo ficção e romance; no entanto, há casos em que (após contratada a obra) o próprio autor não admite mudança alguma. E, ainda temos de salientar que há editorias que apenas lançam o original, sem a anuência de um revisor ou o alerta ao escritor de um possível erro ortográfico. Bem, esta é a principal (e única) razão de haver discrepância entre as grafias— falta de arrazoamento entre as partes; pois, as regras da língua são claras. Vejamos, algumas particularidades importantes de nosso idioma em relação ao nosso universo.
Qual o correto: tarô ou tarot?
No Brasil, a primeira publicação em língua portuguesa sobre o assunto ocorreu no início do século XX, era originária da língua francesa. Por regra, toda palavra aportuguesada desse idioma terminada em ot deve ser grafada apenas com a vogal o, uma vez que em francês não se pronuncia o fonema t final. Caso similar ocorreria se essa palavra fosse oriunda do inglês, que também não se pronuncia o t final. A diferença estaria na tonicidade, pois em francês a palavra tarot é oxítona [ta’Ro] e no inglês é paroxítona [’taro]. Por sua vez, a NGB estabelece que as palavras oxítonas terminadas em -a, -e ou -o, seguidas ou não de -s, devem ser acentuadas graficamente. Assim, tarot tornou-se tarô — o mesmo caso de tricot = tricô, pierrot = pierrô, bistrot = bistrô. O VOLP e os dicionários brasileiros sempre registraram o vocábulo tarô (e não tarot), e cada país possui uma forma particular em grafar tal substantivo comum. No leste europeu se escreve tapo; em línguas germânicas, tarok, tarot ou tarock; em inglês, espanhol e francês, tarot; em grego, tαρώ; em italiano, tarocco, tarocchi.
Grafia em francês: Tarot   Grafia em italiano: Tarocchi   Grafia em inglês: Tarot   Grafia em português: Tarô
Grafias (da esq. para a direita) para designar o jogo em: francês, italiano, inglês e português
Nos oito países de língua portuguesa somente em Portugal se admitem as duas formas: tarô e tarot, talvez pela proximidade com a Espanha. Em todo caso, não há tradição espiritual na grafia tarot, tampouco é uma questão de escolha pessoal — segundo a norma-padrão brasileira, devemos grafar: tarô (sem medo de errar e sermos felizes!).
Quando poderei grafar tarot?
Sob o domínio da norma-padrão da língua portuguesa brasileira, nunca. Contudo, há casos excepcionais, como escrever o nome de um baralho editado em outro idioma, mas mantendo o título original, uma vez que nem sempre é possível traduzir (quando empregamos estrangeirismos devemos grafar em itálico). Por exemplo, posso escrever: Joga-se Thot Tarot e Egípcios Kier Tarot (nome original em inglês), mas não é correto grafar: Joga-se Tarot de Thot e Tarot Egípcio da Kier. Percebe a diferença? Se for escrever em nosso idioma, o melhor seria: Joga-se tarô de Thot e tarô egípcio Kier. Agora, note que ao colocarmos tudo em língua portuguesa não foi necessário empregar itálico no nome do baralho, tampouco manter a inicial maiúscula na palavra tarô (vejamos a razão logo a seguir).
Quando usar letras maiúsculas?
Encontramos outra dor de cabeça para todo copidesque que revisa obras esotéricas; pois, alguns escritores brasileiros insistem na manutenção de algum estrangeirismo desnecessário (spread ao invés de método, forma ou abertura; por exemplo), de colocação pronominal redundante ou imprópria e, principalmente, de inicial maiúscula inadequada (geralmente em substantivos comuns), e como havia mencionado, há editoras que não fazem objeção alguma aos erros. Quem perde? O leitor, os futuros estudantes, os atuais profissionais e o próprio idioma! O objetivo deste artigo não é ensinar, há bons livros e sites para isso, mas pontuar o equívoco mais comum (no âmbito esotérico, místico, terapêutico) cuja contínua compilação faz crer ao leigo que a palavra esteja grafada corretamente. Percorramos, então, resumidamente, os principais tópicos determinados pela norma-padrão desde 1943, pois o Acordo de 2009 não alterou em nada esse assunto:
1. Escreve-se obrigatoriamente com inicial maiúscula o substantivo próprio de qualquer espécie — nome, sobrenome, apelido, localidade geográfica, tribo, casta, comunidade religiosa e política, nome sagrado e relativo à religião, ser mitológico e astronômico; acrescenta-se, também, qualquer designação que denote individualidade ou particularidade dentro de um conjunto. Por exemplo, Maria (nome), Salvador (localidade), Kalderash (grupo cigano, casta), Wicca (comunidade religiosa), Apolo (ser mitológico), Escorpião (constelação, entidade astronômica), Enamorado (nominação específica de uma carta do tarô), Rider-Waite (nome particular de um tipo de baralho), entre os exemplos possíveis.
  Observação: se escreve com inicial minúscula qualquer outro substantivo, como por exemplo, o substantivo comum — vocábulo que designa o grupo de uma mesma natureza ou qualidade; igualmente para os pontos cardeais, festas populares, designação de um povo, habitat, origem pessoal, nome dos meses e das estações do ano. Por exemplo: tarô, cabala, astrologia, wicca, xamanismo, terapia holística (tipos de atividade, estudo, profissão); tarólogo, cabalista, numerólogo, astrólogo, xamã, terapeuta, bruxo, mago (qualidade comum a praticantes); arcano, arquétipo, signo, leonino, chacra (uso genérico, não particular); norte (ponto cardeal); carnaval (festa popular), druida, wicca (povo); paulistano (origem); janeiro(mês), verão (estação).
2. Emprega-se a letra inicial maiúscula no começo de qualquer período, frase, sentença ou citação direta, independente da classe morfológica (substantivo, adjetivo, verbo, artigo, etc.). Opcionalmente, o substantivo comum pode ser grafado com inicial maiúscula caso seja parte de um título (livro, curso, etc.); inclua-se, obrigatoriamente, nome de escola, repartição, agremiação, edifício. No entanto, não se escrevem em maiúsculas as partículas monossilábicas. Exemplo. Tarô, Carma e Numerologia (título de um livro, opcional); Curso Completo de Terapia Holística (nome de um curso, opcional); Academia Nei Naiff de Tarô (nome de escola, obrigatório); Clube do Tarô (nome do site, obrigatório).
3. Substantivos comuns personificados, seres morais ou fictícios devem ser grafados em maiúsculo para se diferenciarem do lugar comum. Exemplo. Deusa e deusa — o primeiro vocábulo se refere a Grande-Mãe, o segundo identifica um tipo de deusa. A deusa Ísis é egípcia e a deusa Afrodite é grega; mas a Deusa é universal. Torre e torre — o primeiro identifica a carta do tarô; o segundo, uma construção. No arcano Torre há a imagem de uma torre sendo atingida por um raio.
4. Basicamente todas as palavras de nosso idioma se escrevem com inicial minúscula, à exceção de substantivos próprios, palavra no início de uma frase e raras ressalvas. Compare detalhadamente as palavras entre os dois parágrafos a seguir:
  Inapropriado: Em seu mais recente Livro, a Taróloga e Astróloga Americana Rosemary escreveu que os Wiccas e Xamãs estão utilizando os 22 Arcanos Maiores do Tarot para realizar Magia de Cura Universal sob o Signo de Aquário. No entanto, em suas pesquisas, descobriu que os Cabalistas preferem o uso dos 56 Arcanos Menores ou Naipes para a Meditação nos Caminhos da Árvore da Vida durante a Primavera. Ela resume que independente de sua utilização Mística, o Tarot é uma ferramenta de Adivinhação e de Auto-Conhecimento cujo estudo Enobrece a Alma
  Adequado: Em seu mais recente livro, a taróloga e astróloga americana Rosemary escreveu que os wiccas e xamãs estão utilizando os 22 arcanos maiores do tarô para realizar magia de cura universal sob o signo de Aquário. No entanto, em suas pesquisas, descobriu que os cabalistas preferem o uso dos 56 arcanos menores ou naipes para a meditação nos caminhos da Árvore da Vida durante a primavera. Ela resume que independente de sua utilização mística, o tarô é uma ferramenta de adivinhação e de autoconhecimento cujo estudo enobrece a alma.
Enfatizo que eu também não estou imune a erros e a equívocos, sempre haverá um termo ou uma palavra técnica que necessita de cuidados ao escrever. Ao ter dúvidas sobre qualquer vocábulo (tarot ou tarô?) recorro a um dicionário atualizado ou ao VOLP; quanto a mudança na regra de hífen (auto-ajuda ou autoajuda?), de acentuação (cabalá ou cabala?) ou de conjugação verbal (adequar é defectivo?), por exemplo, costumo navegar pelo site www.portugues.com.br ou pesquisar em algum livro de gramática editado após 2010. No mais, anseio poder ajudar aos novos escritores e entusiastas na melhora e na qualidade de nossos textos místicos, esotéricos e terapêuticos; pois, aos que nos criticam que o façam pela diferença de ideias e não pelos nossos erros ortográficos.
julho.11
Contato com o autor:
Nei Naiff - www.neinaiff.com
Outros trabalhos seus no Clube do Tarô: Autores
 
  Baralho Cigano
  Tarô Egípcio
  Quatro pilares
  Orientação
  O Momento
  I Ching
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