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23 de fevereiro de 2019

Responsável: Constantino K. Riemma


O papel do mestre espiritual
 
O tema da iniciação espiritual se tornou controverso no mundo moderno, por dois fortes motivos. Em primeiro lugar, o individualismo contemporâneo resiste à ideia de autoridade espiritual e entende que cada homem tem plenas condições de por si só percorrer os caminhos de busca da consciência. O segundo motivo é a falta de referências vivas para reconhecer o que de fato é o mundo espiritual, da consciência, e no que ele difere dos planos psíquico, meramente psicológico ou astral, e do sensitivo, também chamado de paranormal ou mediúnico.
Como esse tema aparece com frequência na auto-apresentação de tarólogos e cartomantes, acreditamos ser oportuno oferecer material de reflexão aos interessados, ao lado de outros textos que se encontram na secão Simbologia/Estudos interdisciplinares/Ciência Sagrada & Iniciação Espiritual: www.clubedotaro.com.br/site/r69_0_estudos.asp#sagrada
Reunimos abaixo dois excertos de O livro tibetano do viver e do morrer de Sogyal Rinpoche e um trecho do livro O Caminho para a iluminação do atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso. Sogyal Rinpoche ressalta os fundamentos da ligação ao mestre, enquanto o Dalai Lama mostra como essa relação deve ser alimentada pelo justo discernimento e não pela obediência cega.
Apresentação de Constantino K. Riemma
 
 
 
O Mestre
Sogyal Rinpoche
 
O livro tibetano do viver do morrer
Edit. Talento - págs. 178-181
O Buda diz em um dos Tantras [Tulku Thodup, Buddha Mind, Ithaca, Nova York : Snow Lion, 1989, 211]: "De todos os budas que obtiveram a iluminação, nenhum chegou lá sem confiar em um mestre; de todos os mil budas que virão nesta era, nenhum deles vai atingir a iluminação sem confiar em um mestre".
Em 1987, depois do falecimento do meu amado mestre Dudjom Rinpoche, na França, eu ia de trem a caminho de Paris, vindo do sul desse país, onde ele tinha vivido.  Imagens de milhares
Dudjom Rinpoche
Dudjom Rinpoche
 
dos seus atos de generosidade, ternura e compaixão passavam por minha mente; em pouco me vi em lágrimas, repetindo para mim mesmo: "Se não fosse por você, como eu poderia ter entendido?".
Percebi, com uma intimidade e enternecimento que nunca havia experimentado antes, a exata razão porque se dá tamanha ênfase sagrada, em nossa tradição, à relação de mestre e discípulo, e como é essencial essa relação para a transmissão viva da verdade, de mente para mente, de coração para coração. Sem meus mestres nunca haveria tido a possibilidade de compreender a verdade dos ensinamentos: não poderia nem mesmo me imaginar chegando ao modesto nível de compreensão que tenho.
Muitas pessoas no Ocidente desconfiam dos mestres — com frequência por boas razões, infelizmente. Não devo relatar aqui os muitos casos terríveis e decepcionantes de loucura, ambição e charlatanismo que ocorreram no mundo moderno desde a abertura para a sabedoria do Oriente, nos anos 50 e
60. No entanto, todas as grandes tradições de sabedoria, como a cristã, a sufi, a budista ou a hindu, buscam sua força na relação mestre-discípulo. Assim, o que o mundo precisa urgentemente agora é entender com a maior clareza possível o que é um verdadeiro mestre, o que é um verdadeiro aluno ou discípulo, e o que é a verdadeira natureza da transformação que tem lugar pela devoção ao mestre, o que se pode chamar de "alquimia do discipulado".
Talvez a mais tocante e acurada explicação sobre a verdadeira natureza do mestre que já ouvi veio de meu mestre Jamyang Khyentse. Ele disse que, embora nossa verdadeira natureza seja búdica, ela foi obscurecida desde um tempo sem início por uma nuvem escura de ignorância e confusão. Essa verdadeira natureza, no entanto, a nossa natureza búdica, nunca se rendeu completamente à tirania da ignorância; em algum lugar ela está sempre se rebelando contra a sua dominação.
Nossa natureza búdica tem então um aspecto ativo que é nosso "mestre interior". Desde o exato momento em que a obscuridade nos envolveu, esse mestre interior trabalha sem descanso por nós, tentando trazer-nos de volta para a radiância e a amplidão do nosso verdadeiro ser. Nem por um segundo, disse Jamyang Khyentse, o mestre interior nos abandona ou desiste de nós. Em sua infinita compaixão, que é una com a infinita compaixão de todos os budas e todos os seres iluminados, trabalha sem cessar por nossa evolução — não só nesta vida, mas em nossas vidas passadas também — usando todos os tipos de meios hábeis e todos os tipos de situações para nos ensinar e despertar, guiando-nos de volta à verdade.
Jamyang Khyentse
Jamyang Khyentse
 
Quando oramos, aspiramos e ansiamos pela verdade por longo tempo, ao longo de muitas e muitas vidas, e quando nosso carma tornou-se suficientemente purificado, acontece uma espécie de milagre. E esse milagre, se pudermos entendê-lo e utilizá-lo, pode acabar com a ignorância para sempre: o mestre interior, que sempre esteve conosco, manifesta-se na forma de "mestre exterior" que, quase por mágica; nós encontramos. Esse é o mais importante encontro de todas as vidas.
Quem é esse mestre exterior? Ninguém menos do que a personificação, a voz e o representante do nosso mestre interior. O mestre de forma e voz humana, e de uma sabedoria que chegamos a amar com um amor mais profundo do que qualquer outro na vida, não é outro senão a manifestação externa do mistério da nossa própria verdade interior. O que mais pode explicar que nos sintamos tão fortemente ligados a ele ou a ela?
No nível mais profundo e mais elevado, o mestre e o discípulo não são nem podem ser em caso algum separados;  porque  a  tarefa  do  mestre  é  nos ensinar a
receber, sem obscurecimento de qualquer tipo, a mensagem clara de nosso próprio mestre interior, e levar-nos a perceber a contínua presença desse mestre máximo dentro de nós. Oro para que todos vocês possam provar, nesta vida, a alegria dessa espécie consumadamente perfeita de amizade.
O mestre é não apenas o porta-voz direto do mestre interior que há em você, mas é também o portador, o canal e o transmissor de todas as bênçãos de todos os seres iluminados. E isso que dá a ele o extraordinário poder de iluminar sua mente coração. Ele ou ela não é nada menos do que a face humana do absoluto, o telefone, se você preferir, pelo qual todos os budas e os seres iluminados podem chamar você. Ele ou ela é a cristalização da sabedoria de todos os budas e a personificação da compaixão direta deles para com você: os raios do seu sol universal dirigidos diretamente para o seu coração e sua mente, visando sua liberação.
Em minha tradição reverenciamos o mestre por ser ele ainda mais bondoso que os próprios budas. Embora a compaixão e o poder destes estejam sempre presentes, nosso obscurecimento nos impede de encontrar os budas face a face. Mas podemos encontrar o mestre; ele ou ela está aqui, vivo, respirando, falando, agindo diante de nós para nos mostrar de todos os modos possíveis o caminho dos budas: o caminho da liberação. Para mim, meus mestres foram a encarnação da verdade viva, sinais inegáveis de que a iluminação é possível num corpo, nesta vida, neste mundo, mesmo aqui e mesmo agi a suprema inspiração na minha prática, no meu trabalho, na minha vida, na minha jornada para a liberação. Meus mestres são para mim a corporificação do meu sagrado compromisso de manter a iluminação em primeiro lugar na minha mente até realmente alcançá-la. Sei o bastante para compreender que só quando atingir a iluminação terei um completo entendimento de quem eles realmente são e de sua infinita generosidade, amor e sabedoria.
Gostaria de partilhar com você esta bela oração, palavras de Jikmé Lingpa, uma prece que dizemos no Tibete para invocar a presença do mestre em nosso coração:
Do lótus florescente da devoção, no centro do meu coração,
Apareça, ó mestre compassivo, meu único refúgio!
Estou atormentado pelas ações do passado e pelas emoções turbulentas;
Para proteger-me na minha infelicidade,
Permaneça como a joia que adorna o alto da minha cabeça, o mandala da grande bem-aventurança,
Despertando toda minha presença mental e consciência intrínseca, suplico!
 
 
Encontrar o caminho
Sogyal Rinpoche
 
O livro tibetano do viver do morrer
Edit. Talento - págs. 172-5
Em outros tempos e civilizações, esse caminho de transformação espiritual foi restrito a um número relativamente limitado de pessoas; agora, no entanto, se se quiser preservar o mundo dos perigos internos e externos que o ameaçam, uma grande porção da raça humana deve procurar o caminho da sabedoria. Neste tempo de violência e desintegração, a visão espiritual não é um luxo elitista, mas algo vital para a nossa sobrevivência.
Sogyal Rinpoche
Sogyal Rinpoche
Autor de
"O Livro tibetano
do viver e do morrer"
 
Seguir o caminho da sabedoria nunca foi mais urgente nem mais difícil. Nossa sociedade está dedicada quase inteiramente à celebração do ego, com todas suas tristes fantasias sobre sucesso e poder, e celebra exatamente aquelas forças da ganância e da ignorância que estão destruindo o planeta. Nunca foi tão difícil ouvir a voz sem lisonjas da verdade e, uma vez ouvida, nunca tão difícil segui-la: porque não há nada no mundo que nos cerca que ampare nossa escolha, e a sociedade inteira em que vivemos parece negar cada ideia de sacralidade ou significado eterno. Assim, em tempos do mais agudo perigo, quando precisamente nosso futuro está em risco, nós, como seres humanos, nos encontramos aturdidos como nunca, presos num pesadelo que nós mesmos criamos.
Mas há uma significativa fonte de esperança nessa trágica situação, que consiste no fato de que os ensinamentos espirituais das grandes tradições místicas ainda estão disponíveis. Infelizmente, no entanto, há muito poucos mestres que corporificam esses ensinamentos e uma falta quase total de discernimento naqueles que buscam a verdade.
O Ocidente tornou-se um paraíso para os charlatães espirituais. No caso de um cientista pode-se verificar quem é genuíno e quem não, porque outros cientistas podem examinar sua formação e testar suas descobertas. Mas no Ocidente, sem a linha-mestra e os critérios de uma próspera e amadurecida cultura da sabedoria, é quase impossível estabelecer a autenticidade dos chamados "mestres". Qualquer um, ao que parece, pode posar de mestre e atrair seguidores.
Esse não era o caso no Tibete, onde era muito mais seguro escolher um caminho particular ou um orientador para seguir. Os que chegam pela primeira vez ao budismo tibetano sempre querem saber por que se atribuí uma importância tão grande à linhagem, à ininterrupta cadeia de transmissão de mestre para mestre. A linhagem serve como proteção e garantia essenciais: ela mantém a autenticidade e pureza do ensinamento. Sabe-se quem é um mestre sabendo-se quem é o mestre dele. Não se trata de preservar algum conhecimento ritualista, fossilizado, mas de transmitir de coração a coração, de mente a mente, uma sabedoria essencial e viva, e seus métodos hábeis e poderosos.
Reconhecer quem é e quem não é um Mestre verdadeiro é um assunto exigente e sutil; e numa época como a nossa, viciada na diversão, nas respostas fáceis e nos expedientes rápidos, os atributos de maestria espiritual, mais sóbrios e nada teatrais, podem muito bem passar despercebidos. Nossas idéias sobre o que é santidade, piedade, brandura e mansidão podem cegar-nos para a manifestação dinâmica e às vezes exuberantemente jovial da mente iluminada.
Como escreveu Patrul Rinpoche: "As qualidades extraordinárias de grandes seres que ocultam sua natureza escapam as pessoas comuns como nós, apesar dos nossos melhores esforços para observá-las. Por outro lado, mesmo os charlatães comuns são especialistas em enganar os outros comportando-se como santos". Se Patrul Rinpoche escreveu isso no Tibete do século passado, o que escreveria hoje no caos do nosso supermercado espiritual contemporâneo?
Patrul Rinpoche
Patrul Rinpoche
 
Então, o que fazer hoje, nesta época de absoluta descrença, para encontrar a confiança que é tão necessária para seguir o caminho espiritual? Que critérios podemos usar para saber se um mestre é ou não genuíno?
Lembro-me muito bem de haver estado junto a um mestre que conheço quando ele perguntou aos seus discípulos o que os havia levado até ele e por que confiavam nele. Uma mulher disse:  "Consegui  ver o quanto você realmente quer,  mais  que qualquer outra coisa, que entendamos e apliquemos os ensinamentos, e com que habilidade os dirige para nos ajudar a chegar a isso". Um homem dos seus cinquenta anos disse: "O que me toca não é aquilo que sabe, mas o fato de possuir mesmo um coração bom e altruísta".
Uma mulher de trinta e tantos anos confessou: "Quis fazer de você minha mãe, meu pai, meu terapeuta, meu marido, meu amante; o senhor calmamente ficou comigo até o fim do drama de todas essas projeções e nunca, jamais, me abandonou".
Um engenheiro com vinte e poucos anos disse: "O que descobri em você foi que é verdadeiramente humilde, que quer o melhor para todos nós, e que mesmo sendo um professor jamais deixou de ser um aluno dos seus grandes mestres". Um jovem advogado disse: "Para você os ensinamentos é que são o mais importante. Às vezes chego a pensar que o seu ideal seria fazer-se quase ausente, simplesmente transmitindo os ensinamentos do modo mais generoso e desprendido possível".
Outro estudante disse, com timidez: "De início fiquei aterrorizado de me abrir com você. Já fui ferido muitas vezes antes. Mas, à medida que fui me abrindo, comecei a perceber mudanças reais em mim e aos poucos me senti cada vez mais grato a você porque percebi o quanto estava me ajudando. E então descobri em mim uma confiança tão profunda em você, mais profunda do que eu jamais teria imaginado".
Finalmente, um operador de computador na casa dos quarenta falou: "Você foi um maravilhoso espelho para mim e me mostrou duas coisas: o aspecto relativo de quem eu sou e o aspecto absoluto de quem eu sou. Posso olhá-lo e ver claramente — não pelo que você é, mas pelo que está refletindo de mim mesmo — toda a minha confusão relativa. Mas posso também olhar e ver, refletida em você, a natureza da mente, da qual tudo está surgindo, momento a momento".
Essas respostas nos mostram que os verdadeiros mestres são gentis e compassivos, são incansáveis no seu desejo de partilhar a sabedoria que adquiriram dos seus mestres; nunca abusam ou manipulam seus discípulos, em qualquer circunstância; haja o que houver, nunca os abandonam; servem não aos próprios fins mas à grandeza dos ensinamentos; e são sempre humildes. A verdadeira confiança só pode e deve aumentar em relação a alguém que você, com o tempo, descobrir que personifica essas qualidades. Verá que essa confiança torna-se a base da sua vida, pronta para dar-lhe apoio em todas as dificuldades da vida e da morte.
No budismo estabelecemos a autenticidade de um professor ou professora conforme sua orientação esteja ou não de acordo com os ensinamentos do Buda. Nunca é demais deixar claro que é a verdade do ensinamento que é importante, e nunca a personalidade do mestre. Por isso o Buda nos recorda nas "Quatro Confianças":
Confie na mensagem do mestre, não na personalidade dele;
Confie no significado, não apenas nas palavras;
Confie no significado real, não no provisório;
Confie na sua própria mente de sabedoria, não na sua mente comum, que faz julgamentos.
Assim, é importante lembrar que o verdadeiro professor, como veremos, é o porta-voz da verdade: é a compassiva "manifestação da sabedoria" dessa verdade. Todos os budas, mestres e profetas, de fato, são as emanações dessa verdade, surgindo sob incontáveis aparências, hábeis e compassivas, para guiar-nos por meio do seu ensinamento de volta á nossa verdadeira natureza. Primeiro então, mais importante do que encontrar o professor é encontrar e seguir a verdade do ensinamento, porque é fazendo uma conexão com a verdade do ensinamento que você vai descobrir sua ligação viva com um mestre.
 
 
Questionar o conselho do mestre
Dalai Lama - Tenzin Gyatso
 
O caminho para a iluminação - Editora Gaia
O dom da prática significa sempre viver de acordo com os ensinamentos do seu mestre. Mas o que acontece quanto o mestre nos dá um conselho que não queremos seguir, ou que se opõe ao senso comum e ao Darma? O parâmetro a ser seguido deve ser sempre o da razão lógica e o do Darma. Todo conselho que se oponha às afirmações mencionadas deve ser
Dalai Lama
'O Livro da Sabedoria' do Dalai Lama
 
rejeitado. Isto foi ensinado pelo próprio Buda. Quando duvidamos da validade do que é dito, devemos abordar a questão com cautela e resolver todas as dúvidas. Este compromisso é algo muito sensível no Tantra Supremo, o campo que trata da entrega total ao mestre como pré-requisito, mas mesmo aqui esta devoção é relativa. Quando o mestre aponta para o Leste e pede para que siga para o Oeste, restam poucas alternativas para o aluno além de expressar sua objeção. Isto deve ser feito com respeito e humildade, pois enfrentar o mestre com negativas não é o caminho nobre para retribuir por sua bondade.
A percepção dos erros do mestre não deveria conduzir à perda de respeito, pois quando o mestre nos demonstra suas falhas, ele nos revela na verdade aquilo que devemos evitar. Ao menos consideramos esta abordagem útil. Aqui, o ponto importante é que o aluno possua um verdadeiro espírito de pesquisa e seja capaz de uma devoção clara, não cega.
Frequentemente se diz que a essência da prática da Guru Yoga está em cultivar a arte de considerar como perfeito tudo aquilo que o mestre faz. Eu pessoalmente não faço isto para não ir longe demais.
Nas Escrituras muitas vezes se lê: “considerar todo ato como perfeito”. Como sempre, esta frase deve ser entendida à luz das palavras do Buda Shakyamuni: “Não aceitem nada do que ensino a vocês, simplesmente pela crença ou por respeito a mim, mas comprovem por vocês mesmos, do mesmo modo como quando compram ouro.” O problema com a prática de ver como perfeito tudo o que o mestre faz, é que isto pode facilmente se tornar veneno para o discípulo e para o mestre. Sempre que ensino esta prática, aconselho a não se colocar ênfase na tradição “todo ato será considerado perfeito”. Se o mestre apresentar propriedades não-dármicas ou se proferir ensinamentos que contrariam o Darma, então a exortação para considerar como perfeito o mestre espiritual deve ser abandonada em favor da sensatez e da sabedoria do Darma.
Tome-me como exemplo. Devido ao fato dos Dalai Lamas anteriores terem sido pessoas de extraordinária sabedoria e de me ter sido dito que sou sua reencarnação, e devido também ao fato de ter participado de freqüentes debates religiosos ao longo da minha vida, muitas pessoas depositam grande confiança em mim, e me visualizam como Buda na sua prática de Guru Yoga – sou também considerado por estas pessoas um líder temporal. Portanto a instrução “todo ato deve ser considerado como perfeito” pode agir como um veneno, tanto em minha relação com eles, quanto na eficiência de minhas tarefas. Eu poderia pensar: “Todos eles me vêem como um Buda e por isso aceitarão tudo o que digo.” Confiança demais e percepção pura reprimida podem estragar as coisas facilmente. Eu recomendo sempre não se dar ênfase ao ensinamento de considerar os atos do mestre como perfeitos na vida de praticantes simples. Seria uma situação infeliz atribuir ao Buda Darma, que se baseia em profunda sensatez, apenas o segundo lugar.
Talvez você pense: “O Dalai Lama não leu os escritos do Lam Rim. Ele não sabe que não existe prática do Darma sem o mestre.” Eu não subestimo os ensinamentos do Lam Rim. No caminho espiritual o discípulo deve ser orientado pelo mestre e ele deveria meditar a respeito da bondade e das boas qualidades deste mestre, mas as instruções para considerar seus atos como perfeitos só pode ser empregado no contexto do Darma como inteiro e em relação ao acesso para a sabedoria, que é aqui defendida. Como estas instruções (ver como perfeitos os atos do mestre) foram emprestadas do Tantra Supremo e aparecem principalmente no Lam Rim, na preparação do discípulo para a prática tântrica, os iniciantes devem usá-las com cautela. Para o professor espiritual que distorcer este mandamento da Guru Yoga para se aproveitar de alunos ingênuos, seus atos irão fluir como o fogo líquido infernal diretamente para o seu estômago.
Imagem do Buda
Imagem do Buda
 
O discípulo deve tecer seu fio condutor a partir da sensatez e da sabedoria do Darma. Sem este acesso é difícil digerir as vivências do Darma. Faça uma eficiente triagem antes de aceitar alguém como mestre e mesmo então siga este mestre apenas nos limites das convenções sensatas assim como foram apresentadas pelo Buda. A instrução para considerar perfeitos os atos dos mestres, deveria ser empregada principalmente na prática do Tantra Supremo, pois aqui ela encontrará novos significados. No veículo tântrico uma das yogas fundamentais é ver o mundo como uma mandala de grande felicidade e ver a si mesmo e todos os seres como  budas.  Nestas  circunstâncias  seria absurdo
ver-se e ver os outros como budas, excetuando o mestre!
Na verdade deveríamos nos tornar mais modestos quanto mais respeito nos for outorgado, mas às vezes este princípio se inverte. Um mestre espiritual deveria se autoexaminar detalhadamente e deveria lembrar-se das palavras do Lama Drom Tonpa: “O respeito que lhe é outorgado deveria ser a base de sua humildade.” Esta é a responsabilidade do mestre. Ao discípulo cabe a responsabilidade de incorporar a sabedoria que decorre da confiança e do respeito que oferece.
O problema é que costumamos apenas reparar naqueles ensinamentos que alimentam nossas ilusões e não dar importância àqueles que contribuiriam para dissolvê-las. Por isso eu digo que a instrução para considerar como perfeito os atos do mestre pode ser como veneno. Muitos dos problemas sectários do Tibet foram gerados e alimentados por ela.
O primeiro Dalai Lama escreveu: “O mestre espiritual verdadeiro enxerga todos os seres viventes com pensamentos plenos de amor e demonstra respeito igual aos seus mestres em todas as tradições. A ele só infligem suas ilusões, o inimigo interno.” As diversas tradições representam a princípio as subdivisões dos métodos habilidosos para praticantes com aptidões diversificadas. Se tomarmos um aspecto de suas instruções, tal como o fundamento “todos os atos são considerados perfeitos” e o usamos com finalidade sectária, como foi que retribuímos os mestres do passado por suas bondades, ao nos transmitirem e oferecerem o Darma? Nós não os desonramos? Se tivermos compreendido e praticado erroneamente as suas instruções eles não estariam satisfeitos. O mesmo merece um Lama que, na prática dos rituais e das iniciações, faz uso as pessoas, e quando sua motivação visa apenas o ganho material, seria melhor para esta pessoa, que entrasse para o mundo dos negócios. Colocar a máscara do Darma para explorar outras pessoas é um grande dano.
Construímos altares elaborados e empreendemos extensas peregrinações, mas melhor do que isto é lembrarmo-nos das lições do Buda: “Nunca cometa um ato negativo; faça apenas o bem; o alvo de toda prática é o aperfeiçoamento espiritual”. Se nossas práticas multiplicam as ilusões, a negatividade e as perturbações mentais, sabemos que algo está errado.
Às vezes se diz que o motivo principal para o declínio do budismo na Índia há 800 anos, teve a ver com a prática Vajrayana por pessoas inqualificadas, e com o sectarismo, produzido pela corrupção interna à sanga. Todo aquele que ensina o budismo tibetano deveria ter isto em mente sempre que se referir ao fundamento “todo ato do mestre deve ser visto como perfeito”. Esta é uma instrução muito perigosa, especialmente para principiantes.
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